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O
DIA DO POBRE JUAREZ
Era como se estivesse em uma jaula, aquele dia. A esposa no hospital, no escritório a demissão do pobre do Gil, a discussão com o gerente e ele tendo que entregar os cálculos do projeto ao meio-dia. A voz fininha do gerente avisando para não atrasar. Em hipótese alguma, disse. Em hipótese alguma, repetiu. Dessa vez não haverá a menor chance de aceitar qualquer tipo de desculpa. Mas o pensamento que o atormentara a noite toda, e lhe dera essa sensação de que não conseguira dormir nem 10 minutos seguidos, a cabeça estalando, foi a imagem daqueles três - Lucinda, Alfredo e Dorival - cochichando no corredor e parando a conversa ao vê-lo seguir para o elevador. Estavam falando dele, não tinha a menor dúvida sobre isso. Claro, seria o próximo na lista dos cortes. Lucinda era amiga de infância da mulher do chefe, e era competente, não dava pra negar esse fato. Alfredo era a estrela do escritório, o dodói dos clientes, sempre recebendo elogios. E o Dorival... bem aquele imbecil, aquele débil mental, aquele crápula, era o maior bajulador da paróquia, e lamberia o que fosse preciso de quem quer que fosse preciso pra ficar fora do contágio das demissões. Entregaria qualquer colega, intrigaria, faria o diabo caso se sentisse ameaçado. Juarez não tinha provas, mas sabia sem a menor sombra de dúvidas que fora ele quem armara aquela armadilha pro Gilberto. Era evidente. Só ele lucraria com a saída do pobre. Logo o Gil, um sujeito boa praça, e que fazia todos os cálculos melhor do que ninguém. Imagine, o Gil, logo o Gil, fazer um erro daqueles!! Tava na cara que fora armação. Ou o Dorival lhe passou os dados errados, ou foi lá e mexeu no computador. Eu vi quando ele disse que ia ficar até mais tarde no escritório, que tinha serviço pra fazer, o que eu soube na hora que era mentira porque ele passou o dia inteiro coçando o saco, o imbecil, eu vi, e depois o escritório todo estava numa fase parada com pouco serviço, que coisa era essa que ele tinha que ficar até tarde pra fazer? Mexer no computador do Gil, é evidente. O crápula. Só depois, quando o caso estourou, foi que me dei conta mas não pude falar nada porque não tinha prova e também não gosto de me meter na vida dos outros, como não gosto que se metam na minha. Mas que foi ele foi. Eu devia ter contado na época, talvez tivesse uma maneira de provar isso. Devia, claro. Mas como eu iria adivinhar que ia dar aquele rolo desgraçado e tudo, e não, foi melhor eu não ter me envolvido mesmo. Essas coisas, a gente-
Juarez! - pronto, lá vem a voz fanhosa da minha sogra zoando na minha cabeça - Você deixa o bebê na creche, no caminho pro trabalho? Sulamita vai fazer aquele exame complicado e me pediu pra chegar cedo no hospital.
Pelo amor de Deus! O que essa velha tá fazendo aqui se não dá pra ajudar direito?
Eu tô saindo, dona Otília.
Vou já colocar o moisés e a cesta no banco de trás. É só entrar no carro que ele dorme o tempo todo, não vai te incomodar.
Merda!
Merda!
Que dia meu Deus! Só espero que o trânsito não esteja infernal.
A reunião do meio-dia não vai ser fácil. Ainda bem que deu pra terminar os cálculos ontem à noite, mas ainda tenho que repassar tudo. E sabe o que to pensando agora, meu Deus? É melhor checar quem foi que me passou os dados. Pra ter certeza de que não foi o Dorival. Imagina se ele fizer comigo o mesmo que fez com o Gil. Aquele cara é um bandido. Todo cuidado é pouco. E mesmo na Lucinda, não sei se posso confiar. Ela tem uma pinimba qualquer comigo. O jeito que ela me olha, às vezes parece até que não me vê. É um pessoal bem cretino esse do escritório, sinceramente, todos com o rei do curral na barriga e não é todo dia que eles te vêem, os olhos dessa Doutora Lucinda, então, passam sobre mim e tenho a impressão de que não estou lá, sou transparente. Puta de zona! Se tem uma coisa certa hoje em dia é que não dá pra confiar em ninguém, não mesmo. Gostar de mim, tenho certeza de que ela não gosta, então porque vacilaria em entregar minha cabeça numa bandeja como uma Salomé de araque? Era Salomé mesmo o nome daquela puta da cabeça de São João? Claro que ela não vacilaria. Ela é super influente com o Walter também, todo mundo sabe. Parece que eles tiveram um caso, ou ainda têm... só que o Walter é um velho nojento e ela até que não é de jogar fora. Não faz meu tipo, mas francamente, o Walter.... com aquele jeito escroto de quem não toma banho, as caspas que nem talco nos ombros ... O Walter é outro que eu sei que quer me ferrar. Se for para demitir mais um, tenho certeza que ele indica meu nome. Mercenário! Tem birra comigo desde que entrei. Desde que percebeu que o chefão tinha simpatia por mim. Naquele dia que o chefe me elogiou, ele só faltou ter um troço. Bom, já faz tempo isso.... foi logo que entrei. Agora quase não vejo o chefe, o Walter intermediando tudo, dizendo pode deixar que eu levo isso e aquilo, e fica nesse vaivém.... Filho da mãe! E essa bosta de trânsito que não anda! E esse calor dessa cidade! A essa hora da manhã e já com esse calor. O mundo não tem jeito mais não. É todo mundo ferrando todo mundo e se eu chegar atrasado mais uma vez por causa desse trânsito, todo mundo vai me olhar de cara cínica. Nenhum deles mora no cu do mundo como eu e não sabem o que é isso. E é justo por isso que faço questão de ser o primeiro a chegar e depois ficar olhando de cima os atrasadinhos. E que o chefe veja meu carro estacionado quando chega. Ô cambada de preguiçoso! Todo mundo chega atrasado, mas quando eu, que moro onde Judas perdeu as botas, me atraso um pouco é um escândalo. Chegar depois do Dorival, então, é uma merda! Ele olha pra mim com aquele sorrisinho repugnante e não diz nada, mas sei exatamente o que ele está pensando. Canalha. Ele vai ver se tentar ferrar comigo. Será que o imbecil vai participar da reunião de hoje? Não tem motivo. Deveria ser só o chefe, o Walter e eu. Nem a Lucinda. Ela não está trabalhando nesse projeto, mas gosta de se meter em tudo, dar palpite em tudo, como se o escritório fosse dela. Diabos! Só porque é amiga da mulher do chefe! E porque dorme com o porra do gerente! Puta. Bom, parece que sou um dos primeiros. Nem o carro do Dorival nem o da Lucinda estão aqui. Maravilha. Merda de estacionamento. Agora é revisar tudo e checar quem me passou os dados. Essa é a primeira coisa que tenho de fazer, ver se esses dados são confiáveis ou não. Vai dar tempo, sim. Mas preciso ter calma. Calma. Meus Deus, minha cabeça vai estourar. Depois que as coisas melhorarem por aqui, vou voltar no Dr. Aniceto. Essa dor de cabeça massacrante tem que ter um remédio. Ôpa.... olha a Lucinda chegando. Vaca. Vou fingir que nem vi pra não ter que esperar no elevador e me atrasar mais. Será que a Wanda da Contabilidade já chegou? Passo por lá, checo os dados e vou direto pra minha sala, sem falar com ninguém. Nada de papo furado hoje, nada de conversar com esse pessoal que só quer me apunhalar pelas costas. Bom dia, dona Wanda. Eu queria uma informação, por favor. Os dados que a senhora me passou pros cálculos da Construtura BMC, vieram do Seu Walter? Foi? Ah, obrigado. Alô, dona Aparecida. Bom dia. Por favor, não me passe nenhuma ligação esta manhã. Tenho que terminar o relatório para a reunião do meio-dia. Obrigado.
