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27. Waldemar, pioneiro de Rádio e TV no Brasil.
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Adolescente Mulher Dra.Albertina
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Meus Livros(que
escrevi e publiquei)/Meus
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Dr.Narciso Garone/
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Isabel Vasconcellos - Saúde & Livros
Memória III
Esta é a terceira página onde você encontra os textos eu eu, de vez em quando, escrevo quase sem querer. São memórias. Da vida, da família, dos acontecimentos políticos em nosso país, do trabalho na TV. Se quiser ler na ordem cronológica,
vá à página Memória I. (lá, os 17 primeiros textos) e/ou à página Memoria II (textos de 18 a 22)
textos e vídeos desta página: 28. Rede Mulher de Tv, 17 anos 27. Waldemar, pioneiro da RTV no Br
26. As Bruxas e as Festas Juninas 25. O Olhar da Minha Mãe 24. Os Avós das Câmeras 23. A Identidade na Carteira
No Facebook: Rede Mulher de TV,
17 anos em 8 de agosto de 2011
Abaixo, vc acompanha o diálogo no Face e tem o link pro albúm de fotos (com muitos comentários de quem participou da Rede) que tb está no Face.
Clicando na foto ao lado vc assiste o programa Especial de 12 Anos da Rede Mulher de TV, da Miriam Sobral, com o meu depoimento sobre a Rede.
O programa é de 2006, último ano de vida da Rede Mulher.
Marianna Dib, Lívia Santuzzi, Fatima Lira Marcus Cacais, Antonio Da Silva Costa, Ana Carolina Neves, Valeria Ferreira Benz, Simone Velloso e outras 15 pessoas curtiram isso
Mundo Dos Livros A Rede Mulher tinha programas muito bons, mesmo para o público masculino.
Miriam Sobral
Belzinha querida.......realmente só vc
mesmo p lembrar dessa data!Eu que fiz parte durante 6 anos com os programas
femininos,nemmmmmmm lembrava!hihihihihi...Aliá
Léo Casamayor Lembro pelos amigos que fiz,agora quanto ao restante,sexta vimos que continua tudo como sempre.Beijo
Marianna Dib
Isabel querida..verdade nao lembrava..rsrsrs...beijao;
Marcus Cacais tb fiz grandes amigos neste lugar maravilhoso que trabalhei por sete anos!
Isabel Nossa, Cacais, Leo, Mari, Mirinha... tantos amigos que nem dá pra enumerar... Eu me lembro que as merchandettes (pra quem não sabe, as moças que fazem comerciais ao vivo com os apresentadores), que frequentavam quase todas as TVs, diziam pra nós que a Rede Mulher era diferente, que lá não havia aquele clima de um querendo comer o outro. E era mesmo. Por isso fizemos amigos.Moises Lucena Meu Deus, to ficando velho....... Grandes tempos de Rede Mulher.... Falei com o Ernandes hj sobre como era diferente o clima na emissora... Pelo menos as lembranças ficam, e os amigos tbm.....
Na Festa dos 12 anos, os apresentadores da Rede Mulher:
-de pé: eu, Cinthya Maggi, Dotan. Miriam Sobral, Alan Villa, Adriana de Castro. Sentadas: Tânia Rodrigues, Fátima Turci, Claudia Pachedo e Solange Frazão.
Também Comandaram programas na Rede Mulher: Cátia Fonseca, Ricardo Corte Real, Ronnie Von, Sula Miranda, Giba Um, Leão Lobo, Glauce Graieb, Marisa Leite de Barros, Alessandra do Vale, Amália Rocha, Norma Blum, Mariana Braga, Marianna Dib, Nani Venâncio, Luciana Camargo, Renata Vianello, Liliane Mosca, Liliane Ventura, Myla Christie; Andreia Tomé, Paulinho Boa Pessoa, Paulinho Salgado, Ivi Mari, Márcia, Clodovil, Márcia Goldschmidt, Rosana Hermann, Andrea, Cristina Cairo, Magdalena Bonfilioli, Ronaldo Esper, Rodolfo Bottini.
OBS:Na página Memória I, deste site, tem toda a história da Rede Mulher de TV, do meu ponto de vista. É o texto de número 6.
