Isabel

Vasconcellos

 

 

Textos

meus que você encontra aqui: Adeus, Fogão! ;Monogamia: Uma coisa Torta/ Carro: O Máximo da Cafonice /Conto-O Médico e o Marketing/     Automóveis: Egoístas, Assassinos, Poluidores e Cafonas/

Enfarte é Coração Partido/CONTO: "COMO UM CLONE"/

A VOLTA DAS BRUXAS/ Homenagem à Diná Lopes Coelho/ História Oculta das Mulheres

Sua Infelicidade Convém aos Poderosos / PAPO DE SUFRAGISTA/ Se Você Fosse Um Homem

Você Não É Sexualmente livre / EU NÃO SOU FEMINISTA!! / História das Minhas Flores (com vídeo)

A Primeira Feminista Margaret Sanger, A Pioneira da Contracepção

 Adeus, Fogão. (para ver o vídeo do fogão, clique aqui)

No dia 13 de novembro de 1992 eu comprei um fogão novo. Lindo e brastemp. De seis bocas, com um forno maravilhoso. Naquela época tínhamos uma empregada espetacular e baiana, que morava conosco. Era a Ritinha. Também morava aqui em casa o filho do meu marido. Minha mãe e meus dois irmãos ainda estavam vivos. E ganhavamos muito dinheiro.

Dinheiro que gastamos devidamente fazendo altas festas, com mordomias, vinho francês e garçons, para os nossos amigos, e maravilhosos almoços preparados pela Ritinha. Fizemos almoços baianos (com todos os pratos dos orixás) e grandes almoços de Natal.

Em 1993, houve um absolutamente inesquecível. Era um almoço de boas vindas para uma prima que ainda não me odiava e estava chegando da Índia. Era março e estava um calor do cão. Todas as pessoas estavam absolutamente felizes e tomaram litros e litros de vinho branco. O almoço começou às 11 da manhã e às 11 da noite ainda não tinha terminado.

Estou contando tudo isso porque o meu fogão brastemp foi personagem importante em todas essas comemorações por muitos e muitos anos.

E foi exatamente porque esse fogão proveu momentos gastronômicos sensacionais nesta casa que eu me despedi dele, ontem, com um beijo e uma prece de agradecimento.

Hoje não fazemos mais almoços.

Toda a nossa comida é congelada e arroz e até macarrão eu faço no micro ondas. Empregada, só uma vez por semana e apenas para a limpeza. Sanduiches e stakes congelados são feitos na maravilhosa grelha-sanduicheira que a minha amiga (irmã) Leda me deu. Então, fogão pra que?

O maravilhoso e festejado fogão virou apenas um trambolho inútil, ocupando um espaço imenso na cozinha do apartamento. Isso sem falar nos dois botijões de gas atravancando a area de serviço.

É engraçado como as coisas mudam.

Agora, aqui em casa, não tem mais fogão.

Fogão, uma peça que foi tão fundamental na vida da gente.

Esta é a tendência. Cada vez mais os serviços domésticos se tornarão serviços profissionais. Comida delivery, congelada. Empresas de limpeza doméstica que entram pela sua casa adentro todas as manhãs e , em 15 minutos, fazem o que você levaria duas horas para fazer. Flats. Sofisticadas lavanderias.

Mulheres estarão, afinal, livres para viver plenamente (como os homens sempre fizeram) suas carreiras profissionais.

Todos os fogões domésticos serão coisas do passado...

Monogamia: uma coisa torta.

Deve ter sido quando, finalmente, o macho da espécie humana compreendeu que ele tinha sim um papel na concepção e que a mulher não era exatamente aquela misteriosa deusa que, ao expor seu ventre à luz da lua, passava magicamente a gerar um novo ser; deve ter sido aí, neste momento de compreensão, que foi inventada a monogamia.  Afinal, já que o homem tinha um papel na concepção, tornou-se importante garantir que o filho era mesmo dele. Para fazer isso, só impedindo que a mulher tivesse relações com outros homens. Surgiu a posse. E, de mágica deusa, a fêmea passou a ser mais um objeto entre todas as possessões dos homens.

O sexo deixou de ser sinônimo de alegria, liberdade, realização e passou a ser o que é até hoje: a exclusividade neurótica e ciumenta, moeda, fator de troca, comércio, chantagem. E a coisa foi ficando tão neurótica que, quando apareceu o cristianismo, era preciso dizer que o filho de deus só poderia ter nascido de uma virgem, ou seja, uma mulher “pura”.

Deu no que deu.

Hoje em dia, herdeiros dessa cultura horrível e engessadora da verdadeira alegria do prazer sexual, apesar dos motéis e de uma suposta e hipócrita liberdade, vemos em muitos adultos o comportamento doentio e infeliz com relação ao sexo. Crimes passionais. Vinganças torpes por aquilo que chamamos de “traição”, lágrimas, violência, sofrimento. Tudo por aquilo que deveria ser a maior fonte de saúde e prazer dos humanos: a alegria do sexo bem feito, sem culpa, sem vergonha, sem posse, sem neurose.

Não nos iludamos mais. Não somos monógamos. Heteros, bi ou homossexuais, por mais que amemos profundamente um parceiro e vivamos felizes com ele, desejamos sim outras pessoas que eventualmente aparecem nas nossas vidas. E, se renunciamos ao desejo, apenas para não “magoar” o nosso amor, sobra um vácuo, um vazio, um querer eternamente reprimido. O poeta Fagner disse melhor do que eu: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar”.

Realizar um desejo sexual não tira pedaço de ninguém. Não é traição, nem sacanagem. O problema é que fomos criados com essas idéias tortas e, quando vivemos um amor e cedemos a um desejo, nos sentimos culpados, nos sentimos “traidores”. Raramente temos maturidade e tranqüilidade suficientes para entender que, assim como acontece conosco, acontecerá também com o nosso companheiro. Todos nós, por mais que vivamos uma relação de amor, feliz, estável e duradoura, não estaremos imunes ao desejo por outra pessoa.

Maravilhoso seria o mundo se pudéssemos aceitar com naturalidade o nosso desejo e o desejo do outro. Caetano e Gil também disseram melhor do que eu: “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar.”.

No entanto, nesta matéria de monogamia e fidelidade, apenas nos embaralhamos, nos confundimos e, na quase totalidade das vezes, metemos os pés pelas mãos.

Não somos seres monógamos. Jamais seremos.

E, enquanto continuarmos a fingir que somos estaremos sempre tristes.

 

Homens

Para os homens, driblar a monogamia é fácil e natural. Eles nâo têm muitos problemas com isso. Casados, frequentam bares singles. Se viajam a trabalho, sempre encontram no hotel ou no evento profissional, onde vão, alguma mulher disposta a fazer sexo ou por dinheiro ou por interesse em alguma vantagem que ele possa oferecer. Quase sempre os homens mantêm casos extra-conjugais e muitas vezes até amantes fixas que, em linguagem de advogado, são as tais “teúdas e manteúdas”. 

Tirando as exceções, aqueles que são monógamos por convicção e/ou religião, nenhum homem é homem de uma mulher só.

É clássico o caso de mulheres iludidas por homens casados, que lhes prometem mundos e fundos, que dizem que seu (dele) casamento está no fim e que não amam mais a esposa, apenas para conseguir o que querem. E homens, na absoluta maioria das vezes, querem sexo. Mas eles sabem muito bem que as mulheres, também na maioria das vezes, precisam se apaixonar ( ou imaginar uma paíxão) para assumir o desejo. Por isso, quando a mulher em questão está nessa, eles mentem.

 

Confusão Sexual

 

Mas a grande confusão está na maneira pela qual a nossa cultura vê o sexo e na consequente educaçlão deformada que é dada às nossas crianças.

É uma conversa antiga, mas também ainda muito válida. Meninos são estimulados a fazer sexo pelo sexo. Meninas são estimuladas a não fazer sexo, a não conhecer seus órgãos genitais e a ter vergonha deles. Bem ao contrário dos meninos que, desde pequenininhos, brincam e competem entre si em jogos com seus pênis.

O garoto cresce então com aquela visão distorcida do sexo oposto: existem dois tipos de mulher, aquela com quem se casa e aquela com quem se trepa.

A que casa, é pra ser mãe e, de preferência, bem reacata e pudica na cama. Nada de muito prazer.

Afinal, se ela tiver muito prazer pode também ter a idéia de experimentar ter prazer com outros homens e aí quem garante que a mãe dos meus filhos é mesmo mãe dos meus filhos e não dos filhos dos outros?

Aquela que é pra trepar, tem que dar prazer e não ter. Se ela tiver, tudo bem. Mas se não tiver, tudo bem também.

 

Mulheres

 

Se o prazer sexual é um dos itens mais importantes da vida dos homens, nas mulheres, historicamente, o prazer é o que menos conta na hora de ir para a cama. Pelo menos, o prazer dela. Mulheres vão para a cama por obrigação conjugal, por dinheiro, por interesse de ascenção profissional ou simplesmente por generosidade, para agradar ao homem que elas estão amando no momento.

Raras são as mulheres, a despeito de toda a publicidade que tem sido dada a uma suposta liberação sexual, que vão para a cama por puro e simples desejo e prazer. Aliás, a maior queixa feminina nos ambulatórios de sexologia dos hospitais públicos de São Paulo é exatamente a dificuldade de atingir o orgasmo.

Assim, muitas mulheres passam a vida fingindo para agradar, de novo, seus parceiros. E muitas, mesmo as que se julgam modernas e liberadas, ainda repetem a besteira predileta do sexo feminino: “Sexo, pra mim, só com amor”...

E, aí, coitada da mulher! Vai ter que pensar que ama, que está apaixonada, cada vez que o tesão a pegar... risos...

Para os homens a coisa é simples. Ele olha pra uma mulher e sabe que a deseja. Pode até vir a amá-la, mas jamais confunde desejo com paixão ou com amor.

Já a mulherada... Uma paixão a cada balada de fim de semana.

 

Passionais

 

Com toda essa bela confusão, o maldito sentimento de posse pode chegar ao extremo da violência doméstica e dos crimes passionais.

Se você parar para pensar vai concordar comigo: não existe nada mais ridículo do que uma pessoa matar a outra “por amor”.  É o cúmulo da distorção da palavra amor.