E foi simples assim.
Juarez passou a manhã mergulhado nas contas.
Ao meio-dia entrou para a reunião que só terminou depois das 14 horas. Vários de seus cálculos foram questionados e ele teve que se fechar sem sua sala outra vez para refazê-los. Só bem mais tarde, quase 17 horas, Dona Aparecida lhe passou a chamada insistente da sogra:
Juarez, você ficou com o bebê? Fui na creche buscá-lo e me disseram que ele não tinha ido hoje.
O bebê?
Fim
AI,
PORTUGAL!
Maria José Silveira
Ai, Portugal!
O quanto já fiz por ti!
Desbravei terras jamais imaginadas e o monstro sem nome do desconhecido. Errei por mundos novos. Tentei ser mais do que homem, ser herói.
Por ti Portugal!
Dei-te meu corpo e meu fogo, os sonhos de minha cabeça e a vontade dos meus pés. Dei-te o que havia em mim. Tudo foi teu, Portugal.
Como é teu este mar que daqui vejo, mar de basalto, o mar que um dia me afastou de ti, mar que odeio. E que, se nesse momento parece morto, aparentemente imóvel, sem a mais leve onda, o mais leve risco em sua capa plúmbea, bem sei que é fingimento. Tudo nele é fingimento, astúcia, hipocrisia. Jamais mereceu a confiança de ninguém, esse mar. O mar que me trouxe até aqui.
Por ti, Portugal!
O mar que me trouxe a essa terra que sequer sabia existir, e não queria conhecer, terra no fim de mundo. No próprio fim desse mundo novo, as pedras rutilantes de tua coroa.
Esse mundo novo não existe mais, Portugal.
Por ti, acabamos com ele. Eu e os outros meus iguais.
Desde que pela primeira vez aqui pisamos, embutidos em nós vinha o que seu mundo tinha de mais velho, pátria minha. Conspurcamos o que encontramos. Sujamos tudo com teu cuspe rançoso e podre.
Basta, Portugal!
Agora vejo o quanto nos enganastes. Agora sei.
Não sou mais aquele que era quando vim por esse mar. Quando cheguei sem pejo nem pudores, acreditando ter em mim, por direito de nascença, os direitos plenos da Corte Portuguesa. Fui até o fim desse mundo novo, governar a chamada Capitania de Goiás, a zona infernal de árvores retorcidas, terra vermelha e seca, e do calor saído direto da forja do Diabo.
Por ti eu fui, Portugal.
Mandei escavar a terra, tirar o metal que por milênios ela produziu. Mandei cortar, despedaçar, abrir, e escravizar os filhos que ela mesma gerou, um povo a quem ferimos de morte apenas por estar no lugar em que nascera. Um povo cuja ingenuidade e inocência fizemos o que nos foi possível para extirpar. Um povo que podia ser nosso amigo, se nossas intenções fossem outras.
Deus não teve nada a ver com isso. Só a tua cobiça, Portugal.
Passei anos ali, bem o sabes! Onze anos, fazendo tudo o que deveria fazer para aumentar tua glória. Fui teu representante, zelei por teus interesses, finquei tua bandeira naquela planura quase igual a deste mar, só que vermelha de terra, e mesmo assim, tão odiosa quanto esse manto pesado de água cinza agora à minha frente. Amansei aquele mar vermelho. Fiz o que me foi ordenado fazer, e procurei fazê-lo bem.
Por ti, Portugal.
A única coisa que não fiz por ti, é o que te contarei agora. O meu pequeno e grande segredo. A única coisa que não fiz por ti, mas só por mim, foi amar uma mulher. Mulher de pele morena, cabelos de noite negra, olhos com brilhos de lua cheia. Doce e exuberante, tal qual essa mesma terra quando se aprende a vê-la não como mera conquista nossa, mas como ela de fato é, com a pujança de sua natureza única e bela. Belíssima a terra e ela. Minha mulher. Filha de carpinteiro. De carpinteiro pobre, em que pese a redundância. Uma simples mulher desse povo que colonizei para ti, Portugal.
Ela, a minha ignomínia. E, no entanto, também meu triste orgulho. Meu envergonhado amor, e concubina.
Com ela tive três filhos. Filhos meus, portanto, também filhos teus, pátria minha. Por mais que bastardos, por mais que indignos, ainda assim, também filhos teus.
Ai, Portugal!
Sei bem que não poderás aceitá-los. Sei agora que nem sequer irás conhecê-los.
Sei que não te verei de novo, Portugal.
Por todos esses infindáveis anos, sonhei um dia voltar ao lugar onde nasci, à minha quinta à beira d´Ouro. Sonhei voltar a percorrer os desfiladeiros profundos e harmoniosos que cercam meu vale, os mesmos desfiladeiros profundos, mas esses, sim, abruptos que agora estão cravados em mim.
Pois, hoje, quando pensava aqui vir para embarcar e seguir por este mar para voltar a ver-te, Portugal, compreendi o impossível.
A mulher que amo não irá comigo. Decidiu que não irá, a menos que seja como legítima esposa na lei de Deus e na lei do Reino de Portugal. Em sua própria terra, viveu na condição de amásia, mas não aceitará continuar a sê-lo na Corte Portuguesa. Minha amada tem a fibra e o orgulho desse povo que tentei colonizar para ti. Não irá. Não é de seu feitio tolerar ser tratada com menosprezo, nem olhada com os olhos da infâmia. E sabe que assim será tratada pelos nobres de tua Corte, se aí chegar como amásia.
Não irá.
Eu já deveria saber disso.
E assim como conheço bem essa que foi e é, aos olhos meus, minha mulher, também conheço muito bem a ti, Portugal. Sei do que és capaz. Conheço bem tua hipocrisia. Sei que nunca a aceitarás como esposa de um filho da tua nobreza. Que jamais a deixará esquecer que é filha de carpinteiro, e carpinteiro pobre, em que pese a redundância. Conheço-te demasiado bem, pátria minha. E não quero ver teus olhos devorando a mãe de meus filhos como se devora uma meretriz.
Isso, eu é que não suportarei. Como não suportarei teu olhar de troça e desagrado, se dela fizer minha legítima esposa.
Ah, maldito amor que não controla o pouso!
Pois sem ela, Portugal, eu, que nada sou, tampouco irei. Se não sou capaz de te enfrentar por ela, e fazer de minha amada minha esposa de fato e na lei, se sou covarde a esse ponto, como sei que o sou, não irei.
Compreendo que verás nisso a traição de um filho. E reconheço tuas razões, pátria minha. Mais ainda: sei que serás tu outra vez a vencer neste dilema criado por tua própria rede de intrigas, falsidade, hipocrisias.
Daqui, olhando este odiado mar, reconheço e ainda admiro a tua força, Portugal.
Sei que, contigo e por ti, sou forte, mas demasiado fraco sem ti e contra ti. Nada poderei fazer para defender contra ti a mulher que amo. Em que pese tudo, ainda sou um filho teu. Tão pusilânime, conspurcado e velho, como qualquer outro filho teu. Nem pior nem melhor que nenhum de teus heróis.
Mas estou cansado.
Não irei, e tampouco seguirei nesta terra, que não é minha. Seus dramas me exauriram. Não quero mais o cálice negro das noites que bebi em terra alheia.
E se sou por demais covarde para enfrentar-te, não o sou para deixar esta vida onde já nada espero, e tão pouco tenho. Se, depois de tudo que te dei, é o meu coração que ainda queres, Portugal, não te acanhes.
Este coração covarde e cansado, incapaz de enfrentar tua hipocrisia, foi feito por ti e é teu. Não te farei esperar.