Página da Rede Mulher de TV no Facebook:
http://www.facebook.com/IsabelVasconcellos.Caetano#!/groups/406824589343304/
26. As Bruxas e As Festas Juninas
Descubra o que umas tem a ver com as outras, assistindo ao vídeo "São João na Paulicéia", só dois minutos e onze segundos. Clique na fogueira.
25. O Olhar da Minha Mãe e as Células Tronco
Escaneando
fotos antigas foi que reparei nos olhos da minha mãe. Eles tinham um brilho, uma
alegria, que eu não conheci.
Em 1951, quando nasci, os olhos dela ainda brilhavam, mas não tinham mais essa labareda de alegria que aparece claramente nas fotos mais antigas. Daí, até sua morte, nunca mais tiveram.
Ah, sim, ela era dona de um sorriso maravilhoso e a sinceridade evidente de seu rosto conquistava a tudo e a todos, com aquela coisa fácil de puxar conversa fácil, de encantar seu interlocutor. Todos, de clientes a vizinhos, passando pelos feirantes, garçons e motoristas de táxi, todos se encantavam com o jeito dela.
Mas eu não sabia que seus olhos haviam perdido, pelo caminho, essa incrível chama da alegria.
Foi
a doença de meu irmão mais velho que tirou dos olhos dela essa maravilha que ora
descubro nas fotografias muito antigas. O sofrimento de ver o seu primogênito
incapacitado para a vida intelectual, ele, que além de lindo, era (e foi até a
morte) tão organizado, tão dandy, gavetas sempre em ordem, bonés guardados em
ordem degrade de cores, lápis bem apontados, barba bem feita, perfume.
Me lembro dele, entrando aqui em casa, há uns quinze anos e dizendo com ar repreendedor, olhando para o tapete que acabara de chegar da lavanderia:
- Isabel, este seu tapete está sujo!
Meu
irmão Alfredinho foi vítima de uma lesão cerebral causada por uma encefalite
(literalmente: inflamação no encéfalo) que que só foi diagnosticada quinze anos
depois de acontecer. Uma febre altíssima aos cinco anos de idade e, de repente,
o menino lindo passou a desenvolver uma carinha meio boba, não conseguia juntar
as letras em sílabas, não conseguia acompanhar os estudos. Tornou-se um jovem
agressivo, meus pais o levaram a médicos, curandeiros, sacerdotes, doutores e
mais doutores. Só com o eletroencefalograma no começo dos anos 1950 é que se
descobriu o que havia de errado com ele.
A doença dele foi responsável por alguns abortos da minha mãe. Naqueles tempos pré-pílula não havia outro jeito e ela temia que nascesse outro igual a ele. Só quando soube que não era de nascença se deu o direito de me deixar nascer. Sou quinze anos mais nova que Alvan, meu irmão mais novo.
Alfredinho
passou a vida indo e vindo dos hospitais psiquiátricos e clínicas que meus pais
procuravam, desesperadamente, para ele. Tiveram a felicidade de encontrar alguns
que não eram depósitos de loucos. Nos hospitais, outros doentes perguntavam se
ele era doutor. Por causa de suas maneiras naturalmente finas e polidas, porque
ele sabia nomes de políticos e fatos históricos. Mas era um verdadeiro samba do
criolo doido: Getúlio Dornelles Vargas conversava com o Imperador D.Pedro II e
Juscelino casava-se com a Conceição da Costa Neves.
Três anos depois da morte de meu pai, minha mãe conseguiu conservar o Alfredinho em casa pelo mais longo período de sua vida adulta: quinze anos. Mas, quando ela já estava com 93 anos, acabou me pedindo para voltar a interná-lo porque ela não conseguia mais discipliná-lo. Nessa época, minha mãe morava só com ele e com as empregadas malcriadas que ela conseguia arranjar.Meu irmão Alvan, que também morava com ela nos últimos anos, também morrera e tudo se tornou muito difícil.
Mauro e eu quase enlouquecemos à procura de alguma instituição que pudesse aceitá-lo, nesses tempos de neurose antimanicomial. Acabamos conseguindo encontrar uma clínica para dependentes quimicos no interior de São Paulo, uma clinica que já fora meu anunciante no programa de TV.
