Isabel Vasconcellos

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Nesta página breves biografias e algumas fotos das mulheres que marcaram os dias do ano, e são destaque na semana corrente.

 

 

8 de março

1929 nasceu Hebe Camargo

 

Dia Internacional da Mulher

(para ler sobre essa data, clique aqui)

Hebe Camargo está indissoluvelmente ligada à História da TV Brasileira. Sua figura carismática e sua simpatia contagiante, fizeram dela a grande Dama da TV.

Ninguém sabe, igual a ela, consertar os pequenos tropeços que acontecem nas transmissões de programas ao vivo.

E, curiosamente, tinha sido ela a escolhida para cantar o hino da TV Brasileira, no dia da inauguração da primeira TV da América Latina, a TV Tupi, em 18 de setembro de 1950. Mas, na última hora, foi substituída por Lolita Rodrigues (que é um das melhores amigas de Hebe até hoje), já que ela não apareceu. É que o amor falou mais alto e Hebe, que tinha apenas 21 anos de idade, preferiu, naquela noite, ir namorar... pelo menos, é o que dizem. Se é verdade, só ela pode dizer. É verdade, Hebe?

Ela já nasceu com esse nome de artista: sonoro e fácil de guardar. Hebe Camargo não é pseudônimo, é o nome mesmo da filha de Ester e Fego Camargo, um violinista que animava as sessões de cinema no tempo do cinema mudo.

Quando veio o cinema falado, Fego perdeu o emprego e Hebe teve uma infância de dificuldades financeiras.

Na década de 1940, Hebe e sua irmã, Estela, formaram uma dupla caipira: Rosalinda e Florisbela.

Hebe estava no grupo que foi ao Porto de Santos para buscar os primeiros equipamentos para a instalação da nossa primeira TV, a Tupi, de Assis Chateaubriand.

Se Hebe não cantou o hino na noite da inauguração da TV, ela estava lá, na programação ainda de 1950, apresentando, ao lado do cantor Ivon Cury, o programa “Rancho Alegre”.

Nesta época, Hebe era morena. Mas, em 1957, mudou radicalmente seu visual, tornou-se loira e começou a apresentar o programa “O Mundo É das Mulheres”, com direção de Walter Forster, na TV Paulista, canal 5 (que depois se tornaria TV Globo).

Em 10 de abril de 1966, estréia na TV Record o programa que colocaria Hebe Camargo como a entrevistadora de maior audiência na nossa TV.

Levava o nome dela (como até hoje) e foi neste programa que ela consagrou o seu bordão “é uma gracinha, né?” e ficou famosa por consertar magistralmente tanto as suas próprias gafes como as de seus convidados.

Foi ainda neste programa que ela deu espaço para novos talentos, como Roberto Carlos e Ronnie Von, que deve a ela seu apelido de “Pequeno Príncipe”.

Fazia também um programa diário na Rádio Joven Pan.

Hebe passou por todas as TVs importantes, menos a Globo. Um dia, disse no ar, sobre a Rede Globo: “Lá, eles não me deixariam falar o que eu falo”.

Nair Bello, Lolita Rodrigues e Ronald Golias estão entre os seus melhores amigos.

Desde 1986, Hebe faz seu programa semanal no SBT. Com aquela espotaneidade que é sua marca registrada.

Também é cantora. Gravou vários discos e amargou uma vaia daquelas num Festival da TV Record, nos anos sessenta. É antológica a cena do close-up de sua mão, crispada, esmagando uma rosa, enquanto prosseguia seu canto e a vaia do público.

Hebe foi casada com Décio Capuano e Lélio Ravagani. Com Décio teve seu único filho: Marcelo.

Hebe nunca teve medo de dizer o que pensa e se coloca como favorável ao aborto. Reclama dos políticos, denuncia criminosos, e promove aqueles que julga que devem ser promovidos.

Em 2009 comemorou seu aniversário de 80 anos na Disneylândia.

No início deste ano de 2010, Hebe foi internada com um câncer raro. Fez cirurgia e os médicos são otimistas quanto ao tratamento que se segue.

Quanto teve alta, estava em casa e disse:

-- Quando eu estava no hospital, o Roberto (o rei Roberto Carlos) ligava todos os dias para mim. Hoje ele não ligou. Quero voltar pro hospital!!!

 

Assim como a nossa Hebe, outras mulheres importantes também nasceram no Dia Internacional da Mulher:

1892 - Juana de Ibarbourou, poetisa uruguaia (m. 1979)

1911 - Maria Bonita, cangaceira brasileira (m. 1938)

1912 – Diná Lopes Coelho, crítica de arte (video sobre ela, clique aqui)

1941 - Neuza Borges, atriz brasileira

1946 - Tonicha, cantora portuguesa

1947 - Carole Bayer Sager, compositora estado-unidense

1957 - Teresa Ceglecka-Zielonka, política polonesa

04 março

2003, morreu Celly Campello

Celly Campello tinha 16 anos quando se tornou a rainha do rock no Brasil, uma década antes de Rita Lee.