Tome-o, pátria minha.
E crispando os dedos em volta de seu punhal de cabo de prata, Dom Fernando Delgado Freire de Castilho, ex-governador da Capitania de Goiás, traspassou o próprio peito à beira do cais, em uma madrugada do ano da graça de 1820, na cidade do Rio de Janeiro.
Cinco micro-contos
de Maria José Silveira
1.
DECLARAÇÃO
Ele entrou pela porta e disse “Tô voltando pra casa.”
E ela ficou assim: vendo passarim.
2. PROGNÓSTICO
Meu caro, com esse pulmão o senhor vai viver 100 anos, disse o médico.
Ele saiu assobiando e não viu o carro.
3. VINGANÇA
Todo ano, tecia um pulôver pro marido, que só usou o primeiro.
No caixão, ela enterrou 47 com ele.
4. A QUEDA
No pesadelo recorrente, era ela e o abismo, ela dizendo: Se é para cair, melhor cair logo.
Só que daquela vez ela não estava sonhando.
5. REJEIÇÃO
A princesa abre os olhos: “Você? Já disse que não.”
E virando-se, pega a maçã e morde.
CONVERSA
“Eu sou uma pessoa ótima. Quem me vê assim, como estou hoje, pode não se dar conta, mas sou. O próprio pastor vivia me dizendo isso. Cumpro minhas obrigações sem pestanejar desde pequeno. Meu pai vivia batendo em meu irmão mais velho, mas em mim não, nunca precisou. Fui bom filho, bom aluno, bom vizinho, bom funcionário, bom esposo. Seria um bom pai se tivesse tido filho, mas o Senhor não quis. Cheguei a ser voluntário no hospital com o pastor: fazia orações com os doentes, levava aos pobres enfermos a benção de Deus. Sempre fui religioso, e há vários anos, graças ao Senhor, sou evangélico. Orgulho muito dessa minha correção na vida, e o pastor era o primeiro a dizer, “Dorival, você é uma pessoa ótima.” Nunca roubei, jamais praguejei nem maldisse a vida nem desejei o mal do próximo. Ficava sempre no meu canto, fazendo minhas coisas da melhor maneira possível, sem mexer com a vida de ninguém, a não ser para ajudar no que podia. Se via um cego na rua, ajudava. Os idosos também, eu ajudava muito. Os animais. Nunca fiz mal a uma mosca. Via a estrada da minha vida como uma linha reta, seguindo sem desvios, sem buracos. Um asfalto lisinho, sabe?, só que branco. E nunca soube o que era perder o controle até o dia que cheguei em casa e peguei os dois na minha cama. Talvez tenha sido por isso, porque nunca tinha tido raiva nem ódio de ninguém, que não soube como reagir. No meu modo de entender, foi como se eu ficasse cego. Mas não fiz cena nem nada, isso não. Não disse nada, ou disse bem baixinho o que pensei, “Adúltera”. Então fui até a cozinha e peguei a faca afiada que ficava no imã de parede que eu havia achado bacana numa oferta da TV e comprei pra ela. Peguei a faca, uma faca boa que também comprei pra ela, faca especial pra fatiar carne que ela dizia pras vizinhas que nunca tinha visto uma faca tão boa assim. Voltei pro quarto. O fulano já não estava lá. Não fiquei sabendo quem era e não quero saber, já perdoei. Mas ela continuava ali na cama deitada, toda enrolada, rosto coberto, no lençol branco do jogo de roupa de cama que eu tinha comprado pro nosso enxoval. Então foi que me aproximei, ergui alto a faca e enfiei. Como não sabia onde enfiar direito, ela demorou a morrer. Continuou um tempão como que arfando debaixo do lençol que ia se inundando de sangue e sujando também minha calça. E eu ali sentado, olhando aquilo como que sem ver e a única coisa que eu pensava era uma coisa só: “Senhor meu Deus, quanto vai valer agora minha vida inteira de correção?”
Local: cela coletiva do Presídio Masculino de Corumbá, dezembro de 2010
MARIA ANTÔNIA*
Conto de Maria José Silveira
Carta
anônima? Àquela altura de sua vida?
Suas mãos tremem um pouco ao pegar a colher para refogar o molho de tomate e manjericão do jantar. Sente um zumbido na cabeça, mas não é labirintite. Funcionária aposentada da Câmara, com filha criada, há muito acreditava que o tempo dos amores ficara bem, bem para trás. Não que tivesse tido muitos; mal teve um: o marido.
O marido que logo depois do casamento revelou-se o que seria pelo resto dos anos. Raivoso, como se algo permanentemente o consumisse por dentro. Trancado em si mesmo com uma porta sem chave. Não fossem os finais de semana no clube, desconfiaria que havia perdido o dom da fala. Mas conversar com os amigos, ele conversa. Só com ela a comunicação se restringe a resmungos exclamativos: “Você é um caso perdido, Antonia!”
Se ele soubesse das cartas de amor, o que faria? Não tem idéia. Abriria a boca em estupor, como no dia em que a filha veio anunciar que estava grávida? A queridinha dele, desde então proibida de entrar em casa. Como se tivesse deixado de existir. Poderia ter tido um enfarte, não fosse a saúde de jumento. Pelo menos isso ele tem de bom: não adoece. Quando também se aposentou, as amigas lhe disseram, “Agora você vai ver”. Mas até hoje ela não viu. Um jumento. Ainda bem que de doenças ele a poupa.
Se descobrisse as cartas, o mais certo é que daria a gargalhada que nunca dá: “Não pode ser pra você, Antonia! É engano.” Depois, no clube, faria o comentário que adora: “Só em Brasília acontece coisas assim! Carta anônima!? De amor! Para Antônia! Essa cidade é doida.”
E todos ririam dela, como tantas vezes riram. Dessa vez, talvez até ela risse junto. Se nem ela acredita!
Quando abriu a primeira, leu “Maria Antonia”, numa letra caprichada, parágrafos sem erros, concordância e ortografia impecáveis, e o assunto, Deus meu!, como foi perturbador! Como poderia ser a mulher da vida de alguém que nem conhece?
O que ele poderia saber sobre ela?
Muita coisa, pelo visto. Sabia onde morava, sabia da filha, sabia do marido. E assinava, “Quem te esperou a vida inteira”. Não era lindo? Podia ser anônima, mas como era bem escrita! E logo para ela! Pessoa tão aquém de seu tempo, sempre por fora, mesmo quando jovem. As moças de sua época conheciam a pílula, ela não. Casou virgem. Talvez a última mocinha a se casar virgem no mundo. Era do interior, com educação à moda antiga. O último exemplar no mundo de uma educação antiga! Deviam exibi-la em um museu.
Aos 20 anos, enquanto sua geração jogava pedras nas ruas, ela dava de mamar à filha. Primeira e única. Que depois da briga, o marido nunca mais deixou entrar em casa. Nem o gosto de ver a filha, Antonia pode ter. Só escondido. Uma criança frágil que lhe deu tanto trabalho, e mesmo assim só queria saber do pai. A vida toda manteve a mãe a distância. Tudo de ruim que lhe acontecia era culpa de Antonia. O cabelo ralo, as espinhas da pele, as inaptidões físicas, as pernas finas. Por um milagre, não a culpou pela gravidez. Mas culpou depois, quando fez o aborto e quase morreu. Acusou-a de não ter enfrentado o marido quando precisou. O que não era verdade. Antonia enfrentou. À sua maneira, mas enfrentou. Até hoje enfrenta. Faz tudo o que pode pela garota, que vive lhe cuspindo na cara: “Nem como mãe você presta”.
Por que nunca se separou? Pergunta que a atormentou quase todos os dias de sua vida. Para as poucas amigas, dizia: “É do meu feitio.”
