Isabel Vasconcellos
- Saúde & Livros
Memória I
Nesta página você encontra os textos eu eu,
de vez em quando, escrevo quase sem querer. São memórias. Da vida, da família,
dos acontecimentos políticos em nosso país, do trabalho na TV. Muitos textos têm também vídeos para você
assistir.Talvez um dia
essa página se torne um livro de memórias, se é que as minhas memórias mereçam
um livro... risos.
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Memoria II,
clique aqui.
Textos desta página -
17. Adeus ao Defensor das Mulheres
(com e-mails comentando e e-mails oficiais) /16. O Primo que Virou Irmão
15.Os Primeiros Médicos da TV
14. Condição de Mulher
13. Pedro Paulo, a Videoteca da APM e o
Fantasma 12. Os
Irmãos que a Vida me Deu
11. Centenário da Guarapiranga(neste
texto tem VIDEO feito por um amigo que reencontrei depois de 40 anos: João
Sabóia) / 10. A Mais Falada das Avenidas
9. Anos 1950, Esperança (com comentário
anexo de Maria José, historiadora)
8. Ibirapuera, a Ilha Verde
7. Viagem à Bahia em Tempos de Ditadura
6. Rede Mulher de TV, o Começo e o Fim
5. Os Filmes do Velho Vasco
4. Feministas e Brasileiras
3. A série de TV que nunca
foi ao ar 2. Wanda
1 .Alvan
Adeus ao Defensor da Saúde das Mulheres
por Isabel
Vasconcellos
A
gente pensa que não sabe, mas sabe.
Esta manhã acordei meio amarga, eu,
que ando tão feliz, tão realizada e tão magra.
Pensei nos antidepressivos, em TPM, na
Menopausa e em todas essas coisas que são tão coisas de mulher.
Claro. Coisas de mulher. Da saúde da
mulher.
Eu não sabia. Mas sabia.
Era a alma dele que passou por todos
nós, que o amamos.
Foi só depois da ginástica, do banho,
do café.
Abri o computador. Eram 11 da manhã.
As 10 e 45 a assessoria de imprensa da faculdade de Medicina da USP soltou o
e-mail. Era o último da minha lista. Uma lista grande. Bati os olhos e vi
primeiro a palavra “falecimento”. Pensei: lá se vai outro grande professor da
USP. Imaginando algum emérito bem velhinho, lá pelos noventa e fumaça.
Bastou um segundo para eu ver que era
ele. Um dos grandes médicos que eu mais gostava de entrevistar. Um homem que era
especial demais para todas as mulheres, inclusive para mim, que tanto brigo pela
minha condição feminina.
Só 74 anos!! Ninguém mais morre com
74, Pinotti querido. É muito cedo.
Eu sei, eu sei. O câncer, o enfarte, a
bala perdida, o acidente... Muita coisa pode acontecer.
Sabia, é claro, que ele estava doente.
Mas, dia desses, vi um programa dele,
um desses que ele apresentava numa TV a cabo. Pensei: “Ele está meio abatido mas
vai, é claro, vencer o câncer”.
Ainda nesta semana, escrevendo sobre a
liberação das drogas, me lembrei dele, num debate na Rádio Tupi, no programa do
Paulo Barboza. Todo mundo me xingando, por telefone, porque eu defendia a
liberação. Pinotti estava lá e confesso que tremi quando ele começou a falar.
Pensei: será a primeira vez que ele vai descer o cacete em mim. Mas ele me
apoiou. Aí que tremi mesmo!
Todos os momentos bacanas desfilaram
na minha cabeça enquanto o metrô me levava até a faculdade, onde o corpo dele
seria velado.
A primeira entrevista que ele me deu,
em 1985.
O e-mail gentil me cumprimentando
pelos meus quatro mil programas médicos.
Uma longa entrevista, no Pérola
Byington, quando ele ainda dirigia o hospital, duas páginas na revista UpPharma.
Todas as vezes que fiquei feliz ao
vê-lo entrar na maquiagem da TV para participar do meu programa.
O dia que ele me chamou pra frente das
câmeras quando fui até o estúdio do Ronnie Von para cumprimentá-lo e, mais do
que tudo isso, uma cena que jamais esquecerei:
Em 2007 levei minha mãe, bem velhinha,
ao hospital Pérola Byington para que meu amigo João Carlos Mantese desse uma
olhada nela. Estava esperando a nossa vez no corredor lotado de mulheres e
começamos a conversar com uma senhora e, de repente, ela disse:
- Este hospital continua muito bom
para as mulheres mas sinto muito a falta do Dr. Pinotti. Você conheceu ele? Os
médicos daqui são muito bons, não posso reclamar, mas o carinho com que o
Dr.Pinotti tratava cada uma de nós, você precisava ver, minha filha. Um médico
todo importante como ele, circulando pelos corredores, falando com a gente,
dando uma força. Você deveria ter conhecido ele.
Eu sorri.
Tinha esse privilégio, mas não ia
contar a ela, estragar a sinceridade do seu depoimento espontâneo. Minha mãe
perguntou baixinho: - Mas não é o...?
E eu mudei de assunto.
Político, deputado federal, foi reitor
da Unicamp, Titular de Gineco da USP, criou o atendimento modelo do Pérola
Byington. Era secretário da Educação do estado de São Paulo quando me deu a
primeira entrevista e falava em PAISM, Plano de Assistência Integral à Saúde da
Mulher, que, há 25 anos passados, era apenas uma bandeira de luta das feministas
e que ele, a duras penas, foi implantando nos serviços de saúde. Naquele tempo,
para a maioria dos médicos, mulher era um útero e um par de ovários. Só isso. E
sua saúde só interessava na hora de parir. Naquele tempo a maioria dos médicos
ainda se julgava Deus e me lembro muito bem da briga dele para agilizar o
atendimento no Pérola Byington, fazendo com que a triagem das pacientes fosse
feita compartimentadamente por vários paramédicos, de modo que, quando ela
entrasse no consultório, teria já em mãos uma ficha com toda a anamnese e
resultados dos primeiros exames. Caíram em cima dele. Com aquela história de
“ato médico”, aquele atendimento preliminar não poderia ser feito por comuns
mortais, diziam.
Hoje... Qual é o médico que dispensa a
colaboração de uma boa equipe multidisciplinar?
Ele, como todo grande homem e todo
grande líder, estava um grande passo à frente do seu tempo. Por isso eu o
admirava.
Fiquei triste por ele quando uma de
suas filhas morreu num estúpido acidente de trânsito.
Admirava a sua disposição de estar
sempre aberto aos jornalistas muito mais para prestar informações úteis de saúde
do que para se auto promover como político que também era. Se todas as mulheres
que ele beneficiou votavam nele, quem precisaria de promoção e comício?
Não. Eu não estava preparada para
perdê-lo tão cedo. Era fã dele, como tantas mulheres.
Esqueci tudo o que eu tinha para fazer
quando li aquele e-mail. Nem fechei o computador. Peguei a bolsa e me mandei pra
faculdade. Fui dizer adeus de perto. Encontrei o Walter Feldmann, que é outro
político médico e disse a ele: perdemos o defensor das mulheres. E ele: - Acabei
de dizer a mesma coisa, Isabel.
Cumprimentei os familiares, olhei pro
rosto dele pela última vez e voltei pra casa. Desci na estação Consolação, muito
antes do que deveria. Acho que queria andar um pouco no turbilhão da Paulista.
Alguém me chamou. Era uma produtora de rádio que, ali mesmo, na escadaria, me
convidou para ter um quadro num novo programa e falar sobre a saúde da mulher.
A vida continua, é claro. Mas, sem
ele, menos brilhante.
De: "Paulo Barboza" <paulobarboza@uol.com.br>
PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 21:26
Grande Isabel,
Que bonito!
Ele mereceu a sua homenagem!
Ele merece todas as homenagens !
beijos e saudade,
PB
From: Fabio Bertolozzi
To: isabel@isabelvasconcellos.com.br
Sent: Wednesday, July 01,
2009 9:48 PM
Subject: Re: Fw: Adeus
ao Desfensor das Mulheres
Oi Bel,
mais um brilhante texto... ainda hoje de manhã,
quando soube da notícia, via rádio, comentei com minha mãe... o Dr. Pinotti,
além de seu excelente trabalho, sempre foi uma pessoa muito solícita. Em tempos
de Redetv! muitas vezes eu ligava pra ele em cima da hora (tinha até os
telefones da casa dele) e, prontamente, nos atendia sempre expondo sua opinião e
dando orientação aos telespectadores. Com certeza uma grande perda.
Um beijo,
Fabio
De: "Vanessa Mastro" <vanessa.mastro@terra.com.br>
PARA: "'marisamanso'" <marisamanso@prestonet.com.br>
Cc: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: RES: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 21:47
Nossa, que artigo lindo. Adorei. Parabéns!
Bjs.,
Vanessa Mingati Mastro
(Assessoria de Imprensa – MTB. 45224/SP)
De: "Tânia" <tmauadie@terra.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 23:50
Olá, Bel
É isso aí, perdemos um grande homem e um grande
médico que muito fez pela saúde da mulher.
Hoje eu me sinto realizada com o CRESEX, Centro de
Referência e Especialização em Sexologia, do Hospital Pérola Byington, graças ao
Dr. Pinotti que acreditava na visão holística da mulher e, porisso, sempre me
apoiou.
Um beijo, Tânia
De: "lilian malta varella" <lilimv@terra.com.br>
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 00:39
querida isabel
que linda carta!
fiquei muito sensibilizada.
hoje, tom meu marido, leu para mim sobre a morte
dele e me deu um
vazio grande e uma surpresa:
nem eu mesma sabia o quanto ele era importante
para nós mulheres e ao
ouvir a noticia, bateu um grande vazio....e
descobri que lá no fundo
ia alguem que nos conhecia tão bem!
um beijim
lilian
De: "Márcia Litério" <marcialiterio@celiomello.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 01:11
Marisa
Agradeço sua gentileza de enviar toda semana
notícias da Isabel e à Isabel por escrever artigos tão bons e ainda com o bônus
da descontração e simpatia que até parecem uma conversa de amigos ao telefone.
No site sinto-me por alguns instantes, em São
Paulo, na Paulista, onde nasci.
Tenho 63 anos, morei no Belenzinho, Ipiranga( por
35 anos), Alto de Pinheiros, Vila Madalena e Alto da Lapa.
Meu marido e eu, estudamos no Alexandre de Gusmão
e delá trouxemos para o presente, queridíssimas, amizades! Fui professora no
GEVisconde de Itaúna.
Em 1995 mudamos para Curitiba, onde desenvolvi uma
sólida carreira profissional em artes plásticas .
Agora moramos em Campo Largo na RMC, mas o
coração.....bate forte cada vez que olho pela "Janela da Paulista".
Abração para as duas
Márcia Litério
De: <ma.majmaluf@uol.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Res: Fw: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 01:59
QUE LINDO, ISABEL!
ME EMOCIONEI!
PARABENS!
BJS
De: "Dr.Artur Dzik" <adzik@terra.com.br>
PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Fw: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 10:59
Prezada e querida Isabel, seu texto sobre o Prof
Pinotti é muito verdadeiro. Eu convivi com ele na USP, no Pérola Byington e um
pouco sua clinica privada no ultimos 20 anos e posso tb te afirmar que ele foi
das pessoas mais brilhantes e inteligentes que conheci nos meus 45 anos de
vida.Estive ontem á tarde no cemitério para minha ultima despedida e pude
constatar que só ele poderia reunir num mesmo espaço a alta elite politica ,
economica e científica deste pais com pessoas muito humildes que gostavam muito
dele.Ele realmente foi um lider em todos os postos que ocupou. Assim como vc
sentirei muito pela sua partida tão prematura.
Abs
Artur
De: "Shirlei Figueredo" <sfigueredo@band.com.br>
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: RES: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 11:08
Belíssimo artigo!!!! Fiquei emocionada......
De: "VoteBrasil - BR" <votebrasil@votebrasil.com.br>
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Parabéns!
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 11:36
Olá Isabel
Queria só que soubesse que recebemos alguns
e-mail elogiando suas colunas em especial a última publicada...muito BOA mesmo.
Parabéns!! você é ótima!!!
É muito bom ter a sua presnça aqui, só tenho a
agradecer pela sua brilhante colaboração.
Bjos
André Barretto
De: "Maria Claudimira Gonçalves de Araújo
Rodrigues" <claudimiratm@hotmail.com>
PARA: <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: RE: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 14:43
Oi Isabel,
Incrivel! quando vi a reportagem sobre a morte
dele, a primeira pessoa que pensei foi em você, apesar de não saber do vínculo.
Comentei com meu marido: "A Isabel deve estar sentida com a morte dele,
certamente é alguém que ela já entrevistou."
Muita força! Que bom que a vida lhe proporcionou
este momentos de encanto e sabedoria com ele. Muitos não tiveram esta chance...
Forte abraço.
Claudimira
(Três Marias-MG)
De: "mara diegoli" <dra.diegoli@uol.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 19:39
Isabel
Parabéns pelo belo depoimento
Realmente, ele atendeu durante toda a sua gestão
no Perola, no HC e na Unicamp um número infinito de mulheres
Continue a lutar por elas, como você sempre fez
beijos
Dra Mara Diegoli
De: "João Carlos Mantese" <mantesejc@uol.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 19:47
Isabel, que linda homenagem vc prestou ao nosso
querido professor.Muito obrigado.Mantese
De: "Rogério" <rogerio727@yahoo.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: Fw: Adeus ao Desfensor das Mulheres
Data: quinta-feira, 2 de julho de 2009 20:14
Olhe para o céu numa noite qualquer, e verás, ali,
as almas das boas pessoas que se foram; portanto ele ainda brilha e ainda
brilhará por muitas eras; as pessoas boas não morrem, transformam-se
em estrelas. E as estrelas, mais do que nos convidarem a sonhar, nos ensinam a
ter esperança na grande noite do Tempo. Porque o Tempo não é propriamente a
vida, é só um dos muitos caminhos neste intrincado e misterioso labirinto que é
existir. O melhor está sempre no porvir. (apesar de eu ser irrevente e
brincalhão, 'as vezes falo sério, como agora).
Rogério
From: adrianamazzoni
To: isabel@isabelvasconcellos.com.br
Sent: Friday, July 03,
2009 5:28 PM
Subject: Re: Fw: Adeus
ao Desfensor das Mulheres
Oi querida,
Tb fiquei triste...Dou aulas sobre qualidade de
vida para mulheres mastectomizadas há 8 anos num espaço cedido por ele que
abraçou esta causa....
Bem, querida que saudades....e que máximo que vc
está magra, linda e muito bem...estamos felizes demais por vc!!!!
Um gde bjo
From: j.a.pinotti@uol.com.br
To: Isabel Vasconcellos
Sent: Tuesday, July 07, 2009
4:35 PM
Subject: Re: Traição, Vinicius de Moraes, Adeus,
Bruxas e mui to +
ISABEL, HOJE FOI A MISSA DO PROF. PINOTTI. A DRA.
MARIANNE ABRIU A FALA DELA DE HOMENAGEM AO PAI COM O QUE VOCÊ ESCREVEU E CITOU
QUE FOI UM E-MAIL RECEBIDO DE VOCÊ, FOI MUITO LEGAL.
VOU PASSAR PARA ELA SOBRE O PROGRAMA,
PROVAVELMENTE ELA IRÁ.
BEIJOS
NEUZA
Comunicados Oficiais:
De: "Luiz Roberto Serrano"
<serrano@serranoassociados.com.br>
PARA: <Undisclosed-Recipient:;>
Assunto: FMUSP comunica falecimento Dr. Pinotti
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 10:45
Nota à Imprensa
Faculdade de Medicina da USP comunica o
falecimento do professor emérito Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti
A diretoria da Faculdade de Medicina da USP
comunica com pesar o falecimento do professor emérito Prof. Dr. José Aristodemo
Pinotti, ocorrido hoje, aos 74 anos, de câncer do pulmão. O velório terá início
às 11 horas, no Teatro da FMUSP, situado na av. Doutor Arnaldo, 455, em
Cerqueira César, na Capital paulista. O enterro está marcado para às 17 horas,
no cemitério da Consolação.
Ex-professor titular de Ginecologia da Faculdade
de Medicina da USP, José Aristodemo Pinotti era secretário especial da Mulher da
Prefeitura de São Paulo. Estava no terceiro mandato de deputado federal, ao qual
teve de se licenciar para assumir o cargo de secretário na Prefeitura. Pinotti
foi reitor da Unicamp e secretário de Estado da Educação.
A diretoria da FMUSP
Informações p/ a imprensa
Assessoria de Imprensa da FMUSP
Tel.: 3078-2356 / 9125-8925
E-mail: cacilda.luna@serranoassociados.com.br
De: "Julia Salce - ADS" <release@comuniquese1.com.br>
PARA: "ISABEL VASCONCELLOS"
<isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Nota de pesar pelo falecimento do Dr.
José Aristodemo Pinotti
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 12:05
Nota de pesar pelo falecimento do Dr. José
Aristodemo Pinotti
O Instituto Se Toque manifesta profundo pesar pelo
falecimento nesta madrugada, 01/07, do Dr. José Aristodemo Pinotti, médico,
Secretário Especial da Mulher do Município de São Paulo e Conselheiro Científico
do Instituto Se Toque, ONG que atua na educação à prevenção do câncer de mama.
O legado do Dr. José Pinotti foi de imensa
importância para a conscientização e prevenção da saúde da mulher e certamente
foi uma perda irreparável. Participou ativamente do Instituto Se Toque, desde a
sua fundação, desenvolveu inúmeras pesquisas relacionadas ao câncer de mama,
defendeu a prevenção primária como forma de evitar a doença e sempre recomendou
que a mamografia fosse feita anualmente.
A fundadora do Instituto Se Toque, Monica Serra; a
presidente, Lucia Bludeni, e todos os colaboradores se solidarizam e desejam
conforto à família e amigos do Dr. Pinotti.
Mais informações: ADS Assessoria de Comunicações
Julia Salce - (11) 5090-3028 -
julias@adsbrasil.com.br
Virgínia Figueirôa - (11) 5090-3048 -
virginiaf@adsbrasil.com.br
De: "AGENCIA SAUDE" <AGENCIA.SAUDE@saude.gov.br>
PARA: <undisclosed-recipients:>
Assunto: 01/07/2009 - AGÊNCIA SAÚDE - NOTA DE
PESAR - Falecimento do Dr.José Pinotti
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009 16:44
01/07/2009 - NOTA DE PESAR
Falecimento do Dr.José Pinotti
É com muito pesar que recebo a notícia do
falecimento do Dr. José Pinotti. E é com carinho e solidariedade que me dirijo a
sua família neste difícil momento. Para todos nós, ficam a admiração e a saudade
do homem que dedicou praticamente toda a vida à luta pela melhoria da qualidade
de vida dos cidadãos brasileiros.
Ele sempre esteve engajado nos mais modernos
projetos relacionados à saúde pública. Idealizou e implantou programas de
prevenção e atendimento à população, sobretudo aos mais carentes. Médico
ginecologista e obstetra, o professor Pinotti era referência obrigatória nas
discussões sobre os destinos da saúde em nosso país, sobretudo em relação às
mulheres, das quais defendeu o direito de decidir sobre os mais diversos temas
ligados à sua vida sexual e reprodutiva.
Homem público da maior envergadura, participou dos
projetos de construção de diversos hospitais, entre eles o Centro de Atenção
Integral à Saúde da Mulher (CAISM), situado em Campinas e que é considerado
referência no continente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O Brasil pode se orgulhar de ter tido um filho
como o Dr. Pinotti. E nós, brasileiros, de ter convivido a aprendido com um
irmão como ele. Através de seu legado, o Dr. Pinotti continuará a nos inspirar
na direção do que pautou toda sua trajetória médica e de homem público: a
dignidade do ser humano e o atendimento adequado às suas necessidades de
bem-estar.
JOSÉ GOMES TEMPORÃO
MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE
(Clique
AQUI para assistir um programa meu, Condição de Mulher
exibido pela TV Gazeta e outras emissoras do Brasil em fevereiro de 1987. O entrevistado é
o Dr. Pinotti, na época, Secretário Estadual da Educação. O tema? Planejamento
Familiar!)
O primo que virou irmão
Meu
pai nasceu em 1908. Tinha uma irmã mais velha, Maria Isabel Vasconcellos
(foto), que se casou com um próspero industrial
italiano: Augusto Bitelli.
Bebé, o apelido desta
anterior Isabel Vasconcellos, era uma mulher bonita.
A família comentava
que eu era muito parecida com ela, mas ela era mais bonita que eu. Vaidosa,
passou a vida de dieta e terminou seus dias, num lindo apartamento da Avenida
São Luiz, vítima da síndrome do pânico, pouco antes de inventarem os
antidepressivos que teriam economizado, para ela, longas horas, meses, anos de
psicanálise.
Sempre
houve, na minha família, um clima sadio de sensualidade.
Não havia, naquela
época, essa neurose de pedofilia ou assédio sexual.
Eu era criança e ria
das brincadeiras dos adultos, meus primos e tios, que viviam jogando charme e
fazendo piadinhas picantes um sobre o outro. Não havia promiscuidade, só
sensualidade.
Meu tio Augusto
viajava frequentemente a negócios para o Rio de Janeiro. Levava a esposa, minha
tia Bebé e, enquanto ele trabalhava, ela ia à praia, à piscina do hotel, às
compras... enfim, distrações de matriarca a passeio. Mas ele sempre pedia que
ela o esperasse, no fim da tarde, para um café no point carioca mais sofisticado
da época: a Confeitaria Colombo.
Bebé
se arrumava toda e ia esperar o marido conforme ele desejara: sentada sozinha
numa mesa da Colombo.
Causava alvoroço.
Mulheres não chegavam sozinhas a lugares públicos. Ainda mais mulheres lindas.
Todos os homens se ouriçavam e, de repente, Augusto entrava e ia sentar-se ao
lado dela, orgulhoso, decepcionando a todos os machos e feliz por aquela mulher
ser a sua.
O teatrinho o
excitava. Eles mesmo me contaram essa história, quando já eram bem velhinhos,
beirando os oitenta, no apartamento da avenida São Luiz.
Esses meus tios
tiveram apenas dois filhos: Augustinho
(médico) e Dudu.(foto acima)
Dudu (Angela
Vasconcellos Bitelli) nasceu em 1924. Tornou-se uma jovem ainda mais bela que
sua mãe. Fez faculdade de filosofia quando a maioria das moças não chegava aos
cursos superiores e constumava brincar: “Ai, se não fosse meu curso de
filosofia, como é que eu ia preparar o macarrão de domingo?”.