Ela ainda deveria ter sido a estrela feminina da Jovem Guarda, ao lado de Roberto Carlos, mas recusou o convite da TV Record.

Cely era muito mais famosa que Roberto naquela época mas já tinha abandonado tudo -- o sucesso, a carreira, os estúdios... -- para se casar!

 

Célia Benelli Campello nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de junho de 1942.

Começou a cantar com 6 anos de idade na Rádio Cacique de sua cidade natal e, como aconteceu com Elis em Porto Alegre, Celly também fez parte do Clube do Guri, mas na Rádio Difusora de Taubaté.

Aos 12 anos tinha seu programa próprio na Rádio Cacique

Aos 16, gravou seu primeiro disco. Era uma “bolacha” de vinil de 78 rotações que tinha uma gravação de cada lado. De um lado, Tony Campello, irmão de Celly que a acompanharia na carreira. De outro, Celly.

Em 1959 ganhou seu primeiro programa de TV, na Tupi: “Celly e Tony em Hi-Fi”.

Foi neste mesmo ano que lançou seu mega sucesso: Estúpido Cupido, versão de uma canção americana de Neil Sedaka.

Esta música foi regravada por Rita Lee nos anos 1970 e, em 1976, virou nome de novela da Rede Globo, fazendo com que Celly reaparecesse em público por alguns momentos.

O primeiro disco gravado por Elis Regina (Viva a Brotolândia) pretendia concorrer com Celly.

Foi a primeira artista brasileira a virar boneca e bombom de chocolate.

Tornou-se a Rainha do Rock e era ouvida no Brasil inteiro, batendo recordes de venda de discos.

Tinha uma legião de fãs e fãsclubes espalhados por todo o País. Era, como se dizia na gíria da época, a grande coqueluche nacional.

Para a enorme decepção desses seus fãs, em 1962, ela largou tudo para se casar com seu namorado José Eduardo Gomes Chacon, que, como todo bom machista daquele tempo, não queria uma esposa famosa e que, ainda por cima, ganhasse mais dinheiro que ele.

Eles namoravam desde que ela tinha 14 anos e, a exemplo de outras famosas da década de 1950, como Martha Rocha que recusou o estrelato em Holywood, certamente o grande sonho de Celly era casar e ter filhos.

A primeira estrela do rock virou uma dona de casa do interior.

E morreu em Campinas, cidade onde morava, numa terça-feira de Carnaval, 4 de março de 2003, vítima de câncer.

Havia sete anos detectara um nódulo na mama direita.

 

 

22 de fevereiro de 1912 é a data de nascimento de Wanda Gonçalves de Almeida Vasconcellos, minha mãe. A ela, que também foi uma mulher à frente do seu tempo, eu devo a minha consciência da nossa real condição feminina na sociedade. Para saber mais sobre ela, vá à página Memória.

 

 

 

 

21 de fevereiro

1903 nasceu Anais Nin

Ela foi um grande escândalo.

Francesa, escritora e muito mais sexualmente livre do que muitas mulheres de hoje.

Tinha 11 anos quando foi com a mãe para os Estados Unidos. Aí começou a escrever diários, hábito que manteria por toda a sua vida. Ela dizia que começou a escrever para o pai, que deixara sua mãe.

Muito mais tarde, adulta, teve um caso de amor com o próprio pai. Era também amante do famoso escritor Henry Miller e de sua mulher, June.

Seus diários começaram a ser publicados a partir dos anos 1960 e ela logo virou a queridinha das feministas que se apaixonaram por sua ousadia e tornaram famosa uma frase sua: “Qualquer tipo de amor que encontre, viva-o”.

Angela Anais Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell nasceu numa cidadezinha ao lado de Paris, Neuilly, em 21 de fevereiro de 1903, filha da cantora lírica Rosa Cumell com o pianista e compositor cubano Joaquim J. Nin.

Tinha apenas 16 anos quando começou a trabalhar como modelo em Nova Iorque. Aos 23 casou-se com um banqueiro milionário, Huge Guiler e foi viver com ele na Europa.

No começo dos anos 1930 Anais voltou aos Estados Unidos e então começou seu longo romance com Henry Miller e June, a mulher dele.

Mas voltou para Paris em 1935 apenas para montar uma editora e editar seus próprios livros, considerados eróticos demais para as editoras da época.

Estudou psicanálise com Otto Rank, discípulo de Freud e teve um caso de amor com ele.

Nos anos 1940 estava de novo em Nova Iorque e se tornou amiga de grandes escritores, Gore Vidal entre eles.