No entanto, até muito pouco tempo atrás, era dado ao homem o direito de matar a mulher que o traísse. Chamava-se isso de “crime de honra”.

E mesmo hoje os nossos tribunais são inacreditavelmente bonzinhos para com homens que matam mulheres. Vide os casos do Doca Street, daquele jornalista que matou a namorada, foi condenado e está solto (esqueci o nome dele, graças a Deus) e outros que não ganharam a mesma visibilidade na mídia.

Nossa, como somos atrasados!

 

Política

 

Mas a questão do prazer é basicamente uma questão política.

Não interessa, absolutamente, a quem está no poder, que o povo seja feliz.

Povo feliz é povo que critica, reivindica, cobra seus governantes.

Povo infeliz, mal resolvido sexualmente, endividado, esfomeado, não tem nem tempo nem cabeça para reivindicar qualquer coisa que não seja a felicidade individual, as questiúnculas pessoais do cotidiano. Infelicidade inibe o sentimento da coletividade. E é muito mais fácil, aos poderosos, subjugar os tristes.

 

Então, só pra contrariar, vá atrás da sua felicidade e jogue os preconceitos sexuais na lata de lixo mais próxima.

Todos somos bi-sexuais. Todos somos polígamos. E todos merecemos a felicidade sexual. Sem vergonha, sem medo, sem preconceito, com segurança, saúde e alegria. Seja feliz.

 

(para ir mais fundo e também se divertir com alguns contos eróticos, leia o meu livro “Sexo Sem Vergonha”- clique aqui )

 

Carro: o máximo da cafonice!

 Já faz algum tempo, eu ia a pé pela Avenida Paulista e cheguei à Bernardino de Campos, atravessando sobre a avenida 23 de Maio. Quando olhei lá pra baixo e vi aquele mar de automóveis, o ridículo da cena atingiu o meu peito como um soco.

Que bando de idiotas nos tornamos, cada um de nós dirigindo um amontoado de lata, poluente, num mar de amontoados de lata, andando mais devagar do que se andássemos a pé?

Realmente, o tempo do automóvel já passou.

É inacreditável que as autoridades que governam os países não estejam se mobilizando, desesperadamente, para fornecer alternativas de transporte, principalmente nas grandes cidades.

É verdade que, principalmente no Brasil, a indústria automobilística gera uma montanha e meia de dinheiro em impostos.

No entanto, quanto desses impostos são gastos na saúde pública quando os números de vítimas de acidentes automobilísticos chega à espantosa cifra de 500 mil por ano? Quanto é gasto com doenças respiratórias causadas pela poluição? Já está provado que os veículos automotores são os maiores vilões na geração de uma péssima qualidade de ar.

Alternativas existem e são muitas. Metrô é a melhor delas, para o transporte nas cidades. E uma grande malha ferroviária substituiria com êxito o horror das rodovias, onde acontece uma verdadeira carnificina e cujo custo é muito alto.

Carro é coisa do passado.Carro é coisa de país subdesenvolvido, orgulho de gente atrasada.

Carro é, hoje, uma idéia cafona e politicamente incorreta.

É claro que, numa cidade como São Paulo, onde o transporte público é, na maioria, uma grande desgraça, todo mundo depende e precisa de um carro.

A situação caótica do trânsito, que já tem até rádio especializada em ajudar o motorista a escapar dos trágicos congestionamentos, no entanto, faz com que todos nós suspiremos de anseio por umas boas linhas de metrô.

Cada vez mais pessoas estão optando pelas bicicletas e pelo metrô, nos poucos lugares onde ele existe.

Os congestionamentos, além de poluírem ainda mais o ar, causam muito estresse e as brigas feias entre motoristas estão se tornando rotina.

Enquanto não pressionamos as autoridades por soluções alternativas, seria muito bom se cada um de nós tentasse evitar ao máximo usar o automóvel.

Se aonde você vai é possível ir de metrô, vá.

Se você tem dinheiro, opte pelo táxi (é sempre um carro a menos na cidade: o seu).

Se o trajeto é curto, vá a pé; caminhar faz bem pra saúde.

E, principalmente, trate de mudar a sua cabeça com relação aos automóveis. Compre o mais barato, ou o que polui menos, o menos luxuoso. Trate o carro como um mal necessário e não mais como um símbolo de status.

Carro é cafona.

Carro é passado.

Carro consome combustível.

Polui.

Aleija e mata.

Carro é individualista.

Carro é egoísta.

Carro é porcaria da grossa.

Pule fora enquanto é tempo.

Automóveis:

Egoístas, Assassinos, Poluidores e Cafonas

 

É na direção de um carro que se revela toda a estupidez da espécie humana.

O grande sucesso desse invento – que, no começo do século XX, o poeta Olavo Bilac já abominava --  está na sensação de poder que ele proporciona ao seu usuário, ou “dono”.

 

O automóvel é o nosso escravo e, com ele sob nossas ordens, nos sentimos detentores de um poder que é muito raro conquistar em qualquer outra esfera da atividade humana.

 

É por isso que, no trânsito das cidades e nas rodovias, somos todos (independentemente do nosso nível social, de escolaridade ou econômico) tão mal educados. É claro que existem exceções. É claro que existem pessoas bem educadas no trânsito. Mas estes anjos são raros, são quase santos.

 

Nosso comportamento no tráfego é, como diria a professora de medicina Julia Greve, da Universidade de São Paulo, comparável ao comportamento de um sujeito que chega numa fila para tomar um elevador e vai abrindo caminho a cotoveladas e pontapés, tirando todo mundo da frente para ser o primeiro da fila.

 

É o exercício do poder automobilístico que nos faz tão monstruosamente estúpidos quando estamos na direção dos veículos. E quanto mais jovens formos, pior fica esse comportamento.

 

Um sujeito que sai “costurando” numa grande avenida, que não respeita limites de velocidade, que “fura” semáforos vermelhos, que invade faixas de pedestres, que passa a fila de carros pela contra mão, que trafega pelos acostamentos das rodovias e faz ultrapassagens arriscadas, não é um sujeito esperto ou, como ele próprio se julga, um ótimo motorista. Ele é simplesmente um imbecil. Um bobo alegre que está colocando em risco a sua saúde e a sua vida, assim como a saúde e a vida de outras pessoas que nada tem a ver com o “complexo de herói” dele.

 

Em todos os fins de semana prolongados, os acidentes nas estradas brasileiras esbarram na casa dos dois mil. As mortes são contadas às centenas.

É mais seguro ir passar férias no Iraque do que sair dirigindo por uma rodovia brasileira num feriado prolongado.

 

Mais de metade das mortes por acidentes de trânsito que acontecem no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo foram causadas pela embriaguez do motorista.

Pesquisa recente da Unifesp mostra que 84% dos motoristas que dirigem bêbados se recusavam a entregar as chaves do carro a alguém sóbrio.

 

O professor Paulo Saldiva, médico patologista responsável pelas pesquisas de qualidade do ar na USP, só anda de bicicleta. Muita gente que tem a cabeça à frente do seu tempo, em todo o mundo, está, cada vez mais, abominando os automóveis. O carro é um meio de transporte realmente ultrapassado.

Ele é extremamente perigoso, poluidor, causador de estresse, egoísta e símbolo de um status totalmente ultrapassado.

 

Num futuro não muito distante, o automóvel será considerado algo de extremo mau gosto e tão inadequado quanto o cigarro.

 

Mas, enquanto isso não acontece, se beber, não dirija. E, quando dirigir, ao menos, pra ser menos cafona, vê se respeita as regras do trânsito.

 

Um Sonho de Mulher

Falei tanto nelas, estudei tanto a vida delas, escrevi tanto sobre elas, trabalhei durante toda a minha vida para que a luta delas não fosse esquecida nem menosprezada, insisti em manter viva a memória delas, de seus feitos, de sua luta, de seus sofrimentos, de sua nobreza de alma, de sua valente disposição... Vivi tanto a memória delas que, esta noite, para minha honra e alegria, sonhei que era uma delas.

De repente, vieram à moda os vestidos e saias longos. Nesses dias de friozinho paulistano em pleno verão, saí para ir à TV usando uma saia comprida, um par de botas, uma blusinha com babadinho e um blaser. Me olhei no enorme espelho do hall do apartamento, um espelho de mais de cem anos e que pertenceu à minha avó, e disse ao meu marido:

- Olha, amor, estou usando as roupas da minha avó.

E estava mesmo. Era assim que elas se vestiam no comecinho do século XX. Botinhas, saias longas, casaquinhos, blusinhas de babado...Assim se vestiam Alice Paul, Emmeline Pankhurst, Susan B. Anthony, Margaret Sanger, Emma Goldman, Elizabeth Stanton... Assim se vestia a minha avó. Assim se vestiam as nossas avós sufragistas. Elas, que tanto lutaram, para que hoje nós possamos votar, possamos pensar, possamos estudar, possamos decidir... Sem elas, o que seria de nós?

Seríamos até hoje umas coitadas, cidadãs de segunda classe, sem direito à nada, a não ser obedecer aos nossos maridos e parir os nossos filhos. Não seríamos alfabetizadas. Não poderíamos nos realizar profissionalmente. Não votaríamos. E estaríamos à mercê dos homens que nos possuissem, primeiro nossos pais, depois nossos maridos e, na falta desses, até nossos filhos machos.

É engraçado como nós, mulheres do século XXI, nos esquecemos quase completamente das heroínas que conquistaram para nós todos os direitos sociais que temos hoje. Foram elas, nossas avós feministas e sufragistas, e apenas elas, que mudaram a perspectiva da nossa condição social. Ninguém nos deu, e nem nos daria, os direitos de presente. Tivemos que ir cavá-los. Às vezes pagando com a própria vida esta ousadia.

Por isso, nessa manhã, acordei encantada.

Tive um sonho maravilhoso. Sonhei que era uma delas. Sonhei que eu era uma sufragista e viajava pela Europa dando palestras. Usava saias longas, botas, casaquinhos e chapéus. Era vaiada e xingada em alguns lugares e ardentemente aplaudida em outros. Eu, pobre de mim, eu era uma sufragista!