Mas a resposta era outra: medo. A única resposta para todas as não-escolhas que fez na vida: medo.
Sentada na cadeira da cozinha, olhar perdido, Maria Antonia balança a colher no vazio. O molho, esquecido, forma crostas mini-aluviônicas na panela em fogo baixo.
Nos anos de trabalho no Congresso, foi funcionária exemplar no cumprimento de horários e das obrigações. Entrou ali por conselho do pai – o marido não queria, mas o parco salário de vendedor fez com que engolisse o argumento do sogro que insistiu (“Aí onde você foi morar, todo mundo é funcionário público. Se você não quer seguir essa carreira, deixa Antonia.”).
Os melhores anos de sua vida.
Saía de casa, conversava com as pessoas, fez amizades. Naquele tempo houve também estremecimentos, paqueras, voltear de cabeças masculinas. Antonia foi bonita, um pouco sem graça, mas bonita: cor perolada, ossos bem formados, pernas formosas. Mas nunca permitiu que ninguém se aproximasse com outras intenções. Não que o marido merecesse, mas era do seu feitio, pensava. Embora também quanto a isso, ela soubesse: não era correção. Era seu terror particular ao abismo do desconhecido.
O molho na panela solta uns estertores, mas ela não ouve.
Será um dos antigos colegas de trabalho o autor da carta? Aquele moreno, quase negro, sério como ela, que lhe sorria quando ela passava? Disseram que ele foi transferido para o Estado do deputado com quem trabalhava. Talvez o vizinho do Bloco D. Esse muitas vezes tentou se aproximar, ela cortou. Está divorciado, contou a fofoqueira do 402. Ou será um dos amigos do marido, do clube? Se for, melhor esquecer; ela abomina todos eles. Um amigo de verdade faria isso? Acha que não, mas o que entende dos homens? Nada. Seu mundo sempre foi minúsculo. Suas opções, pouquíssimas. Ou ao contrário: suas opções foram poucas, e por isso seu mundo ficou minúsculo. O ovo ou a galinha?
Tinha pavor desse enigma. Medo da resposta, que sabia.
Medo, medo, medo. Essa, a resposta. Sempre
Medo do pai, primeiro; depois, do marido. Até de Brasília ela teve medo quando chegou, 22 anos, grávida. Tanta amplidão, para quê? Uma cidade que não caberia em nenhum outro lugar, criada para aquele espaço desmesurado do planalto, como se a natureza clamasse por esse tipo de cidade. Depois foi se acostumando, mas no começo não saía de casa. As coisas passando e ela incapaz de escapar.
Deixando a vida passar por medo.
De repente, levanta-se, Desliga o fogo. As crostas já estavam no estágio desesperado de se agarrar ao que pudessem, e um cheiro picante invade a casa. Dariam um trabalhão para limpar. Mas agora não tem tempo.
Vai até o quarto vazio da filha. Abre a última gaveta do armário, onde guarda seus lenços de seda. Nunca usa, mas tem paixão por eles. Lenços de cores e estampas variadas, tão suaves ao toque que a remetem de imediato a prazeres que desconhece. Tem certeza, agora: o desconhecido também é suave e caloroso.
Um estranho impulso a move. Bem no fundo, debaixo dos lenços, as cartas anônimas. Oito.
Só uma aberta, a primeira.
Volta à porta e passa a chave. Ou lê as cartas agora. Ou nunca.
Na sua cabeça, a pergunta: será tarde demais?
* Conto publicado por primeira vez no Caderno Pensar do Correio Braziliense, em 25/6/2007
UM SEGUNDO SEM DOR
Maria José Silveira
Ele está sentado na sala de espera, a dor sentada com ele.
Para fazer alguma coisa, levanta-se e ajeita a carteira no bolso de trás.
A recepcionista, moreninha raquítica e mal-humorada, por fim chama seu nome. Ele entra em outra salinha esquálida.
A careca, os óculos, a pele sebosa – é tudo o que ele vê do médico de cabeça baixa que, sentado à mesa de aço cor de aço, faz um gesto indicando a cadeira à frente. A cadeira faz creeeec quando ele se senta e ele pensa, essa cadeira está nos últimos dias, como eu.
Um martírio nas costas, uma dor na altura dos quadris, é o que diz assim que o doutor lhe pergunta qual é o problema. Atrás, a parede branca e lisa é tão neutra quanto a expressão na cara gorducha do médico. Dói muito, doutor, ele repete, com um pequeno esgar. Esforça-se para não deixar transparecer o que sente, acha fraqueza, mas o esgar é mais forte do que ele. É ela, a própria dor, que parece entortar sua boca e semicerrar seus olhos.
O médico faz um sinal para ele que se levante, e quase ao mesmo tempo se levanta também. Pede que ele se vire para a parede do lado, tão branca e neutra quanto a outra. Aperta pontos em suas costas.
Dói? pergunta.
Aí, não.
Aqui?
Não.
Aqui?
Aaaiiiiiiiiiiiiiii!!!
O médico faz uma pausa enquanto ele quase desmaia.
E logo: Muito bem, pode se sentar.
É grave, doutor? ele pergunta.
Não, é o que o médico grunhe de cabeça baixa, já sentado à mesa, pegando o bloco e uma caneta Bic. Rabisca rápido uma ou duas linhas e diz: Duas cápsulas por dia, por 30 dias; Com um puxão tira a página do bloco, já assinada e lhe passa.
Obrigado, doutor, ele diz.
O médico abaixa outra vez a cabeça e com a caneta Bic lhe aponta a porta.
Receita na mão, ele sai do consultório direto para a farmácia da esquina. A dor vai grudada nele, e o faz outra vez semicerrar os olhos. A farmácia está vazia, o balconista é prestativo e não enrola para lhe entregar o remédio pedido.
No caixa, com um gesto mecânico, ele procura no bolso de trás.
Vazio.
Um raio claríssimo afasta por milésimos de segundos sua dor: O maldito daquele doutor!
(“Paciente acusa médico de furtar carteira”, notícia publicada em “O Estado de São Paulo”, 24 de outubro de 2009)
ilustração de Maria Valentina
CARTA
A UM CERTO AUTOR
Ao Sr.
Hans Christian Andersen
Ilmo.Escritor
Caro senhor:
Embora sendo quem o senhor hoje é – famoso, além de humano – quero crer que não tomará esta carta de maneira leviana. Escrevo-a usando minhas prerrogativas de personagem e não na condição de rainha – o que poderia ter feito, mas não fiz, para que não me acusem de fazer valer nenhum princípio de autoridade.
São meus direitos de personagem que eu gostaria de abordar aqui, esperando contar com sua sensível compreensão. O mundo ficcional nem sempre permanece totalmente sob o controle de um criador – como o senhor deve saber bem – e é o que parece ser outra vez o caso.
Quero crer, igualmente que, como autor, o senhor esteja preparado para receber tanto elogios quanto restrições a sua obra, venham de plebeus ou majestades.
Começarei com os elogios.
Não são muitos.
Terminada a leitura de seu conto sobre o meu reino e uma de minhas adoráveis netas, ao qual o senhor deu o título de “A Pequena Sereia”, devo, por justiça, reconhecer o bom trabalho que o senhor fez em relação a alguns pontos.
Sua descrição, por exemplo, de algumas características do mundo marítimo é, embora parcial, acurada. Gostei particularmente do relato sobre as belezas do meu castelo, ainda que não possa deixar de lamentar a falta de ênfase ao descrever nosso famoso telhado de ostras, uma reconhecida obra de arte arquitetônica revolucionária, da qual tenho muito orgulho porque foi especialmente encomendada por mim a meu falecido pai.
Reputo também como muito feliz a comparação feita entre os peixes do mundo do mar e os pássaros de suas florestas da terra. Foi bastante perspicaz de sua parte colocar assim a questão, tornando compreensível para seu leitor o papel que os peixes representam no fundo dos oceanos.