Mas foi apenas duas décadas depois, quando ela já tinha mais de 50 anos, que seu talento foi reconhecido e seus livros fizeram sucesso. É que ela realmente estava muito à frente do seu tempo.

Em 1973 a faculdade de artes da Filadélfia deu a ela o título de doutora honoris causa. Em 1974, foi eleita para o Instituto americano de artes e letras.

Ela morreu aos 73 anos no dia 14 de janeiro de 1977.

Anais Nin foi vivida no cinema pela atriz portuguesa Maria Medeiros, no filme “Anais e Henry” de Philip Kaufman, realizado em 1990.

 

15 de fevereiro

1905, nasceu Nise da Silveira

 

Nise da Silveira formou-se na faculdade de Medicina da Bahia, em 1926. Nesta época, todo mundo ainda via muito mal as mulheres que ousavam (e eram poucas) ser médicas.

Nise foi a única mulher entre os alunos da faculdade. Especializou-se em psiquiatria. Outra ousadia. Mulheres médicas eram ginecologistas ou pediatras.

Mais ousadamente ainda, colocou-se radicalmente contra as formas agressivas de tratamento usadas na época: lobotomia (uma cirurgia que mutilava o cérebro), eletro choques e insulinoterapia. Por isso, ela lutou e encontrou novas formas – mais femininas e delicadas – de tratar as doenças mentais.

Depois de formada passou a viver em Maceió, sua terra natal. Seu pai morreu em 1927 e sua mãe resolveu voltar para a casa dos pais. Nise não gostou e pegou um navio pro Rio de Janeiro.

Arrumou um emprego num hospital e passou a morar lá, como interna.

Em 1935, durante o Levante Comunista da ditadura de Getúlio Vargas, uma enfermeira viu obras de Karl Marx em seu quarto e a denunciou como comunista. Ela foi presa e afastada do serviço público.

Ficou presa por um ano e quatro meses e foi na cadeia que conheceu Graciliano Ramos e Olga Benário, que se tornaram seus amigos.

Só em 1944 conseguiu voltar a trabalhar como psiquiatra.

Mas logo arrumou outra encrenca. Recusou-se a aplicar eletro choque num paciente e, por isso, foi “banida” para um setor do hospital onde ninguém queria trabalhar, porque era considerado um trabalho menor: o centro de Terapia Ocupacional.

Nise conta que, quando chegou lá, os pacientes varriam o hospital, faziam faxina, serviam café... Essas atividades (que acabavam economizando funcionários) eram então consideradas terapia.

Mas ali estava seu futuro e a revolução que a tornariam famosa: em 1946 ela fundou ali a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, que passou a receber com respeito os pacientes e colocá-los na atividade que mais os agradasse, dentre os muitos “ateliês” que ela criou: pintura, modelagem, música, teatro.

Conscientizou os funcionários para a dura realidade dos doentes mentais que, além do sofrimento imposto pela própria doença, ainda sofriam uma enorme discriminação social, inclusive dentro das instituições médicas.

Em 1952 fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, que não só reuniu as obras produzidas pelos pacientes mas era também um centro de pesquisa.

Em 1956 criou a Casa das Palmeiras, onde os doentes mentais viviam em regime de semi internato e eram estimulados a realizar atividades criativas.

Nise dedicou parte de sua vida a Carl Jung e fundou um grupo de estudos sobre ele, tendo também publicado o livro “Jung, Vida e Obra”.

Sua pesquisa e estudo da terapia ocupacional e do processo psiquiátrico pelas imagens do inconsciente renderam vários desdobramentos em todo o mundo: cursos, documentários, simpósios, livros, conferências...

Fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica, com sede em Paris, Nise da Silveira acumulou condecorações e prêmios internacionais.

Eu gostaria de ver, então, a cara do médico que a “baniu” para a parte “menos nobre” do hospital por julgá-la rebelde e inconsequente.

A Dra. Nise morreu no Rio de Janeiro, aos 94 anos de idade, em 30 de outubro de 1999.

 

09 de Fevereiro

1909, nasceu Carmen Miranda

 

Carmen Miranda, a atriz e cantora, foi e ainda é um dos maiores mitos brasileiros, a primeira e a única—até agora—superstar nacional em Hollywood.

Toda vez que você vê alguém com uma fruteira na cabeça, sapatos de plataforma, todo cheio de balangandans e com os olhos bem pintados, revirando as mãozinhas assim, o que é que você diz? Carmen Miranda.

Mas, além de estrela, Carmen era uma mulher de comportamento moderno e avançado para o tempo em que viveu.

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu dia 9 de fevereiro de 1909 em Portugal, em Marco de Canavezes, distrito do Porto. Veio para o Brasil com a família quando tinha apenas dez meses de idade.

Uma de suas irmãs, Olinda, ensinou a ela, ainda criança, o amor pela música e pela costura.