Talvez o meu sonho tenha sido um presente das nossas avós, uma recompensa por todo esse trabalho que eu tive e tenho de tentar manter viva a memória delas. Acordei feliz e orgulhosa. Eu, afinal contribuíra para tornar realidade os sonhos das mulheres.

O Médico e o Marketing

Era uma vez um médico que se sentia plenamente realizado com a sua carreira. Desde muito pequeno ele sabia que queria ser médico. A vocação já nascera com ele, vinda sabe-se lá de onde, já que o nosso Dr. Artur era filho de um humilde alfaiate e de uma costureira. Muito as máquinas do atelier de costura, que funcionava na sala da residência de seus pais, trabalharam para conseguir pagar as despesas de Artur na faculdade. O curso foi feito na Universidade pública, mas mesmo assim, Artur não tinha tempo para trabalhar, enquanto todos os seus irmãos, na sua idade, já trabalhavam, havia enormes despesas com livros e o inevitável ciúme dos irmãos que acreditavam que os pais estavam dando à Artur privilégios que eles próprios não tinham.

Mas, no fundo, todos respeitavam, na família, a extrema dedicação de Artur. Ele, é verdade, tivera a sorte de freqüentar escolas públicas (grupo municipal e ginásio estadual) numa época – fim dos anos 50 e começo dos 60 – em que o ensino nessas instituições era realmente bom em São Paulo e, por isso, e também porque se matara de tanto estudar, ele conseguira entrar na Faculdade de Medicina da USP.

Artur formou-se em 1971. Durante o seu curso, enquanto muitos dos seus colegas reservavam algum tempo para as atividades políticas que estavam, então, na moda, ele só fazia estudar. Ainda conseguiu cavar uma bolsa de estudos num curso de inglês (em troca de divulgar o tal curso entre os seus colegas de universidade) e, antes de se formar, era tão fluente em inglês quanto em português. Isso, é claro, foi muito útil para, mais tarde, as suas viagens ao Exterior, onde participava de importantes congressos médicos.

Sim, porque Artur fez uma brilhante carreira acadêmica. Formou-se com distinção, foi o melhor residente de sua turma e, embora fascinado pelos muitos mistérios que a medicina ainda não decifrara no corpo humano, e, por isso mesmo, tentado a especializar-se em oncologia, acabou virando ginecologista, intrigado pela capacidade reprodutiva das mulheres e pelo preço que as fêmeas pagavam por essa capacidade.

Mas, embora um sucesso nos serviços de saúde pública onde trabalhou e outro sucesso na faculdade onde passou a dar aulas, Artur era um desastre financeiro e político. Mal sabia se defender das armadilhas, que seus colegas invejosos de sua competência, criavam para ele. E no seu humilde consultório de bairro, acabava levando altos calotes, dada a sua generosidade e a sua compreensão para a dificuldade financeira das pacientes. Quando, no Brasil, começavam a proliferar os convênios, por deficiência do próprio sistema público de saúde, Artur credenciou-se em todos e, em breve, em seu consultório, só existiam clientes de grupos médicos (que pagavam uma miséria por consulta) e mulheres muito pobres, a quem ele atendia de graça. Suas noites eram dedicadas à pesquisa e ao estudo e ele só podia freqüentar os congressos internacionais quando convidado pelos laboratórios da indústria farmacêutica. Isto, aliás, era um prato cheio para os seus colegas acadêmicos e invejosos, que começaram a acusá-lo de ser um “vendido” para a Indústria. Só que essa estratégia não convencia muita gente pois o pobre Dr. Artur continuava levando uma vida muito modesta, andando num carro mais velho que ele, clinicando num consultório modesto de bairro, vestindo ternos puídos e calças jeans da década de sessenta. Os salários recebidos na saúde pública beiravam o ridículo, o que ele recebia do consultório também bastante ridículo, o que salvava um pouco era a remuneração de sua docência universitária, mas ele torrava tudo em livros e ajudando a família.

Assim, enquanto muitos de seus colegas enriqueciam e montavam chiques consultórios nos jardins e em outros bairros nobres da cidade, o Prof. Dr. Artur vivia mergulhado naquela simplicidade franciscana.

Mas as suas pacientes... ah, estas o adoravam. Enfrentavam longas esperas na sala de recepção de seu consultório, lendo revistas velhas e capengas de tanto serem manuseadas, para ter o privilégio de seus cuidados. Ele sempre atrasava as consultas. Porque queria ouvir. E ouvia, as condições de vida, os dramas pessoais, as frustrações e as ambições de suas pacientes. Porque ele, quanto mais estudava e aprendia, mais acreditava que a saúde é um tripé:o físico, o emocional e o social. Assim, não via suas pacientes apenas como um corpo, um útero, um par de ovários. Mas procurava ir muito mais fundo, compreendendo como o psicológico e o social estariam atuando no físico.

Teve poucas namoradas. Tinha pouco tempo para elas, muito pouco tempo, e elas logo se cansavam e iam procurar alguém mais dedicado.

Quando, no fim dos anos oitenta, surgiram os primeiros computadores domésticos, ainda muito caros, Artur gastou todo o seu salário de dois meses na faculdade para conseguir um e, um par de anos depois, era um dos primeiros brasileiros, fora das instituições universitárias, a ter acesso à Internet domesticamente.

Um dia, no meio dos anos 90, recebeu um convite para participar de um programa de TV. Artur ia recusar. Achava uma bobagem ir à televisão. Mas a produtora do programa conseguiu convencê-lo, dizendo que professores sérios como ele poderiam prestar um grande serviço aos telespectadores através de uma informação decente sobre saúde.

Foi.

No dia seguinte o telefone de seu consultório estava congestionado. Milhares de mulheres queriam se consultar com ele. A secretaria pirou. Contou a ele que ouvira de muitas delas coisas como o seguinte: “Eu dobro o valor da consulta pra você me arrumar um horário com ele e ainda te levo um presente”.

Dr. Artur, em vez de ficar contente com aquele súbito sucesso, ficou profundamente deprimido. Então bastava aparecer na TV e ele se tornaria um médico reconhecido e disputado pelas pacientes? Ora, isso não tinha sentido. O que importava ao nosso herói era o acúmulo de conhecimento científico, pelo qual ele tanto lutara nas últimas décadas.

Para o público, porém, quem aparecia na TV era o melhor. O público, um pouco ingenuamente, tinha a tendência de acreditar que a televisão só levasse ao ar aqueles profissionais de alto gabarito e conhecimento. No caso do Dr. Artur, isso era verdade. Mas muitas vezes não era. Muitas vezes o produtores de TV levavam quem estivesse mais próximo deles por qualquer razão ou quem tivesse contratado a melhor assessoria de imprensa.

Mas agora ele estava num dilema. Nunca se recusara a atender ninguém. Como atender, no entanto, todas aquelas centenas de mulheres que ligavam sem parar para o consultório?

A secretária lhe deu a solução:

- Doutor, o senhor mesmo disse que os ginecologistas recém formados não têm, muitas vezes, a oportunidade de montar um consultório. Por que o senhor não convida alguns deles para vir trabalhar aqui e assim o senhor divide as consultas com eles.

- Mas estas pacientes novas querem se consultar com o médico que elas viram na Tv e este sou eu.

- Bobagem – respondeu a secretária – Em todas as clínicas dirigidas por médicos famosos, desses que vivem aparecendo na mídia, as pacientes são atendidas pelos médicos assistentes e ficam muita satisfeitas. Quando o médico famoso aparece durante a consulta, então, elas quase desmaiam de emoção. O senhor precisava fazer a mesma coisa. Ficaria rico e – aqui ela deu um risinho maroto – poderia aumentar o salário da sua secretária.

- Como é que você sabe de tudo isso?

- Vejo nas revistas.

O que animou o Dr. Artur foi a possibilidade, afinal, de ajudar os colegas recém formados e, inclusive, continuar de uma certa maneira a ensiná-los, através de sua própria experiência. Montou uma pequena clínica e contratou mais  3 médicos. Mas esta também ficou insuficiente quando, pela segunda vez, ele aceitou ir ao programa de TV.  Três anos depois o nosso modesto Dr. Artur era fonte disputada pelos jornalistas de rádio e televisão. Montou uma clínica enorme, com 15 médicos além dele e adquiriu também modernos equipamentos para poder realizar os exames necessários lá mesmo, tendo contratado também os médicos e técnicos para a realização dos exames. Ficou rico, quase milionário e pôde comprar o carro esporte de seus sonhos. Havia uma fila de mulheres se oferecendo, loucas para casar com o médico famoso e rico. No entanto, jamais se casou e jamais deixou de atender suas pacientes pobres. Quando as ricas eram atendidas pelos assistentes e acreditavam que o famoso doutor só atendesse as ainda mais ricas que elas, ele estava atendendo de graça...

Mas, no meio médico, nos anos seguintes, quando alguém citava o Dr. Artur, sempre havia outro alguém para dizer:

- Ah, esse, além de vendido pra indústria, é apenas uma grande marqueteiro.

 

Enfarte é Coração Partido!

Embora sem pressão alta, sem colesterol alto, sem comer gordura ou sal, com uma dieta de monja, malhando pesado 6 dias por semana e tendo parado de fumar, eis que o enfarte me pega, doutor! (como diria Billy Blanco).

O cardiologista disse que basta o estresse, que o estresse da perda é o maior fator de risco pro enfarte.

No PS do Instituto Dante Pazzanese, que é uma instituição referência em cardiologia,fui imediatamente atendida. Fiz exames e o médico plantonista me disse:- Você teve um enfarte. Agora, vamos fazer uma angioplastia.

Subi imediatamente para o centro cirúrgico onde três médicos jovens e lindos se encarregaram, junto com um batalhão de enfermeiras carinhosas, de enfiar um catéter pela minha coxa.

E eu, deslumbrada, vendo tudo nos monitores de TV: as minhas artérias ali, lindinhas. Não doeu nada e eu achei um barato.

Os médicos me disseram que tinha corrido tudo muito bem, porque eu fora atendida a tempo. Colocaram um “stent” na minha artéria circunflexa que, segundo o meu amigo Dr. Nabil, é a artéria mais vagabunda do coração, a menos importante. 