Parabéns.
Outrossim, apreciei bastante a descrição da beleza de minhas netas. O senhor empregou palavras justas.
Lamentavelmente, porém, não posso dizer o mesmo da maneira como trata outros personagens, supostamente secundários, como eu. Não posso deixar de dizer que me senti profundamente injustiçada em seu livro. Como rainha e como personagem.
Senão, vejamos.
Para começar, uma impropriedade que, numa primeira leitura, encarei apenas como defeito de estilo. Ao longo de texto, porém, constatei que, além de ser uma completa inadequação, é também sintoma de sua incapacidade de compreender minha real figura e meu papel. Aludo ao epíteto de “velha”, que o senhor coloca sempre antes dos meus títulos ou atributos, quando a mim se refere.
Marquei todas as vezes – e são muitas. Por todo o livro, o senhor só se refere a minha real figura como: a velha rainha, a velha viúva, a velha rainha viúva, a velha avó, a velha mãe do rei, a velha sereia.
Por meus sais! Permita-me lhe perguntar, senhor, qual é seu propósito?
Esse estilo repetitivo e sem originalidade visa exatamente a quê?
Logo o senhor que já havia compreendido perfeitamente bem a extensão peculiar do tempo médio de vida no mar, bastante diferente do tempo de vida na terra. Nosso tempo médio de vida é, como o senhor bem colocou, de 300 anos, razoavelmente mais do que o de vocês. Portanto, como ser chamada de “velha” – e reiteradamente como se fosse quase um apodo natural a ser acoplado a meu nome –, se estou no pleno auge de minha exuberância de sereia?
Ser avó, no meu reino, permita-me que lhe diga, senhor escritor, é uma honra! Principalmente em casos como o meu, que fui avó muito jovem. Ainda hoje tem muita gente que, ao ver minhas adoráveis netas, não esconde sua admiração:
“Netas?! Parecem mais suas filhas!”
Se o senhor tivesse pesquisado melhor, saberia.
Se tivesse pesquisado melhor, inclusive, ouso dizer que provavelmente teria mudado o foco de sua história. Essa história que o senhor se deu ao trabalho de contar, convenhamos, não passa de mais uma versão do batido tema do amor rejeitado. Quem, hoje, já não está cansado desse tipo de história? Quem não está enjoado de ver mais uma adolescente irresponsável e masoquista trocando tudo que tem por um idealizado amor romântico? Quem quer ouvir tudo isso se sabe que, no final, a mocinha inocente será deixada por outra?
Por meus sais!
Sei, sei o que o senhor vai dizer! Que não é sua culpa se esse é um arquétipo da adolescência: o frenesi pela busca da identidade própria, o abandono da família, a rebeldia, a idealização do amor etc.etc. Admito tudo isso. Mas achar que valia a pena contar para posteridade a tolice de minha neta em entregar para a velha bruxa – essa, sim, realmente uma velha, diga-se de passagem, senhor autor – o que tinha de realmente excepcional, sua voz, e concordar em ficar muda? E, além disso, aceitar passar a vida pisando em lâminas afiadas? O que tem de edificante nesse exemplo da única desmiolada da família que só nos deu dissabores?
Por meus sais!
Se o senhor pesquisasse mais, como soem fazer, por exemplo – não precisamos ir longe – os bardos ingleses, teria percebido que debaixo de seu nariz havia outra trama se passando. Uma trama que, sem falsa modéstia, reputo muito mais interessante e pertinente. A trama que realmente conta: a de quem conquista e mantém o poder. O trono.
O senhor não vive na Dinamarca? Não sabe quando um reino tem algo de podre?
Que reino, aliás, não tem algo de podre?
Pois o nosso também tem, e isso o senhor deixou passar. Nem sequer percebeu. Se percebeu, não mencionou. Sequer se interessou pela minha história, minha vida, meus sofrimentos. Não! O senhor não viu em mim o poder, só viu em mim uma velha!
Ó cego!
Sei que agora já não é possível mudar a trama de seu livro, mas vou lhe contar um pequeno resumo da minha vida, para que o senhor tenha um gostinho do que perdeu.
Saiba, senhor escritor: não nasci rainha.
Venho de uma família de sereias muito pobres.
Há uma parte do meu reino que o senhor possivelmente não conhece – e que isso, por favor, fique entre nós; realmente não há razão para que o público estrangeiro conheça nossas contradições internas. Só lhe conto essa parte para que entenda a via-crúcis pela qual passei.
Nasci numa periferia de favelas e bairros populares. Meu pai era um trabalhador especializado em lapidação de ostras. Um artista em seu tempo. Sábio e ambicioso, soube me preparar para o mundo.
Desde pequena, e sem falsa modéstia – a falsa modéstia não me trouxe aonde cheguei – minha beleza e inteligência eram dignas de atenção. Fui, e ainda sou - como já disse a falsa modéstia etc. etc. ... – belíssima. Nenhuma das minhas netas chegou sequer aos meus pés. Minha fama atraía admiração e, conseqüentemente, inveja. Passei – e ainda passo – meus dias administrando essas duas pontas do mesmo iceberg.
Naquele tempo, o reino era governado pela rainha que me antecedeu - essa também outra que poderia verdadeiramente ser chamada de velha, senhor escritor.
Seu filho, o príncipe, se apaixonou por mim. Foi uma paixão recíproca e verdadeira, mas creio que podemos pular essa parte; sabemos como são cansativas e parecidas as histórias da descoberta do amor. Basta dizer que a Rainha foi contra. Não queria admitir que o filho se casasse com uma plebéia, menos ainda uma plebéia preparada e inteligente. Uma plebéia que poderia se contrapor a ela. Uma plebéia que poria em xeque seus planos de controlar o filho, quando se tornasse rei.
Mandou seus lacaios me seqüestrarem.
Passei quase dois anos prisioneira em uma caverna, sem ver os raios do sol atravessando as profundezas das águas. Tampouco os raios da lua. Muito menos os das estrelas. Nenhum raio, portanto. Nenhuma luz, a não ser o candeeiro de peixe-elétrico.
Tinha por companhia apenas uma lula – essa, apesar de muito querida, também velha, senhor escritor; sei reconhecer uma pessoa velha.
Com fina astúcia – cujos detalhes também podemos pular, pois encompridaria muito essa carta – consegui enviar uma mensagem ao príncipe que percorria o reino a minha procura.
Como parte de sua estratégia, a velha mãe espalhara que eu havia morrido nas mãos de um tubarão feroz, atacado pela raiva – uma enfermidade que também acomete os seres marítimos. Meu príncipe não acreditou. Estava apaixonado, mas não era tolo. Percebeu a armação da velha mãe. Como era um bom filho, no entanto – e um pouco covarde, coisa que só vim a descobrir com o tempo – não se sentiu capaz de obrigá-la a confessar seu crime e revelar onde eu estava.
Em sua peregrinação de quase dois anos pelo meu paradeiro, meu belo príncipe passou por momentos tenebrosos – o que também podemos pular. Basta dizer que ele foi parar na gruta da Bruxa Má dos Mares Revoltos, sem saber que ela era mais uma aliada da velha Rainha. Ninguém suspeitava que a baixeza de minha futura sogra pudesse chegar a tanto. Mas chegou. Só que a Bruxa era o pior tipo de aliado, daqueles que não merecem a confiança de ninguém e trocam de lado por qualquer mínima vantagem. Portanto, em vez de enganar ainda mais meu belo príncipe, ela o ajudou – só que podemos pular isso também, pois envolve negociações chatíssimas. Basta dizer que depois de tudo, ele me libertou.
Mas não: não fomos felizes para sempre. Isso o senhor, com sua experiência de escritor, deve saber perfeitamente bem: ninguém é feliz para sempre.