Quando, em 1925, a família montou uma pensão, administrada pela mãe, Carmen começou a trabalhar como vendedora e a criar lindos chapéus.

(Outra famosa que começou uma carreira criando chapéus foi a Coco Chanel. Talvez Carmen pensasse em ser estilista de moda, em vez de cantora... Na verdade ela criou os seus próprios trajes, os sapatos– de altíssimos saltos plataforma— e as bijuterias – chamadas de balangandans— e estes fizeram escola na moda e foram copiados nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa.)

Foi em 1928 que ela cantou em público pela primeira vez, numa festa beneficente.

Em 1929, faz enorme sucesso com a gravação da música “Taí”.

Em 1932 já era uma das maiores estrelas brasileiras.

Era ousada e estava na frente, uma pré-Leila Diniz. Ruy Castro, seu biógrafo, afirma que ela transava os namorados, numa época em que "mulher direita" não podia ter sexo, e mesmo assim todo mundo a respeitava.

Absoluto sucesso nas décadas de 1930 e 40, descoberta então pelo empresário americano Lee Schubert, foi fazer também sucesso nos Estados Unidos, em Hollywood, brilhando nas telas de lá depois de ter brilhado aqui nos cassinos, no rádio (não existia TV) e no cinema nacional.

Com o acompanhamento do Bando da Lua, conquistando também os americanos, Carmen virou a “brazilian bombshell”.

Quando, em 1940, ela voltou ao Brasil, a pedido de Darcy Vargas, a irmã do ditador Getúlio Vargas, para uma temporada no Cassino da Urca, os brasileiros torceram o nariz para ela.

É que, naquele tempo, imperava no país um forte sentimento nacionalista e o povo daqui achava que o sucesso de Carmem nos EUA era uma ofensa. Hoje parece muito engraçado e irônico que muitos cantores brasileiros só alcancem reconhecimento aqui dentro quando fazem sucesso lá fora...

Carmen, em resposta à enxurrada de críticas que recebeu então, cantou “Disseram que Voltei Americanizada”, fazendo dupla com o também famosíssimo ator Grande Otelo. (clique aqui para ouvir)

Continuou vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, convivendo com astros e estrelas hollywoodianos em sua mansão em Beverly Hills e se tornou a primeira artista latino americana a imprimir suas mãos na calçada da fama de Hollywood.

Há quem diga que foi o sucesso americano que fez mal a ela, que a máquina da indústria cinematográfica a destruiu. Assim como aconteceu com Judy Garland, foi por incentivo dos estúdios de cinema que ela começou a tomar drogas. Judy tomava anfetaminas para emagrecer. Carmen, barbitúricos. Como Marilyn Monroe, chegou a aquele ponto em que tomava calmantes para dormir e estimulantes para acordar. Além disso, fumava e bebia bem.

Veio novamente ao Brasil em dezembro de 1954, depois de 14 anos de sua última estadia aqui. Passou quatro meses em tratamento para dependência quimica, “internada” numa suite do hotel Copacabana Palace. Voltou para os Estados Unidos em abril de 1955.

E morreu lá, com apenas 46 anos, depois de participar do programa de TV de Jimmy Durante, no auge do sucesso, em 5 de agosto. Tinha tido um pequeno desmaio no programa, mas cantou e dançou para os amigos, mais tarde, em sua casa. Quando se preparava para dormir, teve um colapso cardíaco. Foi encontrada pela empregada.

Seu corpo voltou para o Brasil e seu enterro, aqui, reuniu tanta gente quanto, um ano antes, reunira o enterro do presidente Getúlio Vargas.

Desta vez o povo não tinha críticas para ela. Só aplausos.

No YouTube tem um vídeo muito lindo da Carmen:

http://www.youtube.com/watch?v=ERYKzez97lA

 

04 fevereiro

1921, Nasceu Betty Friedan

2006, Morreu Betty Friedan

A escritora americana Betty Friedan ganhou fama mundial em 1963 quando publicou o livro A Mística Feminina.

Nessa obra ela denunciava a síndrome da dona-de-casa e seus efeitos no psiquismo das mulheres. Betty reivindicava o direito das mulheres a outras oportunidades na sociedade, onde elas pudessem desenvolver todo o seu potencial como seres humanos.

Nascida Elizabeth Goldstein em Illinois, nos EUA, em 4 de fevereiro de 1921, ela se graduou na famosa Smith College, casou-se e se tornou mais uma dona de casa.

Em 1963, aos 42 anos de idade, resolveu botar a boca no mundo e publicou o livro “A Mística Feminina”, onde analisava o papel das mulheres na sociedade. O livro foi um sucesso no mundo inteiro, era tudo o que as mulheres e os homens dos revolucionários anos 60 queriam ouvir. Logo, os conservadores começaram a atacá-la, dizendo que ela era feminista apenas porque era uma mulher muito feia.