Ironicamente,
um enfarte fulminante matou o Alfredinho, no dia 6 de maio de 2007, antes dele
completar 73 anos de idade. Minha mãe morreu 40 dias depois. Ela já estava
bastante debilitada e o psiquiatra me aconselhou a não contar a ela sobre a
morte dele. Mas, de alguma maneira, ela soube. Porque no dia em que voltamos do
enterro dele, esbodegados, depois de um dia estafante, de estrada e burocracias
e desaforos feitos por uma das minhas primas, o telefone tocou a uma hora da
manhã. Era da casa da minha mãe, do residencial de velhinhos onde ela morava.
Ela estava muito mal. Só morreu 40 dias depois porque as modernas técnicas da
Medicina tendem a prolongar inutilmente a vida de quem já está na hora de
partir.
Depois que ela se foi, eu descobri um lindo caderno com capa de cetim, papel muito fino e ilustrações muito lindas, no meio das coisas dele. Era um Diário do Bebê que ela fizera para o Alfredinho, quando ele nasceu em 1934.
Num futuro não muito distante as células tronco serão capazes de recuperar as lesões cerebrais e ninguém mais, nascido com uma alma brilhante como a dele, passará uma vida condenado à ignorância intelectual. E os olhos das mães não precisarão se apagar.
Comentários:
De: "Facebook"
Assunto: Amarilis Rahner comentou seu link.
Data: quarta-feira, 11 de maio de 2011 20:58
Amarilis Rahner comentou seu link.
Amarilis escreveu:
"Bel, seu escrevinhador deve abrir mais e mais vezes. Amei suas crônicas (ou artigos) de hj. Bjo!"
De: "Editora Imprensa 18 anos"
Assunto: RES: O Olhar da Minha Mãe e as Células Tronco
Data: sábado, 14 de maio de 2011 22:32
ISABEL, ADORO SUAS HISTORIAS DE VIDA. COMO VOCE ESCREVE BEM. ME EMOCIONO SEMPRE. JORNALISTA MARCO ZAPAROLLI MARILIA,SP
De: "Cleds Fernanda"
Assunto: o artigo sobre os olhos da sua mãe
Data: domingo, 15 de maio de 2011 10:02
Isabel, bom dia!
Fui às lágrimas ao ler esse artigo. Uma crônica de primeiríssima qualidade, Isabel.
Como admiro sua forma de superar as dores e seu amor aos seus familiares.
Abraço, Cleds
From: elnora
Sent: Sunday, May 15, 2011 12:51 PM
Subject: Re: O Olhar da Minha Mãe e as Células Tronco
Estou com voce em tudo, voce é ótima, tem argumentos para derrubar qq idiota....... bjs. elnora
24. Os Avós das Câmeras
Há
momentos em que olho para as muitas máquinas de fotografia e cinema que tenho
aqui expostas na casa, como relíquias, e meus olhos se enchem de lágrimas. Só
quem, como eu, conviveu com as antigas tecnologias da imagem pode compreender de
imediato o absoluto encanto da história da fotografia e do cinema.
Cresci num lar dedicado à imagem. Meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos (1908-1987) foi pioneiro na cinematografia de 16mm na América Latina e as máquinas de seu laboratório foram, em grande parte, construídas por ele próprio.
Meu irmão, Ronaldo Alvan (1936-2004) foi pioneiro da TV e dirigiu importantes emissoras, desde a Excelsior até algumas afiliadas da Rede Globo e, ainda, a TV Gazeta de S.Paulo.
Na
minha estante, muitas máquinas antigas: desde câmeras fotográficas até a minha
velha paillard bolex, que era o máximo do charme nos anos 1960, passando por um
velho projetor 16mm Bell Howell. O mais eu doei pra cinemateca.
Mas da coleção que conservei, emociona-me particularmente uma enorme máquina fotográfica 6x6, encorpada e nobre, que se chama Kodak Medalist II;
e
me enche de ternura uma outra – ambas são dos anos 1930 – que faz fotos em três
dimensões. Ou seja: ela tem três objetivas que projetam pra dentro dela duas
imagens, que, se vc colocar uns óculos na distância focal certa, se
transformarão em uma única, em 3ª. dimensão.
James Cameron tinha, sem dúvida, onde se inspirar.
Tanto meu pai trabalhou para produzir imagens cada vez de maior qualidade. E, naquele tempo, produzir imagem era uma coisa complicadíssima, um processo louco, de várias e delicadas etapas.
