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Coluna Saúde Feminina na Revista UpPharma

TPM: MULHERES NO INFERNO

 

 

por

Isabel Fomm de Vasconcellos

A Síndrome Ignorada
Há alguns anos passados se uma mulher fosse ao médico com uma queixa de nervosismo antes da menstruação, ele receitaria um chazinho, mudança de atitude mental perante à vida (isso, se fosse do tipo preocupado e zeloso) e, no máximo um calmantezinho mais assim para placebo.
Não são mais de duas décadas de reconhecimento, pela Medicina, da chamada Tensão Pré Menstrual, a famosa TPM, hoje chamada pelos profissionais de saúde de Síndrome da Tensão Pré Menstrual.
Síndrome porque, segundo a Dra. Mara Diegoli, há mais de 120 sintomas descritos da TPM. (A Dra. Mara, médica gineco e obstetra, brigou muito para conseguir montar um ambulatório de TPM, dentro do Hospital das Clínicas da USP, num tempo em que não se levava o problema tão a sério).
Mesmo com toda a divulgação do assunto hoje em dia, muitas mulheres ainda têm dificuldades para reconhecer que sofrem de TPM. Afinal pode se atribuir muitas causas às variações de humor. Para quem tem crises esporádicas de depressão, mau humor ou irritabilidade excessiva, é bom anotar os dias do mês em que essas crises acontecem e ver se elas têm ou não relação com os períodos pré-menstruais.

Toda mulher tem TPM?
De 5 a 10% das mulheres tem sintomas muito intensos na TPM, mas quase 70% de todas as mulheres tem um relato de desconforto antes da menstruação. No meio rural, mais retenção hídrica, inchaços, dor de cabeça. No meio urbano, irritabilidade e depressão.
Parece evidente que a pressão da vida de hoje, a dupla jornada de trabalho, o sentimento de culpa por deixar os filhos para ir cuidar da carreira e até o trânsito congestionado, são fatores que alteram os nossos neurotransmissores e podem tornar mais grave o que já era grave.

Os sintomas físicos podem incluir uma irresistível vontade de comer doces e carboidratos porque, na segunda fase do ciclo, pode haver uma diminuição da quantidade de insulina. Ou seja: diminuída a quantidade de açúcar no sangue, vem a vontade de comer o que engorda... E, engordando, para as mulheres, tudo piora... O cérebro, as mamas e a barriga então, são os que mais sofrem com a retenção hídrica, o sal que se come fica no sangue, se urina menos e, consequentemente... ganho de peso!
Mas também piora com a idade: a TPM é mais leve na juventude, mais pesada na maturidade e muito pesada na Peri menopausa.

Mental: a mais triste das TPMs
Sem desmerecer o desconforto e os problemas enfrentados pelas mulheres tpm-izadas que sofrem de cólicas, dores no corpo e outras alterações físicas importantes, gostaria hoje de me concentrar naquela TPM que mexe com a cabeça, com o cérebro. Sabem os médicos agora, e só sabem disso muito recentemente, que a química cerebral pode sofrer alterações no período pré-menstrual pela ação da “dança” de hormônios, característica do chamado ciclo menstrual.
A TPM pode ser responsável por muita coisa ruim na vida.
Mulheres em TPM, além de irritadíssimas, ficam com a capacidade de magoar funcionando a todo o vapor. Assim, magoam o chefe e perdem o emprego. Magoam o marido e perdem o marido. Muitas, apesar de mães dedicadas, magoam os filhos. Quase todas se arrependem de terem deixado seu descontrole chegar tão longe.
Essa TPM “mental” é evidentemente maior naqueles ciclos em que estamos vivendo momentos de maior estresse, pois a pressão da situação vivida soma-se a esta terrível predisposição para o negativo.
Não sei se é possível, para quem não vive a TPM “mental”, imaginar o que seja isso. Relatos e relatos de mulheres dizem que é “como ter outra por dentro”. Como se, ao soltar os cachorros em cima de algum coitado, a tpm-izada soubesse que não deveria estar fazendo aquilo, que não deveria estar perdendo a calma e tendo um ataque histérico, que não deveria enfim dizer o que estava dizendo ou fazer o que estava fazendo. Mas, mesmo sabendo, não conseguir parar. Assim como o viciado em jogo ou em droga sabe que tem que parar, mas não para e perde tudo ou morre de overdose.
Mas não são apenas os ataques de nervos os causados por essa TPM “mental”. Há ainda a depressão. Choro fácil ou mesmo os sintomas clássicos da doença mental chamada depressão: absoluta desmotivação e uma profunda tristeza sem que motivos a justifiquem. Dificuldade para sair da cama e enfrentar o leão que matamos cotidianamente...

Irritabilidade não é incapacidade
A coisa é brava mesmo. E, segundo uma conta da Dra.Dolores Pardini, professora da Escola Paulista de Medicina, uma mulher passa, durante a vida, somados, nove anos inteiros de TPM. E ela considerou, na conta, apenas 7 dias de TPM por mês. Há quem viva 10 dias assim.

 

 

Diante de tudo isso devemos concluir que as mulheres atacadas dessa TPM seriam, durante 7 ou 10 dias num mês, umas inúteis, improdutivas, irresponsáveis?
Graças a Deus, não. O que ficam é bem propensas a atitudes agressivas e tempestades-em-copo-d’água. Mas certamente muitas mulheres, em plena TPM, conseguem continuar desempenhando com sucesso as suas atividades cotidianas, tanto no trabalho quanto no lar. Só ficam muito bravas...

Solução Médica
Para as mulheres que realmente sofrem com a TPM, depois de reconhecida a existência do problema, existe solução.
Além das medidas paliativas, nesse período, como cuidar da alimentação (evitar café, chocolate, fumo e álcool), aumentar a carga de exercícios físicos e de sexo (ambos liberam as endorfinas cerebrais, a nossa natural droga do bom humor), é preciso que um bom médico avalie os sintomas e prescreva um tratamento. Existem muitos, mas muitos mesmo, medicamentos que atuam com sucesso na TPM. E a opção tem que ser do médico, para dar certo. Porque há um tipo de tratamento para cada tipo de TPM e de mulher.
Parar de menstruar, prática ainda muito controversa, também seria uma solução.
Sorte nossa, que nascemos num tempo em que a nossa TPM pode ser explicada e curada. Nas nossas avós, era “coisa de mulher”, no seu sentido mais pejorativo.
Talvez por isso as feministas sempre foram relutantes em assumir a existência da TPM, como se esta desvalorizasse as mulheres. No entanto, tudo o que se refere ao nosso ciclo se refere à nossa capacidade de gerar filhos. A TPM é apenas um pequeno defeito no nosso ciclo. Não é diferente de um defeito no rim, ou no fígado. Conserta-se. E a máquina volta a funcionar normalmente.
Nenhuma mulher precisa mais, hoje, viver o inferno da TPM. Mas muitas continuam vivendo e sem, ao menos, reconhecer o problema.

 

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De: Mara Diegoli
Enviada em: quinta-feira, 15 de janeiro de 2015 21:43
Para: 'Marisa Manso'
Assunto: RES: TPM, Mulheres no Inferno.

Isabel

Parabéns, o texto ficou ótimo
Beijos

Um feliz 2015, e com muito sucesso e saúde

Mara