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TEATRO DO

COTIDIANO  

Jornal O Diário Popular - (algumas) Crônicas de Isabel Fomm de Vasconcellos

                              publicadas de 1977 à 1984

 

Foram 331 crônicas dominicais, de 22 de maio de 1977 a

8 de abril de 1984.

 

Índice

 

8. 1980 02 10

Nós, Encharcados

7. 1978 02 26

Macunaíma no Verão Paulistano

6. 1981 06 07 - Andrea e o Amor

5. 1981 11 08 -

Vem Aí Mais Um Natal

4. 1982 10 31 - Transferências

3. 1983 10 02 -

Mais Uma Espécie em...

2. 1977 10 23 -

Em Branco

1. 1977 07 17 - Desespero de Contribuinte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1980 02 10

Nós, Encharcados

 

Como sempre, eis Macunaíma na fazendo das suas no verão. Desta vez São Paulo tem 192 pontos sujeitos à enchente, o que significa 19 pontos a mais que o verão passado.

“É Macunaíma” - reforçam as autoridades, quando perguntadas. Culpa do povo, que até sucatas de automóveis joga nos bueiros e galerias. Pensa se numa campanha educativa, mobiliza-se gente, recursos, sempre em número astronômico, para tentar impedir as enchentes ou socorrer suas vítimas.

A todas essas, o anti-herói se diverte. A represa do Guarapiranga vai, em ritmo acelerado, atingindo seu nível, para a glória dos esquiadores. E pra se falar em Brasil, outras represas ameaçam seriamente a vida das populações ribeirinhas do São Francisco, onde – entre Petrolina e Juazeiro – a água atinge a espantosa cifra de seis mil e oitocentos metros cúbicos por segundo. Será mesmo Macunaíma? Certo é que nosso anti-herói se diverte.

Desde 9 de dezembro não se vê céu azul limpo em São Paulo. E Macunaíma, vai requintando suas estrepolias. Nos verões passados contentava-se em cobrar fortunas para empurrar carros afogados nas enchentes do centro da cidade; em assaltar mocinhas, esquecidas da bolsa na preocupação de segurar as saias e, até mesmo, em perseguir objetos que a enxurrada carregava.

Mas, neste começo de década, pretende aprimorar suas diversões. Mais algumas semanas de chuva e Macunaíma fará brotar pequenas ervas por entre os úmidos cabelos dos paulistanos, ervinhas verdes que combinarão perfeitamente, num ritmo dégradé, com o esverdeado constante das peles enfurnadas e morrerá de rir dos músculos atrofiados, subitamente transformados em esponjas. Vai fazer brotar algas de açafrão nas roupas estendidas nos varais. Colocará ainda mais água nas nossas gasolinas e em nosso leite. E fará grandes pescarias na umidade relativa do ar.

Enquanto isso, as autoridades continuarão culpando o povo e sua falta de educação por todas as calamidades causadas por enchentes. Mais um ano passará, investirão o dinheiro do povo em providências preventivas insuficientes e, quando outro verão vier, a história se repetirá. Macunaíma leva a culpa. Mas nós, encharcados de desesperanças, já estamos acostumados.

Isabel Fomm de Vasconcellos

1980 02 10

Publicado no Jornal O Diário Popular


 

 

 

 

 

1978 02 26

 

Presença de Macunaíma no Verão Paulistano

(Reprodução Diário Popular)

 

(em cinco "takes" rápidos)

1.
Pitoresca, a cadeira do fiscal de ônibus desliza pela correnteza do subitamente renascido Rio Anhangabaú. Um transeunte sugere que talvez seja possível aproveitar a enchente para fazer um surfezinho na tábua do metrô. Uni gigantesco tapume que ataca os nadadores do Vale. Os moleques- - nem tão abandonados quanto se pensa - estão cobrando 100 cruzeiros para empurrar os carros- que param dentro d’água. Motoristas em pânico. O céu, repentinamente negro. Macunaíma salta do Viaduto do Chá. E arrebenta a capota de um carro que não estava no seguro

2.
Amélia, a maquiagem escorrendo em borrões tecnicolor, sentir-se-ia mais à vontade no maiô do Ataulfo. Ergue o vestido florido, última moda de verão, descalça os tamancos (a moda exige saltos de 10 cm de altura) e, água pelos joelhos, chega a tempo de esmurrar a porta do ônibus. Algo, cinco dedos submersos beliscam lhe a perna.