O som, por exemplo, era à parte. Era colocado, depois, na película.
Tudo
era muito trabalhoso e sutil, mas, ainda assim, Hollywood produziu efeitos
especiais, nas terceira e quarta década dos anos 1900, que nada ficariam devendo
ao que se consegue hoje com os recursos eletrônicos.
Meu pai morreu em 1987, já encantado com os videotapes e repetindo sempre, como me dissera em 1969 quando fiz vestibular para a Escola de Cinema, que o futuro da imagem repousava na eletrônica e que, portanto, em vez de escola de cinema, eu deveria cursar engenharia eletrônica...
Meu
primeiro filme aconteceu com uma pequena câmera amadora que eu levei para a
escola primária e filmei (tudo balançado, como acontece com todos os
principiantes mesmo das câmeras modernas que tem mecanismos para compensar
balançadas) meus coleguinhas. Tenho o filme até hoje. Foi revelado na única
máquina capaz de revelar filmes coloridos da América Latina: a que meu pai
construíra. Nunca foi sonorizado, som mesmo só quando foi transformado em vídeo
(VHS) e eu coloquei nele uma trilha musical.
Fui apresentada, por meu pai, ao fascínio da câmara escura dos laboratórios fotográficos quando eu tinha apenas 8 anos de idade.
Aprendi a magia de revelar fotos, um processo nada fácil, mas absolutamente encantador.
Sob
uma tímida luz ambiente vermelha (que não sensibiliza os papéis fotográficos
para fotos em preto e branco), colocava-se a tira de filme negativo num aparelho
(ampliador) que projetava a imagem negativa numa mesa onde se colocava o papel
fotográfico para ser sensibilizado pela luz (o papel continha – assim como os
filmes virgens – uma emulsão sensível à luz e capaz de registrar as imagens. A
base da emulsão era a prata, que escurece na luz) e, depois de expor o papel
pelo tempo necessário (a arte de saber o tempo necessário... ah...), jogava-se a
folhinha na primeira banheira (uma vasilha) que continha o líquido revelador.
Ali
– no escuro e sob apenas a luz vermelha – tinha-se que saber o momento exato de
retirar a foto, passá-la pela banheira de água e ácido acético – vinagre-- e, em
seguida, jogá-la no fixador (que como o nome está dizendo era a droga capaz de
fixar a imagem e impedir que ela amarelasse ou mesmo sumisse com o tempo).
Depois, caso se desejasse uma foto com brilho, ela ia pra esmaltadeira (uma
espécie de grelha elétrica). Ou para o varal mesmo, para secar.
Com os filmes (de cinema) o processo era basicamente o mesmo. Mas como se tratava de metros e metros de película (cada 24 quadrinhos – fotogramas – de uma imagem filmada fazem um segundo de imagem projetada) era preciso uma máquina aonde o filme ia sendo transportado de tanque em tanque de revelação, lavagem, fixação e secagem.
Se
o filme fosse colorido, um tanque de revelação pra cada cor básica. Bela
complicação, né? E tudo isso pra se conseguir um filme mudo. O som vinha depois
numa trilha ótica ou magnética que corria ao lado da película. Mais complicação.
Por todas essas complicações, também, é que o advento do vídeo tape foi uma glória. A televisão, antes do vídeo, tinha que fazer reportagens em filmes, revelar os filmes, editá-los (a gente usava o verbo “montar”) ... Imagine a trabalheira.
Mas a minha primeira trombada com a realidade do vídeo aconteceu em 1969, na TV Aratu, então a afiliada da Rede Globo em Salvador, na Bahia. O meu irmão Alvan tinha sido transferido, pelo Boni, do Rio para Salvador e eu estava lá em férias.
Alvan
me levou à TV para me mostrar a maravilhosa mesa de efeitos eletrônicos que
acabara de chegar dos EUA. Então eu descobri que a eletrônica fazia em segundos
o que se levava horas e horas para realizar em película, fosse de cinema ou de
fotografia...
Já a minha mãe, que viveu o bastante para ver as câmeras digitais, lamentava que meu pai também não tivesse vivido o suficiente para ver os seus sonhos realizados – todos eles, da captação da imagem à edição final - num aparelhozinho do tamanho de um maço de cigarros.