Tivemos nossos bons momentos, claro, com champanhe geladinha e caviar dourado (o mais raro e delicioso, não sei se o senhor já experimentou), cafuné e longos tatibitates ao pôr do sol. Com muito empenho, consegui que meu príncipe banisse a velha rainha para sua casa de inverno. Ela certamente merecia um castigo maior, mas já estava se aproximando dos 300 anos – entende o que quero dizer, senhor? Não representava grandes riscos.
Tivemos também nossos momentos ruins, enfrentando as intrigas e baixezas de praxe em qualquer corte, com os correspondentes banimentos, execuções e suores noturnos. Muitos suores noturnos, dito seja de passagem. Dos dois tipos: os bons e os ruins. Podemos também pular essa parte.
Basta dizer que só tive um filho, esse que o senhor conheceu – o pai das minhas netas – e ao qual também não faz jus em seu conto, permita que lhe diga. Quando assumiu o trono, depois da desventura ocorrida com seu pai, foi ele quem modernizou o reino, ampliando suas fronteiras e potencializando suas riquezas. Sempre fomos muito unidos e, sem falsa modéstia – que a falsa modéstia etc.etc. – meu filho acatava meus conselhos. Seus feitos mereceriam uma carta à parte – por isso, vamos pulá-los também.
Recentemente, no entanto, meu dileto filho e poderoso rei está passando por uma fase delicada. Começou a ser assombrado por fantasmas que, temo, estejam colocando minhocas em sua cabeça.
O senhor sabe com que facilidade isso ocorre.
Minhocas e fuxicos horríveis. Referem-se – imagine! – à desventura vivida por seu pai. Insinuam – veja o senhor! – que a lança que feriu o velho rei na batalha – me esqueci de dizer que casei muito jovem, quase uma menina, e o rei, meu dileto esposo, era bem mais velho do que eu – não pertencia ao exército inimigo e sim a um traidor de sua própria escolta.
O senhor sabe também que esse tipo de rumor escabroso é que faz a vida de uma corte, certo? Portanto, podemos pular essa parte. Basta dizer que meus cabelos de sereia, por exemplo, que em seu livro o senhor diz que perdi devido à tristeza causada pela desmiolada da minha neta mais nova – errado! Imagine se os perderia pelas leviandades de uma jovem inconseqüente! Vê-se que o senhor realmente não me conhece! Esses cabelos – cuja beleza é lendária no meu reino – só comecei a perdê-los recentemente, devido a problemas relacionados ao exercício do poder e à administração dessas horrorosas fofocas fantasmagóricas cochichadas aos ouvidos do meu filho que, de uns tempos pra cá, incompreensivelmente passou a me evitar.
Não é fácil ser rainha.
Mas como disse no começo, só estou fazendo um resumo de minha vida. Uma sinopse – como se diz modernamente. Apenas para lhe dar um gostinho da história que perdeu. Uma pequena isca.
Sei que é assim que funciona um escritor: como um peixe.
Sabedor de tudo isso agora, quero crer que o senhor entenderá por fim meu inconformismo ao ver que no seu conto mal apareço.
Por isso, venho – não com autoridade de rainha, repito, mas como prerrogativa de uma personagem injustamente tratada – pedir que o senhor faça algum tipo de retificação nas próximas edições de seu livro.
Temo que, apesar dos toscos erros que ostenta, ele corra o risco de se tornar mundialmente conhecido: o ser humano adora esse tipo de historinha arquetípica e humor duvidoso no qual o senhor se especializou.
Mas se não puder mudar toda a história – o que suponho já compreendeu que seria o melhor a fazer – espero que pelo menos tire do meu nome aquele detestável e inadequado epíteto com o qual não quero – e não mereço – ficar para a posteridade.
Pelo menos isso.
Com meu real empenho,
A rainha do mar
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Nota do editor: Quando essa carta foi encontrada dentro de uma garrafa encalhada numa praia isolada da Dinamarca, o Sr. Hans Christian Andersen estava há muitos anos falecido. A carta se encontra hoje em seu espólio, etiquetada como documento número 333300-7, de autenticidade contestada. Considera-se que o Selo Real encontra-se muito danificado pela umidade, o que não permite uma avaliação definitiva de sua procedência original.
(Conto publicado no livro juvenil “Meu presente para o mundo”, LGE Editora)
A
calça esquecida
Maria José Silveira
Primeiro sábado de sol da primavera de 2009 na cidade de São Paulo.
Não sei de onde vieram, e quando demos por eles, os dois estavam no chafariz da Avenida 9 de Julho, um pouco abaixo do MASP.
Da janela do nosso apartamento à frente, Felipe diz: O cara está pelado.
Peguei o binóculo.
Não estava pelado. Estava com uma bermuda cor de pele.
Com tranqüilidade entrou na água escura, manchas verdes lodosas, do raso e pequeno lago do chafariz. Seu colega, de cueca preta, foi até o canto esquerdo onde, perto da torneira, havia uma banheirinha de nenê de plástico azul, estrategicamente deixada ali por alguém. Tira sossegado sua calça de malha preta, a camiseta, e se põe a lavá-las, com outras roupas, na bacia improvisada. Não sei se usou sabão. Sei que as molhou, esfregou, enxaguou e colocou uma calça preta para secar no parapeito mais alto da fonte e a outra, também preta, no lado mais baixo, mais próximo. Estendeu-as com cuidado e alisou suas dobras. Parecia um tranqüilo dono de lavanderia cumprindo suas funções.
Enquanto isso, o colega da bermuda cor da pele, peito nu, sentado no outro canto da borda do lago verde de musgo, esfregava-se com alguma coisa e se lavava pegando nas mãos em concha a água suja. Por algum motivo, não foi até a torneira onde a água deveria estar menos contaminada e mais limpa.
Apoiadas no muro um pouco mais afastado, entre as moitas de plantas, duas mochilas grandes.
Eu disse: Esses não são mendigos, Felipe, devem ser turistas europeus. Confundiram nosso chafariz abandonado com alguma fonte das cidades européias. Repara só nas mochilas, e na postura. Talvez não sejam europeus, mas não são mendigos.
Estavam em um espaço público, indiferentes aos olhares dos que passavam, os dois aproveitando a água como lhes aprazia, como se suas ações privadas fossem de caráter tão público como o entorno. Alguém das janelas dos apartamentos nos dois lados do chafariz observando-os fazer de área privada o chafariz público poderia, talvez, se sentir mais invadido do que eles.
A luz imóvel da manhã, o chafariz sujo, e os dois tão despreocupados como se estivessem em um quase bucólico fundo de quintal de palmeiras maltratadas e vegetação rala.
O de bermudas foi para trás de uma moita, enquanto o outro acabava de se lavar, e de estender as calças. Pensei que fosse esperá-las secar. Mas, se turistas fossem, deviam ter programa melhor para a manhã de sol. E de fato: o que lavara as roupas não esperou que secassem. Pegando a camiseta e a calça de malha ainda molhadas estendidas no parapeito abaixo, vestiu-as, e foi para onde o outro, de bermuda cor de pele e agora também de camiseta escura, esperava. Ali, colocaram os tênis e, mochilas às costas, saíram para pegar o ônibus.
Supostamente limpos e renovados, esquecidos do que deixavam para trás.
Esquecidos, inclusive, da outra calça de malha preta estendida no parapeito superior do chafariz.
No decorrer do sábado, outros turistas ou mendigos – em grupos ou solitários – também vieram se limpar na água precária.
Errados eles? Com certeza não, vítimas que são de uma metrópole que não oferece mínimas condições de vida decente a muitos de seus cidadãos e visitantes e, de roldão, tampouco a seus monumentos.