(clique na
foto da Dudu com a Bebé, à direita, para ver um filme superbacana, onde ela é a
estrela, filmado na Chácara e com participação do Leo)
Ela era linda,
loura, super bem educada, tocava harmônica, cantava maravilhosamente. Casou-se
com o Léo (Leopoldo Alfredo Zocchi,
economista), um rapagão belíssimo, de uma família
de industriais. Ela não queria ter filhos, mas, dez anos antes do surgimento da
pílula, teve um: Eduardo.
Eduardo era apenas um
ano mais novo do que eu, embora fosse filho da minha prima. Eu é que nasci
atrasada. Meu irmão mais novo era quinze anos mais velho que eu. Assim, Eduardo
e eu fomos as duas únicas crianças da família, até nascerem nossos primos mais
novos, alguns anos depois.
Crescemos
juntos. Fomos juntos para a escola. Brincávamos na Chácara quando éramos
crianças.(na foto: Edu,
seu avô meu tio Augusto, minha mãe Wanda e eu)
A chácara teve um
papel muito importante na vida do Eduardo. Pertencia aos avós deles, meus tios
Augusto e Bebé.
Lá morava a
minha avó paterna, Carmen Jansen Fomm de Vasconcellos, bisavó materna do
Eduardo. Era uma ótima casa, num bom terreno, onde havia galinheiro, horta,
árvores frutíferas, plantação de morangos e um jardim maravilhoso, com um
carramanchão no meio e um chafariz. Em alguns domingos, a família se
reunía lá para
memoráveis almoços e incontáveis cantorias. Todo mundo adorava cantar. Meu tio
Raul ( o outro irmão do meu pai) tocava violão e cavaquinho; Dudu, harmônica;
meu pai, sax ou flauta e todos cantavam.
(Aliás, o Eduardo, que também toca cavaquinho, herdou o do meu pai – que o
conserva até hoje)
Eduardo e eu passamos
dias maravilhosos na chácara.Ele tinha uma casa na árvore e lá escondíamos a
nossa caixinha de segredos. Escrevíamos nosso segredos em tirinhas de papel e
escondíamos na caixa.
Só me lembro de um: o
primeiro amor, o primeiro homem por quem me apaixonei. Eu tinha uns 7 ou 8 anos,
ele; 25. (Esse meu primeiro amor só ficou sabendo dos meus sentimentos infantis
por ele quando eu me separei do meu primeiro marido e, então, tive um caso com
ele. Eu tinha 24 anos e ele, 42).
Meu primo mais tarde
se apaixonou pela minha prima Avani. Esse era um namoro que os pais deles não
aprovavam: Avani era hippie... que horror!!! kkkk... Ela se casou, teve filhos,
tem netos...
Até hoje, Avani quando
vem a São Paulo, encontra-se com Eduardo.
No terreno onde ficava
a chácara, hoje existe um condomínio residencial com três enormes edifícios.
O que era campo, nas
décadas de 1940 e 50, virou cidade.
Para quem conhece São
Paulo, a chácara ficava onde hoje é o bairro do Alto da Boa Vista, mais
precisamente na rua 7 de setembro, quatro quadras abaixo da Avenida Santo Amaro.
Hoje é uma das ruas de acesso para o Shopping Morumbi.
Na adolescência,
Eduardo e eu continuamos super amigos. Ele aprendeu a esquiar no barco do meu
pai, no Clube Castelo, represa do Guarapiranga –
esporte que continua praticando até hoje, mais de 4
décadas depois.
Curtíamos juntos as
músicas do Beatles no apartamento onde ele morava com os pais, na alameda Fernão
Cardim, aqui pertinho da Paulista.
Ao lado, havia um
casarão onde funcionava o estúdio da Revista Manchete.
Nós estávamos lá
quando Roberto, Erasmo, Wanderléia e outros artistas da Jovem Guarda fizeram
aquela antológica foto do calhambeque. Eduardo fotografou. Foi o meu tio
Augusto, avô do Eduardo, que ensinou o meu pai a fotografar.
E eu aprendi com meu
pai. Eduardo, com o avô. Sempre fomos fotógrafos.
Sempre curtimos
música.
Quando eu fiz a minha
festa tradicional dos 15 anos, Eduardo levou sua banda – naquele tempo, conjunto
– de rock para tocar. Na bateria, Próspero, hoje da banda “Joelho de Porco”. (Veja
trecho do filme dos meus 15 anos, com Eduardo na guitarra e Próspero na bateria.
Clique aqui). Quarenta e três anos
depois, Próspero e Eduardo estavam no programa do Ronnie Von, na TV Gazeta,
ainda tocando juntos.
Muitos dos embalos,
das festas, das noitadas, da viagens, das curtições da juventude, Eduardo e eu
vivemos juntos. Éramos companheiros, como irmãos.
Juntos descobrimos
livros e discos inesquecíveis. “ O Despertar dos Mágicos”, primeira incursão no
mundo do esoterismo, por exemplo.
Beach Boys, com seu
rock ingênuo e super harmônico.
O quarto dele,
nos anos 1960, era uma loucura, meio
professor Pardal: você acariciava o corpo da Ursula
Andrews (parceira de Sean Connery no primeiro filme 007) num enorme poster na
parede e imediatamente as luzes do quarto começavam a piscar, a vitrola
(toca-discos de vinil, pra quem não sabe) a
funcionar, etc.
Num tempo em que
todos se levantavam para trocar o canal da TV, Eduardo construía
controles remoto para
que sua avó (minha tia Bebé) pudesse aumentar ou diminuir o volume do aparelho
sem sair da poltrona.
No final dos anos 1970 viramos parceiros no esqui
aquático. Agora era eu quem esquiava no barco dele. Ele concluíra seu curso de
física no Mackenzie, tinha uma bonita namorada chamada Marilene (física
como ele) e eu, já separada do primeiro marido,
colecionava namorados. Mas as tardes de sábado e domingo eram sagradas. Represa.
Esqui. Treino. Fosse o tempo que fosse, inverno ou verão, chuva, sol,
tempestade, neblina. (na foto: eu,
Eduardo, Marilena na Savage, barco do Edu)
Numa tarde gelada de
junho só Eduardo e eu nos aventurávamos na água, com nossas meio quentinhas
roupas de borracha, uma garrafa de guaraná cheia de conhac e muito chocolate.
Vimos, da represa, que estava rolando uma festa junina no imenso gramado do
clube. Fogueira, quermesse, bandeirinhas, pés de moleque, docinhos e... quentão!
Oba. Vamos lá tomar um quentão pra nos esquentar. Paramos o barco na praia e
subimos a colina suave e gramada em direção à festa. Mas a festa parou para nos
ver: roupas de borracha, os meus longos cabelos encharcados, pingando água, os
pés descalços meio arroxeados pelo frio e o pessoal todo cheio de cachecóis e
japonas (quem lembra desse termo?) e ponchos e gorros e luvas... Nós éramos uns
ETs...
Em 1983, conheci o
Caetano, que tem medo d’água.
Em 1984, Eduardo
trocou a namorada linda por uma menina grega,
sua aluna, e se casou com ela.
Não fui ao casamento.
Porque a grega convidou para padrinhos um ex-namorado meu, do clube, com sua
namorada do momento, uma moça por quem ele “me trocara”. Achei uma ofensa.
Mas eu tinha só 30 e
poucos anos e não saquei que caíra no jogo da grega. Ela realmente queria me
afastar do Eduardo. Eu era uma irmã íntima demais e poderia minar sua
exclusividade. Naquele tempo eu não percebia ainda os joguetes das
mulheres. Meus modelos de mulher , minha mãe e minhas tias, não tinham esse tipo
de comportamento .(Mas também não assistiam novelas da Globo... ).
Eduardo e eu nos
afastamos tanto que nem sequer conheço os filhos dele, só por fotografia.
Mas nunca deixamos de
nos falar por telefone em nossos aniversários ou em outras ocasiões.
Agora, vinte e cinco
anos depois de nossos casamentos nos afastarem, estamos muito mais próximos
outra vez.
Ele se separou da
grega recentemente e tem uma namorada muito simpática, a Bia, que é psicóloga e
com quem ele veio aqui em casa e foi ao lançamento do meu livro (o Fantasma).
Nós duas nos entendemos instantaneamente.

Eduardo tem dois
bonitos filhos (como ele, a mãe, o pai e a avó: todos lindos, como celebridades
do cinema) que esquiam tão bem quanto nós e frequentam até hoje a represa.
O que nos une é
absolutamente imune a qualquer circunstância.
Somos grandes
companheiros, grandes irmãos. E o que vivemos ninguém pode destruir.
16 junho
2009
Os
Primeiros Médicos da TV
Hoje em
dia estamos acostumados à presença dos médicos na TV. Mas, no começo da década
de 1980, os únicos médicos que apareciam na televisão eram uns poucos cirurgiões
plásticos.
Meu irmão Alvan era diretor de
programação da TV Gazeta quando colocou no ar um programa estrangeiro de
entrevistas médicas, num “tapa-buraco”, numa manhã de sábado. Para a surpresa
dele, o Ibope deu um salto.
Na TV Cultura havia um apresentador de
telejornal que também era médico, cirurgião plástico: Celso Barreiros. Eu,
naquela época, era publicitária e atendia algumas contas de grupos de saúde que
começavam a se formar, como a Amil, Samcil, etc.
Alvan chamou o Celso para apresentar,
a mim para produzir e, assim, nasceu o primeiro programa médico da TV
brasileira. (Não sem comprar uma certa briga com o Conselho Regional de
Medicina que afirmava que nós estávamos "promovendo" os médicos, enquanto nos
defendíamos dizendo que não havia como promover a saúde sem os médicos.)
O primeiro programa foi ao ar em 12 de
junho de 1984. Como era dia dos namorados, o tema foi a saúde do coração e os
convidados eram Adib Jatene, Fadlo Fraige Filho, Marcos Lion e Nabil Ghorayeb.
Mas de todos os cardiologistas que o
programa entrevistou, um se tornaria muito especial...
Foi na
Rua Amaury, numa boite super badalada, em 1985.
O nosso programa Junta Médica estava
comemorando seu primeiro ano de existência, dos 15 que ele teria na TV.
Jornalistas, publicitários, gente da
televisão, apresentadores, médicos e os executivos da Pfizer e da Johnson –
nossos patrocinadores de então – se reuniam numa noite inesquecível.
De repente, sentou-se ao meu lado um
médico super simpático que estivera em nosso primeiro programa. Cardiologista,
diretor social da APM e médico do Corinthians. (veja
observações do Nabil no e-mail abaixo)
Era
o Nabilzinho, ou melhor, o Dr. Nabil Ghorayeb. (na foto, com sua esposa, Mirian,
e eu, numa das minhas noites de autógrafos)
Conversamos um tempão e eu fiquei
impressionada com o carisma dele.
Não era um homem bonito. Mas era um
dos homens mais simpáticos que eu conhecera.
Criei, então, para ele, um quadro de
cardiologia no Junta Médica.
Meu irmão, Alvan, super rigoroso com a
qualidade do que ia ao ar, chiou. Mas quando viu a gravação do quadro capitulou.
E o Nabil tornou-se, além de um dos
nossos mais presentes apresentadores, também um amigo.
O tempo foi passando.
(clique na foto abaixo para assistir um programa Junta
Médica, apresentado pelo Nabil em 19 de agosto de 1995)
Hoje,
Nabil é uma fonte importante para a mídia.
Tem seu próprio programa no Canal
Universitário da TV a cabo.
É frequentemente convidado a falar nos
mais importantes programas de TV e rádio do Brasil. É procurado pelos maiores
jornais e pelas maiores revistas porque se sabe que a informação médica que ele
passa é coisa segura.
E, quando ele me diz que deve à mim
tudo o que ele é na mídia, sou obrigada a discordar.
Se ele não soubesse aproveitar a
oportunidade que teve, se não fosse um comunicador nato, nada disso teria
acontecido.
Nas muitas versões que teve o nosso
programa pioneiro da Medicina, nas muitas emissoras em que esteve, muitos
apresentadores passaram, além do Celso e do Nabil.
Entre
eles, um que se tornaria meu grande amigo: Dr. Romeu Meneghelo, hoje diretor do
setor de reabilitação do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e apresentador
do programa do Funcor, exibido pela TV Senado. (Clique na
foto ao lado para ver um programa recente comandado por ele.)
Meu irmão Alvan já morreu, os médicos
na TV são uma banalidade e ninguém mais se lembra do nosso programa pioneiro.
Mas todos nós – Celso, Nabil, Romeu e
todas as equipes de produção que trabalharam conosco – cada vez que vemos esse
montão de médicos dando entrevistas na TV, caímos na gargalhada, certos de que
demos uma grande contribuição para a divulgação da informação de saúde em nosso
país.
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: Vocês viram vocês?
Data: domingo, 26 de abril de 2009 20:53
Que saudades heim !!!!
Lindo e emocionante
PS eu era diretor administrativo da APM no
primeiro Junta Médica e cardiologista do Dante Pazzanese que atendia além do
Corinthians, o SPaulo e o Palmeiras
BEIJOS de OBRIGADO pelo que vc tem sido conosco
Nabil & Miriam
www.cardioesporte.com.br
Dr Nabil Ghorayeb
Doutor em Cardiologia FMUSP
Especialista em Cardiologia
Especialista em Medicina do Esporte

Condição de
Mulher
Quem viveu e cresceu numa democracia
dificilmente pode imaginar o que é viver e crescer num regime ditatorial como
existia no Brasil da minha juventude.
A juventude dos anos 1960 julgava-se
uma geração única e privilegiada pois, em todo o mundo ocidental (e mesmo em
alguns países do oriente), esta juventude estava unida por uma mesma bandeira: a
da liberdade.
Em tudo, pregava-se a liberdade: de
pensamento, sexual, afetiva, política, econômica... O mundo seria muito melhor,
haveria muito paz e felicidade quando tudo fosse livre.
“É proibido proibir” – cantava Caetano
Veloso que já, naquele tempo, gostava dos paradoxos.
“All You Need Is Love” – berravam os
Beatles em quase todas as rádios e vitrolas do planeta.
“Faça Amor, Não Faça a Guerra”.
Justiça social. Distribuição de renda.
Igualdade para as minorias oprimidas, negros, indios e mulheres.
O mundo estava cheio de gênios:
Sartre, Simone de Beavouir, Marshall McLuhan, Salvador Dali, Pablo Picasso, Tom
Jobim, John Lennon, Martin Luther King, Bety Friedan.
O Brasil estava cheio de gênios:
Niemayer, Vinicius de Morais, Clarice Lispector, Cacilda Becker, Chico Buarque,
Drummond, Rita Lee, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mário Schenberg, Ruth Escobar
e tantos outros.
Mas, para os senhores do mundo, o
grande perigo de tantos clamores de liberdade e tantos livres pensadores era a
ameaça vermelha, o horror do comunismo. Fidel vencera em Cuba, expulsando de lá
os turistas americanos que faziam daquele país o seu parque de diversões. A
União Soviética era a outra metade poderosa. (Só em 1989, quase três décadas
depois, é que o mundo descobriu que o socialismo gerara mais pobreza, mais
desigualdade e menos progresso tecnológico e científico do que o mundo
capitalista.)
Mas os senhores do mundo morriam de
medo da ditadura do proletariado e, para tentar evitá-la, tramaram e financiaram
as ditaduras militares da América Latina, entre elas, a do Brasil.
Os instrumentos da Ditadura eram os
mesmos instrumentos de todos os incompetentes da história da humanidade: o
terror, a censura, a tortura física e psicológica.
O grande escritor de ficção científica
Isaac Asimov tem um frase lapidar sobre o tema. Diz ele: “ A violência é o
último recurso da incompetência”.
Então, apesar dos anseios de
liberdade, a juventude da minha geração vivia sob a espada de dâmocles da
ditadura militar. Pensar tornou-se uma coisa perigosa. Qualquer um que ousasse
discordar do regime corria sério risco de vida. * (*para os comunicadores que
optaram por dizer “risco de morte”, devo discordar: é a vida que é posta em
risco e não a morte.)
Assim, sob censura e sob o terror,
vivemos mais de duas décadas no Brasil.
Em 1985 estávamos apenas emergindo das
profundidades tenebrosas da ditadura militar. A censura existia também dentro de
nós. Era dificil pensar que já fosse possível expressar-se claramente.
Mas, timidamente, os movimentos
organizados começavam a mostrar sua cara. Obrigados ao silêncio por duas
décadas, sobreviveram no limbo e na clandestinidade e no exílio.
Foi assim também com as mulheres
organizadas.
As feministas brasileiras, que
apareceram por aqui nas duas últimas décadas do século XIX, exigindo, como suas
irmãs americanas e européias, o direito ao voto (e por isso eram chamadas
sufragistas, de sufrágio que, como se sabe, quer dizer voto), no começo do
século XX falavam em controle do próprio corpo e direito à contracepção.
O voto, para as brasileiras, veio em
1934.
Depois disso, as mulheres pareciam ter
perdido o espírito de luta.
Pareciam, mas não perderam.
Com a anistia, em 1979, muitas
lideranças femininas vieram à luz. Nos partidos. Nos sindicatos. Na Saúde e no
Direito.
Destas lideranças, algumas se
projetaram e são hoje nomes pra lá de conhecidos do grande público, como a nossa
ex-prefeita Luiza Erundina, a empresária e atriz Ruth Escobar, a advogada e
política Zulaiê Cobra Ribeiro, a médica Dra. Albertina Duarte e a nossa atual
vice prefeita da cidade de São Paulo, Alda Marco Antonio.
Há muitas outras.
Algumas não tão populares, mas nem por isso menos importantes, como a
ex-senadora e professora da USP, Eva Blay. Ou como a Amelinha Telles, até hoje à
frente de sua organização, a União de Mulheres. Outras já nos deixaram, como a
jurista e apresentadora do TV Mulher da Rede Globo, Floriza Verucci ou a
ex-vereadora Irede Cardoso, que era jornalista da Folha de SP, editora do mesmo
TV Mulher da Globo e feminista de carteirinha.
Eu, no entanto, já nasci feminista.
Minha mãe – que nascera em 1912 – vivia dizendo que não tinha essa coisa de um
direito pra eles e outro pra elas, que tinha que ser tudo igual.
Deixei a
militância católica da JEC porque um padre, que era meu amigo, resolveu censurar
a minha mini-saia. Nunca me filiei a um partido político porque logo de cara
percebia que as mulheres, nos partidos e até nos grêmios escolares, só serviam
cafezinho e redigiam atas. Eu já mandava todo mundo praquele lugar e virava as
costas. Nunca tive paciência, como tantas mulheres admiráveis tiveram, para ir
me impondo devagar.
Em 1985, depois de longas e quase
instransponíveis negativas, meu irmão Alvan (que fora executivo das TVs
realmente importantes, como a Excelsior e a Globo) resolveu abrir as portas da
televisão para mim e me deu a incumbência de produzir, para a TV Gazeta de São
Paulo, o primeiro programa médico da TV Brasileira, o Junta Médica. Só que eu
queria mais.
Já provara, quando criança, o gostinho
de estar na frente das câmeras como apresentadora. Eu tinha 5 anos de idade
quando, por algumas edições, substitui a apresentadora mirim de um programa da
TV Paulista, canal 5 (depois Globo), que ficara doente. Eu queria produzir e
apresentar um programa de TV para mulheres que não tratasse as mulheres como
imbecis.
Mas meu irmão era um profissional.
Nada de me arrumar espaço só porque eu era irmã. “Vire-se! – disse ele – Se a
idéia desse seu programa é realmente viável, alguém há de querer investir nela.
Arrume um patrocinador e o espaço será seu.”
Parecia impossível, mas eu arrumei.
Uns meses antes, eu tinha conseguido
convencer a Lintas (uma agência de propaganda importante da época) a investir
nos temas de saúde da mulher do Junta Médica, para seu cliente, Johnson&Johnson.
Eles toparam investir também no meu programa para mulheres de vanguarda.
Como se chamaria o programa?
Conversando com minha amiga de
infância, a socióloga Iara Moya, ela me disse: Condição de Mulher.
Comecei a telefonar para todos os
partidos políticos, sindicatos, ongs (que naquele tempo ainda não se chamavam
assim) de mulheres e reuni, no meu apartamento, as principais lideranças de
todos os movimentos femininos e feministas que havia no Brasil daquela época.
Bom, estes movimentos, quase sempre
condenados à obscuridade, teriam afinal um espaço numa TV aberta (naquele tempo
não havia, aliás, outro tipo de TV). Era a menor TV do dial paulista, mas era
uma TV.
Todo mundo adorou a idéia. Menos a
garota que representava o PT. Ela disse que as mulheres do PT não participariam,
a menos que eu “me definisse politicamente”.
Eu, de fato, estava mais pra PT do que
pra PMDB, mas me recusei a entrar no jogo dela. Afinal, a minha condição no
programa seria a de jornalista e as convicções políticas de um jornalista não
devem ser explicitadas. O meu dever era apenas informar ao público as várias
posições e idéias que existiam entre as mulheres e não tomar partido desta ou
daquela... Mas o PT daquele tempo – pelo menos parecia, pela reação da moça –
tinha complexo de perseguição... rs...
O programa Condição de Mulher estreou
no dia 8 de dezembro de 1985.
A produção e a apresentação eram
minhas e como repórteres eu tinha a Andréa Dantas (que, anos depois, seria a
diretora da Revista Caras), a Mônica Krausz (que, depois, foi editora das mais
importantes revistas para crianças) e a Tânia Regina Pinto (que, mais tarde foi
editora do suplemento feminino do Estadão e repórter da TV Manchete, atual Rede
TV). A Tânia foi a primeira jornalista negra da TV brasileira.
Condição de Mulher estreou na TV
Gazeta mas, depressinha, já começou a ser exibido em Salvador, Bahia, pela TV
Itapoan; em Porto Alegre, pela TV Guaíba; em Brasília, pela TV Capital.
Naquele tempo, havia só dois canais da
Embratel para transmissão via satélite. Tínhamos que mandar as fitas (enormes,
num sistema chamado U Matic) por avião. Era uma loucura!
O programa discutiu todas as
reivindicações femininas para a Assembléia Constituinte. E teve a alegria de ver
que todas elas foram contempladas pela nova Constituição brasileira. É bem
verdade, no entanto, que as leis complementares (que colocariam em prática esses
novos direitos) só aconteceram anos depois e nem todas as leis são cumpridas,
até hoje. Mas, de fato, as leis brasileiras, no tocante ao direito das mulheres,
estão entre as mais avançadas do mundo. As feministas brasileiras costumam ser
cumprimentadas por isso em congressos internacionais.
O programa Condição de Mulher ficou na
TV Gazeta até 1989, quando se transferiu para a TV Record. Em 1994, estava na
Rede Mulher e foi até 1999, quando eu o substitui pelo Saúde Feminina, unindo
assim as minhas duas “especialidades” na TV: mulher e saúde.