As minhas muitas heranças da imagem, agora que todos os meus gurus familiares já morreram, estão espalhadas pela casa, pelo cotidiano, e eu fico imaginando que eles mereceriam ver os progressos magníficos do registro da imagem e desfrutar de todas as maravilhas proporcionadas pelo computador e pela grande revolução da internet e suas redes sociais.
Então acontece de eu estar caminhando, como de hábito,em alguma manhã, pela Avenida Paulista e cruzar de repente com alguma criança que me chama a atenção, por alguma razão inimaginável, e perceber, no olhar e no sorriso que ela me dá, aquela chama de reconhecimento.
São eles – eu sonho – que voltaram para viver de novo e, desta vez, na imagem completamente eletrônica.
23. A Identidade na Carteira
É interessante lembrar que as regras
morais e a conduta das pessoas eram bem diferentes há uma poucas décadas. Estava
pensando nisso ao recordar a primeira vez em que alguém, numa loja, me pediu a
carteira de identidade ao receber um cheque meu. Fiquei ofendidíssima. Como?
Duvidando da autenticidade do meu cheque? Duvidando da minha honestidade? Por
acaso não estava escrito na minha cara que eu era uma moça de bem?
Isso me marcou tanto que sou capaz de dizer onde foi e o que eu estava comprando. Eu estava comprando alargadores para as rodas do meu fusca. Foi em 1970. Eu tinha 19 anos e aquele era o meu segundo carro (o primeiro era um gordini, herdado do meu pai) e o meu primeiro fusca. A loja era o Rodão da Avenida Santo Amaro (loja que eu, salvo engano, acho que ainda existe).
Até
então passar um cheque sem fundos era uma coisa absolutamente vergonhosa,só pessoas de caráter altamente duvidoso
eram capazes disso. Mas, a partir daquela época, tudo estava mudando no Brasil.
Nascia o Brasil dos que "levavam vantagem em tudo, da Lei de Gerson" onde
enganar, roubar, ludibriar, mentir, tudo valia para ser o primeiro, chegar na
frente, ter mais que o vizinho. Nenhum desse "métodos" era condenável.
Condenável era apenas ser pego usando um deles. Se você conseguisse
roubar,enganar, mentir e não ser pego, estava tudo bem.
O Brasil de fato se tornou assim, infelizmente, para a maioria das pessoas.
Já nos anos 1990, estava eu um dia na boite do Hotel Orotur,em Campos do Jordão, na companhia de um das donas do Hotel, a Berti. Entrou na boite uma menina de 14 ou 15 anos e Berti pediu ao maitre que dissesse a menina que o ambiente era exclusivo para maiores de idade. Eis o que o maitre nos contou depois: "A moça disse que não saíria. Argumentei que o hotel seria multado, caso alguém denunciasse a presença de menores no bar. E ela me respondeu que não haveria problema, que o pai dela pagaria a multa. Só saiu quando eu disse que, nesse caso, seria obrigado a pedir a presença de uma força policial para tirá-la daqui."
Assim foi educada uma geração de brasileiros. Pagando para não cumprir as leis. Vivendo num país onde existem leis que "pegam" leis que não "pegam".
Agora, nesse ano de 2010, depois de ter visto Chico Buarque pedir socorro ao ladrão nos anos 1980 porque a polícia, para ele, era a real ameaça (veja a letra de "Acorda Amor", clicando aqui); depois de ver o povo das favelas confiar muito mais na ação social dos traficantes do que nos vários e sucessivos governos da cidade, do estado ou do país; depois de assistir a mais absoluta inversão de valores, finalmente o governador do Rio de Janeiro e o filme Tropa de Elite II conseguem mostrar que é possível, sim, "desinverter" esses valores no Brasil.
Eu sei que ainda há um imenso caminho a percorrer.Mas com vontade política será possível sim. Será possível com novos autores de novela e novos enredos na programação de TV. Será possível, como foi possível tornar o cigarro de glamoroso à anti social e politicamente incorreto. Será possível com o fim da impunidade e com a certeza de que ser é mais importante do que ter.
Só assim o povo brasileiro se lembrará que carteira de identidade é aquele documento que nos atesta a cidadania e deixará de pensar que a sua identidade está na quantidade de crédito que ele carrega na carteira.
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