E lá continua ainda agora a calça esquecida no parapeito mais alto, imagem desolada de desabrigo, e agora já é domingo, outro dia de sol, outro dia de banho e lavagem de roupas no chafariz público abandonado no primeiro final de semana da primavera em uma das principais avenidas da cidade de São Paulo.
A menina do Teatro Municipal
Maria José Silveira
Rosa nasceu no Teatro Municipal de São Paulo. Seu pai era o zelador; sua mãe, a esposa do zelador. Sua casa, pequeno apartamento nos fundos da coxia.
Quando nasceu, três musas vieram a seu berço.
Uma falou: Rosa! Rosa! Que privilégio o seu! Nascer na morada da arte.
A segunda disse: Rosa! Rosa! Que fardo o seu! Viver ao lado da arte.
A terceira disse apenas: Rosa! Rosa! O que será de você, menina?
E no começo, como foi alegre e fácil! Quando a orquestra tocava para ela e artistas do mundo inteiro se apresentavam em sua casa. Quando, nas horas vazias, o palco imenso e verdadeiro era seu, e lá ela podia ser o que bem queria - cantora, pianista, bailarina. Brincando com sapatilhas que encontrava pelos cantos, artefatos, fantasias. Ou brincando com a boneca que virava atriz, palhaça ou apenas boneca. No dia do seu aniversário, o pai a colocava em um camarote e lhe dizia: a apresentação de hoje é para você, querida! E Rosa, menina, era inteiramente feliz no palco de seu mundo.
Mas eis que um dia o mundo de fora bate à porta do Teatro. Rosa ainda não sabia que o mundo de fora era um ogro e tomaria sua casa e seu palco, seus brinquedos e ilusões. Já não precisavam de zelador.
Pobre Rosa! Que fardo o seu! Que outra casa jamais poderia se comparar à que teve? Que outras brincadeiras jamais poderiam chegar aos pés das que brincava no seu palco-mundo?
Mas Rosa, desde então, jamais deixou de tentar, de alguma forma, voltar para sua casa-Teatro. Passou a ir a todas as apresentações, mas ser público não era, nem de longe, a mesma coisa. Tentou voltar como artista; estudou piano, e se formou - mas não deu. Ela, que tão facilmente tocava em seu palco-casa, descobriu o quanto era difícil ser artista no ogro-mundo de fora. Tentou, então, voltar como monitora de visitantes. Afinal, ninguém tinha nascido ali a não ser ela, ninguém entendia melhor tudo aquilo do que ela. Só que, vindo do berço que viera, ninguém era mais geniosa do que ela - também não deu.
Em um momento de desconsolo, Rosa pensou que talvez soubesse como voltar um dia para sua casa. Como iria outra vez morar no fundo das coxias e se apresentaria como quisesse no palco vazio e, no dia do aniversário, estaria outra vez no camarote onde se sentava quando criança a desfrutar o espetáculo apresentado em sua homenagem. Talvez soubesse quando tudo isso de novo aconteceria: quando ela fosse um fantasma e voltasse.
Mas, não! Assim, não! Seria muito cruel. Teria que achar outro jeito.
E como Rosa nasceu com as musas, Rosa viveu com a arte, Rosa não desistiu.
Aos 83 anos, encontrou seu jeito. Com as histórias que viu e viveu, com os artistas que conheceu, com os espetáculos que amou, ela escreveu um livro sobre sua casa-Teatro. Assim e por fim, os dois ficaram outra vez e para sempre unidos, e Rosa está feliz.
(Texto feito a partir da reportagem,”Filha única do Teatro Municipal”, de Fernanda Aranda, publicada no Caderno Metrópole, do Estado de São Paulo, dia 16 de agosto, 2009)
“A Teta Assustada”
por Maria José Silveira
Esse é o nome de um filme peruano que passou recentemente aqui em São Paulo. Não teve sucesso de público. Na sessão a que assisti, éramos apenas três: coincidentemente, mulheres.
O filme é de uma mulher, Claudia Llosa.
Conta a história da filha de uma camponesa dos Andes. Sua mãe, já com ela em gestação, foi estuprada por soldados nos anos de violência que aconteceram no Peru recentemente, entre os guerrilheiros do Sendero Luminoso e as Forças Armadas.
A filha, agora vivendo como migrante em uma favela de Lima, é uma moça que tem medo. Um medo paralisante que a imobiliza socialmente: enfermidade que seu povo chama de “teta assustada”, conseqüência do leite sofrido com que a mãe a amamentou.
O médico que a trata em Lima diz que tal enfermidade não existe. Os médicos que freqüentam este site certamente terão algo a dizer a respeito.
Seja como for, no entanto, essa é uma maravilhosa metáfora para dizer que através do leite, a mãe passa para os filhos também seus sentimentos.* Leite aqui significando leite mesmo e significando também a entranhada desesperança que a mãe transmite para a filha no modo como a cria, na tristeza com que a cria, no sofrimento da vida dura em que a cria.
O filme é falado em quéchua – e tenho quase certeza de que é o primeiro longa passado em nossos cinemas falado no idioma profundamente musical dos Andes, tal como é profundamente musical a cultura andina. Em um “insight” que por si só já vale o filme, essa musicalidade é mostrada de maneira deslumbrante: a mãe e a filha só conversam cantando. É cantando que a mãe lhe narra o estupro. É cantando que a filha assustada tenta afastar seu pavor do mundo.
O Peru é um país onde duas culturas fortes se enfrentam desde a época da Conquista. Quando chegaram, os espanhóis encontraram um povo com uma sociedade estabelecida e uma cultura forte e riquíssima. Não tiveram pejo: massacraram o quanto puderam até conseguir impor a cultura espanhola literalmente por cima dos fundamentos da economia e da cultura inca. Por cima porque não conseguiram destruí-la e integrá-la nunca foi exatamente o objetivo. A sociedade peruana de hoje ainda é marcada pelo forte embate entre essas duas culturas, a de cima tentando manter a de baixo sempre embaixo, por mais violência que seja preciso.
A sorte – não só para os peruanos mas para todos nós – é que o instinto de vida do ser humano costuma resistir. E com o lirismo, poesia e solidariedade, esse instinto tem conseguido, no Peru, enfrentar os tempos violentos e as adversidades.
*com a licença da Maria José, o grifo é meu (Isabel). A amamentação é uma das garantias da evolução do ser humano. Por ela, a mãe passa também ao bebê as suas imunidades adquiridas. Gostaria (e a Maria José também) de receber algum comentário médico sobre isso.
Maria José Silveira, escritora
COMO VIVER EM UMA SOCIEDADE EVOLUÍDA
ou
COMO APRIMORAR UMA HABILIDADE ANCESTRAL
Outro dia, um amigo Ph.D em Filosofia, David Livingstone Smith, fez uma descoberta tão óbvia que parece a de Colombo ao colocar o ovo em pé.
“A evolução seleciona as características que são mais vantajosas do ponto de vista da sobrevivência – ele diz, reafirmando Darwin, e acrescenta: - A mentira é uma delas.”
É por que as mentiras são – e sempre foram – vantajosas do ponto de vista da sobrevivência do ser humano que ela é hoje uma característica da espécie.
Faz parte do equipamento mental que o ser humano adquiriu e vem aprimorando na luta pela sobrevivência. Mentir, dissimular, ocultar é parte necessária para a preservação da espécie.
Depois que é dito, isso parece tão verdadeiro que não necessita de explicações. Como o ovo.
David é radical, no entanto: afirma que mentir é tão natural quanto respirar, caminhar, falar e fazer sexo. Argumenta e mostra (brilhantemente!) como a evolução da estrutura do cérebro humano vem desenvolvendo essa necessidade de mentir para sobreviver. Há milhões de anos.
Não é a toa que alguns mentem superlativamente bem!