Isabel
22 fevereiro 2009
Pedro Paulo,
a Videoteca da APM e o Fantasma
Meu
pai fazia cinema numa época em que quase ninguém sonhava com tal ousadia
tecnológica. Encontrou, não sei como (mas talvez alguém saiba...) um jovem super
interessado em cinema. Era o Pedro Paulo Hathayer, que se tornaria, além de ator
do cinema nacional *-- não só na época áurea da Vera Cruz mas até muito depois,
nos filmes de Walther Hugo Kuory-- um importante produtor de cinema comercial,
com sua bem sucedida empresa Hélicon.
Bom,
o Pedro Paulo vivia trabalhando no laboratório cinematográfico do meu pai e
almoçando lá em casa conosco. Isso deve ter durado mais de uma década.
Pedro
Paulo, aliás, tinha muito mais visão comercial do que o meu pai (que era um
sonhador romântico, encantado com o avanço da tecnologia da imagem) e o ajudava
a atualizar sua tabela de preços, naqueles tempos inflacionados.
(Clique
na foto ao lado - Pedro Paulo e Eva Vilma num filme da década de 1950 -
para ver trechos de filmes de cinema onde Pedro Paulo atua)
Em 1951,
quando eu nasci, Pedro Paulo era um jovenzinho de apenas 20 anos. Mas foi ele,
com sua voz maravilhosa, que narrou o filme, que meu pai fez, do meu nascimento.
(Clique na foto ao lado - meu pai e sua câmera-
para ver o filme.)
Aliás, até
hoje, o Pedro Paulo tem aquela voz maravilhosa.
No final
dos anos sessenta meu pai vendeu seu laboratório de cinema (embora jamais tenha
abandonado a câmera) e o contato quase diário com o Pedro Paulo se desfez.
Lembro-me
de ter ido à festa de 25 anos da Hélicon, lá pelo final dos anos setenta ou
começo dos oitenta. Sabia que o Pedro Paulo tivera 3 maravilhosas filhas (uma
delas é casada com o Ingo Hoffman) e que se separara da mulher para viver um
grande amor com uma verdadeira lady da sociedade paulistana chamada Tereza.
Em 1990 fui
encarregada pelo Dr. José Knoplich, - então diretor científico e, mais tarde, presidente da Associação Paulista de
Medicina, APM,- de criar uma videoteca científica para a associação. Fiz uma
cotação de preços de produção dos vídeos, da maneira que eu os imaginara, e ,
para a minha surpresa... venceu a Hélicon.
Fiquei, de
cara, muito brava com o Pedro Paulo, quando fui à produtora conversar e ele me
perguntou de onde sairiam os recursos para o financiamento do projeto. E eu:
- Vou
vender os vídeos para a indústria farmacêutica.
E ele,
revelando o seu lado machista e a sua falta de confiança nos empreendimentos das
mulheres:
- Ah...
Ainda está assim, é? – com a maior cara de decepção, deixando claro que não
botava fé mesmo no meu taco.
Uma semana
depois eu vendera os dois primeiros vídeos e estávamos produzindo.
Comecei a
vender uma média de 3 vídeos por semana.
Em seis
meses, a videoteca tinha 93 vídeos. Um sucesso absoluto.
Foi um
trabalho maravilhoso. Os médicos adoravam. Principalmente os médicos do
Interior, que pouco podiam frequentar os professores universitários da USP ou da
Unifesp (naquele tempo Escola Paulista de Medicina) e ainda não tinham à sua
disposição a atualização pela Internet.
Os vídeos
tinham apresentadores: os médicos Nabil Ghorayeb, Romeu Meneghelo, Norton Sayeg,
Celso Barreiros, Luciano Barsanti...
Este
trabalho da APM durou 3 anos, até que foi eleita uma nova diretoria e um sujeito
com nome de remédio resolveu me dizer que descobrira “como você e a Hélicon estão
roubando a APM”.
Incrível. O
nosso trabalho tinha gerado centenas de videos originais, milhares de cópias
espalhadas pelo país, proporcionando reciclagem a milhares de profissionais. E
tudo isso com custo ZERO para a Associação. A indústria bancava tudo. E o
mentecapto do mediquinho a me chamar de ladra! Eu, a benfeitora!!! O idiota
botou uma auditoria e o feitiço virou contra o feiticeiro: a auditoria provou
que não existia nenhuma irregularidade na videoteca.
Mas eu, é claro, não quis
mais saber de trabalhar para aquela gente que assumira a diretoria de então.
Me lembro
até hoje de nosso primeiro vídeo. Era sobre Climatério (Menopausa) e o professor
era o meu (hoje) amigo, Dr. Edmund Chada Baracat.
Hoje o Dr.
Baracat é o professor titular de ginecologia das duas mais importantes
faculdades de Medicina do país: USP e Unifesp. (Clique
aqui para ver cenas da videoteca,
com algumas feras da Medicina que estão na ativa até hoje)
Um dia fui
contratada pela secretaría municipal da saúde, na gestão da Erundina, para fazer
vídeos educativos para o povo bem pobre, o mais ameaçado pela epidemia de cólera
que se avizinhava de São Paulo. Eu queria colocar um apresentador que se
identificasse com esse público e, quando disse ao Pedro Paulo que escolhera
aquele popular radialista, ele ficou vermelho feito um pimentão:
- Um
sujeito do nível desse cara não pisa na minha produtora!! – berrou ele.
E eu berrei
de volta que ele era um alemão retrógado e ultrapassado.
Nossa.
Brigamos feio.
Hoje é,
claro, estou gargalhando enquanto escrevo isso. Eu adoro o Pedro Paulo. Ele é um
dos nossos melhores e mais queridos amigos.
E ri quando
eu digo que ele é uma herança que meu pai me deixou.
Eu diria
mesmo que a herança mais importante...
Se ele não
fosse cineasta e ator, certamente teria sido professor.
Vivo
aprendendo coisas com ele. E foi ele quem formou os excelentes profissionais que
hoje tocam a Hélicon. O atual chefão e administrador, começou como boy. O atual
diretor de fotografia, como pintor de paredes. Cresceram profissionalmente,
conquistaram um belo lugar ao sol, graças ao empenho e à generosidade desse
homem a quem, um dia, eu tive o displante de chamar de alemão retrógado...
Em 1991,
quando a Associação Paulista Viva começava os preparativos para a comemoração do
centenário da Avenida Paulista, eu, como moradora que sou da avenida, resolvi
participar. Comecei a frequentar as reuniões que aconteciam no Club Holms.
Encontrara,
nos velhos filmes 16mm do meu pai, imagens antigas da Paulista e resolvi fazer
um vídeo comemorativo. Mas não havia tempo hábil para conseguir patrocínio.
Generosamente, Pedro Paulo me deu a equipe, a edição, seus maravilhosos
profissionais para que eu realizasse o sonho de dirigir o filme que escrevera:
“Um Fantasma na Paulista” . Consegui sensibilizar até o Raul Cortez, que fez a
locução.
E assim
nasceu o meu mais importante personagem, O Fantasma da Paulista, cujo livro
acabo de lançar, no dia do aniversário da avenida, 17 anos depois do
“nascimento” do Fantasma...
(clique
na capa do livro ao lado para ver o vídeo do Fantasma)
Realmente,
na vida, um dia todos os caminhos se cruzam.
Cá estou, radiante com o meu livro mais querido
finalmente publicado, (O Fantasma da Paulista, editora República Literária)
escrevendo sobre o meu grande amigo Pedro Paulo Hatheyer e lembrando de quão
decisivo ele foi e é nessa história do Fantasma.
O Fantasma é hoje parte da minha vida. Jamais me
abandonará.
Mas, voltando ao Pedro Paulo, um dia ele perdeu a
sua Tereza. Ficou inconsolável e eu, com ele. A vida continua porém e, em 2001,
ele conheceu a Marilda, sua atual companheira e minha amiga querida.
Quando ele foi à China, no ano passado, à convite
da Associação Internacional de Produtores, da qual foi presidente, fizemos um
bota fora pra ele aqui em casa.
Quase todos os anos ele viaja pro Exterior pra reunião
da associação, que, cada ano, é num país diferente. Um dia levou o vídeo do
Fantasma e o exibiu pros seus colegas. Foi um sucesso. E eu fiquei super
orgulhosa.
Orgulhosa fiquei também quando ele lançou um
livro de poesia (ele é, além de tudo, roteirista e escritor) e lá havia um poema
dedicado a mim, um poema que ele escrevera no meu aniversário de 50 anos, em
2001.
Na minha vida os laços mais importantes não são
os de sangue. Não tenho filhos. Não tenho mais pai, nem mãe, nem irmãos e os
poucos parentes a quem quero bem se foram de São Paulo, moram hoje em outras
cidades.
O que eu tenho de mais importante na vida, além
do meu marido amado, são os amigos. E, é claro, meu querido primo Eduardo Zocchi,
somos amigos desde crianças. Sobre ele, escreverei qualquer dia destes.
Agora vou passar esse texto pro Pedro Paulo pra
ver se ele me autoriza a publicar.
Isabel, 15 de
dezembro de 2008
*Confira
a filmografia do Pedro Paulo:
Os
Irmãos que a Vida me deu – Tom e Leda
1.
Meu irmão Tom
Eu
tinha 12 anos e acabara de conquistar uma grande vitória: passara no exame de
admissão para o mais cobiçado colégio da zona sul de São Paulo: O Instituto
Estadual de Educação Prof. Alberto Conte (foto).
Naquele tempo, 1963,
os colégios estaduais eram o máximo. Antes, eu pensara, ao terminar o curso
primário (básico) num colégio particular, em ir para uma escola badalada, bem
chique, talvez dirigida por freiras. Mas o meu irmão Alvan me explicara que,
para ter chance de entrar, mais tarde, na USP, o melhor caminho era o Alberto
Conte.
Assim, eu me
preparei para o tal do exame de admissão, que era tão concorrido como um
vestibular. E entrei. Em 13º lugar, o que era excelente.
Nunca poderia
imaginar que, pouco mais de um ano depois, haveria um golpe militar no país, que
acabaria por afastar os melhores mestres daquele colégio e perseguir os líderes
estudantis “secundaristas”, (como eram chamados então os estudantes dos cursos
anteriores à universidade, que eram ginásio e colégio.)
Mas, quando se tem
12 anos, um ano e meio é um tempo imenso.
E, antes que a
ditadura pusesse as garras sobre o excelente nível do corpo docente do Alberto
Conte, pude desfrutar da genialidade de inesquecíveis professores.
Entre
eles, havia um professor de religião. Era um jovem seminarista que andava de
batina preta e, contrariando tudo o que se poderia esperar de um mestre
religioso na década de 1960, discutia temas avançados sob uma ótica moderna e
intrigante.
Religião passou a
ser uma das minhas aulas favoritas.
Um
dia, o professor recomendou a leitura de dois livros de um autor católico da
moda, Michel Quoist: O Diário de Dany e o Diário de Ana Maria.
Devorei os dois. E
ali fiquei sabendo que existia uma organização católica internacional de jovens,
dividida em três: Juventude Operária Católica, Juventude Estudantil Católica e
Juventude Universitária Católica, respectivamente JOC, JEC e JUC.
Para entrar na
organização era preciso ser “nucleado”. Ou seja: você precisava parecer
interessante aos membros do clube e então, eles que se mantinham secretos, iam
analisando você, através de longos papos “casuais” e, em reunião, decidiam se
você deveria ou não ser convidado a entrar no negócio.
Bom, para mim, uma
sociedade secreta dentro da escola era tudo o que se podia desejar. Dava status,
poder e tinha uma aura romântica digna dos melhores livros que eu lera na vida.
Imagina se eu ia ficar de fora. Comecei a falar aos quatro ventos que eu queria
entrar. Finalmente, um dia, uma garota mais velha, Maria Alice, do último ano do
curso colegial, veio conversar comigo. Entrei. E, nas reuniões, fui ficando cada
vez mais amiga não só da turma como dos seminaristas que nos orientavam. Eram
eles: José Paulo, Tião e Antonio, o meu professor de religião.
Não sei
como o Antonio, pelo menos para mim, virou Tom. Ele também era um garoto, na
época. Mas eu não sabia. Eu achava que ele era um velho sábio. Eu tinha 12 anos.
Ele, 21. Éramos bem jovens. Ficamos amigos, amicíssimos. E assim foi por alguns
anos. Toda a minha adolescência. O Tom vivia lá em casa, que era, aliás um dos
QGs da nossa turma, ponto de encontro diário e berço de festas memoráveis,
concorridíssimas, com um som de primeira, muita cuba libre e os quitutes que
saíam do talento das empregadas da minha mãe, Wanda.
Na nossa casa, em
Santo Amaro, havia também o laboratório de cinema do meu pai. Uma sala de som
com janela de vidro (aquário) para a sala de projeção (um mini-cinema, com
cadeiras, tela, sistema de som, etc.). Na sala de projeção rolavam os bailes e,
na sala de som, instalei o que a gente chamava de “salinha”. Nenhum móvel. Um
imenso gravador de rolo, Akai, caixas de som, tapetes, almofadas e paredes e
teto cobertos de colagens feitas de fotos de revistas. (clique
aqui para ver um
vídeo da época, onde a salinha aparece).
Ali, rolavam os
grandes papos da nossa adolescência. As neuroses, os sonhos, os ideais
políticos. Fazíamos parte da turma da Bossa Nova e da MPB, a turma do “Fino da
Bossa”, totalmente contrária à turma da “Jovem Guarda”, uns alienados que
curtiam Roberto Carlos. (Elis Regina foi a primeira a criar uma ponte entre
estas facções que se identificavam pelas preferências musicais. Ela gravou uma
composição de Roberto. Anos depois, Roberto e Caetano Veloso cantariam juntos.
Foi para o Caetano, exilado em Londres no final da década, que Roberto compôs
“Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” – já não havia diferenças.)
Tom foi meu melhor
amigo e confidente por toda uma década. Ele não se ordenou padre. Largou o
seminário.
Fez economia na USP, quando esta escola funcionava na lendária Rua
Maria Antônia, onde verdadeiras guerras aconteciam entre os estudantes da USP
(de esquerda) e do Mackenzie (de direita)
- foto: capa da Veja de 9 de outubro de 1968-
e onde Chico Buarque começou a cantar
num boteco chamado João Sebastião Bar. (Nos anos 60 até os botecos eram
inteligentes...)*
veja observação no e-mail do Tom, no final do texto.
O Tom, como não
poderia deixar de ser, era um militante da AP, Ação Popular, que tinha suas
origens na JUC (Juventude Universitária Católica) mas era mais radical.
Naquela época, ser
sequer simpatizante de qualquer organização que se dissesse de esquerda e/ou que
se posicionasse contra o regime militar estabelecido, era um perigo real. Você
poderia ser preso, torturado até a loucura e, muitas vezes, assassinado e
enterrado como indigente.
Tom e eu fomos muito
amigos e convivemos até 1973. Neste ano eu me casei e mudei para Santos. Meu
casamento durou pouco e, em 1974, já separada, fui morar e trabalhar em
Salvador, na Bahia. Tom tinha conhecido uma mulher que viria a ser o grande amor
da sua vida: Angélica. Lembro-me bem que, na última vez em que estivemos juntos,
no final de 1973, num bar de MPB que ficava na Rua Cardeal Arco Verde, o
“Menestrel”, Tom me apresentou a ela.
* veja observação
no e-mail do Tom, no final do texto.
Depois disso, nunca
mais o vi.
Morei em Santos,
depois em Salvador e, em 1975, voltei para São Paulo. Em 1979, voltei para a
represa do Guarapiranga (veja texto abaixo).
Em 1983, conheci o Mauro
Caetano, com quem vivo até hoje. Em 1985, mudei para a Paulista. Os telefones
mudaram. O acesso para a casa onde eu morara com meus pais, ficou completamente
diferente: um viaduto foi construído, mudando tudo.
Então, com o passar
do tempo, quando eu pensava no Tom, eu pensava em alguém que estava morto. Tom
teria sido morto pela ditadura, como tantos o foram. E foi assim durante 30
anos.
Quando escrevi meu primeiro livro publicado (publicado, sim, porque o
primeiro livro escrevi aos nove anos...), nele havia um conto dedicado ao Tom, o
amigo perdido.
Vinte e nove anos
depois de nosso último encontro, em 2002, abro minha caixa de mensagens e...meu
Deus!!! ... lá estava ele.
Eis a mensagem:
From:
Antonio Carvalho do Nascimento
To:
Isabel Vasconcellos
Sent: Friday, December 20, 2002 1:08 AM
Subject: Se você for quem eu acredito que seja, eu sou o Tom. Enfim te
achei!
Bel
Queria muito retomar contato com você.
Você não é uma pessoa que se possa esquecer.
São mais de 30 anos. Acho que vale a pena esperar.
O google encontrou seu site, e eu encontrei você.
Espero que você seja quem eu acho que é. Os dados de sua página batem com a Bel
de longos papos.
Entre eles, Vinicius de Moraes:
Amiga minha , hoje no céu a Lua
Tem uma face que me lembra a tua (com as duas covinhas)
A Lua é sempre assim, ou é teu rosto
Que dorme no céu posto, amiga minha?
Ah, desce do teu nicho, rosto puro
E vem iluminar meu leito escuro.
Astro solitário, ó Sol
Ilumina meu poema da tua claridade matinal
Transfunde-lhe nas veias o éter com o azul
E torna-o simples.
Tom
Antonio Carvalho do Nascimento
Meu Deus!!! O amigo
que eu pensava morto pela ditadura estava me mandando um e-mail, com direito à
poesia de Vinicius !!!
Desandei a chorar,
com soluços e tudo. E meu Caetano querido passou pelo meu escritório, viu aquilo
e perguntou por que eu estava chorando assim. E eu disse:
- Porque meu amigo
está vivo!
Fiquei sabendo,
depois, que ele me procurara. Tinha se casado com a Angélica e ido morar em
Marília, onde lecionava economia na USP de lá.
Eles tiveram uma
filha, Carla. (foto: Tom e Carla na minha noite de autógrafos de 2005). E Angélica era, como eu, uma jardineira.
Quando o Tom vinha a São
Paulo, tentava localizar a casa onde eu morara com meus pais. Mas a topografia
havia mudado muito. Os telefones também. E assim se passaram três décadas. Ele
me procurando, eu crendo que ele era um dos mortos da ditadura.
Quando nos
reencontramos, foi como se tivéssemos nos visto ontem.
Imediatamente
retomamos a nossa amizade, com o mesmo nível de intimidade, com a mesma alegria.
E assim é até hoje. Existe apenas uma diferença: agora ganhei também uma amiga,
Angélica, que, diferentemente da maioria das mulheres (as inseguras da vida), não
tem ciúmes da amiga do marido.
No dia 6 de setembro
passado, o Caetano e eu, depois de viver 25 anos juntos, nos casamos. Para seus
padrinhos, Caetano escolheu seu amigo de infância, Bolívar, e sua mulher,
Heloísa. Adivinhe quem foram meus padrinhos? Tom e Angélica, é claro.
Tom e Angélica foram
dois dos cento e oitenta e três fundadores do PT. Lula costumava dizer que,
quando fosse presidente, levaria Angélica para chefiar a cozinha do planalto
porque ele adorava os jantares que ela servia a ele.
Mas Tom e Angélica romperam
com o PT lá pela metade dos anos 1990 porque perceberam que havia algo podre no
reino da Dinamarca.
Se eles fossem menos
sinceros e mais hipócritas, talvez hoje fossem ministros de estado... RS...
Tom e Angélica estão
na lista dos nossos melhores amigos.
É muito legal e é um
privilégio ter amigos como eles.
Tom me disse que nos
conhecemos de outras vidas. Eu também tinha dito isso à minha nova amiga, Norma
Portal. Deve ser verdade.
De:
"Antonio CArvalho do NAscimento"
PARA: "'Isabel Vasconcellos (PN)'" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: RES: Olha e me responde, Tom.
Data: sábado, 27 de setembro de 2008 15:02
Bel pode publicar tranquilamente,
Apenas fiz duas correções
O
Chico cantava na Quitandinha,
era um boteco que anteriormente fora uma
quitandinha e depois o dono transformou em boteco. Alá nos juntávamos às 6as
feiras a turma da Economia e da FAU. O Chico estudava na FAU nessa época
(66-67). No Joan Sebastian Bach que tocava e cantava era o Jonny Alf durante
os anos 70 e lá pelo início dos anos 80.
Que eu me lembre a
última vez que nos vimos foi no
ano de 1971 em meu
apartamento em Pinheiros,
quando você conheceu a Maria Angélica. Se nós nos
vimos ainda em 1973 no Menestrel estou sendo traído pela memória, isso já
não me lembro, chii a idade está chegando, a memória está pifando, vou comer
umas cabeças de palito de fósforo!
Um beijo
Tom
2.
Minha Irmã Leda
Em dezembro de 2001,
numa tarde de sol, Caetano e eu estávamos jogando uma partida de buraco numa
sala envidraçada do Hotel Orotur, em Campos do Jordão. (foto).
Tínhamos passado o Natal
lá e ficaríamos até o dia primeiro do ano. Naquele dia, estavam chegando vários
hóspedes do pacote de réveillon. Nosso amigo, o maestro Júlio César Figueiredo,
havia acabado de passar pelo corredor e prestei atenção quando ele cumprimentou
uma hóspede que chegava. Era uma senhora gordinha e simpática e, pelo jeito,
freqüentadora habitual do hotel, embora eu (que também era habitual no Orotur)
jamais a tivesse visto lá.
À noite, depois do
jantar, como sempre fomos para a boate do hotel para ouvir o piano e o bom
gosto das canções do Julio. Então, de repente a tal senhorinha se sentou ao meu
lado:
- Você não é a
Isabel, da TV Mulher? (todo mundo chamava a Rede Mulher ou de TV Mulher ou de
Rede TV... RS...)
E diante da minha
afirmativa:
- Eu tinha certeza
que ia te conhecer pessoalmente!!!
Era a Leda Cunha,
telespectadora de quem eu me lembrava de ter recebido várias perguntas
inteligentes no meu programa de TV. Ela estava com o marido, Milton.
E, logo, nós
quatro,ela, o marido, eu e o Caetano e eu já estávamos no maior papo animado. Assim
foi por cinco dias.
Só que, desta vez,
não era uma simples amizade
de hotel. De volta a São Paulo, tudo continuou. A Leda e o Milton nos recebiam
em sua casa no Brooklin, vinham jantar aqui. Conhecemos as filhas deles e,
quando eu percebi, ela se tornara de fato uma das minhas melhores amigas, ela se
tornara mais que uma amiga, era uma irmã!
De repente, seis anos depois de
ter conhecido a Leda, eu resolvo dar uma revisada nas reportagens externas que
tinham sido feitas para o meu programa Saúde Feminina, da Rede Mulher. E qual
não foi a minha surpresa quando, numa das matérias externas, vejo a Leda e a
filha dela, Cristiana.(na foto, Leda aqui em casa com sua outra filha, Luciana,
que mora na Itália)
Minha primeira reação foi apenas
pensar: eis a Leda. Mas, imediatamente, eu percebi que aquela matéria havia sido
feita e editada quase dois anos ANTES da gente se conhecer. Não! Era
coincidência demais! Liguei pra ela.