São mais de quatro décadas desde a publicação desse livro que realmente foi decisivo para a consciência da verdadeira condição em que vivia o então chamado "sexo frágil".

De lá para cá ninguém pode negar que as mulheres realmente vêm ocupando uma outra posição na sociedade. Mas, naquele tempo, o único destino aceito para a mulher era o de mãe e esposa. Com raras exceções nem sempre bem vistas.

Três anos depois, Betty fundou a NOW – Organização Nacional das Mulheres, para lutar pelos direitos femininos. A Now está viva e é atuante até hoje e você pode saber mais acessando seu site na Internet.

Apesar de xingada de feia e mal amada, Betty, em seus livros e artigos, sempre afirmou que as mulheres deviam ser livres e ter direitos iguais na sociedade, mas sem perder a feminilidade.

“Iguais, na diferença”, tornou-se um lema para as feministas sérias do mundo.

Betty morreu em 4 de fevereiro de 2006, exatamente no dia em que completava 85 anos de idade.

 

 

 

25 de janeiro   

1533, Ana Bolena casa-se com Henrique VIII

Uma das sete esposas do rei Henrique VIII, da Inglaterra, Ana Bolena, fez tanta política e tanta intriga para conseguir se casar com o rei e acabou sendo morta, decapitada, aos 36 anos, vítima também de políticas e intrigas contrárias a ela. A história, trágica e fascinante, de Ana já rendeu inúmeras obras: óperas, peças teatrais, romances e mini-série.

Existe uma espécie de rosa batizada com seu nome e uma indústria de brinquedos criou a boneca Ana Bolena.

Ana Bolena, nasceu em 1507, filha de Thomas Boleyn, Conde de Wiltshire e de Isabel Howard, filha do Duque de Norfolk. Foi educada nos Países Baixos, na corte de Margarida, Arquiduquesa da Áustria.

Adolescente, foi para a França onde se tornou uma das aias da rainha Cláudia de Valois, mulher de Francisco I.

Aprendeu a falar francês e apaixonou-se pelas regras de etiqueta e da moda, tornando-se uma mulher sofisticada.

Foi em janeiro de 1522 que Ana, por ordem de seu pai, voltou à Inglaterra para servir à rainha, Catarina de Aragão, primeira esposa do rei Henrique VIII.

A irmã de Ana, Maria Bolena, era nessa época a amante do rei. Ana, por sua vez, conheceu, na corte, o filho do Conde de Northumberland, Henry Percy, e viveu com ele um romance tórrido. Mas seu pai fez de tudo para impedir o casamento de Ana com Henry e acabou por afastá-la da corte por 3 anos.

Em 1525, Ana estava de volta.

Maria, sua irmã, tivera um filho do rei, mas este, por ser bastardo, jamais poderia herdar o trono.

E o grande problema de Henrique VIII era justamente não ter herdeiros. Com Catarina, sua esposa legítima, tivera uma filha e depois um filho, que morreu ainda criança.

Ana resolveu seduzir o rei. Mas não pretendia, como aconteceu com sua irmã Maria, tornar-se apenas mais uma amante oficial. Ela queria o trono. E Henrique, por outro lado, queria também se ver livre de Catarina do Aragão, que já estava velha demais para ter filhos e não lhe daria outro herdeiro. Mas, politicamente, a coisa era bem complicada. Catarina tinha o apoio de seu irmão, rei da Espanha.

Em 1527, Henrique VIII pediu Ana Bolena em casamento, embora já fosse casado com Catarina.

Ana negava-se a tornar-se amante do rei e ele começou as negociações para conseguir a anulação de seu casamento com Catarina. Durante 6 anos o papa Clemente VII se opôs à anulação.

Mas Henrique não desistiria.

Casou-se em segredo com Ana em 25 de janeiro de 1533, no Palácio de Whitehall, e, quatro meses depois, conseguiu que o Bispo de Catenbury declarasse a anulação de seu casamento com Catarina.

Aí, o rolo estava armado. A desobediência do Bispo ao Papa Clemente VII, e mais um montão de intrigas palacianas e religiosas, fizeram com que a Igreja da Inglaterra se separasse definitivamente da Igreja Católica Romana.

Daí, Ana Bolena pode ser considerada o pivô do surgimento da Igreja Anglicana.

Mas enquanto o rei Henrique VIII tramava suas brigas com o Papa, o poder de Ana aumentava muito. Ela se tornou influente na diplomacia, graças à sua amizade com o embaixador francês, Monsieur de la Pommeraye, que estava perdidamente apaixonado por ela. Outro diplomata, John Barlow, também meio caído pela moça, fazia às vezes de seu espião no Vaticano.