3.
Os bilhetes da Federal talvez carreguem a sorte grande para dentro dos bueiros, inventando uma nova versão das lendas de Cobras Grandes, dos monstros e das entidades subaquáticos. Macunaíma lamenta a cidade no planalto. Fosse urna dessas capitais de litoral e teria ele alguns desabamentos em morros. Para distrair-se, sabem como é.

4.
A chuva e a escuridão parecem durar pouco mais de três quartos de hora. Pessoas presas nos elevadores. Telefones enguiçados. Galerias estourando. Negócios desfeitos. Amantes desencontrados Desastres automobilísticos. Tudo bem rápido. Em ritmo de cidade grande.

5.
Macunaíma salta tentando alcançar a cadeira do fiscal. Mas ela já desaba, rumo ao Buraco do Adhemar. Uma onda mais forte e Macunaíma, leve como uma pluma, sobe. Do, terraço do Itália, repentinamente incorporando certos poderes biônicos, Macunaíma dá "uma geral" pela São Paulo enegrecida. Quinze minutos de água e a lembrança de Atlântida já seria café pequeno. Desesperado ante a falta de perspectivas para armar maiores estrepolias, o anti-herói caminha de volta à sua prateleira da Biblioteca. Não sem antes, é claro, entrar num cinema para ver a última pornochanchada.

Isabel Fomm de Vasconcellos

 

 

 

 

 

1981 06 07

Andrea e o Amor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andrea,

patinando na casa de barcos do Castelo

e junto à lancha de seus pais.

 

 

 

Qui, 22:27

Diga "oi" ao seu novo amigo do Facebook, Lebos.

 

Lebos Chaguri

seja bem vinda. Não sei se lembra mas quando eu tinha uns 12 anos você escreveu em um jornal um conto de mim e uma

amiga no entardecer do Castelo, isto a quase 40 anos. rsrs

09:45

Meu Deus! Que legal. O castelo anda me rondando nos últimos tempos. Deve ter sido no Diário Popular.

Tenho as páginas encadernadas, vou ver se encontro, digitalizo e te mando, ok? Ou vc, por acaso, guardou?

Hahahaha.... Legal mesmo, fiquei feliz.

 

Não pois apenas você me mostrou na época rss , lembro como se fosse hoje, mas se encontrar me envia

14:45 fig

 Lebos, achei. Sou organizada, tá vendo? hahaha...

 Nossa. qua máximo. Ate me emocionei. Obrigado

 

 

1981 11 08

Vem Aí Mais Um Natal

 

 

Isabel Fomm de Vasconcellos Vou mandar o meu livro de contos de Natal para adultos de presente pra esse papa. Ele é o máximo! Há anos venho escrevendo contos de natal, todos os fins de ano, para dizer exatamente o que ele disse em duas frases! Bingo!

Elizabeth Krausz Isabel Fomm de Vasconcellos envie mesmo.

Isabel Fomm de Vasconcellos Elizabeth Krausz já peguei o endereço:
Sua Santità Francesco …Ver mais

Elizabeth Krausz Isabel Fomm de Vasconcellos muito bom.Parte inferior do formulário

Isabel Fomm de Vasconcellos Beth (Elizabeth Krausz) vc pode não acreditar, mas juro que é verdade. Me escreveu hoje, aqui no Face, um rapaz dizendo que eu publicara um conto no jornal onde ele era personagem, no Castelo. Fui procurar a matéria no meu arquivo de papel e achei. Mas, quase sem querer, achei uma outra crônica , datada de 8 DE NOVEMBRO DE 1981... Dá uma olhada! Tem tudo a ver com o que conversamos HOJE, 8 de Novembro de 2019... trinta e oito anos depois,..