Ela mal se lembrava de ter dados alguma
entrevista de rua, ainda mais para o meu programa. Mas a verdade é que ela nem
assistia o meu programa quando meu repórter, Diogo, a escolheu na feira da praça
Benedito Calisto para fazer-lhe uma pergunta. Então, ela se lembrava apenas de
um dia, na praça, ter dado uma entrevista de rua para algum programa de TV.
Meses depois, ela começou a acompanhar o meu trabalho na TV e, muito depois, é
que nos conhecemos em Campos do Jordão.
Esta é uma história muito incrível. Para
ver as entrevistas da Leda para o Saúde Feminina, clique
aqui.
Assim, eu que só tive dois irmãos
de sangue, bem mais velhos do que eu e que, inclusive, já morreram, tenho a
felicidade de ter estes dois irmãos espirituais.
Centenário da Represa do Guarapiranga
(Cerveja e Avenida Paulista)
A
Iolanda, manicure das estrelas, morava pra lá de Santo Amaro, nos lados da
represa do Guarapiranga. Ela levava, de ônibus, mais de duas horas para ir daqui
de casa, na Avenida Paulista, até a sua casa. E olhe que o ônibus, pela Av.
Santo Amaro, anda mais depressa que os carros porque vai pelo corredor
exclusivo.
O trânsito é uma absoluta insensatez. Eu só voto em
candidato que se comprometer a fazer novas linhas de metrô e a melhorar o
transporte público. Hoje pouco uso meu carro. Passei a odiar automóveis. Procuro
andar o máximo a pé ou de metrô. Carro é cafona. É ultrapassado. Egoísta.
Poluidor.
Mas nem sempre foi assim.
Na verdade, o carro era o centro da vida de muita
gente, há décadas passadas.
Particularmente, eu adorava meus carros. Ganhei um
gordini quando fiz 18 anos (chii... faz tempo!!! rs...) e tive uma coleção de
fuskas, de várias cores, modelos...
No comecinho dos anos 1980 eu trabalhava numa
agência de publicidade que ficava ali em frente à cinemateca, no largo Raul
Cardoso, quase no Ibirapuera. E freqüentava um clube na represa do Guarapiranga,
o Clube de Campo do Castelo, onde eu passara, inclusive, parte da minha
infância. Bom, era um clube de campo, porque, quando ele foi criado, a região em
torno da represa era “campo” e não cidade, como é hoje.
Então,
na minha hora de almoço, eu pegava o meu fuska e ia até o clube. O marinheiro já
sabia que, quando estava sol, nós iríamos esquiar naquela hora. Botava os barcos
na água. Meu primo Eduardo Zocchi, eu e outros amigos, aparecíamos. Esquiávamos.
Tomávamos banho. E voltávamos para as nossas atividades profissionais. Tudo isso
no curto espaço das nossas duas horas de almoço.
Bom, pra fazer isso hoje, nós levaríamos duas horas
para ir, duas para voltar e, é claro, seria impossível. Mas, naquele tempo, não
havia trânsito e a gente ia em 15 minutos. Afinal, são apenas 10 km do
Ibirapuera à represa. E é francamente ridículo levar duas horas para percorrer
10 km.
Quando eu ando a pé, em 1h20’ faço 5 km...
Meu
pai, no entanto, levava duas horas para ir do centro da cidade, onde morava, à
represa do Guarapiranga, na década de 1930. Mas isto porque as ruas não eram
asfaltadas, não havia avenidas, e os velhos automóveis andavam devagar, quanto
mais na lama...
Em 1937, meu pai esteve no Castelo, que ainda não
era um clube mas sim a residência de um alemão, diretor da cervejaria Brahma.
Ele havia construído uma réplica de um castelo europeu, no alto de uma colina
que desabava às margens da represa. Meu pai e alguns amigos acamparam lá e
filmaram. (veja o filme, estilo bem antigão, clicando
aqui).
Vinte e dois anos depois, um grupo de diretores do
Clube Piratininga (que na década de 1950 era o máximo!) resolveram fundar o
Clube de Campo do Castelo. Meu pai adorou! Ele tinha gostado muito do lugar
quando estivera lá no passado. Comprou logo um título e foi diretor de
patrimônio do clube durante muitos anos. Eu me lembro dele inspecionado cada
detalhe. Nem os trincos das portas escapavam de seu olho clínico.
Eu tinha apenas oito anos de idade quando comecei a
freqüentar o Castelo.
Quando eu tinha dez, um dia vejo uma enorme caixa
no escritório do meu pai. Tinha um desenho esquisito, de alguma máquina que eu
nem podia imaginar o que fosse. Era um motor de popa que seria instalado num
barco de madeira que o Flório construíra para nós. O Flório era o dono de um
estaleiro que ficava ali ao lado da barragem da Guarapiranga. Meu pai construíra
o barco em segredo. Era uma surpresa para nós. (Clique
aqui para ver o filme da
construção do nosso barco.)
Então todos nós, a família inteira, aprendemos a
esquiar. (clique
aqui para ver como esquiávamos)
A Represa do Guarapiranga começou a ser construída
em 1906 e foi inaugurada há exatos cem anos, em 1908. Ela foi concebida para
atender as necessidades de produção de energia elétrica na Usina de Parnaíba e
foi construída pela companhia inglesa Light que, por décadas, foi a empresa
responsável pelo fornecimento de eletricidade em São Paulo, até ser substituída
pela Eletropaulo.
Vinte anos depois de inaugurada, em 1928 a represa
passou a servir como reservatório de água potável.
Chama-se “do Guarapiranga” e não simplesmente
Guarapiranga, porque este é o nome do rio principal que a abastece. É um
termo indígena e significa Arara Vermelha.
A criação da represa, há um século, trouxe uma nova
vitalidade para o povoado de Santo Amaro, criado em meados do século XVI no
bairro da capela do Socorro por indígenas descendentes do cacique Caiubí.
A
partir de 1827, Santo Amaro recebeu colonos imigrantes da Alemanha. Por isso, há meio século, era comum encontrar em
Santo Amaro tipos caboclos com olhos azuis.
Nos anos 1920 a represa do Guarapiranga se tornou
um recanto turístico. Belas casas foram construídas às suas margens,
principalmente na baía da Riviera, que levou este nome em alusão à famosa
Riviera francesa. Famílias de industriais paulistanos, então chamados de
novos-ricos, ali passavam os seus fins de semana. Foram surgindo também clubes.
Dos mais tradicionais, nasceram os grandes campeões brasileiros de Vela. E
bairros foram sendo criados ao redor da represa: Veleiros, Rio Bonito,
Interlagos, todos com nomes alusivos às coisas náuticas.
Uma legião de primos e eu nos divertimos muitíssimo
na represa nos anos 1960. Mas, em 1971, meu pai ficou muito bravo com seus
companheiros de diretoria do Castelo porque eles cismaram de construir uma casa
de barcos exatamente no ponto onde a represa, em tempos de seca, ficava sem
água.
Clique
aqui para ver um vídeo, feito pelo João Sabóia (João Carioca), das
esquiadas da nossa turma há 40 anos...)
O Velho Vasco ficou uma fera. Vendeu o barco e o
título do clube.(clique aqui
para ver o filme do Castelo como ele era em 1967, 30 anos depois da primeira
visita do meu pai)
Mas oito anos depois comprou outro título para
mim. Vinha eu de uma vida de boemia, de bar em bar na noite paulistana e estava
querendo mudar tudo: fazer esporte, viver de dia e não mais à noite. Voltei a
freqüentar o clube no final dos anos 70 e fiquei lá mais um cinco anos, até
começar a trabalhar na TV, casar com um sujeito maravilhoso mas que tem medo de
água... enfim...
Hoje Santo Amaro e adjacências têm a maior
população nordestina de São Paulo, mas, na parte central do bairro e também em
Interlagos, ainda residem muitas famílias descendentes dos primeiros imigrantes
alemães.
A partir dos anos 1980 as margens da represa foram
sendo densamente povoadas, em alguns casos em áreas preservadas, portanto com
loteamentos ilegais. Os esgotos correm para a represa.
A poluição faz surgir algas sobre as águas da
Guarapiranga.
E isso acontece há mais de 20 anos porque eu mesma
me lembro de, numa manhã de sol, chegar ao clube e encontrar a água da represa
completamente parada, coberta por uma camada de gelatina verde. Água parada é o
sonho dourado dos esquiadores que, ao contrário dos velejadores, praguejam
contra o vento que ondula a superfície. É uma delícia deslizar em águas paradas.
Naquele dia, o leque d água levantado por nossos esquis era também verde.
Fato é que a represa do Guarapiranga faz parte da
minha vida e é um pedaço importante dela.
Hoje eu não voltaria para lá. Ficou muito longe e
muito feio, comparado ao que era antes. Meu primo Eduardo (um dos que aprendeu a
esquiar com meu pai) ainda freqüenta a represa e ensinou seus filhos a esquiar,
todos curtem. Eles me chamam para ir com eles mas eu não sinto nenhuma atração
pela volta ao meu passado. Gosto da memória, mas não sou saudosista.
Agora, nessa história toda tem um detalhe
engraçado. São as coincidências da vida.
Nos anos 1920 a família Von Bullow, fundadora da
cervejaria Antártica construiu sua casa de campo na margem esquerda da represa.
Do outro lado, Robert Kutschat, diretor da Brahma, construiu o Castelo, que
virou o clube em 01 de agosto de 1959. Robert morrera em 1948, sem nunca deixar
de morar no Castelo e a propriedade então mudou de dono, comprada por Luis
Romero Sanson, o criador do bairro de Interlagos. Ele alugou o Castelo para uma
missionária escocesa que instalou ali um colégio interno feminino, o Saint
Georg. Durou uns poucos anos porque Sanson, endividado, entregou a propriedade
ao banco AE Carvalho que acabou, com o pessoal do clube Piratininga, criando ali
o clube.
No começo dos anos 1950 a Cia. Cinematográfica
Vera Cruz fez um filme de mistério no Castelo. Era estrelado por Eliane Lage,
Procópio Ferreira e Mário Sérgio.
Alguns anos depois, quando o Castelo já era clube,
meu pai, meu irmão Alvan, meu primo Sergio Marques e o então desconhecido Jô
Soares, cogitaram de criar lá uma série de TV: o Castelo seria (como já tinha
sido de fato) um colégio de moças e ambientaria a série. Para estrela,
escolheram a Regina Duarte, uma mocinha iniciante na carreira de atriz. Muito
engraçado. Pena que nunca se concretizou. (veja, abaixo, nesta página a história
da série de TV que nunca foi ao ar e entenda porque essa outra série também não
se viabilizou).
Pois bem, a Antártica e a Brahma foram, por
décadas, as duas maiores cervejarias brasileiras. Uniram-se nos anos 1990 para
formar a AmBev.
Mas lutaram sempre entre si pelo domínio do
mercado.
Quando eu deixei o clube Castelo e me afastei das
lembranças de Kutschat e da Brahma, que ali viviam, foi exatamente no ano – 1985
– em que viemos morar no edifício Paulicéia, na Avenida Paulista, onde estamos
até hoje.
Só alguns anos depois, em 1991, quando pesquisei a história da avenida
para fazer o filme comemorativo dos 100 anos de fundação dela, é que descobri
que o prédio onde moro fora erguido no terreno onde originalmente estava a casa
da família Von Bullow, dona da Antártica.
Passei quase toda a minha vida, portanto, em
lugares onde habita a memória das duas ilustres famílias cervejeiras do Brasil.
E casei com um sujeito que foi, por anos, diretor da associação de revendedores
Brahma, depois, Ambev. (Não é a toa que, quando se trata de cerveja, sou muito
boa de copo...).
Isabel
Sexta
feira, 12 de setembro de 2008
A Mais
Falada das Avenidas

Clique na foto ao lado para assistir o vídeo que fiz recentemente sobre a Avenida
Paulista. Apenas imagem e música.
(Clique
na foto abaixo para ver o vídeo "O Fantasma da Paulista" )
Quase
ninguém para pra pensar nisso, mas a Avenida Paulista não surgiu como simples
consequência da expansão da cidade. Ela foi um empreendimento muito bem
planejado, calculado e executado.
Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, foi
concebida pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima para ser um boulevard, como os
de Paris, que abrigasse a fina flor da elite paulistana.
Já
nasceu sob o signo do dinheiro e, embora tenha mudado completamente sua face
nesses 116 anos de existência, continua sendo o maior PIB por metro quadrado do
país, já que as milionárias residências foram substituídas por milionários
prédios de grandes bancos e corporações.
O
engraçado é que Joaquim Eugênio de Lima queria unir a Consolação ao Paraíso e
tinha um pequeno problema no meio do caminho: o vale onde hoje está a Av. 9 de
julho. Hoje talvez, para conseguir uma reta entre os dois bairros, ele
construísse um viaduto. Mas, na última década do século XIX, a melhor solução
era aterrar. Assim, ele “tapou” a depressão que havia no meio do caminho e
acabou obrigando o prefeito Prestes Maia, quase meio século depois, a abrir um
túnel debaixo do aterro para construir a Avenida 9 de Julho.
O Masp
e o Parque do Trianon repousam sobre o aterro do Joaquim.
O
criador da Avenida Paulista, além de grande empreendedor, era também barão.
Nascera no Uruguai mas se naturalizara brasileiro e escolheu investir em São
Paulo parte da sua fortuna, porque acreditava que essa seria a cidade do futuro
e por isso criou outros empreendimentos além da Paulista.
Antes
de Joaquim Eugênio de Lima, a região era chamada de alto do Caaguaçu e abrigava
algumas chácaras. O nosso empreendedor comprou todas, aterrou o vale e construiu
a avenida, tendo o cuidado de reservar uma área para criar um parque onde se
preservaria toda a vegetação nativa. E assim nasceu o hoje Parque Siqueira
Campos, que todo mundo chama de Trianon. O projeto paisagístico foi de Paul
Villon.
Imagine, Eugênio de Lima era tão moderno que já pensava em preservação da
natureza em 1890!
A
Avenida Paulista foi oficialmente inaugurada no dia 8 de dezembro de 1891.
Uma lei
municipal proibiu o trânsito das boiadas, que iam para o matadouro da Vila
Clementino (onde hoje funciona a Cinemateca, ali no largo Raul Cardoso) e
regulamentou os loteamentos.
Logo os
ricos paulistanos começaram a construir enormes mansões de gosto duvidoso (que a
arquitetura chamou de “ecléticas”, numa tentativa de disfarçar a salada de
estilos) e a larga avenida, calçada de pedras brancas, foi se enfeitando.
A
primeira casa construída na avenida pertencia a Von Bullow, dono da cervejaria
Antartica. Projetada pelo arquiteto Augusto Fried, ficava no terreno onde hoje
está o edifício Paulicéia, um dos poucos prédios residenciais que restam na
Paulista e que é, curiosamente, o edificio mais filmado do país, uma vez que
todas as televisões, há décadas, vêm fazer enquetes de rua bem em frente ao
Paulicéia. Meu marido e eu moramos neste edifício desde 1985 e gostamos muito.
Ao lado dele está o prédio da Fundação Casper Líbero, que abriga as rádio e TV
Gazeta, o cursinho Objetivo e ostenta em seu topo a famosa antena da Rede Globo
de TV.
Em
1896 foi construída a residência do Conde Alexandre Siciliano, projetada pelo
arquiteto Ramos de Azevedo, que mais tarde seria responsável pela construção da
Casa das Rosas, uma das poucas que está de pé até hoje e virou centro cultural.
É deste ano também a casa do Conde Francisco Matarazzo, projetada pelos
italianos Giulio Saltini e Luigi Mancini. Quase cem anos depois da construção,
Luiza Erundina, então prefeita de São Paulo, queria fazer com que a casa dos
Matarazzo fosse tombada para virar o Museu do Trabalhador.
Como
monumento arquitetônico a casa realmente não tinha lá grande valor e isto me
soava mais ou menos como uma vingança socialista. A casa do grande patrão do
começo do seculo XX seria tomada pelos trabalhadores. Por algum tempo, a polícia
foi colocada para dentro dos muros da mansão e eu, que tinha escritório no
prédio em frente, das janelas podia ver os policiais se divertindo, brincando de
dar cavalos-de-pau com as velhas viaturas no enorme gramado em frente à casa.
Não me lembro muito bem o que aconteceu, mas, alguns meses depois, fomos
acordados pelo estrondo de uma explosão: uma bomba fora colocada na casa e
destruíra completamente a mansão. Isto foi no final dos anos 1980 e, até hoje,
vinte anos depois, o terreno da casa continua sendo apenas um estacionamento,
numa avenida cujo metro quadrado vale mais de 10 mil dólares.
Nos
anos 1950 as mansões da Paulista começaram a ser derrubadas para dar lugar aos
imponentes edifícios, comerciais e residenciais.
Trinta
anos depois, quase nada restava das originais mansões. E começou a onda de
tombamentos. Quer dizer: as famílias que ainda não tinham vendido os terrenos de
suas casas para a construção de edifícios estavam correndo o sério risco de ver
parte de sua herança ir pelo ralo. Ou seja, em vez de 10 mil dólares o metro
quadrado, o terreno e a casa tombada passariam a valer quase nada. Seguindo o
exemplo da casa dos Matarazzo, a velha casa que ocupava o terreno onde hoje está
o moderníssimo prédio do City Bank, também foi pelos ares. Cheguei ao escritório
numa manhã e a secretária me disse: - Dona Isabel, já viu a casa?
Casa?
Que casa?
Pela
janela eu vi então que a velha casa, onde uma senhora de cabelos brancos ainda
pendurava lençóis nos varais do quintal, tinha sido cortada verticalmente pela
metade e se podia ver os cômodos dos dois andares por dentro...
Curiosamente, hoje existem ainda alguns mistérios na Paulista. Talvez sejam
imóveis que estejam sob demandas judiciais.
No
número 1919 está uma casa construída em 1905 por Joaquim Franco de Melo. A casa
está em ruínas e ocupa um terreno muito grande, chegando a fazer esquina com a
Alameda Ministro Rocha Azevedo. Existe também, quase vizinho ao Museu de Arte, o
Masp, um pequeno prédio residencial, muito bonitinho, cheio de sacadas
simpáticas, que está totalmente abandonado e literalmente caindo aos pedaços.
Memória
preservada apenas na Casa das Rosas (que foi construída em 1935), tombada em
1986 e mais tarde transformada em Centro Cultural; uma mansão também tombada
onde funciona, curiosamente, uma lanchonete do Mac Donald; o colégio Rodrigues
Alves, de 1919; o Instituto Pasteur e parte do prédio do Hospital Santa
Catarina, construído em 1909.
A mania
de sediar as grandes comemorações populares na avenida é mais recente do que se
pensa. E tudo acontece ou em frente ao Masp ou debaixo das nossas janelas, aqui
em frente ao prédio da Gazeta e ao Paulicéia.
O
primeiro grande evento da avenida aconteceu em 1924, na primeira corrida de São
Silvestre. Mas, nas décadas de 1910 e 1920, a avenida já fora palco de outro
tipo de corrida: a dos velhos automóveis e, nos carnavais, era cenário dos
velhos corsos, desfiles de carros abertos onde as famílias se divertiam com
serpentinas, confetes, lança perfumes e fantasias. Mas, daqui da minha janela,
já pude apreciar muitas e muitas comemorações, passeatas e eventos. Luiza
Erunidna, quando eleita prefeita de S.Paulo, fez a festa aqui em frente. O mesmo
aconteceu quando Lula foi eleito presidente. Vi desfilarem aqui os estudantes do
Fora Collor. Vi inúmeras comemorações de times vencedores de campeonatos de
futebol. Enormes passeatas de protesto e desfiles de multidões de evangélicos.
Há também as manifestações mais modestas, que ocupam apenas uma faixa do leito
da avenida e há as grandes festas oficiais como a do reveillon e a do
aniversário da cidade, em 25 de janeiro, quando a avenida vira um enorme espaço
de lazer. Também vi (e participei) as comemorações do centenário da avenida, em
1991.
Mas
esse negócio de todo mundo vir dar os seus gritos de protesto ou de comemoração
aqui na avenida começou mesmo em 1977 quando o Corinthians finalmente venceu o
campeonato de futebol, coisa que não acontecia havia 20 anos.
Atualmente o prefeito anda querendo acabar com essa tradição de comemorações e
protestos na Paulista. Acho lamentável. Tem muita gente que fala contra isso,
que diz que o trânsito é prejudicado, que é um absurdo porque a Paulista é o
corredor também das ambulâncias, já que muitos hospitais importantes estão nas
imediações. Penso que o argumento seja frágil. Ambulâncias sempre abrem caminho
e o trânsito é completamente infernal na cidade inteira, com ou sem passeatas.
Os
estatísticos calculam que 1 milhão de pessoas circulam diariamente pela avenida.
Além de bancos e escritórios e algumas residências, a Paulista tem restaurantes,
galerias comerciais, cinemas, teatros, museus, centros culturais, escolas e até
um hospital. É uma verdadeira amostra do mundo.
Joaquim
Eugênio de Lima morreu em 1902, muito provavelmente sem calcular a beleza e o
motivo de orgulho que seria a avenida que idealizou e construiu e que hoje,
muito apropriadamente, é o símbolo da cidade de São Paulo.
Isabel,
5 janeiro 2008

Clique na foto ao lado para ver vídeo do Natal na
Paulista.
Sent: Saturday, February 23, 2008 11:14 PM
Subject: Comentário em sua página sobre Giulio
Saltini
Prezada Isabel,
Gostaria primeiramente de te dar meus parabéns
pela sua página que resgata uma grande história desta cidade.
Apesar de não mais residir neste estado sempre é
bom recordar.
Apenas não posso concordar com seu comentário
sobre o trabalho do meu bisavô Giulio Saltini conforme segue:
" Como monumento arquitetônico a casa realmente
não tinha lá grande valor" .( demonstra um certo desprezo pela obra)
Respeito! Porem quero salientar que meu bisavô
além de ser um excelente Arquiteto aqui no Brasil deixou inúmeras obras na
Itália segue abaixo um pequeno trecho do site www.webartigos.com:
" Entre dezenas é um dos principais nomes que
marcam a fase tradicional da Arquitetura italiana no Brasil"
Outras obras : Hospital Humberto I ( se não me
falha a memória hoje tem o nome de Hospital Matarazzo); Porto de Santos.
Gostaria de saber se você tem uma foto da mansão
para que eu possa mostrar para minha filha que é Arquiteta pois naquela época
minha avó após a morte de meu avô que também era Arquiteto se desfez de vários
documentos.
Na Google você poderá encontrar mais comentário
como por exemplo no site da ECCO.