Em 1532, Henrique VIII a fez marquesa de Pembroke, tornando-a assim, também, a primeira mulher a receber diretamente um título de nobreza (as outras, até então, tinham títulos por serem casadas com homens nobres). Seu pai ganhou o Condado de Ormonde e seu irmão, George, tornou-se Visconde Rochford.

Enquanto Ana colecionava as glórias de poder na corte, o povo a detestava, pois sabia que ela tomaria o lugar da legítima rainha, Catarina. Em 1531 oito mil mulheres saíram às ruas de Londres para protestar contra a ascensão de Ana Bolena e apoiar a rainha Catarina.

Finalmente, em 1 de junho de 1533, Ana Bolena foi coroada Rainha da Inglaterra, sob os protestos do povo que fez questão de boicotar as celebrações. Henrique VIII foi excomungado pelo Papa Clemente VII no dia 11 de julho.

Em setembro, Ana deu à luz. Mas, para sua desgraça, era uma menina e não o sonhado herdeiro do rei.

Ironicamente, essa menina seria, mais tarde, a famosa rainha da Inglaterra, Elizabeth I, a arqui-inimiga de Mary Stuart.

“Ana dos Mil Dias”, assim ficou conhecida Ana Bolena, pois seu reinado durou apenas mil dias.

Nesse período, porém, ela tratou de introduzir muitos aspectos da cultura francesa na corte da Inglaterra, indicou a maioria dos bispos para a recém criada Igreja Anglicana, continuou poderosa mas... não conseguia dar ao rei o seu sonhado herdeiro. Engravidava, abortava. Quando conseguiu levar a gravidez até o fim, o bebê nasceu morto.

Em janeiro de 1536, a ex-rainha Catarina morreu. Ana Bolena foi às cerimônias funerárias de vestido amarelo, quando toda a corte vestia luto.

Ana se tornava cada vez mais impopular e o rei, já que ela não conseguia dar-lhe o sonhado filho, começava a se desinteressar dela. Henrique VIII voltou então suas atenções para Jane Seymour, uma das aias de Ana.

A história se repetiu. Jane se tornou amante do rei e começou a tecer intrigas contra Ana, a rainha.

A corte, que antes a bajulara, começava agora a falar mal dela.

Ana é então acusada de vários adultérios, de incesto com o próprio irmão, de bruxaria. Ela teria usado a feitiçaria para conquistar o rei e outros amantes. E a intriga e o falatório vão crescendo.

Finalmente, em 2 de maio de 1536, depois de cerca de mil dias de reinado, Ana Bolena é presa, na famosa Torre de Londres, sob a acusação de traição, incesto e prática de bruxaria. Cinco homens são presos também, entre eles seu irmão e Lord Rochford. Os homens foram barbaramente torturados para que admitissem que Ana praticara adultério com eles, que fizera amor com seu próprio irmão e que era uma bruxa, tramando contra o rei.

Tendo por base as confissões obtidas sob tortura, o Parlamento condenou Ana por traição no dia 15 de maio.

Dois dias depois, o casamento dela com o rei foi anulado.

Em 19 de maio de 1536, Ana Bolena foi decapitada.

Apenas onze dias depois, Henrique VIII casou-se com Jane Seymour.

Muitas lendas correm sobre Ana Bolena. Uma delas, diz que Ana teria seis dedos numa das mãos. Outra, diz que ela, antes de morrer, teria dito ao carrasco, sobre seu próprio pescoço: “Ele é pequeno, não? Muito pequeno”.

19 de janeiro

1942, nasceu Nara Leão

1982, morreu Elis Regina

Duas grandes cantoras brasileiras marcam o 19 de Janeiro:

Nara, a grande musa inspiradora da bossa-nova, com uma voz pequenina e afinada.

Elis, a inesquecível, com seu vozeirão maravilhoso . Ambas, Nara e Elis, tiveram interpretações sensacionais, únicas e inigualáveis, de uma fase áurea da nossa música.

Clicando na foto da Nara acima vc assiste Nara e Erasmo na TV há 30 anos passados.

Clicando na foto da Elis, vc assiste um trecho da Elis com a Maria Rita (pequenininha) no programa TV Mulher de 1980.

19 de janeiro

1942, nasceu Nara Leão

Nara Leão nasceu em 19 de janeiro de 1942. Foi uma das musas da Bossa Nova e, em seu apartamento no Rio, no começo dos anos 60 se reuniam os papas da MPB da época, de Roberto Menescal, um dos primeiros namorados de Nara, a Vinicius e Tom Jobim e Carlinhos Lyra.

Nelson Mota, em seu livro, Noites Tropicais, conta essas histórias.

Ronaldo Bôscoli (que também chegou a ficar noivo de Nara e casou-se com Elis) e João Giberto trataram de consolidar a Bossa Nova. O que era um movimento da garotada musical de então, acabou se tornando o grande sucesso internacional da música brasileira.