Já o meu outro super amigo cardiologista (e apresentador da TV Senado) , Dr. Romeu (foto), me disse que eu tive muita sorte e que, graças ao pronto atendimento que recebi, não teria sequelas para o meu coração. Menos mal.

A única coisa chata do processo de colocar o tal “stent” para desobstruir a artéria é ter que ficar, depois, 12 horas imóvel. Você fica lá, deitado de costas e não pode, em hipótese alguma, mexer as pernas ou levantar a cabeça. Com o tempo, por causa da imobilidade, começa a doer o corpo inteiro.

“Droga – eu pensava – não morri de enfarte, vou morrer de dor nas costas”.  Daí eu ficava pedindo praquelas gracinhas das enfermeiras: “querida, bota mais uma dosezinha de dipirona aí no meu soro, tá?”.

Depois que passaram as 12 horas, tudo maravilha!

O Dr. Rui, o médico responsável pelo setor (e que será o próximo presidente do FUNCOR da Sociedade Brasileira de Cardiologia), os médicos plantonistas, os enfermeiros, todos que se revezavam de 6 em 6 horas, eram umas gracinhas, super carinhosos e atenciosos. Cinco refeições balanceadas por dia. Chuveiro excelente, daqueles de motel. No segundo dia, eu já tomava banho sozinha, fazia escova no cabelo (meu marido levou meu secador) e saía toda lindona, no uniforme azul do hospital, de batom e tudo!

Tive que ficar 5 dias lá, os médicos não dão moleza pros enfartados! Mas li cinco livros e conheci um batalhão de gente simpática e competente.

Apesar de todos os maravilhosos privilégios que tenho na vida, perdi muitas coisas e pessoas importantes nos últimos dois anos.

Mas, mesmo assim, não perdi a vida.

Sempre fui teimosa como uma mula. Sou taurina e taurinos são, acima de tudo, persistentes.  Nunca desisto. E me derrubar é tarefa pra super homem. Não vai ser qualquer perdazinha, qualquer porcariazinha que vai me impedir de continuar.

Que venga el toro!

Ainda tenho uns 20 livros pra publicar e uns 5 mil programas de TV para realizar. Portanto, não se preocupe e nem se iluda, eu não morro tão cedo! Risos.

Como Um Clone

Nada parecia indicar que aquilo aconteceria. Era um dia, como todos os outros. Ou, antes, não era. Mas eu não sabia. Pensava que fosse. E ia andando apressada para o fórum --  nem pensar em chegar atrasada à audiência --  quando atravessei aquela rua, normalmente tranqüila, e veio aquele carro --  um vulto negro, mais nada – e me jogou longe. Bati violentamente a cabeça na dura guia de pedra da calçada, senti um arremedo de dor, e morri.

Bom, é verdade que estou simplificando. Foi um pouco mais complicado do que apenas “morri”. Porque, no primeiro momento, eu estranhei ter sentido apenas aquela dor e, de repente, estava vendo meu próprio corpo estendido na calçada e o meu sangue correndo para um bueiro próximo. 

O carro negro sumira. Transeuntes se reuniram rapidamente em volta do meu corpo, alguém telefonou pro resgate.

Mas eu, perplexa, sabia que nada me levaria de volta a aquele corpo e, na sábia resignação que nos atinge na hora da morte, preparei-me para me despedir dele. Percebi que bastava pensar para me mover. Em uma fração de segundo, estava próxima ao meu próprio rosto (aliás, ao meu ex-rosto). Dei um beijo nele e pude sentir a rigidez cadavérica já se manifestando.

E agora? Para onde deveria ir? Ou será que algum anjo (ou seria um demônio?)  viria me buscar para me levar a outro mundo?

Bom, estava morta, o que fazer?

Nunca mais beijaria meu namorado, jamais seria a juíza que sonhara ser, jamais realizaria o sonho de meu pai, que tanto se sacrificara para pagar meus estudos. Coitado do meu pai, como ele reagiria à morte da sua filha predileta, ainda na flor da idade?

Meu pai deixara a minha mãe quando eu tinha apenas 5 meses de concebida, estando ainda na barriga dela. Mas jamais me abandonara, me dera todo o apoio e carinho, pagara meus estudos e costumava me chamar de “clonezinho”.

Aliás, “clone” era o meu apelido na família. Isso porque todos podiam ver que eu saíra absolutamente igual à minha mãe. Não era apenas parecida, era idêntica. A filha daquela atriz de Hollywood, Ingrid Bergman, a Isabela Rosselini também é a cara da mãe. Mas, no meu caso, era pior. Quando criança, olhava as fotos da minha mãe criança e pensava que eram as minhas fotos. Fui crescendo e tive o privilégio (ou a desgraça) de saber exatamente como eu seria dali a 2, 3, 10 anos. Bastava olhar o álbum de fotos da minha mãe: o passado dela era o meu futuro.

Mas nós duas brigávamos muito, principalmente quando eu era adolescente. Eu queria ser diferente dela e, quando amadureci, pude perceber isso claramente. Pintei o cabelo quando tinha 13 anos. Nem passava perto de alguma roupa que parecesse com a roupa dela. Ela usava tailleurs, vestidos clássicos, flores na lapela, essas coisas. Eu vestia jeans rasgados. Ironicamente, porém, na hora de escolher a faculdade, eu optei pela mesma carreira que ela: o direito.

Ela costumava dizer que, como meu pai a deixara quando ela ainda estava grávida, ela dissera a si mesma que aquele filho seria só dela. Não teria nada dele, absolutamente nada, nenhum genzinho sequer. Seria uma filha (ela sabia, antes do ultrassom, que era uma menina) sem pai, uma filha nascida apenas dela... E, portanto, seu desejo fora atendido e eu nascera assim, com a cara dela, o jeito dela, como se fosse o seu clone.

Minha mãe fora uma brilhante advogada quando jovem. Nascera e fora criada em São Paulo mas transferiu-se para Brasília, nos final anos 60, para ser assessora especial no Ministério do Trabalho. Era também feminista e simpatizante da esquerda, o que, naqueles anos de chumbo da ditadura militar brasileira, era um perigo... E foi a sua desgraça.

Eu nasci em Brasília. Minha mãe se mudara para lá assim que se separara do meu pai, que era músico, e que considero brilhante compositor, mas que, embora até Elis Regina tenha gravado uma música sua, nunca conseguiu viver de suas composições e muito menos ter seu talento reconhecido e, por isso, para sobreviver, comprava e vendia carros usados.

Quando o general Médici e seu ministro Delfim inventaram o milagre brasileiro e toda a sociedade brasileira vivia, apesar do regime de ferro, uma euforia econômica, minha mãe, assim quase por acaso, numa história complicada demais para eu narrar aqui, descobriu uma das muitas redes de corrupção do regime, que atuavam no Planalto.

Ingenuamente, procurou seus superiores e denunciou. Passou a ser perseguida. Todos os seus colegas foram induzidos a acreditar que ela pertencia a alguma organização suspeita, num monumental e bem sucedido trabalho de disseminação de fofocas (o que, sem dúvida, os círculos do poder sabem fazer muito bem). A coisa foi tão brava que ela acabou sendo presa. Na prisão sofreu toda a sorte de torturas para revelar coisas das quais ela não tinha realmente nenhum conhecimento. Voltou para casa um mês depois, presa, para sempre, a uma cadeira de rodas. Foi aposentada por invalidez e nós voltamos para São Paulo.

Ela amargou alguns meses uma quase-depressão, mas logo reagiu. Embora tivéssemos como viver, porque a aposentadoria do governo (diferentemente da aposentadoria dos comuns mortais brasileiros) era gorda, ela comprou um fogão industrial e montou uma empresinha de congelados na garagem da nossa casa. Era dura na queda. Movia-se pela cozinha, dando instruções aos empregados, naquela cadeira motorizada e que ela manobrava como um piloto de fórmula um.

Quando ela estava na cadeia, a nossa fiel empregada é quem conta, eu acordava no meio da noite, chorando e gritando e pedindo para que parassem... Muitos anos depois é que percebi que eu sentia, no meu corpo, as torturas que ela estava sofrendo. Numa dessas noites, acordei com uma dor horrível nas costas e as pernas formigando.

Desde que a minha mãe ficou paralítica, frequentemente minhas pernas adormeciam e comecei a sentir cãibras constantes. À conselho médico fui pra academia. Malhava muito, mas nunca consegui me livrar da dormência nas pernas.

Quando ela adoecia, eu sentia, embora com menos intensidade, todos os sintomas. Menstruávamos quase nos mesmos dias. Se ela estava com dor de cabeça, logo a minha nuca começava a latejar. Se suas pernas inchavam no calor, eu sabia, mesmo que estivesse longe dela, porque as minhas pernas também inchavam.

Então, com todas essas semelhanças, além da absoluta semelhança física, era natural que, na hora da minha morte eu, afinal, percebesse que era a ela que deveria ir.

Como num passe de mágica, me vi em casa. Ela estava na cama. Ao seu lado, a nossa fiel empregada de anos, chorava. Havia um pessoal do samu no quarto e ouvi o médico dizer:

- Infelizmente ela está morta. Não posso dizer ainda com certeza, mas parece que foi um derrame fulminante, há indícios...

Foi então que a vi, num canto do quarto. Ela abriu os braços e caminhou, com suas pernas espirituais, até mim.

Morrêramos juntas. Assim como vivêramos juntas.

Ela me abraçou e compreendi que sempre havíamos sido apenas uma.

E que, por alguma razão, ainda desconhecida, nossa única alma havia se dividido em dois corpos, dois corpos separados, porém unidos pelo laço indissolúvel da maternidade.

Pegou-me pela mão, como fazia quando eu era apenas uma menininha, e, com todo o carinho, conduziu-me porta afora.

Vi o olhar de ternura que ela dedicou às suas queridas plantas do jardim da pequena casa.

Olhei bem dentro dos seus olhos e ela sorriu para mim.

E, compreendi, sem nenhuma sombra de dúvida, para onde estávamos indo.

Para uma nova vida onde, desta vez, também sem dúvida, voltaríamos a ser apenas uma.