Agradeço sua atenção.
Cordialmente,
Ricardo Saltini
Anos 1950, Esperança.
Estava
ouvindo um velho disco do Nat King Cole, em Espanhol. E a música – que, entre
outras coisas, pode ser uma máquina do tempo – me levou de volta ao final dos
anos de 1950. Eu era, então, apenas uma garotinha mas me lembro muito bem do meu
irmão Alfredinho que passava horas ouvindo, na sala de som do laboratório de
cinema do nosso pai, o Nat cantar: “toma chocolate, paga lo que deves”.
Alfredinho, apesar de sua doença mental, sempre foi um cara de bom gosto.
Em
1958 meus pais fizeram bodas de prata. Deram uma grande festa para comemorar os
seus 25 anos de feliz união.
(clique na foto à
direita para assistir o filme da festa)
Minha mãe usava um vestido estampado
com uma flor de tecido na lapela. Assim como as flores que eu uso, todos os
dias, há muitos anos. Em 1920, quando as americanas, depois de quase 100 anos de
lutas, conquistaram o direito de votar, todas as mulheres e todos os homens que
estavam na sessão do congresso que aprovou o voto feminino, usavam uma flor
vermelha na lapela. Para mim, a flor na roupa significa a luta das mulheres e
significa tambem um tributo à castigada natureza. Para a minha mãe, em 1958,
talvez fosse apenas um adorno da moda. Mas eu me lembro de ver, muitas vezes,
aquela flor rosada guardada numa caixinha de jóias, por anos e anos a fio.
Naquele tempo não havia a fartura de ofertas de produtos que há hoje e seria
impensável ter, como tenho hoje, quase 100 flores na gaveta.
No
final dos anos 1950 as escolas nos ensinavam que o Brasil era uma terra
abençoada: não tinha furacão, nem vulcão e era o país que acolhera todas as
raças e culturas do planeta, para formar uma sociedade justa e progressista.
Havia uma euforia no ar. Nosso presidente, Juscelino Kubitschek, prometera 50
anos de desenvolvimento em apenas 5 de mandato. Brasília estava nascendo. A
indústria automobilística estava nascendo. O Brasil prometia. Aqui, não havia
preconceito de cor, como nos Estados Unidos. Vivíamos, afinal, numa democracia,
depois de ter amargado os terríveis anos da ditadura de Vargas.
Em
1959, João Gilberto lançava seu disco (a bolacha negra de 78 rotações por
minutos, com uma música de cada lado) que se tornaria o grande marco do
surgimento da Bossa Nova. Então foi a minha vez de ficar, como o meu irmão fazia
com Nat King Cole, ouvindo horas e horas, seguidamente, o João cantar “Chega de
Saudade” na minha vitrolinha portátil e à pilha. Haja pilha!
A Bossa Nova também estava nascendo.
Um ritmo que contagiaria, e contagiou, todo o planeta.
Todo mundo se apaixonava pela poesia.
Vinicius de Moraes. Drummond. E até Casemiro de Abreu e Catulo da Paixão
Cearense.
O Brasil era criativo, poético, cheio
de esperança!
A
Televisão também acabara de nascer. Ainda era um aparelho caro, como o
automóvel, disponível para poucos. Mas já conquistara a todos. Surgiram os
chamados “televizinhos” que iam assisitr a TV na casa dos outros, principalmente
aos domingos à noite, quando a TV Tupi exbia alternadamente seus “TV de
Vanguarda” e “TV de Comédia”. Tudo ao vivo. Ninguém nem sonhava com a revolução
do video-tape, que só viria quase dez anos mais tarde. Grandes atores e
diretores do teatro brasileiro estavam na TV.
(clique na foto da TV
antiga, à esquerda, para ver um comercial de TV daquela época)
E havia o cinema. As grandes
companhias de cinema nacional: Atlântida, com suas chanchadas. Vera Cruz. Todo
mundo gozava o cinema brasileiro, até Anselmo Duarte conquistar a Palma de Ouro
em Cannes, com o seu Pagador de Promessas.
Mas em matéria de cinema, os
americanos levavam, como levam até hoje, a maior fatia do mercado. A vitória dos
Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, em 1945, estava bem viva em todas as
mentes do planeta. E os americanos eram mestres em propaganda. O enredo de seus
filmes trazia sempre a vitória do bem contra o mal. Vinham cheios de lições de
moral, a vantagem de se agir correta e honestamente. E todos os galãs da época
tinham um cigarro pendurado nos lábios.
Na música, o jazz ia sendo substiuído
pelo rock. Bill Halley e Seus Cometas e, logo depois, Elvis Presley.
Para uma menina, como eu, de classe
média alta, a vida era uma festa.
Morávamos numa casa bem grande, na
Chácara Santo Antonio, em Santo Amaro, onde funcionava também a empresa de
cinema 16mm do meu pai e o atelier de costura da minha mãe. A casa vivia cheia
de gente. Na hora do almoço, a mesa da copa reunía, por baixo, de dez a doze
pessoas. Eram as minhas duas avós, os meus dois irmãos, os meus pais, e,
eventualmente, primos, tios, ou amigos ou clientes do meu pai ou da minha mãe
que eram convidados a desfrutar do almoço doméstico, preparado pelas mãos
mágicas da Leca, uma filha “adotiva” da minha avó materna que fazia as vezes de
governanta e cozinheira. A empresa se confundia com o lar. Posso me lembrar, com
clareza, das acaloradas discussões políticas que aconteciam nesses almoços.
Tinha a turma pró- Jânio Quadros e a turma pró-Adhemar de Barros. Lembro-me bem
de uma frase da minha mãe, alegre e despreocupada: “Imagine, se o comunismo vier
ao Brasil, os brasileiros avacalham com ele”.
Sim, os brasileiros dos anos de 1950
tinham esse poder. O de avacalhar com as coisas sérias, o de levar a vida na
flauta, na brincadeira, no bom humor.
Eram,
pelo menos para nós, tempos felizes. No fim dos anos 50 e começo dos 60, nos
fins de semana íamos para a represa do Guarapiranga, onde, no Clube de Campo do
Castelo, pássamos horas e horas esquiando e ensinando todos os parentes e amigos
a esquiar.
Nas férias, íamos para a praia de
Itararé, em São Vicente, onde nos instalávamos no apartamento da minha tia Bebé
(a outra Isabel Vasconcellos) e levávamos a nossa lancha, de motor de popa, para
esquiar na Baía de São Vicente. A lancha ficava guardada num estaleiro logo
depois da Ponte Pênsil.
Não
havia filas de carros na Ponte Pênsil. De manhã, íamos de carro até o estaleiro
e voltávamos de barco. No fim do dia, ao contrário. Ainda hoje, quando vou para
aquelas bandas, me lembro da minha alegria ao passar esquiando sob a Ponte. Teve
um dia que eu caí do esqui bem em frente à praia das Vacas. Quando me preparava
para sair esquiando de novo, senti uma pancada na coxa. E outra. E outra. Alguma
coisa queria me empurrar para a praia. Meu pai se aproximou com o barco e logo
estava rindo. Gritou para mim: - Bel, não se preocupe. São os botos. Eles vão
levar você para a praia.
Os botos queriam me salvar.
Naqueles tempos, o domínio sobre a
natureza é que ia nos salvar. Ninguém imaginava o mal que esse domínio causaria
ao planeta. Ninguém nem sonhava com poluição ou mudanças climáticas drásticas ou
a extinção de inúmeras espécies de animais e de plantas, como o que estamos
vivendo hoje, consequência do domínio do ser humano sobre a natureza.
São
Paulo era uma cidade que se orgulhava de ser “a que mais cresce no mundo”.
As ruas eram tranquilas.
Congestionamentos, impensáveis. Pouca gente podia comprar um automóvel. Hoje
eles são acessíveis à maioria, mas pagamos o preço da falta de obras urbanas,
ruas, passagens de nível, que fizessem com que a cidade pudesse absorver o
incrível número de 500 novos veículos/dia.
Naqueles tempos, em São Paulo só
chovia. Lembro-me muito bem do quanto a gente ansiava por um dia de sol para
esquiar. Esquiávamos sempre com chuvinha, garoa, céu cinza, roupa de borracha.
Um dia de sol era um milagre.
Muito diferente do clima que temos
hoje em São Paulo. Hoje, em qualquer estação do ano, acontecem semanas e semanas
de sol escaldante e umidade do ar parecida com a do Saara. A cidade cresceu
demais. Não há mais cinturão verde na periferia, só há casas, carros, asfalto...
Nos anos de 1950 e 1960 São Paulo era uma cidade úmida. E, no inverno, fazia
muito frio.
Também
havia o saudável hábito de tomar chá, ou sorvete, depois da sessão de cinema. E
cinema era, no mínimo, no Cine Astor, do conjunto Nacional, da Av. Paulista,
esquina com Augusta. E, depois do filme, que tal um chá ou um sundae logo ali no
terraço do conjunto, no Fasano?
Incontáveis vezes fui “segurar vela”
da minha prima que vinha de Belo Horizonte para namorar o seu também primo, um
jovem jornalista que se projetava no colunismo social e no jornalismo econômico
.
Havia também a chácara. Ela pertencia
ao meu tio, o industrial Augusto Bitelli, casado com a irmã do meu pai, a Bebé.
Durante os anos de 1940 e 50, a chácara reunía a família para memoráveis almoços
que acabavam sempre em música. Meu tio Raul no cavaquinho, meu pai no violão,
minha prima Dudu no acordeon e todo mundo – 20 ou 30 pessoas – cantando debaixo
das árvores. Naqueles tempos, quase todo mundo sabia tocar um instrumento
musical e todos cantavam.
(clique
na foto -- eu criança e meu irmão Alvan -- para assistir a um filme da família
cantando na chácara)
Para
se ter uma idéia, a chácara ficava na Rua Sete de Setembro, no Alto da Boa
Vista. É claro que, quando meu tio a construiu, aquilo era “campo”, era fora da
cidade. Mas a cidade chegou lá. Hoje, onde estava a chácara, está um enorme
condomínio residencial e todo aquele bairro é densamente povoado.
Ah, a vida era tão diferente!
Não havia poluição. Não havia
congestionamento. Não havia violência urbana.
Mas também não havia computador, TV a
cabo, telefone celular, câmeras digitais.
O mundo ainda não era a aldeia global,
antevista por Mc Luhan, que é hoje.
Fui feliz naqueles tempos, mas também
sou feliz hoje. De uma maneira diferente.
Não posso imaginar mais a minha vida,
por exemplo, sem o computador, que é o meu maior companheiro e o meu instrumento
de trabalho.
Tudo o que o meu pai fazia, com muito
esforço e horas de trabalho, em seus filmes, eu faço hoje, em poucos minutos, no
windows movie maker.
Ainda ouço Nat King Cole, mas agora é
em CD, som digital e perfeito, sem os chiados da velha agulha.
Todos os filmes domésticos do meu pai
foram convertidos primeiro para vídeo, nos anos de 1990, e depois para DVD. Suas
máquinas maravilhosas de filmar e de fotografar viraram peças de museu e estão
guardadas numa vitrine, na sala do nosso apartamento.
Tudo mudou. Não existem mais políticos
como Juscelino Kubitscheck e estamos mergulhados num oceano de corrupção.
No
entanto, apesar da violência, da poluição, da corrupção, eu não trocaria os
tempos de hoje pelos tempos daquele tempo. Tudo caminha, na vida. E caminha para
um mundo melhor e mais justo. Apesar das aparências.
Nat King Cole canta no meu som:
“Someday soon I’ll find you, somewhere along the way”.
De um jeito ou de outro, nós sempre
nos encontraremos, ao longo dos caminhos. Errando, fazendo guerras, lutando, a
humanidade vai caminhando, em todas as épocas, saboreando o encanto de cada uma
delas. E, olhando a longa distância, só se pode concluir que esse é o caminho da
evolução. Para que e para onde, ah... isso eu não sei.
Os anos cinquenta -- com suas mulheres
chiques, que usavam chapéus, estolas de pele natural, flores na lapela, com seus
homens elegantes que fumavam muito e não dispensavam o terno e a gravata --
desembocaram na revolução mundial dos anos sessenta. E tudo mudou. A ingenuidade
deu lugar a uma maior compreensão do jogo político internacional. Os jovens
começaram a se politizar e a se mobilizar. A elegância acabou na calça jeans.
Vieram os Beatles, o “faça amor, não faça a guerra”, o “não confio em ninguém
com mais de 30 anos”, a era do sonho, o sonho do amor e da paz.
Mas isso é uma outra história que fica
para uma outra vez.
Isabel outubro 2007
De: "Maria
José Speglich" <speglich@yahoo.com.br>
PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Isabel
Data: quinta-feira, 3 de janeiro de 2008 11:44
Isabel! Tudo bem?
Descobri seu portal ontem e gostei muito. Tem bastante coisa lá. Estou lendo. Já
assisti alguma entrevista sua na antiga TV Mulher com alguns médicos.
Resolvi lhe escrever porque no quesito memórias eu li lá sobre Juscelino
Kubitschek - JK – e, como sou professora de História gostaria de fazer um
comentário a respeito.
Veja bem, na época não tínhamos aqui no Brasil uma mídia atuante e nem tantos
jornalistas bem preparados por isso da a impressão que o governo de JK foi
maravilhoso.
Fiz um texto para meus alunos e estou enviando para você refletir.
Obrigada pela atenção.
JK – O NOSSO JFK Que jk (Juscelino Kubitschek) foi o primeiro presidente moderno
do Brasil não há dúvida – só que modernidade nem sempre significa algo bom – há
muita coisa de ruim na modernidade. Pondere alguns pontos
JK é o nosso JFK (John Fitzgerald Kennedy). Ou vice-e-versa. Há muita coisa em
comum entre os dois, inclusive são quase contemporâneos. Até as abreviações são
parecidas. Tão simpático quanto o JFK, mas não tão bonitão, ambos são
considerados por uma vasta porcentagem da população dos seus respectivos países
os melhores presidentes que o país teve até hoje.
Na realidade foi o presidente que esbanjou a maior quantidade de dinheiro do
país até hoje em um projeto não produtivo. O processo de industrialização do
Brasil já havia se iniciado com a fundação da CSN e da Belgo Mineira, nos anos
40, não com o JK. E nem mesmo a indústria automobilística foi criada por JK.
Todas as leis que propiciaram a formação de uma indústria automobilística com
100% de nacionalização haviam sido promulgadas durante o segundo mandato de
Getulio Vargas, e de fato, a maioria das montadoras supostamente trazidas por JK
(GM, Ford, VW, Scania Vabis, Alfa-Romeo via FNM, Vemag, Mercedes Benz, Romi
Isetta) já existia no Brasil, algumas inclusive já montando carros com mais de
40% de nacionalização antes de JK iniciar o seu mandato (VW desde 52 e FNM,
desde 1950, especificamente). Diversas fábricas de autopeças já existiam antes
de JK. E JK abraçou para si os louros que o defunto GV não podia defender como
seus, pois já havia se suicidado. A grande
“realização” de JK foi Brasília – sem dúvida, um dispêndio faraônico que iniciou
o processo de dependência endêmico do Brasil na dívida externa, e que não trouxe
benefícios para a grande maioria do povo brasileiro – embora tenha enriquecido
um sem número de asseclas de JK, entre os quais o mineiro Sebastião Camargo
(Camargo Correia) e diversos reizinhos do mercado imobiliário brasiliense. A
aventura candanga foi em grande parte financiada com dinheiro emprestado no
exterior, que não deu retorno até hoje. Brasília foi durante tanto tempo tão
inútil, que até recentemente (pelo que me consta, fins da década de 80) havia
mais servidores públicos federais no Rio de Janeiro do que lá. O mal de Brasília
não foi tanto o fato de ter sido construída, mas sim a pressa com que foi
concluída. Para um país sem recursos próprios como o Brasil, a sua construção
durante um mandato de um único presidente foi loucura. Seria mais sensato
construí-la em 10 a 15 anos, mas ego é ego. Óbvio, JK
não queria que outro recebesse os louros da sua realização (como ele se usurpou
dos louros de GV em relação à indústria automobilística, diga-se de passagem). O
que o seu sucessor recebeu foi sim, um mico de $1,35 bilhões, empréstimos de
curtíssimo prazo que deveriam ser pagos entre 61 e 62, o equivalente às
exportações anuais do Brasil. Para piorar, a má gestão da política cambial fez
com que o nível das exportações caísse, ao invés de aumentar, apesar da
“pujança”. Aí se iniciou a derrocada mais séria do Brasil no campo externo,
inclusive um histórico longo de relacionamento amor/ódio com o FMI. Se JK animou
o povo brasileiro com a idéia de progresso, criou no exterior o estereotipo de
brasileiro trambiqueiro que perdura até hoje (n’est pas un pais serieux do De
Gaulle). Curiosamente, muitos que defendem com unhas e dentes o JK, culpam os
militares pela questão da dívida externa e culpam FHC de ter sucateado o
patrimônio do povo brasileiro. Situação ambígua e curiosa:
consideram patrimônio do povo um sem número de estatais criadas durante o regime
militar, assim reconhecendo o caráter de investimento com valor venal razoável.
Ou seja, os militares teriam endividado o país, sim, só que fizeram
investimentos que valeram realmente alguma coisa: criando empregos no país
inteiro, criando empresas que hoje em dia lideram as exportações brasileiras. E
o nosso querido JK? Criou o mico que é Brasília, enriqueceu alguns compadres
seus, e nem mesmo a indústria automobilística, que supostamente teria criado,
foi criada por ele. Não há dúvida também de que a precária situação em que JK
deixou o Brasil eventualmente levou à revolução militar, ao criar um clima
econômico de impossível administração. Por que o Jânio Quadros fi-lo por que
qui-lo? Por que não era bobo, e sabia que a batata estouraria em suas mãos, como
realmente estourou nas mãos do Jango. Será que o JK seria um melhor presidente
em um segundo mandato? Pode ser que sim, pode ser que não.
Já tinha construído a sua obra faraônica, e é bem possível que em um segundo
mandato pudesse fazer algo de bom para o país. A verdade dói, mas tem que ser
dita.
JK E O FMI
Depois de pedir uma montanha de dinheiro emprestado no exterior para construir a
sua Brasília, JK, vendo que não daria para pagar os empréstimos, e procurando
acumular dividendos políticos para uma futura reeleição (que nunca ocorreu) deu
uma de machão perante os cliques das câmeras e acintosamente mandou o FMI às
favas. Com isso foi o primeiro presidente brasileiro a usar a TV como meio de
promoção. O povo adorou, só faltou canonizar o JK. Por trás das portas, JK
acionou o seu Embaixador em Washington, o banqueiro mineiro Walter Moreira
Salles (futuro Unibanco) para pedir desculpas, e costurar um acordozim, ganhar
tempo e passar a bola pro coitado do seu sucessor, que acabou sendo Jânio
Quadros. Este, um tanto idiossincrásico, mas de burro não tinha nada, caiu fora
antes que Brasília explodisse e deixou a batata quentinha na mão do caudilhesco
João Goulart. Este se enamorava com a URSS, e achava que poderia efetivar o
calotaço sem grandes conseqüências. Sem dúvida, uma
das grandes razões do Golpe de 64.
Ibirapuera, a
Ilha Verde
(clique na primeira foto para ver filme do
Parque em 1954)
José
Pires do Rio era o prefeito de São Paulo que, no final da década de 1920,
imaginou transformar uma área da cidade, onde outrora existiam chácaras e
pastagens, num parque como o Bois de Boulogne, em Paris ou o Hyde Park, em
Londres, ou ainda o Central Park de Nova Iorque.
A região abrigara pequenas
propriedades cujas boiadas eram destinadas ao Matadouro Municipal, ali pertinho,
e que é hoje a sede da Cinemateca. Também se criavam ali animais que serviam
para puxar os carros de bombeiros e por isso o local foi chamado de Invernada
dos Bombeiros. Mas em 1906 uma lei estadual transferiu a propriedade daquela
área para o Município. Por isso, no final dos anos vinte, o prefeito imaginou
criar ali um parque.
Naquele tempo, a região do
Ibirapuera era um pouco afastada da cidade, que ainda não chegara até lá.
Na época da colonização havia lá
uma aldeia indígena e o nome do lugar vem da língua tupi. “Ibirá” quer dizer
árvore e “Puera”, o que já foi. Parece profético: lugar onde havia árvore. Mas
há quem diga que o nome, em tupi-guarany, vem de Ypy-ra-ouêra, que significa
árvore apodrecida.
A boa idéia de José Pires do
Rio, no entanto, esbarrou na dificuldade que o próprio terreno apresentava: era
por demais alagado.
Foi então que, em 1927, um
sujeito apaixonado por plantas, chamado Manuel Lopes de Oliveira e conhecido
como Manequinho Lopes, que era funcionário da prefeitura, resolveu dar um jeito
no terreno. Plantou centenas de eucaliptos australianos para que estes drenassem
o solo alagadiço. E, de quebra, plantou também espécies de plantas ornamentais
que se destinariam a abastecer os jardins públicos da cidade.
Mas foi apenas em 1951 que o
governador Lucas Nogueira Garcez e do prefeito Armando de Arruda Pereira criaram
uma comissão de representantes da iniciativa privada e dos poderes públicos com
o objetivo de criar o tal parque, sonhado três décadas antes por João Pires do
Rio. Liderados por Francisco Matarazzo Sobrinho, o Cicillo, os membros da
comissão começaram a trabalhar. Em 1954 a cidade de São Paulo comemoraria os
seus 400 anos de fundação e o governador imaginava que a inauguração do Parque
do Ibirapuera seria um presente ao povo paulistano, na comemoração do IV
Centenário.
Não foi exatamente isso que
aconteceu. Em 25 de janeiro de 1954, data do aniversário de São Paulo, o Parque
ainda não estava pronto.
Oscar Niemeyer criou o projeto
arquitetônico do Ibirapuera e Burle Marx, o paisagístico. No entanto, o de Burle
Marx não foi realizado, sendo substituído pelo do engenheiro agrônomo Otávio
Augusto Teixeira Mendes.
Naquele tempo o Ibirapuera era
apenas um belo matagal, com muitos eucaliptos, cortado por uma estradinha
estreita que ligava a Avenida Brasil à Vila Mariana. Já havia um lago, onde a
molecada ia nadar.
Finalmente, em 21 de agosto de
1954, o Parque foi inaugurado.
Na inauguração havia 640
estandes montados por treze estados brasileiros e por dezenove países. O Japão
construiu uma réplica do Palácio Katura que está lá até hoje, é o chamado
Pavilhão Japonês. Não existem mais o Parque Shangrilá, o Pavilhão do Rio Grande
do Sul, o Museu de Cera, o salão de exposições (que foi transferido para o
Anhembi nos anos 1970) e nem o restaurante que ficava dentro do lago principal e
onde as pessoas podiam alugar barcos de passeio.