E Nara virou a “Musa da Bossa Nova”.

Nara Leão ficou famosa cantando A Banda, de Chico Buarque, num festival da TV Record nos anos 1960. Ela foi o exemplo da importância da interpretação e não mais do vozeirão na música brasileira.

Depois do golpe militar, em 1964, a mocinha meio tímida que reunia artistas em sua casa, passou a ser malvista pelos militares e quase foi enquadrada na lei de segurança nacional. O grande poeta, Carlos Drummond de Andrade, dedicou a ela um poema, onde a defendia das garras do milicos da ditadura brasileira. Os intelectuais de então se puseram a defender a moça.

Nara foi a estrela, ao lado de João do Vale e de Zé Kéti, de um dos shows mais importantes da história da Música Brasileira: o “Opinião” (“Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião...). Quando fazia o show, ficou doente e escolheu a sua substituta: Maria Bethânia. Assim, Nara, indiretamente, acabou sendo responsável pela revelação de Bethânia, Caetano, Gil e Gal, os baianos que vieram tentar a sorte artística no sul maravilha.

Pouco depois, Nara estrelou outro show antológico: o “Liberdade, Liberdade”, que logo saiu de cartaz, proibido pela censura. Nara não era só a Musa da Bossa Nova, era também a musa do protesto. Todos os compositores importantes da época tiveram gravações suas.

Nara fez cinema, teatro, shows.

Casada com o cineasta Cacá Diegues, no auge da repressão da Ditadura Militar, viveu o exílio na Itália e na França.

Teve dois filhos, Isabel e Francisco.

Foi uma das primeiras estrelas da MPB a superar o preconceito que este grupo tinha com relação ao grupo rival, o do iê-iê-iê ou a chamada Jovem Guarda, comandada por Roberto Carlos e considerada “alienada” pela turma politizada da MPB. Para escândalo de muitos, no final dos anos 1970, Nara gravou um LP (a bolacha de vinil, com seis faixas de cada lado) só com músicas de Roberto e Erasmo Carlos.

No anos oitenta começam seus problemas de saúde. Danuza Leão, sua irmã também famosa, fala sobre isso em um dos seus livros.

Mesmo doente, Nara continuou a carreira, fazendo sucesso no Japão, nos Estados Unidos e na Europa, em shows com seu amigo Roberto Menescal.

O câncer matou Nara Leão. Na tarde do dia 7 de junho de 1989. Mas ela continua bem viva nos seus muitíssimos discos e no coração daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela.

19 de janeiro

1982, morreu Elis Regina

Elis é uma das maiores cantoras do século XX. Para mim, é a maior. Muita gente pode achar que é a Piaf, ou a Ella Fitzgerald, ou a Kiri Te Kanawa, ou a minha também querida Dinah Washington. Gosto de Gal, de Bethânia, de Nara, de Nana Caymmi. Mas, me perdoem, pra mim, ninguém, ninguém mesmo pode se igualar à voz e à interpretação de Elis.

Quando, há alguns anos, ouvi pela primeira vez a Maria Rita, filha de Elis, cantando, chorei como criança. Maria Rita tem a voz da mãe, por um milagre da genética. Mas a genética não faz tudo e, embora eu goste muito das interpretações de Maria Rita... As de Elis são únicas e, todas, maravilhosas.

Elis morreu dia 19 de janeiro de 1982, às 10 horas da manhã. Às 10 e meia, eu já sabia. Eu era redatora numa agência de publicidade e, naquele tempo, a gente nem tinha computador. Por isso os papéis que passavam pela minha máquina de escrever, naquele dia, saíam todos molhados pelas minhas lágrimas.

Elis era uma pessoa difícil, de temperamento explosivo, às vezes beirando a grosseria. Mas e daí? O que é um temperamento difícil diante da genialidade, da capacidade de cantar e interpretar como mais ninguém?

Ela nasceu em Porto Alegre, em 17 de março de 1945.

Com apenas 11 anos de idade já cantava no “Clube do Guri”, programa da Rádio Farroupilha da sua cidade.

Com 14 anos assinou seu primeiro contrato profissional na Rádio Gaúcha. Com 15, gravou seu primeiro disco: um compacto simples (pra quem não sabe, compacto era um vinil um pouco maiorzinho que um CD e tinha uma música de cada lado). O primeiro LP (vinil grandão, com média de 12 músicas) aconteceu aos 16, em 1961. Chamava-se Viva a Brotolândia e a gravadora Continental queria fazer dela a rival de Celly Campello. Mas a praia da Elis seria bem outra.

Elis tinha 19 anos quando chegou, com seu pai, ao Rio de Janeiro, disposta a tentar uma carreira nacional.