Elizabeth Krausz Tão atual. Mande para o Papá também. Perfeita a sua definição de caridade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1982 10 31 
Transferências

De repente, apareceu no meio do meu dia, urna borboleta -- disse o homem -- uma borboletazinha de três cores, chatinha, voando sempre em torno de mim. E tanto a danada voou e voou e dava de aparecer nas horas mais impossíveis, no meio de uma reunião, na sala de jantar, entre as páginas do meu livro, dentro do meu carro... E tanto apareceu, e tanto voou que eu acabei aprendendo a conversar com ela. Percebo as linhas que traça em seu vôo. Entendo-lhe os sinais. Decifro-lhe os símbolos. E vejo se lhe se confundirem as cores, as tímidas três cores, quando ela rodopia. E, na sua linguagem de símbolo e dança, ela me conta histórias de mim, que eu já esquecera por cansaço. Ou teimosia.

Ela é uma bruxa. Trouxe o polén das flores da memória e depositou-o em minha pele e fui fecundado pela magia dos pensamentos. O mundo cotidiano, o trabalho, tudo ficou choco. E me senti muito velho, apenas um homem e um remo num lago num jardim.

Foi então que percebi: estava vendo o mundo de outra forma, com novos olhos. E fiquei jovem outra vez. Só me falta descobrir como transformar essa bruxinha em gente.

E, enquanto leio antigas obras de ocultismo, magia negra, velhos textos de alquimia, até em sânscrito já estou lendo e, enquanto pesquiso de Walt Disney aos trombriandeses, ela simplesmente voa ao meu lado, gozadora, esperando... o que? Que eu a desencante com um beijo? Ora, se ela fosse uma rã já seria bem difícil. Agora me diga, meu amigo, como é que se faz pra beijar borboletas? Ainda mais borboletas como essa. Borboletas loucas, doidinhas de grade, borboletas rodopiantes, saltitantes? Ela está aqui ao meu lado, agora, voando ao redor do meu copo. Sim, __eu sei que você não a vê, não consegue vê-la. É outra de suas bruxices. (ela só faz bruxices, nunca bruxarias): tornar- se invisível para que as pessoas pensam que eu sou louco, que ela não existe, Porém isso foi uma das coisas que realmente aprendi nos últimos tempos, isto é, depois que ela apareceu: não me importa mais o que pensam os outros. Já não são mais o Inferno.

O que eu quero e preciso agora é desencantar essa bruxinha de três infinitas cores. Quero descobrir sua forma humana. Depois, certamente, ela irá bruxulear em outro careta, pra mostrar-lhe outro mundo. Não terei ciúmes. Afinal, é apenas uma borboleta.

E, depois disso, o homem levantou e se foi, perguntando por aí, a todo mundo, quem ouvira falar em lenda ou conto de fada que contasse, à semelhança do sapo que virou príncipe, alguma história de borboletinhas que viravam bruxas.

Mas essa história parece ter tido um happy end. Pois eu vi esse homem, dia desses, num engarrafamento de trânsito. Estava muito bem, jovem, com os olhos brilhando e tinha, junto dele, uma mulher morena, de olhos amendoados. Agora sou eu quem anda por aí olhando ao redor, atento ao menor sinal, ao menor indicio de um bater de asas de borboleta.


 

1983, Outubro, 02

 

Mais uma espécie em extinção
(Nesse caso, porém, graças a Deus!)

Esses homens — essa paródia de homem — esses que vivem em função do dinheiro, atrás do poder, essas aberrações da natureza, a eles devemos tolerá-los com paciência e compreensão. O mesmo se estende a todo o séquito de imbecis menores que lambem as botas dos imbecis maiores. Devemos ser tolerantes para com eles. E compreender a necessidade de sua existência assim como podemos compreender a necessidade do macaco ou do homo abilis na escala evolutiva.

Dentro da loucura que significa passar, em pouco mais de um século, da tração animal ao componente eletrônico que leva e traz um pouco do Cosmos, à era do computador e da nave interestelar, é possível compreender a perplexidade do homem. Diante do que ele mesmo cria.