Também estão lá, desde o dia da
inauguração, o Palácio das Indústrias, onde se instala a Bienal de São Paulo e
onde funciona o MAC, Museu de Arte Contemporânea. O Pavilhão se chama hoje
Cicillo Matarazzo, em homenagem ao homem que trouxe a Bienal para São Paulo. Mas
todo mundo, quando se refere a ele, diz: “o prédio da Bienal”. Também já estavam
lá na inauguração: a Grande Marquise, onde funciona o Museu de Arte Moderna; o
Palácio da Agricultura, construído para a Secretaría da
Agricultura, mas que
acabou virando sede do Detran; o Palácio dos Estados que hoje se chama Armando
de Arruda Pereira e onde está a sede da Companhia de Processamento de Dados do
município, a Prodam; o Palácio das Exposições, que se chama Pavilhão Lucas
Nogueira Garcez, mas que todo mundo conhece como Oca, onde estão os Museus da
Aeronáutica e do Folclore e ainda o Palácio da Nações ou Pavilhão Manoel de
Nóbrega, onde funcionou, até 1992, a sede da Prefeitura e hoje é o Museu Afro
Brasil. E também o Ginásio de Esportes, o Velódromo e o conjunto de lagos.
Depois foram sendo construídos o
Viveiro Manequinho Lopes, o Planetário e a Escola Municipal de Astrofísica.
Hoje, nos 1 milhão e 584 mil
metros quadrados do parque, estão ciclovias, pistas de cooper, além de três
lagos artificiais, interligados, que ocupam 157 mil metros quadrados e que
oferecem o espetáculo das fontes ali colocadas na última gestão do prefeito
Jânio Quadros.
Muita gente vai todas as manhãs
ao Parque para uma corrida ou caminhada. E, nos fins de semana de verão, é à
beira dos lagos que muitas paulistanas se bronzeiam.
O Parque do Ibirapuera é uma
ilha verde em meio à poluição e ao cinza que domina a cidade de São Paulo.
Apesar do crescimento desordenado e cruel da cidade, a natureza ainda brinda o
Ibirapuera, todos os anos, com pássaros migratórios que fazem sua parada por lá.
Isabel, 08 setembro 2007.
Viagem à
Bahia em Tempos de Ditadura
No
começo dos anos de 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura militar. A repressão
policial a todo e qualquer cidadão que se manifestasse contra o regime
estabelecido se tornava cada dia mais brutal e violenta. Grupos chamados
paramilitares eram formados e, oficialmente, não existiam, eram negados pelos
porta vozes dos governos, federal ou estadual. O mais famoso desses grupos era o
bando que possuía um sítio, para onde levavam todo e qualquer “suspeito” de
conspirar contra o regime e lá o infeliz era barbaramente torturado.
Muito poucas pessoas tinham coragem
de se manifestar contra o estado de arbítrio e violência que se instalara no
Brasil. Geralmente, ter um preso político na família significava que todos os
seus parentes e amigos estavam também sob risco de sofrer prisão e prisão era
sinônimo de tortura. Você podia querer arriscar sua pele por seus ideais, mas
não tinha o direito de arriscar também todos os seus parentes e amigos. A
repressão à qualquer oposição política era, de fato, além de brutal, brutalmente
eficiente.
Por outro lado, muita gente bem
intencionada acreditava no então chamado “milagre brasileiro”, milagre esse que
estamos pagando em altos juros até hoje, diga-se de passagem.
Se,
de um lado, a ditadura militar ia destruindo a educação e a cultura, exilando as
mais brilhantes mentes do país, expulsando-as e instalando o reino da absoluta
mediocridade e censura à imprensa e aos pensadores acadêmicos, por outro lado
vendia à classe média, que crescia, a ilusão da prosperidade econômica e
desafiava seus opositores com slogans como
“Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Bem que eu, de saco cheio de tanta
repressão e tanto sofrimento de ver e saber de amigos e conhecidos que eram
presos e sofriam as mais bárbaras torturas, preferiria ter deixado o país. Mas
isso também era muito difícil. Para sair do Brasil, só mesmo tendo sido preso e
trocado por algum embaixador sequestrado ou tendo muito dinheiro. Para sair do
país, naqueles tempos, era preciso fazer um tal de “depósito compulsório”, numa
quantia em dinheiro que equivaleria ao preço de uns três automóveis. Só os ricos
tinham o direito de ir e vir. Os ricos, os executivos de multinacionais e os
políticos.
Na faculdade, o ambiente era de
muito desânimo, no ano de 1973. As classes sempre tinham um ou dois
“dedos-duros”, soldados da repressão, encarregados de denunciar professores e
alunos que eles julgassem suspeitos de “subversão”. Os mestres mais corajosos
davam aulas por metáforas. Todos os dias se tinha notícia de algum líder
estudantil que “caíra” ou desaparecera. Um dos meus colegas na Escola de Cinema
costumava cumprimentar seus pares com a frase:
- Boa noite. Prazer em vê-los ainda
vivos.
Naquele
ano, quando se aproximavam as férias de julho, eu acabara de deixar um emprego
numa agência de propaganda e estava me dedicando a trabalhos free lancer de
fotografia e texto. Minha grande amiga Ilca tinha prestado um concurso para a
prefeitura municipal (onde, mais tarde, chegou a ser a diretora de recursos
humanos) e esperava pelo resultado. Assim, estávamos relativamente livres para
viajar. Eu sinceramente, na angústia dos meus 22 anos de idade e na
impossibilidade de me expressar livremente em meu próprio país, queria sumir, ir
morar na Europa, em algum país civilizado e não mais numa republiqueta idiota e
tirana como era o Brasil de então. Poderia vender o meu fuska, juntar um
dinheirinho, pagar o maldito compulsório, e me mandar, mas teria também que
renunciar aos amigos, à família e, principalmente, aos meus pais, que eu amava
de paixão. Sobre a minha angústia com a situação política do Brasil, um dia,
meus pais me disseram, rindo:
- Minha filha, isso passa. Já
vivemos tempos ditatoriais antes, na época do Getúlio, a gente dizia que eram
tempos “de rolha” – todo mundo tinha uma rolha na boca.
Assim,
um belo dia, andando de fuska pela Av. Rubem Berta, Ilca e eu resolvemos ir
passar umas duas semanas na Bahia. E fomos, com pouco dinheiro no bolso, ela, eu
e o irmãozinho dela, Tony, que tinha dezessete anos. Fomos no meu fuska,
corajosamente, enfrentando as estradas brasileiras que não eram nem um pouco
modernas, mas um pouco melhores do que são hoje.
Meu irmão Alvan, nesta época, era
diretor da TV Aratu, então afiliada da Rede Globo, em Salvador. Mas, em vez de
nos instalarmos no apartamento dele na Barra, ficamos acampados nos canteiros da
praia do Jardim de Alá.
Passamos dias maravilhosos, andando
de fuska pelas praias da orla de Salvador, tocando violão ao luar, todas essas
coisas que os jovens daquele tempo adoravam.
Na noite da véspera de nossa viagem
de volta, nossa barraca foi cortada e, enquanto dormíamos, alguém levou nossas
bolsas, uma das minhas caríssimas máquinas fotográficas e todo o nosso dinheiro.
Tivemos
que pedir ajuda ao meu irmão que nos forneceu o dinheiro estritamente necessário
para a viagem de volta. Compramos alguma coisa para comer nos dois ou três dias
de viagem e reservamos o resto do dinheiro para a gasolina do fuska e para os
pedágios (que, sim, já existiam!). E botamos o pé – aliás, as rodas – na
estrada.
Quando estávamos a uns 300
quilômetros de Salvador, pela BR 116, a famosa Rio-Bahia, uma luzinha vermelha
acendeu no painel do meu fuska.
- Pô, Ilca! Essa droga desse carro
não está carregando a bateria.
Para
piorar, anoitecia e eu precisaria dos faróis.
Parei no acostamento. Abri a tampa
do motor. Fiozinhos de cobre voavam. Lá se fora o “induzido”, uma peça cheia de
fios de cobre enrolados, que fazia parte do sistema de recarga da bateria.
- Estamos fritos. Onde fica a
cidade mais próxima?
Ilca consultou seu inseparável guia
Quatro Rodas.
- Não é uma cidade, Bel. É uma
localidade. Chama-se “Milagres”.
Bom. Tinhamos que rezar por um
milagre. Tínhamos muitos quilômetros pela frente e a bateria do fuska ia ter que
aguentar.
Quando chegamos a Milagres, o local
estava em festa. Era dia 25 de julho, dia do motorista. Ninguém queria conversa
com a gente. Oficina? Tem uma, mas o dono está na festa de São Cristóvão.
Cidade
mais próxima?
Jequié.
Corajosamente, encaramos de novo a
estrada. No escuro. Eu nem ousava ligar os faróis. E, naquele tempo, a estrada
era um deserto. Rezavamos para que os caminhões, as maiores presenças nas
rodovias daquele tempo, nos vissem antes de passar por cima de nós.
Afinal, chegamos a Jequié.
Ilca, com seu guia, anunciou:
- Tem concessionária Volkswagen.
E eu:
- E certamente aceitam cheques
paulistanos.
Mas,
quando chegamos lá, a concessionária estava fechada. Já era noite. Com muito
custo, convencemos o porteiro a nos deixar estacionar no pátio e dormir dentro
do carro. Já estávamos preparados para uma noite desconfortável, quando apareceu
um sujeito que se apresentou como o contador da empresa. Narramos a ele o nosso
draminha: assaltados, sem grana, tendo 1500 km de estradas pela frente e com o
induzido destruído. Mas tinhamos cheques.
O nome dele era Tibúrcio. E
Tibúrcio disse:
- Não. Está tudo errado. Vocês vão
consertar o carro aqui, vai custar uma nota preta, esses caras de concessionária
vão explorar vocês. Eu tenho um amigo que tem uma oficina. Ele vai abrir a
oficina e ajudar vocês, assim, amanhã de manhã, vocês já poderão pegar a
estrada.
- Mas não temos dinheiro –
protestou a Ilca – O seu amigo vai levar uma semana para compensar o nosso
cheque e não terá nenhuma garantia.
- A questão aqui, moça – respondeu
o Tibúrcio – não é de dinheiro. A questão é a de três jovens paulistanos que
vieram ao nosso estado passear e foram roubados. Vocês não vão sair da Bahia
achando que o nosso povo é ladrão.
E,
assim, quando eu me dei por mim, estava dentro do carro do Tibúrcio, um TL
amarelo, que corria por estradinhas de terra e parava em casas muito humildes,
catando homens simples. O carro ficou lotado. Lá estava eu, com quatro baianos
do interior e mais o Tibúrcio. Fiquei apavorada. Eles vão me estuprar! Mas, sem
falar quase nada, estávamos de volta à concessionária. Os homens empurraram meu
fuska, que já nem dava partida, e fui seguindo o TL amarelo até um galpão meio
afastado da cidade, onde ficava a tal oficina.

Fomos recebidos por um negro que
tinha um dos mais belos sorrisos que eu já vira. Chamava-se Hilário e era o dono
da oficina. A casa dele ficava nos fundos. Os homens que estavam conosco eram os
funcionários da oficina, que Tibúrcio tirara do conforto de seus lares para que
resolvessem o nosso problema. Hilário nos apresentou à sua família: nove filhos
e a esposa, cujo nome me escapa à memória.
- Não se preocupe, Isabel. Vamos
deixar seu carro novinho e amanhã de manhã vocês seguirão viagem com segurança.
E eu preocupadíssima com o
dinheiro. Precisaria pagar o trabalho deles e mais as peças.
Hilário nos levou para a mesa de
sua casa, onde sua esposa nos serviu um lanche. Havia uma fruta que eu nunca
vira: umbu. Uma verdadeira delícia.
Tibúrcio
então nos disse que ia nos levar para dormir na casa dele. Estávamos nos
preparando para sair quando chegou uma caminhonete. Na direção, um típico
“coronel” baiano, que parecia ter saído das páginas de um romance de Jorge
Amado. Com ele, mais quatro homens. Não pude evitar o pensamento: “jagunços”.
Era Lomanto Júnior, que fora governador do estado. Imaginei que ele fosse “o
senhor” daquelas terras e daquela pequena cidade. Talvez tivesse ido “conferir”
a origem daqueles jovens forasteiros que éramos nós. Ou talvez apenas quisesse
regular o motor da caminhonete. No entanto a família do Hilário já sabia, porque
estiverámos papeando durante o lanche, que eu era a “irmã da Rede Globo” e,
inclusive, já tinham me encarregado de mandar para eles, pelo correio, as
notícias do que iria acontecer nos próximos capítulos da novela das oito (que
passava lá com uma semana de atraso em relação ao Rio e a São Paulo, porque os
tapes dos capítulos eram enviados fisicamente por malotes, a embratel tinha
apenas dois canais de satélite) e também fotos autografadas dos artistas.
Tibúrcio
nos levou para a casa dele. Sua mulher, Aurina (na foto acima, à esquerda),
botou os filhos para dormir no sofá da sala e nos instalou nas camas deles.
Jantamos. Conversamos. Aurina perguntou se era verdade que São Paulo era tão
grande que comportaria mais de 10 Jequiés. Rimos.
- Aurina, acho que dentro de São
Paulo cabem não dez, mas trinta Jequiés.
Ela se recusou a acreditar. Disse
que estávamos “mangando” dela.
Dormimos como anjos.
Na manhã seguinte, lá estava o
fuska, consertado, lavado e brilhando.
Fomos tomar café da manhã na casa
do Hilário. Café da manhã baiano, que mais parece uma ceia. Mas Hilário não
estava lá. Chegou pouco depois, carregando uma sacola cheia de umbus, que ele
fora pegar no mato, para nos dar.
As
crianças foram para a escola, despedidas, beijos, sorrisos. (Na foto ao lado, a
família do Hilário)
Perguntei ao Hilário quanto eu lhe
devia pelo serviço. Se ele queria um cheque ou se queria que eu fizesse uma
remessa bancária para a sua conta. A resposta:
- Você não me deve nada.
Protestei. Não estava certo. A mão
de obra, os funcionários, as peças, o trabalho...
- Olha, garota. Vocês foram
roubados em Salvador. Isso é que não está certo. O povo da Bahia é um povo
solidário. Vocês vem da cidade grande, podem até pensar que tudo funciona à base
de dinheiro. Mas agora sabem que nem todos pensam assim. Escrevam para nós, se
puderem contem o que vai acontecer na novela porque minha mulher vai adorar. E
nós estamos felizes por termos novos amigos paulistas. Vão com Deus e dirija com
cuidado, hein?
Assim, saímos de Jequié, Ilca, Tony
e eu, completamente estarrecidos. Nosso carro estava limpo, cheiroso e em ordem.
Fôramos tratados como reis. Estávamos estranhamente quietos. Ninguém falava nada
dentro do carro.
Viajamos
assim, quietos, por mais uns 200 quilômetros. De repente, na faixa oposta da
pista, vimos um comboio do exército. Soldados armados, mais adiante, plantados
no centro da pista, dirigiam o pouquíssimo trânsito e fizeram sinais para que
continuássemos em frente. Pude ver, saindo da traseira de uma perua, um homem
que parecia bêbado ou drogado, sendo conduzido por outros três, à paisana, para
um canto da estrada, ao lado do acostamento. Tratei de continuar dirigindo, sem
olhar muito pros homens, conduzindo o fuska nem muito depressa nem muito
devagar, mas ainda espiando a cena pelo espelho retrovisor. O que seria aquilo,
meu Deus?
No Brasil daqueles tempos, não era
muito difícil de imaginar...
Voltamos para São Paulo com apenas
um incidente. Já na Via Dutra, perto de Aparecida, rodamos na estrada. Estava
chovendo e o fuska “flutuou”. Mas parou no acostamento, sem bater em nada, de
ré. Foi um belo susto. No entanto, não um susto maior do que encontrar aquelas
pessoas incríveis em Jequié.
Mandamos para eles, até o final da
novela das oito, o resumo dos capítulos que eles ainda assistiriam.
Mais tarde, quando morei em
Salvador, recebi na minha casa dois dos filhos do Hilário. Um foi cursar o
colégio militar. Para o outro, arrumei um emprego na agência de propaganda onde
eu trabalhava.
As famílias de Hilário e Tibúrcio,
da pequena cidade de Jequié, tinham dado a nós, jovens ingênuos e idealistas,
uma nova e grande esperança no povo do nosso país. Um país “arrolhado” pela
prepotência da ditadura, um país com uma das piores distribuições de renda do
planeta, mas feito também de gente simples e simplesmente boa.
Isabel 11 agosto 2007
Rede Mulher de TV, o começo e o fim
Em
1994 eu tinha 43 anos e achava que a minha carreira na TV já tinha acabado. Eu
apresentara, de 1985 a 1990 um programa feminista (Condição de Mulher) em várias
emissoras, inclusive Gazeta e Record, e produzira um programa médico (Junta
Médica) que começara 10 anos antes.
Em 94, afastada da TV,
eu realizava de outros trabalhos, como a Videoteca Científica da Associação
Paulista de Medicina.
Um dia, meu irmão
Alvan, que ocupara ótimas posições em muitas emissoras de TV, me telefonou:
- Bel – disse ele –
uma nova TV em UHF vai inaugurar sua emissora em S.Paulo. É o canal 42, de
propriedade da família do Roberto Montoro. O Montoro foi diretor comercial da
Rede Globo, mas se afastou para administrar uma pequena rede de TVs no estado de
São Paulo, com sede em Araraquara, a Rede Morada do Sol. Eles têm muitas
emissoras no estado e algumas em outras capitais. Já foram afiliadas da Rede
Bandeirantes e são atualmente da Rede Manchete (atual Rede TV). Bom, acontece
que eles têm esse canal em S.Paulo, o 42, e se não colocarem em operação vão
perder a concessão. Então eles vão abandonar a filiação à Manchete e vão partir
para uma rede própria. O diretor de programação é o Waldemar de Moraes, lembra
dele?
-
Lembro – respondi – Falamos com ele uma vez para colocar o nosso programa médico
em Araraquara e ele não se interessou muito.
- Pois é. Mas agora
vai se interessar. Ele tem uma rede inteira para montar em termos de
programação. Marquei pra gente ir lá, você e eu, no dia 12 de junho. É na Granja
Julieta, onde há anos, funciona uma rádio deles, aquela que fez sucesso nos anos
de 1970 como Rádio Mulher. O que é que você acha de oferecer o programa Junta
Médica e o Condição de Mulher a eles?
Respondi, confesso que
sem muito entusiasmo:
- Bom, vamos lá.
Fomos.
Era uma antiga casa, na Rua da Granja Julieta, com inclusive uma piscina
soterrada para dar lugar a um pátio. Uma portaria improvisada. Estúdios sendo
construídos. Waldemar de Moraes, pioneiro da TV no Brasil, com passagens por
grandes emissoras, ouviu os nossos projetos. Se interessou pelo Junta Médica,
desde que, é claro, o programa viesse patrocinado. Não me pareceu difícil. Eu já
vendera o programa, quando ele estava no ar pela TV Gazeta, para grandes
indústrias farmacêuticas, primeiro a Pfizer e depois a Biogalênica (hoje
Novartis).
Foi então que o
Waldemar nos disse que a nova rede de TV se chamaria “Rede Mulher”. Ele próprio
sugerira isso aos Montoro, já que a Rádio Mulher, em outros tempos, fizera muito
sucesso tendo, no seu cast, nomes como Hebe Camargo, Cidinha Campos, Claudete
Troiano, Cynira Arruda e outras.
Para
mim, aquilo soou como um sonho dourado. Eu, que sempre fora feminista, desde
criança, que sempre lutara pela igualdade entre os sexos, só poderia mesmo ficar
encantada com uma Rede Mulher de Televisão. Ofereci, então, a ele, o meu
programa Condição de Mulher. E ele:
- E quem vai
apresentar?
- Eu.
- Olha, filhinha –
disse ele – lamento, mas não estou a fim de fazer experiências.
Fiquei ofendidíssima.
Afinal, eu tinha alguns anos de programas diários realizados em várias
emissoras e com sucesso, com ibope e com patrocinadores excelentes, como a
Johnson. Não me consideraria “uma experiência”.
Mas engoli o sapo.
Vendi
o patrocínio do novo Junta Médica, na Rede Mulher, para a então Sanofi Whintrop
(hoje Sanofi Aventis) e começamos os preparativos para a estréia do programa
junto com a estréia da nova Rede. Para apresentar o programa chamei os médicos
Dr. Nabil Ghorayeb, Dra. Fátima Duarte e Dr. Romeu Meneghelo.
Uns dias antes da
estréia, houve uma coletiva de imprensa na Rede Mulher.
No dia seguinte, todos
os jornais diziam que a Rede Mulher chegava sem realmente acrescentar nada de
novo à programação feminina das outras TVs.
Eu estava com o Leão
Lobo (que também ia estrear junto com a Rede) no pátio da emissora. Comentei
com ele:
- Leão, você viu? Os
jornais estão dizendo que a Rede Mulher não trará nada de novo para as mulheres.
Eu ofereci o meu programa Condição de Mulher ao Waldemar. O Condição ainda é uma
proposta nova, mas ele não quis.
Eu não sabia. Mas o
Percival, diretor comercial, estava escutando.
Naquela mesma tarde, o
Waldemar me ligou:
- Filhinha, esse seu
programa tem algo de novo mesmo para as mulheres?
- Claro, Waldemar.
- Então você vai
estrear junto com a Rede. Venha amanhã de manhã discutir os detalhes do
contrato.
Nossa!
Fiquei radiante.
E, assim, no dia 8 de
agosto de 1994, quando a Rede Mulher de Televisão foi ao ar pela primeira vez,
lá estava eu. Meu programa Condição de Mulher ia ao ar em duas edições, de
segunda a sexta: ao meio dia e às nove da noite.
Os primeiros anos da
Rede Mulher foram muito bons. Já estavam lá o Alan, a Cinthya Magi, a Janir
Fraga. Fizeram programas na casa: Glauce Graieb, Mariza Leite de Barros, Fábio
Arruda, Leão Lobo, Giba Um, Clodovil, Cristina Cairo, Solange Frazão, Márcia
Goldschimit, Kátia Fonseca, Evê Sobral, Amália Rocha, Ricardo Côrte Real, Norma
Blum e muitos outros.
Meu programa Condição
de Mulher entrevistou, em 425 edições, muita gente legal, políticos importantes,
de José Aristodemo Pinotti e Mário Covas à Zulaiê Cobra Ribeiro e Alda Marco
Antonio e Luiza Erundina. Um montão de artistas, de Dercy Gonçalves (que me deu
uma entrevista séria e sem gozações nem palavrões) à Lolita Rodrigues.
Cantores, como Jair Rodrigues, Ângela Maria, Claudette Soares e tantos outros.