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A VOLTA DAS BRUXAS

Vi na TV um pastor evangélico aconselhando aos seus fiéis que fizessem orações em casa e no escritório para se livrar da maléfica influência do Dia das Bruxas, comemorado em 31 de outubro.

É engraçado como se pensa que as bruxas são mulheres horrendas e que trabalhariam para o mal. Essa idéia está presente na literatura, no cinema, nas canções.

No entanto, as famosas bruxas, aquelas que foram queimadas nas fogueiras da Inquisição da Igreja Católica, por mais de seis séculos, eram apenas as mulheres sábias de seu tempo. Mulheres que dominavam o manuseio das ervas, aliviavam doenças. Mulheres que sabiam usar, com maestria, este maravilhoso dom que a natureza nos deu: a intuição feminina. Mulheres que, como Santa Clara (a padroeira da televisão) ou as sacerdotisas celtas, tinham o dom da visão e da premonição.

Agora, convenhamos: depois de 600 anos queimando mulheres na fogueira, muito pouca coisa restou da imensa sabedoria das bruxas.

Mas a sociedade machista e patriarcal poderia passar mais seis séculos queimando as mulheres e, ainda assim, não se livraria do incômodo que os poderes extra-sensorias femininos podem significar para alguns homens preconceituosos e orgulhosos de sua extrema racionalidade.

Já que a nossa sociedade foi construída e estruturada por eles, fica claro que é uma sociedade que dá predominância ao racional. Racionalidade pura e simples é o que criou este nosso mundo moderno. Um mundo desequilibrado, um mundo onde, supostamente, reinam os valores apenas da razão. Um mundo agressivo, testosterônico, de dominação e de poder.

Ora, onde está o outro lado?

Onde está, no mundo, o lado tipicamente feminino? O lado maternal, de tolerância, diálogo, compreensão? O lado intuitivo, do pensamento mágico, da inspiração dos sonhos e da poesia?

Algumas grandes empresas, as mais arejadas, começam a perceber a importância da intuição feminina para os negócios. Mas, por décadas, a mulher foi para o mundo produtivo e começou a se transformar em homem de tailleur. Para competir e vencer na carreira, adotou posturas e mentalidades tipicamente masculinas. Está na hora de mudar. Está na hora de invadir esse mundo masculino levando para ele a contribuição dos valores do verdadeiro espírito feminino, que é muito mais mágico, muito mais sensível e enxerga para além da vida estritamente material.

É hora de resgatar a bruxa que existe em todas nós.

A contribuição feminina para o mundo produtivo e político é que trará mais equilíbrio ao planeta. O mundo exclusivamente masculino e racional, o mundo frio e calculista, quase sempre deságua na guerra. Este mundo, equilibrado pelo acréscimo dos valores tipicamente femininos, será de mais paz, mais tolerância, mais compreensão e... muito mais magia!!!

 

 

Homenagem à Diná Lopes Coelho

 

O verdadeiro nome dela era Maria Ricardina.

Foi casada com o jurista Canuto Mendes de Almeida mas deixou-o para viver com aquele que ela dizia ser o grande amor de sua vida: o escritor Luis Lopes Coelho. Desquite, separação, ainda eram um certo escândalo nessa época. Mas Diná não se importou.

Na década de 50, quando Ciccilo Matarazzo fundou no Brasil a Bienal das Artes, Diná tornou-se seu braço direito, organizando essa grande exposição internacional de arte. No pavilhão da Bienal ela podia ser vista circulando de patins, para facilitar a locomoção.

Tornou-se, dessa forma, uma figura super importante no mundo das artes plásticas e, em 1969, criou no Museu de Arte Moderna o Panorama, uma exposição que reunia anualmente o que o Brasil tinha de melhor em artes plásticas.

Diná nos deixou no começo de 2003. Mas estará para sempre ligada ao desenvolvimento das artes plásticas no Brasil. Tive o enorme privilégio de conhecê-la, em 1978, quando arrumei um emprego no Museu de Arte Moderna. Diná era minha chefe mas, com o tempo fomos ficando amigas. Ela tinha a idade da minha mãe, 39 anos mais velha do que eu. Mas a sua cabeça era talvez até mais moderna do que a minha... Diná foi uma das (pouquíssimas) grandes amigas que eu tive nessa vida e, até hoje, me vêm lágrimas aos olhos, lágrimas de saudade, quando eu falo nela. No fim dos anos oitenta ela decidiu que não queria mais me ver. Disse-me, por telefone, que estava velha demais e que queria que eu guardasse dela a lembrança que eu tinha então. Respeitei o seu desejo e nunca mais a vi. Mas, se fosse hoje,eu não faria isso. Eu teria ido vê-la, mesmo que ela não me recebesse.

Diná era boêmia. E eu, naqueles anos 80, também. Passamos noites em restaurantes e boites de S.Paulo, tomando vinho (ela tomava Macul) e conversando sobre a vida. Aprendi muito com ela. Era uma mulher admirável, inesquecível.  Tenho um vídeo, feito pela TV Senac, pouco antes de sua morte. Clique na foto dela, aí acima, para ver o vídeo, que dura só 3 minutos.

 

 

História Oculta das Mulheres

 

Marina saiu da palestra meio atônita. Nunca, em seus 13 anos de vida, ouvira falar daquelas mulheres. A moça palestrante - Silvia, era o nome dela, Marina jamais se esqueceria, enquanto vivesse – que fora ao seu colégio dar a palestra, era integrante, como ela mesma explicara, de um grupo de mulheres, uma ONG.

 

Comparecer à palestra não era obrigatório, mas aumentaria 0,5 ponto na nota da prova de história. Por isso, a maioria dos estudantes das séries mais adiantadas fôra.

 

Na verdade, na escola, estavam todos rindo dessa tal palestra: “História Recente do Sexo Feminino”.

 

A princípio, pensaram que fosse uma aula de educação sexual, matéria que a garotada se orgulhava de já dominar de sobra, algumas meninas e meninos mesmo já tinham tido a experiência prática. Mas quando ficaram sabendo que se tratava de Feminismo, aí então

começaram as gozações.

 

- Deve vir uma velha horrorosa – disse Marcela – igual àquela que morreu outro dia e eu vi no jornal da TV a cabo.

 

- Não – gritou Marina – vai ser uma mulher de jeans, camisa de homem e um sapato muito grande!

 

O que Marina e seus colegas não poderiam imaginar é que chegaria aquela moça magrinha, de óculos, com a roupa da moda e que, em uma hora e meia de palestra, conquistaria a todos.

 

Silvia começou contando como viviam as mulheres, no século XVIII, quando Mary Woolstonecraft, considerada a primeira feminista, lançou seus escritos: tuteladas pelos homens, sem direito à cidadania, à propriedade, ao voto. Proibidas de falar em público. Raramente alfabetizadas.

 

Depois, contou a história da luta pelo voto, história das sufragistas.

 

Falou de Emmeline Pankhurst, uma mulher da classe alta na Inglaterra, que sofrera horrores na prisão, apenas por querer que as mulheres também tivessem o direito de votar.

 

Como Emmeline, na Inglaterra, também Alice Paul, nos Estados Unidos, fora presa várias vezes e sofrera horríveis violências na prisão, como ter uma sonda enfiada a força goela abaixo para que se alimentasse, já que ela estava em greve de fome. Ou apanhar tanto que, por seqüela, ter que passar o resto da vida numa cadeira de rodas.  

 

 

Falou no desprezo e na segregação social que sofreram feministas históricas como Susan B. Anthony,Lucretia Mott e Elizabeth Stanton, que eram ridicularizadas, até mesmo pelas próprias mulheres, porque queriam igualdade de direitos para os sexos.

Falou das brasileiras, de Bertha Lutz à Pagu, perseguidas, presas, desprezadas.

 

Falou da luta de Margaret Sanger, na Nova Iorque dos anos 1910, para que as mulheres parassem de morrer por abortos clandestinos, praticados porque elas não tinham condições de criar mais um filho; uma luta pela implementação de  métodos contraceptivos que custou à Margaret, além da execração pela sociedade americana, um ano de exílio, no estrangeiro, longe do marido e dos filhos.

  

Falou das mulheres de hoje, que apesar de tantos direitos conquistados, ainda são desprezadas, caso se recusem a serem mães; ainda ganham salários inferiores aos dos homens que ocupam a mesma função; ainda são consideradas pouco inteligentes, sem raciocínio lógico e ainda apanham (25% das brasileiras) de seus companheiros.

 

Marina saiu zonza da palestra. Como ninguém contara tudo isso a ela antes? Como as revistas, as TVs, as rádios, nunca se referiam a essas mulheres lutadoras e sofridas?

Como, se, sem elas, ela, Marina, certamente não poderia estudar, não poderia votar, não teria direito à tomar pílulas anticoncepcionais e certamente nem a dirigir seu próprio carro? Nem direito ao trabalho? Ao seu próprio dinheiro?

Quando, no fim da tarde, a mãe de Marina, saindo de seu próprio trabalho, foi buscá-la na escola, Marina entrou no carro e disse:

- Mãe, aconteceu uma coisa hoje.

- O que, minha filha?

- Eu virei feminista.

 

              A Sua Infelicidade Convém aos Poderosos

 

Há décadas e décadas, onde quer que haja eleição, quase todos os políticos têm o mesmo discurso. Prometem, em última instância, melhorar as condições de vida do povo. Saúde. Educação. Casa própria. Segurança. O mesmo blá-blá-blá eleitoreiro e sem real conteúdo.

A maioria dos candidatos, acredite, não tem a menor idéia de como ele faria para cumprir essas promessas, caso de fato tivesse a intenção de cumpri-las.

Verdade mesmo é que quase todos eles se candidatam pensando apenas nas benesses do poder. Eles querem fazer parte da elite dominante, querem poder e mais nada. São raríssimos os verdadeiros idealistas no mundo. Assim como são raríssimos os verdadeiros idealistas na política. E estes, quando chegam lá, ficam de mãos atadas porque a maioria está pensando apenas em si mesma.

O povo, iludido pelo discurso e pelo carisma dessas figuras, vota. Vota mais por simpatia que por convicção. Vota por pressão de grupos, também. O candidato da Igreja. O candidato do clube. O candidato do chefe e assim por diante.