É possível compreender a corrida desenfreada por um poder que, de repente, será subitamente revelado e poderá não estar na "sua" mão. É a máquina. É a ciência deste século que criará um homem melhor.

Não me parece ilógico que, para chegar a esse hipotético homem que construirá um hipotético mundo melhor, tivéssemos realmente que passar pelo homem mercenário, obcecado pelo poder. Mas é o filho desse homem quem vai ajudar a destruir uma mentalidade retrógrada. Essa, que vê na vida apenas um eterno jogo, um palco para um contexto sem sentido, uma busca idiota desse poder que é, na verdade, um poder menor. Extremamente frágil. Inseguro e gerador de úlceras, infartos e dos mais variados tipos de câncer.

As crianças da era da máquina terão, certamente, um cérebro adaptado a outras funções. Reaprenderão o diálogo com tudo o que está vivo. A máquina, a convivência com a dinâmica moderna da comunicação, liberará os cérebros. A criança da era da eletrônica será mais poeta, mais artista. Por isso, tenhamos paciência com os inescrupulosos idiotas. Atenção, porém, para eles, quando manejam armas atômicas, por exemplo. Ou manobram a vida e o destino de milhões de outros homens.

Sejamos pacientes, afinal: vamos enforcá-los lentamente. Eles já são uma espécie em extinção como um dia o foram os homens de cro- Magnon.

 

 

 

 

 

 

 

1977, outubro, 23

Em branco
 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Dia besta, igual a ,todos os outros dias. Estava tão distraído que nem olhou para o carro parando junto ao seu, balbúrdia da estação.

 

Tivesse reparado, a teria visto.

 

Desceu o poço escuro em direção ao trem. Quase esbarrou nela quando colocou o bilhete para passar pelo bloqueio. Enfiou a cara no jornal e ela não o percebeu na mesma composição. Saiu depressa. Muita gente. O subterrâneo sufocava. Ajudou com os músculos o trabalho da escada rolante, saltando degraus, como se tivesse pressa, como se alguém o esperasse. Besteira. Não havia nada, ninguém. Mania mesmo, de andar apressado. O tempo, devagar. Fôra ao centro da cidade apenas para se enfiar num cinema, pro tempo passar. Dia besta. Tudo sempre tão igual.

 

Atravessava a avenida quando ela o avistou.

 

O sinal fechado impediu-a de, ao menos, tentar gritar-lhe o nome. Ele... Ah... Seria inútil gritar. A rua cheia de gente. Ela nem mais lembrava o nome dele... Ficou ali, vendo sem ver, o vulto dele sumindo, fugindo, misturando-se à massa, cabeças, pernas, bolsos. Ficou ali, os braços desajeitados, pesando nos ombros, compridos e inúteis braços. Ficou. O coração querendo sair, espalhar-se pela avenida, na repentina avalanche de recordações. Os olhos querendo detê-lo.

 

Ele seguia, rumo à escuridão, outra vez perdido dentro da escuridão da cidade, escuridão dos dias bestas, sempre iguais.

 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Estava tão distraído que, ao entrar no cinema, não reparou nos pensamentos dela tentando alcançá-lo.

 

Não viu.

 

Não viu a tarde desabando em súbitos azuis e lilases e os sinos repicando e as bruxas cruzando o céu. Não viu dos muros crescerem as ervas, a terra de leve rachando sob o asfalto escaldante. Dia besta, pensou, sem ver que dos olhos dela o amor saía lentamente furando o trânsito congestionado.

 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Caminhou pela escuridão, seguindo o rumo dos luminosos fantasmas da tela.

 

 

 

 

 

 

Desespero de Contribuinte (Uma Cidade Sem Amor)

 

(obs em 2018: Essa crônica teve seu título mudado pelo meu então editor do jornal, Carlos Acuio. Ele acreditava que a censura implicaria com o título original porque, naquele tempo (1977) a ditadura militar não permitiria que o contribuinte ficasse desesperado... rsrsrs... juro por Deus, galera!)

 

 

 

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