Em
1997, Rosana Herman assumiu a diretoria artística no lugar do Waldemar de
Moraes. Ela achava que o meu programa deveria deixar de ser diário para ser
semanal. Eu preferi sair do ar e ficamos, Alvan e eu, apenas com o Junta Médica.
Neste mesmo ano, fizemos um acordo com a Associação Paulista de Medicina e o
Junta Médica se tornou “APM na TV”. Em 1998 o diretor da APM achou que poderia
continuar o programa sem mim e sem o meu irmão e nos mandou embora.
Fui para a TV Gazeta
onde fiz, em 1999, um quadro no programa “Mulheres”, na época comandado pela
Ione Borges. Enquanto eu estava na TV Gazeta, a família Montoro vendeu a Rede
Mulher para a Igreja Universal do Reino de Deus.
Um ano antes eu tivera
um sonho: todo o cast da Rede Mulher estava na sala vip e eu, do lado de fora,
no pátio. Cercavam-me centenas de pastores da Igreja Universal. O sonho não é
tão premonitório quanto parece porque, há muito, eu via os representantes da
Igreja entrando e saindo da emissora e circulavam boatos de que eles queriam
comprar. Os Montoro acabaram vendendo.
O pessoal
do meio fazia apostas. Os pastores – diziam – não iam manter a Rede Mulher, iam
transformar tudo em programas da própria Igreja.
Lá se ia o meu sonho,
pensava eu, pelo ralo.
E o meu sonho era
dirigir a Rede Mulher. Fazer da emissora uma TV que atendesse às reais
necessidades da brasileira, que discutisse os seus anseios, os seus problemas,
muito mais do que simplesmente oferecer amenidades como receitas de bolo,
fofoca de artistas e artesanato. Isso também, mas muito mais que isso.
Robertinho Montoro (a
quem eu só tenho elogios e agradecimentos), o superintendente da Rede, dizia que
eu faria uma “rede feminista”, mas não era essa a minha intenção. Muito além do
feminismo, as brasileiras poderiam encontrar numa rede de TV orientações
práticas para o seu dia-a-dia, desde as questões do trabalho, passando pela
educação dos filhos e a economia doméstica, até as questões afetivas e sexuais.
Coisas que nenhuma TV ousa discutir, até hoje. Tratei de deixar claras as minhas
intenções. E, um dia, em fevereiro de 1999, um membro da família Montoro me
disse:
- O Robertinho disse
que se você conseguir um tal negócio (que não vou dizer qual era), o cargo do
artístico é seu.
Mas
um mês depois, quando eu estava conseguindo o tal negócio, a emissora foi
vendida para a Igreja.
O novo diretor
artístico, na nova administração da Igreja, era Guilherme Araújo, que fora
diretor da TV Gazeta no tempo em que eu trabalhara lá, na década de 1980. Liguei
pra ele e ofereci um programa de Saúde da Mulher. Tinha patrocínio dos
laboratorios Organon. Ele me disse:
- Ótimo, Isabel. Vamos
tirar do ar esse “APM na TV” e você pode entrar no lugar deles.
Assim, a APM, que me
tirara do meu próprio programa, cedia novamente seu espaço a mim.
No dia 7de novembro de
1999, estreou na Rede Mulher de TV, o meu programa Saúde Feminina, que ia ao ar
aos sábados e aos domingos.
Um
ano depois, a diretoria de emissora me chamou e me propôs que o Saúde Feminina
se tornasse um programa diário.
E assim foi feito.
Fiz 1427 programas
Saúde Feminina na Rede Mulher de TV, de novembro de 1999 a novembro de 2006.
Em 2001 a Rede Mulher
se mudou do apertado prédio da Granja Julieta para o antigo prédio da TV Record,
quase em frente ao aeroporto de Congonhas. Ficamos muito bem instalados, com 7
estúdios. Ronnie Von e Sula Miranda foram fazer seus programas lá. Vieram também
Claudinha Pachedo, Liliane Ventura, Mirian Sobral, Ronaldo Esper, Mariana Dib.
Do tempo dos Montoro,
permaneciam lá apenas a Cynthia Magi, o Alan e eu.
Fiz
uma grande amiga nesses anos de Rede Mulher: Fátima Turci, apresentadora do
programa Economia & Negócios, com quem, por muito tempo dividi o camarim.
Em 2004, propus ao
superintendente da Rede que me desse a incumbência de fazer uma programação
realmente voltada para os interesses da mulher brasileira. Apresentei um
projeto. Ele gostou. Aprovou. Disse-me:
- Prepara-se: segunda
feira você vai mudar de posição aqui na casa.
Mas na segunda feira
alguma coisa mudara. Ele se desculpou. Disse que os seus superiores achavam “que
ainda não era o momento”.
Mais uma vez, engoli o
sapo.
A Rede Mulher de TV
ficou 13 anos no ar e, na minha ótica, sem nunca chegar a ser realmente uma TV
que atendesse aos anseios das brasileiras. Sem nunca merecer realmente o nome
que ostentava.
Entretanto,
nem posso reclamar. Sempre fui muitíssimo bem tratada na emissora. Pude fazer
meus mais de 2000 programas. Fui feliz lá. Não atingi os meus objetivos, não
realizei o meu sonho, mas realizei muitas coisas boas. Tenho, no computador, um
enorme cadastro de telespectadoras que, de um jeito ou de outro, se beneficiaram
do meu trabalho, o que muito me honra e me faz feliz. Convivi com médicos
maravilhosos que emprestavam seu tempo e seu conhecimento para o nosso programa.
Entrevistei pessoas inesquecíveis. Fiz amigos.
Hoje a Rede Mulher
está fechando as portas. Vai se transformar em Record News, um canal de
jornalismo da Rede Record. É o caminho que a administração do grupo escolheu.
E eu, que sou uma
sonhadora incansável, espero que, algum dia, as mulheres brasileiras encontrem
uma televisão que atenda às suas necessidades e anseios. Porque, por enquanto,
não há nenhuma, em rede aberta. Justiça seja feita, uma TV que mereceria o nome
de Rede Mulher é o canal a cabo GNT, da Globo, dirigido por Letícia Muhana e que
contempla muitos assuntos de interesse feminino.
É
preciso dizer ainda que o Waldemar de Moraes, o homem que “inventou” a Rede
Mulher, se tornou um dos nossos melhores amigos. Frequenta a nossa casa, está
sempre presente em tudo o que é importante na nossa vida e é um amigo
queridíssimo, um dos melhores. O mesmo homem que, um dia, me julgou “uma
experiência”.
Hoje eu tenho um
programa numa TV por internet, a All TV. O programa chama-se Só Saúde. É de
segunda a sexta, das 3 às 4 da tarde. É legal, interativo, tem chat com os
internautas participando ali, no momento.
E eu já tenho 56 anos
de idade. Mas, juro, ainda não desisti do meu sonho.
Isabel,
3 de agosto de 2007
Clicando na
foto à esquerda, você
assiste ao programa
Condição de Mulher de 8 de agosto de 1995, quando a emissora fazia um ano de
vida.
Clicando na
foto à direita, você
assiste ao programa Saúde
Feminina de número 1000, de janeiro de 2005.
Os
Filmes do Velho Vasco
(série “Recordar É Viver”)
O
meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos,
sempre foi apaixonado por tecnologia e,
em particular, por cinema e fotografia.
Ele nasceu em 1908 e aprendeu tudo sozinho o que, no seu
tempo,
era o jeito. Aprendeu a ler em inglês só para poder
decifrar os livros (que sabe lá Deus como ele conseguia) de fotografia, cinema,
rádio, ótica...
Pra se ter uma idéia de como, nessa
matéria, ele enxergava longe, em 1967 anunciei que me inscrevera no vestibular
da Escola Superior de Cinema do Colégio São Luiz. A reação dele:
- Você deveria fazer engenharia
eletrônica, minha filha. O futuro da imagem não está no cinema como o conhecemos
mas sim na eletrônica.
Como é que ele sabia?
Aos
18 anos, já era fotógrafo profissional e arranjou uma câmera de filmar.
Nos anos de 1940 era o chefe do
setor de cinema do Consulado Americano em São Paulo e já tinha seu laboratório
cinematográfico.
Em
1937, fez o seu primeiro filme “doméstico” da série que chamou “Recordar É
Viver”. O filme mostra um acampamento que ele e alguns amigos armaram às margens
da represa de Guarapiranga, onde o dono de uma grande cervejaria construíra uma
réplica de um castelo europeu e onde veio a ser instalado o Clube de Campo de
Castelo, vinte anos depois, em 1957. Meu pai foi um dos primeiros sócios do
clube e seu diretor por muitos anos. Lá, tínhamos, nos anos de 1960, nosso barco
e esquiávamos.
Na
metade da década de 50 ele deixou o emprego para dedicar-se inteiramente ao seu
laboratório de cinema, a Vascotécnica Filmes.
Pesquisador incansável,
impossibilitado de importar os equipamentos de que necessitaria para o bom
andamento de sua empresa, começou ele próprio a construir esses equipamentos.
Fez a primeira máquina de redução
de filmes de 35mm para 16mm. do Brasil.
Criou suas próprias máquinas de
revelação, preto e branco e, depois, colorido.
Ajudou os departamentos de
jornalismo das TVs que se instalavam no Brasil (Tupi, em 1950 e Record, em 1953)
instalando máquinas de revelação reversível e produzindo algumas reportagens em
filme, já que o videotape ainda não existia.
É
dele a única imagem que sobrou da inauguração da TV Tupi em 18 de setembro de
1950, imagem essa que hoje pertence ao arquivo da TV Globo.
Em 1967, pressionado pela eterna
dificuldade de importação de materiais e máquinas, fechou seu laboratório
cinematográfico e ficou apenas com seu trabalho à frente do serviço de filme
patrulha do Jockey Club de S.Paulo, serviço que ele próprio instalara no início
dos anos 50. Mas nunca abandonou as câmeras.
Ele nascera em 17 de novembro de
1908 e faleceu em 27 de abril de 1987.
Foi casado, por mais de 50 anos,
com Wanda Gonçalves de Almeida Vasconcellos, minha mãe, que sempre apoiou o seu
trabalho e chegou mesmo a entender bastante da técnica cinematográfica.
Aos
seus filhos, a mim e a meu irmão Alvan, nosso pai ensinou tudo o que pode de sua
arte. Eu, que nasci em 1951, aos oito anos de idade já sabia fotografar e
revelar filmes. E ia para a escola com uma antiga câmera de cinema no formato
extinto de 9,5 mm e filmava meus coleguinhas. Fui fotógrafa como ele, no começo
de minha carreira e agora, nos últimos 20 anos, tenho sido produtora e
apresentadora de TV. Meu irmão, Ronaldo Alvan, nascido em 1936, começou sua
carreira nos departamentos de cinema das TVs mais importantes do país, tendo
sido diretor de programação de afiliadas da Rede Globo, em Minas e na Bahia, e,
mais tarde, da TV Gazeta S.Paulo, além de ter participado da construção da
liderança da extinta TV Excelsior.
Outra figura importante da história
cinematográfica brasileira que foi discípulo de meu pai e começou na
Vascotécnica Filmes é o ator e produtor Pedro Paulo Hatayer que montou depois
sua própria empresa, a Hélicon Film, que existe até hoje no bairro do
Ibirapuera.
Depois daquele primeiro filme de
1937, meu pai continuou registrando nascimentos, batizados, aniversários e
casamentos, de toda a nossa família, até quando vendeu seu laboratório, sendo
que os originais destes filmes cedi, em 2003, ao acervo da Cinemateca de
S.Paulo.
No
começo da década de 90, organizei todos os nossos filmes de família e levei-os
para a Hélicon, onde foram limpos, organizados em carretéis de maior metragem e
telecinados. De posse das fitas de vídeo, organizei uma grande festa para a
família, espalhei monitores pela casa e vieram parentes de todo o país para
assistir a essas preciosas lembranças, que rolaram nas TVs, das cinco da tarde
às cinco da manhã, causando muita emoção e revivendo, inclusive, os nossos
mortos. Hoje estão todos digitalizados e arquivados em dvds de dados e dvds.
Continuei a série “Recordar É
Viver”, a partir de 1987, quando comprei minha primeira câmera de vídeo. Hoje
filmo com uma câmera digital do tamanho de um maço de cigarros e edito tudo, com
a maior facilidade, no computador. Mas também passei pela fase de filmar com a
velha paillard bolex 16mm do meu pai. (tenho a máquina até hoje, em perfeito
estado e funcionando, guardada numa vitrine). Ele me dava as “pontas” de filmes
virgens que sobravam de suas filmagens profissionais e lá ia eu, com no máximo 3
minutos de material virgem em cada carretel, filmar e filmar. Trocava os
carretéis colocando a câmera dentro de um saco de lona preta, absolutamente
vedado e grudado ao redor dos meus braços e, cegamente, usando apenas o tato,
trocava o carretel de filme virgem por outro. Depois meu pai revelava o
material, e eu montava, usando uma moviola. Letreiros eram filmados à parte e
sobrepostos numa segunda cópia ou simplesmente “emendados” em partes do filme.
Tudo feito manualmente. Som? Nem pensar. Era muito caro. Gravava em fitas
magnéticas de rolo a trilha sonora dos filmes e colocava um sinal de
sincronismo. Para assistir, era o filme no projetor e a fita no velho gravador
akai de rolo, ao mesmo tempo.
Hoje...
Hoje meu pai se encantaria com a maravilha das câmeras digitais e a facilidade
com que se monta, se edita, um filme no computador, se sonoriza e se assiste
imediatamente, com um maravilhoso som.
Além dos filmes que registram
eventos familiares como aniversários, batizados e casamentos, meu pai “produzia”
pequenos filmes domésticos com enredo simples, onde ele sempre estava testando
algum novo recurso que conseguira implementar. Tenho particular paixão por dois
desses filmes, que foram feitos na metade dos anos de 1940. O primeiro é uma
brincadeira. Meu irmão Alvan, que deveria ter entre 10 e 12 anos, fêz a câmera.
Os “atores” são meu pai e minha mãe, Wanda, gozando a si próprios na cotidiana
cena da minha mãe querendo ir dormir e o meu pai enterrado nas suas máquinas de
fazer filmes. Chama-se “O Estrilo da Wanda”. Estrilo, pra quem não sabe, é uma
palavra antiga que significa “bronca”, “protesto”. O outro é o registro
“dramatizado” de uma valsa que meu pai compôs para a minha mãe e que leva o nome
dela. O legal deste filme é a trilha sonora. Meu pai mixou as gravações dele
mesmo tocando saxofone e violão. Tocando meio mal, diga-se de passagem, já que
ele era apenas um amador em matéria de música. Mas a valsa é bonitinha e o filme
também.
Você pode assistir aos dois filmes
(são muito interessantes e têm, em média, 4 minutos cada um) clicando nas fotos
abaixo.


Clique:
Foto à esquerda,
veja o filme
"O Estrilo da Wanda"
Foto à direita,
veja o filme
"Wanda Valsa - Hora da Saudade"
Feministas
e Brasileiras
na foto, da esquerda para a direita:
Dra. Albertina Duarte, eu, Amelinha Telles, Vilma
de Oliveira, Alda Marco Antônio, Ida Maria, Floriza Verucci.
Foto do programa Condição de Mulher, TV Gazeta, em
8 de Março de 1986.
No Brasil de 1985, as mulheres
ainda eram organizadas em movimentos, herdeiros das nossas avós sufragistas e
das militantes de várias organizações contra a ditadura militar. Dez anos antes,
sob a mordaça da censura à imprensa e à liberdade de expressão, sob a ameaça da
prisão e da tortura, muitas mulheres trabalhavam para levar consciência política
e da condição social feminina às menos favorecidas.
Nestes tempos ainda não havia
delegacias da mulher, ainda se acreditava que “em briga de marido e mulher não
se mete a colher” e, quando uma mulher, era vítima de violência sexual e
precisava recorrer às autoridades, nas delegacias, encontrava um clima de
deboche e quase sempre era ela própria considerada responsável pela violência
que sofrera. “Se ele te estuprou, foi porque você provocou”.
Também não havia licença
maternidade e a mulher trabalhadora, depois de dar à luz, tinha que voltar ao
emprego imediatamente.
É verdade que, tirando as questões
da licença maternidade e da delegacia da mulher, pouca coisa as brasileiras
conquistaram, na prática, nos últimos 20 anos.
Em
termos legais, depois que se regulamentaram as conquistas femininas, alcançadas
na última constituição, temos um melhor código civil, a mulher casada deixou de
ser cidadã de segunda classe e a legislação brasileira, no que concerne à
mulher, é uma das mais avançadas do mundo.
Na prática, porém, as leis não são
cumpridas. Empresas com mais de 30 funcionárias deveriam, por lei, ter creches
no local de trabalho. Mas quase nenhuma empresa tem. As mulheres trabalhadoras
ainda ganham em média 30% menos que os homens na mesma função.
Por outro lado, a existência das
delegacias da mulher, criadas em 1985, deram maior visibilidade à questão da
violência doméstica. Mas 25% das brasileiras continuam apanhando regularmente
dos companheiros. A licença maternidade e a licença paternidade – conquistas das
mulheres organizadas – criaram na sociedade um maior respeito pela função social
da maternidade.
São conquistas menores do que as
sonhadas pelas mulheres batalhadoras de 20 anos passados. Mas são conquistas. E,
como diria o Dr. Paulo Gaudêncio, nosso grande psiquiatra, na sociedade as
coisas não mudam, elas “vão mudando”, num processo lento e contínuo, no
gerúndio.
Essas conquistas recentes das
mulheres, porém, são sim resultado da atuação de várias organizações femininas.
Em
1985, as brasileiras se mobilizaram nacionalmente para ver incluídas na nova
constituição do país os direitos que elas reivindicavam. 1985 foi também o ano
em que surgiram os conselhos estaduais e o conselho nacional dos direitos da
mulher.
No dia 8 de dezembro de 1985,
entrava no ar, pela TV Gazeta, o meu programa Condição de Mulher, que pretendia,
justamente, dar maior visibilidade às questões sociais femininas e apoiar as
mulheres que se organizavam para colocar suas reivindicações para a Assembléia
Constituinte.
O programa durou muito mais que a
constituinte. No ar pelas TVs Gazeta e Record, foi, em 1994, para a Rede Mulher
de TV e se manteve no ar de 1985 a 1997, sempre discutindo a condição social da
mulher no Brasil e no mundo.
O programa tinha duas madrinhas:
Iara Moya, socióloga e executiva, que sugeriu o nome “Condição de Mulher” e Alda
Marco Antonio, política, engenheira e feminista(na foto, em 1987, no programa).
Alda foi a segunda presidente do
Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo. A primeira, foi a senadora
Eva Blay. Ruth Escobar, nessa época, presidia o Conselho Nacional dos Direitos
da Mulher.
Havia ainda outras mulheres que se
projetavam no cenário nacional, muitas das quais estão na luta até hoje, como a
professora Silvia Pimentel, a médica Albertina Duarte, a jurista, já falecida,
Floriza Verucci (que fez parte do elenco do famoso TV Mulher, da Rede Globo),
Amelinha Telles e tantas outras.
Alda Marco Antonio foi ainda, mais
tarde, Secretária Estadual das Relações do Trabalho, no governo Montoro e
Secretária do Menor, no governo Quércia.
Ela é engenheira, por formação. É
uma mulher bonita, muito alegre, sempre sorridente e, para mim, sempre foi uma
inspiração e um exemplo.
Aqui,
você pode assistir dois vídeos com a participação de Alda
Marco Antonio no meu programa Condição de Mulher.
O primeiro é de 1985 e fala sobre o
8 de março, Dia Internacional da Mulher. Tem um depoimento da Alda, e várias
falas das feministas famosas da época. Clique na foto à
esquerda (Alda e eu no estúdio, 1985).
O
segundo é de 1987. Tem a Alda, a Silvia Pimentel e a Nair Goulart, sindicalista.
O tema é a greve de maternidade que as mulheres islandesas promoveram em sua
reivindicação pela paz. Clique na foto à direita (Alda e
eu, em 2006, no lançamento do meu livro).
Os direitos e o respeito que temos
hoje na sociedade ainda podem estar longe do ideal, mas seriam muito mais
distantes do ideal não fossem mulheres corajosas e batalhadoras como a Alda. A
ela, os meus mais sinceros agradecimentos, o meu respeito e a minha admiração.
Isabel, 19 de julho de 2007
A Série de TV que nunca Foi ao Ar
(e você
assiste aqui a trechos desta raridade, clicando na foto do Tarcísio ao telefone. Mas,
antes de assistir, leia o texto)
Em
1960, Jânio Quadros era o presidente do Brasil, eleito pelo voto popular com a
maior votação da história.
Jânio fez leis exdrúxulas, proibiu o biquini (ai!), a briga
de galo...
Mas, entre as suas determinações, estava a de que, em cada
oito séries de TV, exibidas pelas nossas televisões, uma deveria ser nacional.
Era uma lei protecionista e todos os produtores da época ficaram muito
entusiasmados.
Um capítulo de uma série de TV, produzida no Brasil,
custava na época entre 700 mil e um milhão de cruzeiros. A importada chegava
aqui por 300 mil. Sem a lei, não haveria como concorrer com as importadas.
Foi nessa época que Alfredo Palácios conseguiu produzir e
vender (patrocinar) sua famosa série “O Vigilante Rodoviário”.
Meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcelllos, tinha então um
laboratório e uma produtora de cinema em 16mm. Meu irmão, Alvan, trabalhava na
TV Excelsior, que era líder de audiência. Assim, os dois resolveram produzir uma
série para TV.
Para
escrever a série, chamaram Roberto Freire.
Para dirigir, Antunes Filho.
Para estrelar, Tarcísio Meira e Anik Mavil.
E para contracenar, um monte de atores importantes da
época, como Fulvio Stefanini e Francisco Cuoco.
A série se chamava “Rádio Patrulha” e contava as histórias
de moças atacadas por um bando de “playboys” que as agrediam e marcavam seu
rosto. Tarcísico Meira era o detetive responsável pela investigação dos casos.
Anik, uma das vítimas.
Eu tinha apenas 9 anos de idade quando meu pai e meu irmão
começaram a produzir a série. Tive catapora. E Glória Menezes, então namorada de
Tarcísio, foi me visitar, eu toda cheia de berebas e ela esbanjando suas
lindezas, toda simpática e carinhosa, me consolando no quarto.
Quando
sarei da catapora, uma noite, estava sapeando os artistas na sala de projeção do
laboratório do meu pai e Tarcísio Meira se aproximou de mim. Colocou as mãos
sobre os meus ombros e disse:
- Princesa, me consegue um copo d’água?
Corri para a cozinha, em busca da empregada, com o coração
disparado. Aquele galã... Nunca esqueci.