As elites dominantes, econômica e política, não têm, de fato, nenhum interesse no bem estar do povo. São raros os empresários que aderem a iniciativas sociais por outra razão que não seja melhorar a produtividade da empresa, o que não deixa de ser lógico e aceitável. Mas muita gente romântica acredita que seja por sentimentos humanitários.

Sentimentos humanitários são mais comuns no povo do que nas elites.

Quando se trata dos políticos, então, nem pensar. Não interessa à absoluta maioria dos governantes que o povo viva bem e seja feliz.

Se os impostos que pagamos voltassem em forma de serviços públicos, e tivéssemos mais educação, segurança e saúde, seria péssimo para as elites políticas.

É muito mais difícil iludir eleitores bem informados e bem formados. Gente educada (em todos os sentidos da palavra) é muito mais crítica e muito mais difícil de enganar, ludibriar, manipular.

Se o povo tivesse saúde, seria mais feliz. E gente feliz pensa melhor, tem tranqüilidade para raciocinar, criticar, exigir os seus direitos. Os infelizes, os ignorantes, os eternamente insatisfeitos, estes são presas mais fáceis da venda de ilusões.

É mais fácil subjugar os tristes.

Este mesmo raciocínio se aplica à repressão sexual. Imagine um mundo repleto de gente sexualmente sadia e satisfeita. Seria um mundo mais feliz e, portanto, mais consciente dos direitos de cidadania.

Não interessa a quem está no poder, absolutamente, a luta por uma melhor distribuição de renda, a luta pela educação democrática e acessível a todos os cidadãos e nem mesmo pela saúde e pela alegria de viver.

Cidadãos sadios, felizes, educados e conscientes, pressionariam cada vez mais os poderosos para que dividissem com justiça e igualdade as riquezas de seu país. E isso acabaria por fazer com que secasse a fonte dos privilégios, mordomias, maracutaias e tudo o mais.

Um povo escravizado pelas dívidas, pelas doenças, pela cruel luta por sua sobrevivência, pela sua própria ignorância, é muito mais conveniente para os poucos que, num país pobre como o nosso, desfrutam de riquezas impensáveis para a maioria.

                             

Papo de Sufragista

Por uma dessas mágicas do destino, encontraram-se no firmamento, as almas de Elizabeth Stanton, Susan B. Anthony, Lucretia Mott, Margaret Sanger e Emmeline Pankhurst.

Elas acabavam de voltar de um passeiozinho inocente pelas terras do Brasil e estavam absolutamente chocadas com tudo o que haviam presenciado. Por isso sentaram-se numa nuvem, para tomar um chazinho.

- Então foi para isso que eu tanto lutei na vida, Elizabeth? – perguntava Susan – Você deve estar lembrada do quanto apanhamos em nossas vidas para criar as condições que levariam as mulheres americanas às urnas.

- E o pior – respondeu Elizabeth, com um suspiro – é que morremos antes de conseguir o nosso objetivo...

                                                                     

                                                                                      Elizabeth Stanton 1815-1902

- Mas conseguimos! – respondeu Susan – E servimos de exemplo para as gerações que nos seguiram. Foi em 1920, você se lembra? Eu morri quatorze anos antes, mas acabei sabendo. Depois de nós, americanas, outras mulheres conseguiram o mesmo em vários países.

- E nós, que começamos todo esse movimento na Inglaterra – interrompeu Emmeline – só conseguimos oito anos depois de vocês. Mas valeu ter sido presa 12 vezes para que conseguíssemos...

     Susan B Anthony 1820 - 1906

- Como valeu, Emmeline? – explodiu Lucretia – como você pode imaginar que valeu, se acabamos de ver todo aquele horror lá no Brasil?

- Calma. Não foi tão horrível assim. Muitas mulheres brasileiras compareceram às urnas. – disse Susan.

 - Sei – disse Lucretia – As pobres, as que não podiam ir para a praia no dia eleição. Porque o que a gente viu foi uma debandada geral no sábado, para as praias e casas de campo. Elas não estavam nem aí com o direito de votar, justificaram seu voto e pronto. Todas elas passaram o dia tomando sol, indiferentes ao exercício do direito que tanto sofremos para que elas tivessem.

A voz de Margaret Sanger soou calma:

-Meninas, vocês estão exagerando. As brasileiras estão desiludidas com a péssima qualidade dos políticos que elas têm hoje por lá. Por isso é que não acreditam mais na importância do voto. É claro que elas se importam com o direito de votar,sim.

     Lucretia Mott 1783-1880

 Pior é o que fazem com o direito pelo qual eu tanto lutei para que elas tivessem. Lembrem-se de que não foram vocês apenas que sofreram perseguições. Eu fui presa, processada, exilada, ridicularizada... porque queria que as mulheres pudessem ter filhos quando e como desejassem. E, olhem, vocês viram o voto ser conquistado, na maioria dos países ocidentais, antes da metade do século XX. Quanto ao direito pelo qual eu tanto lutei, demorou muito mais! A pílula anticoncepcional só apareceu em 1960! E o que elas fazem hoje? Esquecem de tomar o remédio ou o tomam sem receita. E ainda têm aquelas que nem tomam, confiando na sorte, desprezando uma conquista feminina a duras penas atingida! Eu queria que as mulheres fossem donas de seus corpos e, vocês viram, o que elas andam fazendo com seus corpos? Têm filhos para prender os homens ou para arrancar dinheiro, posam nuas nas revistas, estragam a sua saúde com drogas e dietas absurdas apenas porque são escravas daquela imagem de fêmeas esquálidas e subnutridas que a tal da mídia de hoje impôs para elas...Um horror! Muito pior do que não votar!

 

      Margaret Sanger 1883-1966

- Mas o pior mesmo – disse Lucretia, sorvendo um longo gole de chá – são aquelas que dizem que não se importam com a política e recuam horrorizadas ante a possibilidade de serem tachadas de feministas!

- Também, Lucretia, disso elas não têm culpa – defendeu Susan – Essa tal dessa mídia enfiou na cabeça delas que feministas não somos nós e sim aquelas aproveitadoras que usam das nossas conquistas para arrancar dinheiro dos homens.

- Esse é o problema! – explodiu Elizabeth – Depois de tudo o que conquistamos para elas: o direito ao voto, à educação, à vida profissional, ao controle da natalidade, ao prazer sexual... Depois de tudo o que outras mulheres, depois de nós, conquistaram, elas têm todas as condições de serem donas de seu próprio destino, mas ainda acreditam que precisam arrancar dinheiro dos homens.

- A verdade – retrucou Emmeline, limpando um cisco imaginário de seu magnífico xale – é que a sociedade ainda paga mais aos homens, ainda valoriza mais o trabalho e a capacidade dos machos, do que as delas. Elas podem ter direitos, mas não têm as mesmas oportunidades e ainda são educadas para a inferioridade social.

                                                                             Emmeline Pankhurst 1858-1928

- Mas, Emmeline – retrucou Lucretia – se elas, com todos esses direitos, ainda conseguem ser inferiores, o que dizer de nós? Nós não só fomos educadas para sermos inferiores como, de fato éramos. Não tínhamos direito a nada, nem ao voto, raramente à educação, éramos realmente tuteladas, escravas... E, mesmo assim, nos revoltamos, lutamos, fomos perseguidas...Essas mulheres de hoje já nascem com a faca e o queijo na mão e não conseguem ser livres. É um contra senso, uma verdadeira tristeza.

E ficaram, as históricas sufragistas, em silêncio, em sua nuvem, se perguntando, para que, afinal, haviam sofrido tanto quando estavam vivas.

Se Você Fosse Um Homem

Imagine, minha amiga, você nascer homem.

Desde pequenininho seria treinado para não chorar, mesmo que o seu irmão maior o enchesse de pancada. Depois, mais crescidinho, enfiariam na sua cabeça que você, e somente você, teria que ser o melhor em tudo. O primeiro. Nem que para isso tivesse que usar os métodos mais baixos conhecidos pela humanidade.

Um pouco mais tarde você seria estimulado a comparar o tamanho do seu pênis com o dos seus amiguinhos e aí de você se ele fosse menor...Você cresceria com aquela horrível sensação de inferioridade e, sem perceber que as mulheres preferem a qualidade ao comprimento, poderia acabar no divã do psiquiatra ou no consultório do urologista para tentar se livrar da maldita ejaculação precoce.

Na adolescência, sofreria pressões para freqüentar casas de tolerância ou comer a empregada doméstica, ainda que ela fosse um bofe. Teria que mentir que deu duas ou três, quando na verdade mal dera conta de apenas uma. Passaria noites em claro pensando na melhor maneira de ganhar o máximo possível de dinheiro porque, é lógico, você acabaria sendo responsável, num futuro próximo, pelo sustento de uma família.

Debateria-se por exemplo entre a angústia de ter vocação para a física nuclear e o magistério sabendo muito bem que a carreira ideal para os seus objetivos estaria mesmo em ser um ídolo internacional do futebol, ainda que tivesse duas pernas esquerdas.

E na hora de aprender a dirigir, então? Milhões de futuras obrigações passariam pela sua mente: você teria que ser melhor que o Senna, conseguir driblar todos os radares, conduzir a máquina em perfomances sensacionais e, pior que isso, ter dinheiro suficiente para comprar e manter, pagando todos aqueles impostos, o melhor e mais bonito carro do pedaço.

Desgraça mesmo seria se apaixonar por aquele garota sensacional, mas que só dá casando. Aí, então, você teria que se preparar para pagar pela casa, pelos partos dela, pela escola das crianças e todo aquele monte de despesas que dão os filhos. Isso sem falar que você teria que ser o pai herói, infalível, o máximo, bem sucedido, com a carteira cheia de cartões de crédito (ai, os juros e as taxas!) e ainda posar de homem direito, cheio de boas intenções, os melhores pensamentos, para dar o exemplo, sabe como é? Além disso, ia passar o resto da vida tendo que dar escapadelas aos motéis (caríssimos) para poder satisfazer o seu desejo pelas eventuais outras, tudo isso sem que a principal desconfiasse, ainda tendo que arcar com todas as despesas que sempre dão esses casos extraconjugais.

Ah, e tudo isso sem falhar na cama!