A questão, portanto, é que para sobreviver, conseguir trabalho, se dar bem com os amores e os amigos, e não enlouquecer, é preciso mentir mais e melhor.
Alguns exemplos iniciais
No começo, evidentemente, a habilidade de mentir ainda não estava muito bem treinada. Por isso quando Deus perguntou:
“Eva, foram vocês quem morderam essa maçã?”
Ela se ruborizou, titubeou e olhou desesperada para Adão, que fingiu estar olhando para outro ponto distante, justamente do lado oposto. Por essa reação típica de péssimos mentirosos, iniciantes, Deus nem precisava da denúncia da serpente para saber que os dois estavam mentindo.
Corolário: se a capacidade de mentir já estivesse evoluída neles como hoje está em nós, ainda estaríamos na vida mansa.
Já Caim, cujo treinamento foi um pouco mais extensivo, se saiu melhor, e quando Eva, distraída, perguntou:
“Filho: quem está gritando assim como um alucinado com dores lancinantes não é Abel?”
Ele, tranqüilo, pegou seu pedaço de carne crua e falou de boca cheia (os hábitos à mesa também estavam no começo de sua evolução):
“Abel está dormindo, mãezinha. Esses gritos são da mulher do macaco aí do lado. Os dois já estão brigando de novo.”
Mais tarde (ou terá sido antes? Qual foi mesmo a era em que Adão e Eva viveram? Pleistoceno Superior?), os gritos de “Não fui eu!”, “Não fui eu!”[1], correram mais do que dinossauros e mamutes pelos campos da nossa pré-história.
Quem soube convencer o outro, sobreviveu.
A situação de hoje
A história do nosso mundo está repleta de exemplos assim: mentiras que deram certo, outras que deram errado, no meio de toda a confusão, ruído e fúria que trouxe o ser humano incólume (foi?) até o século XXI.
A verdade é que essa luta do mais forte por um lugar ao sol tem dado resultados questionáveis, mas não por culpa da mentira que vem se aprimorando bastante no decorrer desses milhões de anos.
Continua sendo uma bela vantagem quando bem usada. Continua ajudando a espécie humana a manipular seu grupo social, como ajudou nossos ancestrais.
Os bons mentirosos foram os que conseguiram – e conseguem - melhores salários, mais status, cônjuges com mais saúde (por que comem e se cuidam mais) e filhos cheios de aptidões evolutivas (idem).
Os vencedores sempre souberam mentir mais e melhor.
Mesmo no caso da mera sobrevivência, a convivência humana sem a mentira seria não só insuportável, como impossível.
Já imaginou se você dissesse a verdade para todos que encontrasse e a recíproca fosse verdadeira? Quanto tempo levaria para você desistir de tudo e correr para se internar no primeiro hospício?
Meu objetivo aqui, portanto, é apenas fazer você entender melhor essa sua habilidade congênita – se é que você está precisando de alguma lição sobre isso.
Se estiver, preste atenção.
As mentiras se subdividem em duas categorias básicas.
A mentira defensiva, totalmente darwiniana: é a mentira inocente. A que se pratica desde o berço e é muito bem treinada na infância, quando a cada pergunta de “Quem foi que fez isso?”, o pequeno indivíduo em formação responde com a cara mais inocente do mundo, “Não sei.”. Em geral, não machuca ninguém e apenas evita que aquele que a usa passe por um mau pedaço. O problema começa quando a criança cresce e tem que se defender das conseqüências de suas próprias mentiras. Aí, talvez, comece a perder seu ar inocente, ou talvez não. De qualquer maneira, é sempre usada na defesa e não no ataque.
Já a mentira agressiva é aquela praticada pelo conquistador. É a que tenta justificar a aniquilação do mais fraco. É a que Bush, por exemplo, usou e abusou para invadir o Iraque. É das mais populares entre os países, mercados e campos e locais de trabalho, como você já deve ter percebido.
Quanto à forma, as mentiras se subdividem em duas modalidades: a deliberada e a inconsciente.
A mentira deliberada é difícil para alguns e, para outros, facílima. Os menos capacitados nessa escala de evolução, mesmo depois de todo o treinamento da espécie, ainda hoje não são lá grande coisa na forma da mentira deliberada: gaguejam, se ruborizam (como Eva), fazem cara de quem acabou de chegar ali naquele instante e tentam simular não ter a menor idéia do que é que está se passando (como Adão). Na maior parte das vezes, se dão mal.
A mentira inconsciente é, verdadeiramente, a mais ancestral. Tão ancestral que faz parte do funcionamento da nossa psique. É aquela que você já nem sabe mais que é mentira. É a mais convincente e também automática, explica David. É, por exemplo, a resposta do “Tudo bem” à pergunta de “Bom dia, como vai?”
Em geral funciona a contento e tem um inegável papel no equilíbrio social: já pensou se você pára a pessoa que lhe fez a automática pergunta com ar de grande simpatia, e lhe conta todo o drama que vem enfrentando nesse seu dia? Provavelmente, nunca ouvirá mais essa pergunta partindo dele: o pobre fará de tudo para jamais se aproximar de você outra vez.
Quanto à sua utilidade para a espécie, as mentiras se subdividem também em duas: para os outros e para si mesmo.
É verdade, a mentira para si mesmo existe, e não é nem a mais difícil. É o conhecido auto-engano, aliás, a condição para sua boa saúde mental. É a que evita que você fique (completamente) louco. Em geral, diz David em sua tese, os deprimidos são os que têm essa habilidade pouco desenvolvida.
Já a mentira para os outros é a clássica, a que lhe permite viver seu dia-a-dia sem provocar grandes desastres, ruínas e, em certo nível, a própria destruição da sociedade (pelo menos da sua).
Sugestões para seu aprimoramento
Agora, a parte boa: como aprender a mentir mais e melhor.
Já que mentir é uma habilidade congênita, algumas pessoas a têm bem mais desenvolvida do que outros. Desnecessário dizer que a classe política se sobressai nesse aspecto. Mas na espécie em evolução, como um todo, os mecanismos da dissimulação e falsidade são continuamente aprimorados.
Exemplos da sofisticação desses primores podemos ver todos os dias a toda hora em todos os lugares. Jornais, TVs e encontros sociais são entretecidos por eles.
Para ter lições práticas, portanto, e se aprimorar, é fácil: basta olhar com atenção para o mundo a sua volta.
Foi assim que, hoje, por exemplo, fiz uma nova aquisição evolutiva apenas observando um dos nossos próceres do momento. O prócer que, ao ser pego publicamente em uma mentira, não titubeou nem se ruborizou como Eva, mas apenas se justificou, com cara de ofendido, afirmando não ter “se apegado à acepção estrita” do termo que inicialmente usou. (Importante! A cara de ofensa e ultraje é condição necessária para se fazer a correção de uma versão dada anteriormente.)
De fato, uma pérola de sofisticada lapidação.
Depois dessa, acredito, qualquer outra lição torna-se, pelo menos por hoje, desnecessária.
Para finalizar, um pequeno teste de compreensão.
O texto que você acabou de ler contém pelo menos uma mentira deliberada e provavelmente várias mentiras inconscientes.
Quem detectá-las, concorrerá a um prêmio, caso se dê ao trabalho de enviar o resultado para esta editora.
Só não vale me chamar de cínica, pois não o sou. Não passo de um mero indivíduo do gênero feminino de nossa evoluída espécie.
Texto publicado na coletânea “35 segredos para chegar a lugar nenhum”, organizado por Ivana Arruda Leite, Ed. Bertrand Brasil.
A autora Maria José Silveira tem vários livros, entre eles “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”(Ed. Globo), “O fantasma de Luís Buñuel” ( Ed. Francis), “Sangue no Coração do Cerrado”, Ed. Record.
[1] “Rrru rrru nã!”, “Rrru rrru nã!” no original.