Depois, de vez em quando, meu irmão Alvan me levava às
locações de filmagem. Eu ficava fascinada com a boite cenográfica que eles
construíram nos porões do teatro Maria Della Costa, onde meu primo Sergio
Marques tocava piano e um montão de atores encenavam a realidade da vida noturna
paulistana do começo dos anos sessenta, que estava a milhões de distância da
realidade dos meus 9 anos de idade.
Todo o
esforço da grande equipe de produção, atores, o investimento do meu pai... tudo
foi em vão, infelizmente. Em agosto de 1961, como se sabe, Jânio renunciou à
presidência e a lei que obrigava as produções nacionais na TV caiu por terra.
Assim, com um custo 3 vezes maior para as séries nacionais contra as importadas,
todos os patrocinadores desistiram.
Sobrou apenas um “copião” do que já havia sido filmado.
Um “copião” é a primeira cópia de trabalho, tem apenas a
cenas filmadas, sem som. O som, no cinema, é colocado depois. Mas o “copião”,
que digitalizei com um fundo musical, ainda que sem falas, é um barato! Você
pode assistir, ver a interpretação de Tarcísio e dos atores, ver a direção do
genial Antunes Filho, ver a fotografia de Carlos Alberto (prêmio Roquette Pinto
de iluminação)a quem eu chamava carinhosamente de “inventor maluco e pipocas”,
porque ele vivia inventando máquinas esquisitas e fazia a melhor pipoca de São
Paulo.
Para assistir trechos do "copião", clique na foto do
Tarcísio ao telefone, acima.
Isabel, 9 de julho de 2007
Wanda Gonçalves de Almeida
Vasconcellos
(22 de fevereiro de 1912 - 17 de
junho de 2007)

A
Wanda, minha querida mãe, teve uma morte muito legal. Sem grandes sofrimentos,
embora os últimos seis meses de vida dela tenham sido um tanto sofridos, mas
também sem grande consciência. Como ela mesma dizia, não sabia mais o que era
sonho e o que era realidade. Mas ela teve uma grande vida, uma vida maravilhosa,
apesar da tristeza eterna pela condição do meu irmão Alfredinho, doente mental.
E
morreu abraçada comigo. A sua última filha. A última a nascer e a última a
morrer.
Um dos
contos do meu livro das bruxas foi escrito por inspiração da juventude dela:
Aurora, a Sufragista. É bem o pensamento das mulheres de vanguarda do começo do
século passado. E foi o conto que ela mais gostou quando, há uns três ou quatro
anos, leu os originais.
Ela
teve a felicidade de viver 60 anos com o meu pai, o grande amor da juventude
dela. Ele fazia serenatas para ela e o meu avô o odiava, o achava um
almofadinha, um "dandy", como se dizia nos anos 1920, que jamais seria nada na
vida.
Ele se
vestia na moda, todo elegante, patinava, nadava no Clube de Regatas Tietê e dava
saltos mortais. Desafios para ele, sempre foram fichinha. Assim, a Wanda, na
vida dele, devia ser mais um desafio. Levaram seis anos para conseguir casar.
Casaram-se em 1933, então devem ter se conhecido em 1927. Minha mãe tinha 15
anos. Já tocava piano e costurava. Ajudava a mãe dela, Amélia, que era modista e
"punha o figurino na janela" da casa quando precisava de dinheiro.
Minha
avó Amélia (na foto com a Wanda em 1916) nasceu na Ilha da Madeira, veio para o
Brasil com a família, que se instalou numa fazenda em Juiz de Fora, MG. Não sei
como ela veio parar em S.Paulo. Talvez pelo seu primeiro casamento, do qual não
teve filhos, talvez por ter ficado viúva muito cedo ou ter se separado, não sei.
Mas o fato é que, um dia, talvez em 1910, conheceu um dentista baiano - José
Clemente de Souza - e teve um caso com ele. Ficou grávida da minha mãe. E ele
foi assassinado, em plena Rua Direita, pela sua outra amante, que descobrira a
gravidez da minha avó. A mulher se aproximou dele com uma arma (seria um
revólver, uma garrucha, uma faca?) escondida sob seu xale e... pum! Acabou com a
vida do meu verdadeiro avô materno.
Depois disso, minha avó Amélia escondeu sua
gravidez, apertando a barriga em cintas muito apertadas. Pegou um navio, foi pra
Portugal com os pais, sempre escondendo a gravidez. Minha mãe nasceu em Juiz de
Fora, na fazenda e, quando Amélia voltou, contou uma história aos pais, dizendo
que pegara a menina pra criar. Só a irmã dela, Maria, de Juiz de Fora, sabia a
verdade.
Desde
pequena, minha mãe se revelou, como a mãe dela, um incrível talento para cortar
e costurar os mais belos trajes. Nunca a vi usar um molde. Ela estendia o tecido
numa mesa grande e mandava ver com a tesoura. Nunca errava.
Quando
a minha mãe tinha 10 anos de idade, Amélia se casou com José Basílio de Almeida.
Aí começou a ter um filho atrás do outro.
A
primeira filha, Janetinha, morreu com um ano de idade depois de comer jaboticaba
com leite (???).
Em
seguida minha avó engravidou da minha tia querida, a Jeannette. Mas estava tão
deprimida que mal se alimentava e a tadinha da Jeannette nasceu tão pequena que
a aliança da minha avó entrava no pulso dela. Jeannette nasceu em 1923.
Em
24, nasceu o José. Em 25, a Maria. Minha mãe ajudou a criar todos, por isso
todos a consideravam como uma segunda mãe.
A
Wanda e o Alfredo(meu pai), depois de um longo namoro não aceito pelo meu avô
postiço, se casaram em 23 de dezembro de 1933. Meu avô não foi ao casamento.
Mas
ele estava errado. Meu pai já era um brilhante fotógrafo e fazia fotos para
empresas, fotos de produtos e imobilárias. Era apaixonado pela tecnologia
daqueles tempos mágicos do começo do século XX. Sozinho, estudava ótica, rádio,
mecânica, cinema.
Começou
a construir as máquinas que não podia importar. Tiveram dois filhos: Alfredinho,
que nasceu em 1934 e Alvan, em 1935.
No
começo dos anos de 1940 meu pai foi contratado pelo Consulado Americano para
fazer a sua divulgação cinematográfica. Viajou por todo o país, dirigindo uma
perua americana, fazendo projeções em praça pública dos documentários dos
Estados Unidos. Ganhava em dólar, tinha acesso às maravilhas importadas.
Minha
mãe foi fazendo uma freguesia de costura na classe alta paulistana. A irmã de
meu pai, Bebé (a outra Isabel Vasconcellos), era casada com um industrial
italiano. Meus pais começaram a frequentar os milionários da colônia italiana,
Ramenzonis e Caravelas da vida. Logo meu pai estava filmando casamentos (uma
coisa sofisticadíssima na época) milionários.
Assim,
foi montando seu laboratório de cinema e ficava horas e horas construindo
máquinas. Foi o primeiro sul americano a conseguir revelar filmes de 16mm
coloridos. Ele construiu a máquina. Construiu também a máquina de gravar som
ótico em película. Minha mãe na alta costura, meu pai filmando a vida da alta
sociedade e ganhando em dólar... Foram ficando ricos. Mudaram-se para um casarão
na Rua Vergueiro onde, inclusive, foram morar as minhas duas avós e os irmãos da
minha mãe.
Desde
os cinco anos de idade, o filho mais velho da minha mãe, Alfredinho, apresentava
problemas mentais. Sem um diagnóstico, meus pais pensaram que poderia ser
congênito e a Wanda decidiu que não teria mais filhos. Naquele tempo não havia a
pílula e ela fez 12 abortos. No último, quase morreu. Então prometeu a Deus que
não faria mais abortos. Foi por isso que, em 1951, eu nasci, na casa da Rua
Vergueiro.
Alguns
anos mais tarde, a ciência médica conseguiu diagnosticar o caso do Alfredinho:
ele tivera encefalite aos 5 anos de idade. Não era, portanto, congênito. Minha
mãe poderia ter tido os seus 12 filhos...
Mas
eu nasci sob a sombra da televisão, que muito mais tarde, seria a coisa mais
importante da minha vida. Nasci em casa, pelas mãos de uma parteira, que se
chamava Amélia, como a minha avó. Mas, no momento em que nasci, todos, na casa
dos meus pais, estavam muito ocupados assisitindo uma partida dos jogadores de
basquete, os Globe Trotterrs, pela recém-inaugurada TV Tupi de São Paulo. Meu
pai queria que eu me chamasse Hazel, mas Alvan, meu irmão disse que, já que eu
nascera em 13 de maio, deveria me chamar Isabel, em homenagem à Redentora Isabel
de Bragança, que, em 13 de maio de 1888, libertara os escravos.
Meu
pai filmou (como filmava todos os eventos familiares) o meu primeiro dia de
vida. O filme foi narrado pelo seu amigo Pedro Paulo, vinte anos mais novo que
ele, que até hoje é nosso amigo e frequenta a nossa casa. Rimos, quando digo que
o Pedro Paulo é uma “herança” que meu pai deixou para mim. Pedro Paulo é
produtor de cinema e video, com prêmios internacionais, é locutor e ator (fêz
filmes da Vera Cruz) e uma das pessoas mais queridas da minha vida, sempre
presente, embora tenhamos passado uns 20 anos (de 1970 a 1990, mais ou menos)
sem nos ver.
Em
1955, meu pai construiu uma casa em Santo Amaro, num terreno que comprara para
morar perto do seu irmão Raul, que se mudou antes de a casa ficar pronta...
risos. A casa era uma lingüiça. Ia de um quarteirão a outro. Na frente, a casa.
Com um monte de quartos, porque moravam muitas pessoas lá. Depois, o atelier de
costura da minha mãe e o laboratório de cinema do meu pai, com entrada
independente.
Minha
infância foi maravilhosa. Cresci ouvindo minha mãe dizer, sobre os homens: “por
que que é um direito para eles e outro para nós?”
A
Wanda me vestia, com as roupas maravilhosamente cortadas e costuradas por ela.
Ela me vestia por dentro de por fora. Era uma mulher generosa, amorosa e
absolutamente prática. Se o mundo caía, ela pedia uma alavanca porque precisava
levantar o mundo. Ela administrava as finanças da família. Meu pai nem sabia
quanto ganhava e quanto gastava. Perguntava para ela:
-
Wanda, será que posso comprar um carro novo? Um barco?
O
barco era um pesadelo pra ela, que nunca aprendeu a nadar. Ficava nervosa, vendo
a gente esquiar.... risos. No clube, armava uma rede, nas árvores da praia, e se
sentava de costas para a represa do Guarapiranga, onde nós, campeões de esqui
aquático, levávamos nossos tombos.
Nos
natais, a família, espalhada pelo Brasil, vinha inteira para a nossa casa.
Era
uma festa! Na enorme sala de projeção do laboratório do meu pai, armávamos uma
mesa enorme, para 40 ou 50 pessoas. Foram anos de alegria e prosperidade. E a
minha mãe comandava os natais, que, até hoje, são lembrados com carinho por toda
a minha legião de primos.
Havia
uma outra personagem na casa: a Leca. Ela fora uma “agregada” na fazenda da
minha avó. Veio morar com os meus pais não sei quando. Cuidava da casa,
cozinhava almoços para 15 pessoas, administrava os empregados e ajudou a me
criar. Dormia no meu quarto e quando morreu, em 1960, eu costumava vê-la na
escuridão do aposento. Nunca tive medo do fanstasma da Leca, eu a amava.
No
fim dos anos de 1960, meu pai vendeu seu laboratório de cinema. Já não se podia
importar sequer a matéria prima, os filmes, e ele estava cansado. Depois vendeu
a casa. Meu irmão Alvan estava fora de S.Paulo, fazendo sua carreira na TV.
Alfredinho passava quase todo o tempo internado em algum instituto para doentes
mentais. Minhas avós haviam morrido. A Leca também. E estávamos, apenas nós
três, naquela casa enorme. A venda foi um péssimo negócio: vendeu a prazo, sem
correção monetária e, no mesmo ano, começou o inferno da inflação galopante.
Eu fui
para a Bahia, com meu irmão, que dirigia lá a TV Aratu, porque ele temia pela
minha integridade, já que eu estava metida nos movimentos estudantis da esquerda
e vivíamos a ditadura militar.
Quando
voltei, descobri que meu pais haviam empobrecido. Morávamos de aluguel, numa
casa muito boa e meu pai só tinha seu salário de diretor do serviço de Filme
Patrulha do Jockey Club de São Paulo. Minha mãe ainda costurava, mas suas
freguesas ricas haviam sumido. Foi nesta época, anos de 1970, que o dinheiro
começou a ser um pesadelo na vida da minha mãe.
Mas,
sinceramente, ela soube administrar o pesadelo.
Vivi,
com meus pais, na casa alugada por uma década. Com uma interrupção, quando morei
e trabalhei na Bahia, em Salvador.
Trabalhava como publicitária, era boêmia, revoltada com a ditadura e com um
monte de coisas. Sei que eles ficavam acordados até eu chegar, alta madrugada.
Mas nós fomos felizes.
E
minha mãe jamais perdeu a dignidade.
Quando
eu chegava do trabalho na agência de propaganda, invariavelmente, todos os dias,
de segunda a sexta, encontrava meu tio Raul (que também saíra de seu trabalho e
ia para lá) tocando cavaquinho, a acompanhar minha mãe ao piano e meu pai ao
saxofone.
Em
1983, conheci o Caetano e fui morar com ele. Dois anos depois nos mudamos para a
Paulista, onde estamos até hoje.
Em
1984, fui para a TV e lá fiquei.
Em
1987, meu pai morreu.
Minha
mãe se comportou com toda a dignidade e continou na casa, onde também viera
morar meu irmão Alvan, divorciado e trabalhando como diretor da TV Gazeta.
Já não
existiam os natais memoráveis e prósperos, mas continuaram existindo as festas,
os natais menos concorridos, os almoços de domingos.
E lá
estava ela, que aprendera a cozinhar com 60 anos, fazendo seus cozidos
portugueses, suas feijoadas e seus inesquecíveis bifes.
Em
1990, meu irmão Alfredinho veio passar um tempo em casa, saindo do hospital
psiquiátrico, e nunca mais voltou para lá. Ficou vivendo com a minha mãe, que
cuidava dele.
Em
1998 meu irmão Alvan se mudou para Campos de Goitacazes, onde mora o filho dele,
e eu achei que era demais deixar minha mãe, então com 86 anos, morando sozinha
com meu irmão doente. Batalhei, encontrei um apartamento lindo no prédio onde
moro e aluguei pra ela. Morri de trabalhar para deixar o apartamento (que estava
fechado havia anos) em ordem. Mas ela não gostou. Dizia que eu a trouxera aqui
para morrer. Dois anos depois, meu irmão Alvan, deprimido e sem trabalho, também
veio morar com ela.
Ficaram
os três aqui até 2003., quando eu não tinha bons patrocínios na TV e não podia
mais ajudar a pagar a conta dos três. Então eles se mudaram para um apartamento
de férias que minha tia Jeannette tinha na Praia Grande. Minha prima Beth, filha
da Jeannette, já morava na Praia há alguns anos. Alvan adorou a idéia de morar
na praia, afinal ele morara anos no Rio e em Salvador, quando fora um bem
sucedido diretor de várias TVs. Mas minha mãe sempre odiou morar lá, reclamava
muito. Em 2004, Alvan morreu de câncer.
Em
2005, num fim de semana, fui para lá e encontrei minha mãe desesperada. Disse
que não aguentava mais morar lá, que os vizinhos discriminavam o Alfredinho, que
ela estava cansada e que queria ir “para um asilo” e queria que eu internasse o
Alfredinho.
Minha
mãe estava com 93 anos. Era natural que estivesse cansada.
Quase
morri. Encontrar uma clínica psiquiatrica hoje em dia não é fácil. Mas
encontrei, depois de muita batalha, em Hortolândia. Conversei com meus amigos
médicos. Minha mãe estava começando a ficar mentalmente confusa. Internei meu
irmão em Hortolândia e trouxe minha mãe para morar numa casa de idosos,
absolutamente maravilhosa, no Brooklin. Lá, ela tocava piano, fazia ginástica,
tinha todos os cuidados profissionais e era a interna que mais visitas recebia.
Além de que vivia saindo, para ir a casa dos meus primos, vir almoçar aqui em
casa, vir nas festas. Mas, mesmo assim, parte da minha família moveu uma
verdadeira campanha de difamação contra mim, via internet, porque eu a colocara
numa casa de idosos.
Lá,
ela era conhecida por “pimentinha”, porque sua energia continuava sendo muita.
Em 22
de fevereiro de 2007, quando ela completava 95 anos de idade, passou mal e a
levamos para o hospital. Teve a perna direita amputada e, daí pra frente, nunca
mais, graças a Deus, voltou a ter completa lucidez.
Eu ia
vê-la todos os dias, tomávamos café no jardim, mas ela não estava bem, não
raciocinava mais e me disse um dia que sonhava muito mas que já não sabia mais o
que era sonho e o que era realidade.
No
dia 6 de maio de 2007, meu irmão Alfredinho morreu subitamente de infarte.
Então
eu soube que ela finalmente estava livre para partir.
No dia
16 de junho fui vê-la e a encontrei muito prostrada, quase não falava, mas ainda
me dava seus beijinhos.
No dia
17, um domingo, ela já não me dava mais beijos. Fiquei horas com ela, consegui
dar-lhe um café e só vim embora porque as enfermeiras me garantiram que ela
estava bem, pressão 12x8, sinais vitais ok. Entrei no carro, liguei o rádio.
Estava tocando uma música que eu nunca ouvira. A letra dizia: “por que é que
você não me beija mais? Por que me olha como se não me visse? Acho que é hora do
adeus”.
Quase
dei meia volta com o carro, mas pensei que as enfermeiras iam me achar louca.
Vim pra casa. Meia hora depois a enfermeira dela me ligou:
-
Isabel, venha pra cá. Os sinais vitais da sua mãe desapareceram. Estou fazendo
massagem cardíaca e ela está no oxigênio. Traga uma ambulância.
Cheguei lá antes da ambulância. A enfermeira da ambulância disse:
-
Não vou levá-la. Não adianta mais.
Perguntei:
- Ela
está morrendo?
Estava.
Eu a
abracei e disse: Mãezinha, vai com Deus.
E ela
morreu.
Foi
uma morte linda. Assim como foi linda a sua vida.
Minha
amiga, Fátima Turci, que só esteve com ela uma vez, quando ela já tinha 94 anos,
reconheceu a sua força.
Minha
amiga Leda, que a conheceu, com 90 anos, também.
No seu
enterro, parentes e amigos queridos, muitos que desfrutaram de seus melhores
tempos.
Minha
mãe viveu uma vida maravilhosa. Era uma mulher forte, corajosa, e eu devo a ela
o meu feminismo, que é o melhor de mim, e a minha capacidade de amar, que, entre
outras coisas, me mantém com o meu amor, Caetano, há 24 anos. Aprendi tudo com
ela. E a tive a felicidade de vê-la morrer em meus braços.
Isabel, 5
de julho de 2007
Adeus, Alvan, Pioneiro da TV
Alvan
era meu irmão. Mas, muito além disso, ele foi um dos pioneiros da TV brasileira.
Um homem que dedicou toda a sua vida à televisão e que, nos últimos anos,
andava realmente inconformado com o baixo nível que tomou conta da nossa
telinha.
Jamais, porém, deixou de assistir
a todos os canais, com aquele olho crítico que esquadrinhava cada canto da tela
e que sacava toda e qualquer bobagem que escapasse da boca dos apresentadores,
inclusive da minha.
Com ele, ao longo de uma vida, eu
aprendi tudo, tudo mesmo, sobre fazer TV. Até as complicações técnicas.
Alvan
começou (como eu
também) a lidar com as imagens no laboratório de cinema do nosso pai. (Na foto,
ele, mocinho, vigiando a máquina de revelar filmes).
Quando a TV chegou ao Brasil, em
1950, ele fez estágio na Tupi. De lá saiu para trabalhar na TV Paulista, canal 5
(a Globo nem existia...), depois TV Excelsior de São Paulo e do Rio. Nessa
época, a Excelsior era a líder de audiência.
Já no meio dos anos sessenta
começou a organizar emissoras por esse Brasil afora, como a TV Vila Rica, de
Belo Horizonte e outras. Passou 10 anos na TV Aratu, então afiliada à Rede
Globo, nos anos setenta, onde era responsável pela programação (naquele tempo
não havia a facilidade do satélite, só havia um canal da embratel e as afiliadas
tinham uma grande programação local).
Da Aratu foi para a Bandeirantes
Bahia e, depois, no começo dos anos 80, veio dirigir a programação da TV Gazeta
de S.Paulo. Foi só em 1984, quando eu comecei na TV com meus programas médicos,
que tive a oportunidade de trabalhar com ele.
Dez
anos depois fomos, os dois, para a Rede Mulher, que estava inaugurando sua
emissora em S.Paulo. Alvan ficou lá conosco até 1998. Eu continuei e estou lá
até agora.
Alvan conviveu e trabalhou com os
grandes homens da TV brasileira. Boni, Lafon, Alberto Maluf, Mauro Salles,
Waldemar de Moraes, Milton Zanella, Marco Aurélio, Johnny Saad e muitos outros.
Além disso, porque reestruturou muitas emissoras, acabou ensinando muita gente,
muita gente mesmo.
Um dia, em 1991, a TV Manchete
(hoje Rede TV) veio aqui em casa me entrevistar. O câmera viu uma foto do Alvan.
Quando soube que eu era irmã dele se derreteu: - Nossa! Eu devo ao Alvan tudo o
que sou na vida. Comecei na Bahia, na TV Aratu, não sabia nada, ele me ensinou
tudo.
Quando contei ao Alvan esse
episódio, ele mal se lembrava do rapaz. Pudera! Tantos e tantos passaram por ele
e com ele aprenderam.
Um
dia desses eu estava na maquiagem da Rede Mulher com a Sula Miranda, cujo
programa entra no ar logo depois do meu. A TV estava ligada e eu fiz um
comentário qualquer sobre um deslize de uma apresentadora. E a Sula:
- Nossa, Isabel! Ver TV com você
é fogo mesmo! Você não deixa passar nenhum detalhe. Espero que não fique
assistindo o meu programa!
Eu ri. É a síndrome do Alvan!
Aprendi com ele e vejo, principalmente, os meus próprios deslizes, pois assisto,
todos os dias, a gravação do meu programa, que é transmitido ao vivo.
Muito
exigente com a qualidade do que vai ao ar, assim era o Alvan.
Eu espero que, no céu, haja uma
ótima TV onde ele esteja agora dirigindo a programação... Alvan morreu no dia 7
de junho. Tinha completado 68 anos em 22 de maio.
Os frutos do seu trabalho, no
entanto, estão espalhados pelas TVs do nosso Brasil, pelas mãos de tantos
profissionais que aprenderam com ele muito do seu ofício.
Isabel, 9 de Junho de 2004
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