Pior ainda se a titular descobrisse seus casos e pedisse o divórcio. Aí, além de enfrentar (e pagar) os temíveis advogados, ficaria com a espada de Dâmocles sobre a cabeça, aquela horrível possibilidade de ir em cana, cana mesmo, desmoralizado e ferrado, caso não conseguisse honrar a maldita pensão que o juiz estipulasse. Crianças, só um fim de semana sim, outro não, e as suas namoradas iam tentar seduzir os seus filhos, fazendo papel de segunda mãe, pra você, um dia, se arriscar a ter unzinho com elas, você sabe, uma questão de garantia e investimento para o futuro.

E, depois de todo esse drama, você chegando exausto do escritório, onde lutara como um leão para que ninguém pudesse sacanear aquela promoção pela qual você tanto vem brigando, encontraria uma mulher, a sua, que passara o dia indisposta, quebrara uma unha no shopping, fora ao cabeleireiro mas ainda estava em depressão da TPM, querendo discutir a relação.

Discutir a relação??? Ora, minha filha, tenha paciência. Tenha paciência!

 

 

               Você Não É Sexualmente Livre.

 

As mulheres modernas se orgulham, muitas vezes, da posição que ocupam hoje em sociedade, de seus direitos (conquistados a duras penas por gerações e gerações de nossas antepassadas), de seus hábitos contemporâneos, de seu alto nível de informação, de sua liberdade sexual.

As mulheres de hoje podem escolher seus próprios caminhos, seguir os impulsos naturais de suas respectivas vocações, trilhar uma carreira profissional. Isso, até muito pouco tempo atrás, era impensável. Só as muito loucas e muito ousadas é que conseguiam escapar do único modelo possível, o de mãe e do lar. E, mesmo assim, pagavam alto preço social por isso, muitas vezes enfrentando o desprezo, o sarcasmo...

O fato é que a mulher de hoje, da simples mulher do povo à deusa da mídia, não é sexualmente livre coisa nenhuma. Todas nós temos o direito de fazer sexo, sem ter que prestar contas à ninguém, e isso foi sem dúvida uma vitória feminina. Mas isso não significa ser sexualmente livre.

Livres para fazer amor, sim, mas presas aos grilhões de anos, séculos, milênios, de submissão sexual. O que se ensina para os meninos é, em resumo, que eles sejam predadores sexuais. Às meninas, que resistam.

Pense bem, minha amiga: é uma educação para a guerra.

Guerra que nós, mulheres, perdemos feio. Temos todas as desvantagens e nelas se inclui a educação repressiva. Aprendemos ( e ensinaremos aos nossos filhos?) que genitais são aquela parte do corpo que é melhor fingir que não existem, a não ser quando precisamos fazer uso deles. Não sabemos nos tocar e desconhecemos quase tudo a respeito de nossos próprios órgãos sexuais femininos. Meninos se masturbam, como a coisa mais natural do mundo. Meninas aprendem a não se tocar.

Meninos fazem sexo pelo prazer. Meninas precisam da desculpa do amor.

Nós mulheres trazemos, em nossa bagagem cultural, séculos e séculos de repressão sexual e social. Dentro de nós moram nossas avós, a quem era negado o prazer do sexo. Dentro de nós moram nossas antepassadas, a quem era dado apenas dois caminhos: a mãe de família assexuada, ou a prostituta saco de pancada.

Mas, como nada é completamente estúpido na vida, existiram as exceções. Mulheres, poucas, que driblavam as armadilhas sociais e construíam, elas próprias, suas vidas; mulheres que se rebelaram e lutaram para que pudéssemos viver hoje com os direitos que elas conquistaram para nós; mulheres que encontraram a alegria do sexo, mesmo que proibido, e se realizaram com seus companheiros.

As meninas de hoje precisam ser ensinadas a serem como essas mulheres, essas que, em passado ainda recente, foram as exceções. Nossas meninas precisam crescer com uma visão sadia de sua própria condição feminina, precisam aprender a gostar de seu próprio corpo e compreende-lo em tudo que ele pode nos proporcionar.

Mas se nós mesmas rejeitamos nosso corpo, nos intimidamos com ele, não nos conhecemos, como ensinar às nossas meninas, para que elas sejam mais felizes do que nós?

Pagamos um preço alto pela capacidade de gerar filhos: a dança dos nossos hormônios. E isso também tem influência na nossa sexualidade. Mas podemos aprender a trabalhar com essas nossas características, trabalhar a nosso favor. Mas, para isso, precisamos conhecer o funcionamento da nossa feminilidade, precisamos saber como nosso corpo funciona. E precisamos ainda mais que isso: precisamos aprender a tocar e a reconhecer o nosso corpo.

Hoje em dia, até em hospitais, como o Pérola Byington de S.Paulo, se pode aprender a ter uma nova visão da sexualidade, uma visão mais sadia. Existem ambulatórios de sexualidade em muitos hospitais públicos.

Sozinhas ou com ajuda profissional, nós só teremos conquistado a verdadeira liberdade sexual quando conquistarmos a intimidade com o nosso próprio corpo.

Primeiro a mulher achou que seria livre quando conquistasse o direito ao voto. Depois, quando pudesse mandar no seu corpo e fazer contracepção. Depois, quando atingisse a liberdade econômica. Agora é a vez da verdadeira liberdade sexual que não existirá, acredite, enquanto não recuperarmos a intimidade, socialmente reprimida, com o nosso próprio corpo.

 

EU NÃO SOU FEMINISTA!!

Estou cansada de ouvir uma mulher inteligente dizer, com aquele horror social: Eu não sou feminista!

Acabo sempre, lá no fundo de minh’alma, perguntando se ela é mesmo tão inteligente quanto parece... Logo me arrependo do pensamento e concluo que ela, como tantas mulheres de hoje em dia, caiu na armadilha dos argumentos machistas.

Afinal, o contra-feminismo conseguiu mesmo instalar nas mulheres decentes um enorme repúdio à imagem que vendeu do feminismo: fêmeas muito feias, masculinizadas, aproveitando-se das conquistas femininas para tirar proveito de homens (como as americanas fazem com a história do assédio sexual, por exemplo), negando o que temos de melhor e mais querido em nosso sexo, como uma certa tendência à doçura, à emoção e à beleza da vida.

Só que, minha amiga, acredite, as verdadeiras feministas não são (e nunca foram) absolutamente nada disso.

Feministas são aquelas mulheres ousadas e corajosas que lutaram, no passado, para que deixássemos de ser umas coitadas, absolutamente sem direitos na sociedade, comparadas e equiparadas, nas legislações, às crianças e aos selvagens.  

Feministas foram as nossas bisavós que saíram às ruas – no  Brasil, na América e na Europa – em passeata pelo direito ao voto. Imagine como você se sentiria hoje em dia se não fosse permitido às mulheres o voto. Você se sentiria marginalizada, um zero à esquerda, uma porcaria social.

É mais do que claro, para as mulheres contemporâneas, que elas têm o direito a escolha dos seus representantes e governantes. Mas é sempre bom lembrar que o direito ao voto feminino só foi conquistado pelas americanas em 1920, pelas brasileiras em 1934 e pelas suíças, só em 1971!

Há mulheres memoráveis, na História, que foram sufragistas. Emmeline Pankhurst, na Inglaterra do começo do século passado, foi presa 12 vezes porque insistia em lutar pelo voto feminino. Sofreu horrores.

Mas não foi apenas pelo voto que as mulheres lutaram e sofreram. Margaret Sanger também foi presa e perseguida em Nova Iorque, nos anos de 1910, porque pretendia ensinar métodos anticoncepcionais às famílias. E lembre-se que a pílula só veio em 1960, meio século depois!

Eu poderia escrever todo um livro, inteirinho, apenas citando exemplos de mulheres lutadoras, feministas, que sacrificaram suas vidas para que hoje nós pudéssemos não apenas votar e planejar a nossa natalidade, mas trabalhar, nos realizarmos plenamente como seres produtivos e cidadãs, pois é exatamente isso que somos.

E hoje? Hoje a sociedade ainda nutre seus preconceitos contra nós. Hoje ainda é preciso, sim, lutar. Para que maridos violentos parem de nos ver como saco de pancada, onde podem descontar as suas próprias frustrações. Para que parem de nos chamar de cachorras nas músicas. Para que empresários deixem de pagar menos às mulheres que aos homens, nas mesmas funções.

Minha mãe nasceu em 1912. Já tinha quase quarenta anos quando deu a luz a mim. Mas cresci ouvindo-a dizer: “por que é um direito para eles e outro para nós?”. Homens e mulheres têm sim que ser iguais, na diferença. Todos, independente de seu sexo ou mesmo de sua opção sexual, da cor de sua pele, de sua origem étnica ou de sua religião, têm que usufruir dos mesmos direitos na sociedade. O resto é preconceito. E é contra o preconceito que as feministas lutaram e ainda lutam até hoje.

Não tenha vergonha de suas antepassadas que lutaram para que você pudesse ser hoje o que você é. Não negue seu passado, como mulher. Nem entre nesse papo machista de que toda feminista é feia e mal amada. Eu, por exemplo, sou muito bem amada nesse casamento que já dura 20 anos e não sou nem um pouco feia e sou, sim, feminista, graças a Deus!

 

História das Minhas Flores

(clique na foto e assista ao vídeo sobre as flores)

 Muitas das minhas telespectadoras e até mesmo algumas amigas, sempre me perguntam porque eu jamais deixo de usar uma flor na lapela. E não é apenas na TV, é na vida. Mesmo quando estou de roupa esporte, sempre acho uma florzinha de tecido, na gaveta, que acaba combinando com o traje. Virou mania.

Tem uma história, ou várias histórias, aqui. E, como as perguntas sobre isso têm sido muito frequentes, resolvi contar.

Quando, há uns três anos passados, as flores vieram à moda, eu fiquei muito entusiasmada. Afinal, adoro flores, sou uma jardineira (competente!) de apartamento e tenho, na sala de casa, uma verdadeira mata florida. Há apenas uns 20 anos, descobri o enorme prazer que é praticar a jardinagem, ainda que em vasos e nos apartamentos. Com as plantas, aprendi a ter paciência, eu que sou impulsiva e quero tudo já, agora. Com elas, é preciso esperar. Semeia-se, espera-se pelo broto, depois pela planta, pela flor e pelo fruto, se for o caso. Não adianta ter pressa. E é muito gratificante ver como elas respondem aos nossos cuidados. Para mim, cultivar plantas no apartamento foi uma descoberta mágica e maravilhosa.

Por isso, quando vieram as flores de tecido à moda, pedi ao meu marido, que ia ao shopping, que me comprasse algumas. Ele me trouxe três e comecei a usa-las nos meus programas de TV.

Lembrava-me de que vira essas flores em muitos trajes que a minha mãe, sempre elegante, vestia quando eu era criança, nos tempos idos da década de cinquenta. Pedi a ela que confeccionasse, com suas mãos de modista experiente, mais algumas flores para mim. Ela fez mais três e eu fiquei com seis.

Um dia o Ronnie Von, que me encontrara no corredor da emissora, disse:

- Nossa Bel, que linda essa camélia branca! Você deve ter um montão de flores, não? Cada dia com uma mais linda!

Eu ri, pensando que apenas 6 flores faziam o efeito de várias, dependendo da roupa.

Um dia, logo depois, sonhei que folheava antigos albúns de fotos da família e, de lá de dentro, saltavam flores de seda, as mesmas que a minha mãe havia usado nos anos cinquenta. Acordei extasiada.

Nesse mesmo dia, minha amiga Leda me telefonou para dizer que fora a uma loja de couro, no centro da cidade e que o dono da loja, Francisco, estava me mandando de presente dez flores.

Fiquei com 16.

Algum tempo depois, quando gravávamos juntas uma chamada, Sula Miranda me disse o que o Ronnie já dissera e perguntou:

- Quantas flores você tem, Isabel?

- 16, respondi.

- So isso? Parece que é muito mais!

No dia seguinte, me esperava, em meu camarim, uma caixa de sapatos, mandada pela Sula. Abri e fiquei com lágrimas nos olhos: lá dentro, 25 flores, uma mais linda que a outra.

Fiquei com 41.

Minha prima Vera Krausz (primavera!) me deu um presente que trazia uma linda flor na caixa. 42.

Pouco tempo depois, a Miriam Sobral também deixou no meu camarim uma linda caixinha com uma maravilhosa flor preta e branca. 43.

Depois, foram as dentistas, Adriana e Alessandra Mazzoni que me trouxeram uma estonteante flor de seda azul-céu. 44.

Minha amiga Leda me trouxe mais uma, da Itália. 45.

E a minha vizinha do oitavo andar, Filomena, me encontrou na calçada da Paulista e perguntou se eu me importaria de herdar umas velhas flores de seda, muito antigas, que ela conservara. Trouxe-as mais tarde, numa caixa de papelão, envoltas em papel, lindas, antigas e muito tradicionais.

Assim, hoje eu tenho 52 flores. Sem nunca ter comprado nenhuma e as uso todos os dias.

Claudia Pacheco, em seu programa matinal, entrevistava a dona de uma confecção, mostrando as tendências para a próxima estação e uma das modelos tinha uma linda rosa no vestido.

- Sabe, Cláudia, as flores virão com tudo a partir de agora. – disse ela.

E a Claudinha:

- Ah, então está para a Isabel Vasconcellos! Ela adora flores.

Eu adoro mesmo e vou usá-las sempre, estejam ou não na moda.

Afinal, elas vieram todas de presente, qualquer uma que eu coloque na roupa, me lembra um amigo, um afeto. E me lembram também que, apesar de ser uma imagem batida e explorada, as flores, tão lindas e efêmeras, simbolizam o milagre da natureza, o milagre de se estar vivo.

E tem mais uma coisa: depois de décadas de luta e sofrimento, as sufragistas americanas viram acontecer, em 26 de agosto de 1920, uma sessão do Congresso para deliberar se elas conquistariam ou não o direito de voto para as mulheres. Elas venceram. O voto feminino foi estabelecido, nos EUA, neste dia. E, neste dia, todas as mulheres que estavam presentes no Congresso, usavam uma flor na lapela.

A PRIMEIRA FEMINISTA

Mary Woolstonecraft, escritora,  é considerada a primeira feminista da história.

Ela nasceu na Inglaterra em 27 de abril de 1759 e morreu em 10 de setembro de 1797, aos 38 anos de idade, exatamente 11 dias depois de dar à luz a uma filha, que se tornaria muito mais famosa do que ela, também como escritora: Mary Shelley, a autora de Frankstein, casada com o também famoso poeta Shelley.

Mary Woolstonecraft escreveu mais de 30 obras e inúmeros artigos, quase na sua totalidade, sobre a condição feminina na sociedade. Musa dos movimentos sufragistas americanos, num século em que as mulheres que sabiam ler e escrever eram exceções, Mary causou furor com as suas reivindicações de igualdade de direitos para homens e mulheres.

Mas teria sido ela realmente a primeira feminista da história?

Todos nós sabemos que a História da Humanidade é a História dos Vencedores. O que chegou até nós, nos últimos milênios, é o relato de um mundo masculino, de dominação machista e de submissão das mulheres.

A tradição e as lendas, porém, falam de agrupamentos humanos dominados pelas fêmeas. Quando os homens ainda não tinham consciência de seu papel na reprodução humana alguns grupos reverenciavam as mulheres por sua capacidade de gerar.  As mulheres celtas dividiam o poder religioso com os druidas e suas sacerdotisas tinham grande influência política. Há ainda os relatos mitológicos do poder das guerreiras amazonas, que decepavam um seio para poder manejar melhor o arco. E existe ainda quem afirme que houve toda uma dinastia de faraós mulheres no Antigo Egito, da qual a famosa rainha Cleópatra seria uma pálida remanescência.

Nos últimos dois mil anos, a História das mulheres (até Mary Woolstonecraft e as feministas que vieram depois dela) é apenas a história da dominação machista. As sacerdotisas celtas que conseguiram manter o seu poder até a Idade Média foram queimadas nas fogueiras do cristianismo como bruxas. Assim como foram consideradas bruxas, na época, todas as mulheres que ousaram mostrar qualquer espécie de conhecimento ou espírito de independência.

Até Mary Woolstonecraft sobrou para nós apenas o poder por trás do pano, ou sub-repetciamente na família ou, na política, as grandes cafetinas donas de bordéis com acesso aos próceres locais.

No entanto, apesar de as feministas radicais terem conquistado a fama de masculinizadas ou de inimigas-do-homem, as verdadeiras mulheres lutadoras só querem ter reconhecida a igualdade natural entre os sexos. Afinal, a igualdade na diferença.

E, se pensarmos amplamente na história da humanidade, talvez possamos concluir que a primeira feminista da qual se tem notícia não seja realmente Mary Woolstonecraft, mas simplesmente Eva, que não contente em ser uma simples costela, comeu o fruto da Árvore do Conhecimento.

 

Margaret Sanger

A Pioneira da Contracepção

 

Margaret Louise Higgins nasceu em 14 de setembro de 1879, no estado de Nova Iorque, nos EUA. Era filha de irlandeses e, quando sua mãe morreu, com apenas 50 anos de idade, Margaret, que tinha 11 irmãos, atribuiu a morte da mãe ao excesso de gravidezes e partos a que esta fora submetida.

Naquele tempo, as mulheres tinham como única perspectiva de realização, a constituição da família. É claro que já existiam aquelas que exerciam alguma outra atividade ou profissão e, no começo do século XX, muitas e muitas mulheres se dedicavam à luta sufragista e pela igualdade social entre os sexos. Mas eram todas exceções.

Em 1900, Margaret já era enfermeira. Em 1902, casou-se com William Sanger. Na década de 10, o casal Sanger vivia na cidade de Nova Iorque e freqüentava seus altos círculos intelectuais.

Em 1912 ela começou a escrever para um importante jornal uma coluna intitulada “O que toda mulher deveria saber”, onde falava da necessidade da educação sexual e das práticas (poucas, é verdade) disponíveis para se controlar a natalidade. Ela acreditava que nenhuma mulher poderia ser livre se não controlasse seu próprio corpo. A partir de 1914 iniciou a publicação de um panfleto intitulado “Mulher Rebelde”, onde enfocava temas como a luta pelos direitos femininos e também a contracepção.

Foi perseguida, acusada de divulgar a pornografia, presa e condenada. Teve que se exilar na Inglaterra, para fugir à prisão e passou um longo ano longe do marido e dos filhos.

Ora, o movimento feminista, nessa época, era realmente muito forte na Inglaterra, berço de Mary Wollstonecraft (a mãe da Mary Shelley, autora de Frankstein, e considerada também a mãe do feminismo moderno) e Margaret logo se uniu às militantes inglesas, aprendendo ainda mais com elas.

Quando voltou aos EUA foi imediatamente presa. Mas seus escritos tinham alcançado uma aceitação tão grande entre as mulheres de todo o país, que a própria primeira dama escreveu ao promotor, interferindo em favor de Margaret. Resultado: ela foi absolvida de todas as acusações.

Mas foi presa outras vezes depois. Em 1916 fundou uma clínica de controle da natalidade. E, por toda a sua vida, lutou para que as mulheres tivessem o direito de decidir se queriam ou não ter filhos.

A pílula anticoncepcional surgiu no começo dos anos 60, quando Margaret já tinha mais de 80 anos de idade. Mas só em 1965 os americanos reconheceram legalmente o direito ao planejamento familiar.

Margaret Sanger morreu em 5 de setembro de 1966, poucos meses depois de ver suas idéias finalmente reconhecidas. Ela estava com 86 anos de idade.

Se hoje podemos ir tranqüilamente ao ginecologista e escolher um, entre os muitos disponíveis, método contraceptivo; se hoje podemos ser donas de nossos corpos e não precisamos mais, como as nossas mães, recorrer aos abortos clandestinos e cruéis, devemos isso também às mulheres corajosas e idealistas que muito lutaram, como Margaret Sanger.

Por isso, minha amiga, não confie na sorte nem na pílula da vizinha. Exerça o direito que conquistamos e planeje sua gravidez, com a assistência de um bom ginecologista. Mrs. Sanger agradece.

 


 

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