Um contrato com a TV Rio a colocou no programa Noites de Gala, que tinha outros estreantes, Simonal e Jorge Benjor, e o consagrado Trio Iraquitan. Cantava também no badalado “Beco Das Garrafas”.

Em abril de 1965, ela encantou o Brasil, ao vencer o Primeiro Festival de Música Brasileira da TV Record cantando “Arrastão” de Edu Lobo e Vinícius de Moraes.

Daí para frente, só sucesso. Logo surgiu a parceria com Jair Rodrigues e os dois comandaram um programa de TV que fez história: “O Fino da Bossa”.

Vieram os discos, vieram os festivais, vieram as apresentações internacionais, sucesso na França e em Portugal.

Elis virou a cantora número 1 do Brasil.

Nas gravadoras, impunha, podia impor, pois vendia muito. E, se impondo, lançou novatos que, sem ela, talvez não tivessem grande chance.

Ivan Lins. Milton Nascimento. Chico Buarque. Gilberto Gil. Caetano Veloso. Todos tiveram interpretações inesquecíveis na voz de Elis.

Ela se casou, no fim dos anos 60, com Ronaldo Bôscoli e com ele teve seu primeiro filho: João Marcelo Boscôli, hoje diretor da produtora Trama.

Nos palcos, teve outros parceiros marcantes, além de Jair Rodrigues. Brilhou ao lado de Miéle. E, na França, no festival de Montreux, viveu um dos melhores momentos de sua vida profissional, com o genial Hermeto Paschoal.

Com Tom Jobim, em 1974, nos Estados Unidos, gravou um dos melhores discos da MPB, onde está uma faixa tocada até hoje: “Águas de Março”.

Na década de 70, gravou todos os compositores importantes da música brasileira.

Antológico também é o programa “Ensaio” que ela gravou para a TV Cultura em 1973, acompanhada, ao piano, por César Camargo Mariano, que seria, mais tarde, o seu segundo marido. Com César, Elis teve dois filhos. Ambos, hoje, cantores: Pedro Mariano e Maria Rita.

Antológicos também os seus dois penúltimos shows: Falso Brilhante e Saudades do Brasil.

A vida de Elis, ao lado de César e dos filhos, em sua casa em São Paulo, no bairro da Cantareira, parece ter sido a sua fase mais feliz. Pelo menos ela deixou transparecer isso em sua entrevista à Marília Gabriela, no programa TV Mulher, da Rede Globo, programa de estréia em 1980, quando disse que a última coisa que queria era sair daquela casa.

Dois anos depois, morando num apartamento, separada de César, namorando um advogado, Elis morreu. Supostamente de uma overdose de cocaína, ela, que, no meio artístico, era conhecida por ser “careta” (gíria que classificava quem não usava drogas).

Foi velada no Teatro Bandeirantes e enterrada com uma camiseta da bandeira brasileira onde, no lugar de Ordem e Progresso, estava escrito seu nome. Uma multidão a acompanhou. Uma multidão e as minhas lágrimas. As mesmas que, neste momento, 28 anos depois de sua morte, ainda inundam meus olhos, quando falo nela.

A música brasileira nunca mais foi a mesma depois da morte de Elis. Falta, até hoje, quem se disponha a lutar pelos novos compositores, como ela lutou. Falta, até hoje, quem se disponha a sentir a riqueza da nossa música como ela sentiu. E falta a sua maravilhosa interpretação.

Saudades de Elis. Sempre.

13 de janeiro

2003, morreu Marisa Raja Gabaglia

 

Ela começou sua carreira como repórter, mas virou atriz de novela. Trabalhou quase duas décadas na Rede Globo, mas ficou realmente nacionalmente conhecida quando foi jurada no programa do então famosíssimo Flavio Cavalcanti, na TV Tupi.

Suas opiniões eram sempre polêmicas, ousadas e corajosas.

Mas, quando se tratava de luta política das mulheres, ela era apenas mais uma reacionária quadrada.

Jogou tudo pro alto, carreira, emprego e fama, para viver um amor com um badalado cirurgião plástico que frequentava a alta sociedade do Rio mas acabou sendo preso e condenado a mais de 20 anos por diversos crimes.

Marisa Raja Gabaglia nasceu no Rio de Janeiro em 1942.

Foi repórter e colunista dos jornais Última Hora e Diário de São Paulo e foi para a TV nos anos 1960.

Como atriz, participou de algumas novelas, inclusive do grande sucesso que foi Pigmalião 70, onde Betty Faria e Tônia Carrero eram as estrelas e lançaram um corte de cabelo que virou mania e recebeu o mesmo nome da novela.

Marisa era também escritora e lançou nove livros, um deles de grande sucesso: Milho Para Galinha Mariquinha.

Em 1981 se apaixonou pelo cirurgião plástico Hosmany Ramos, que era um dos assistentes de Ivo Pitanguy, o mais badalado plástico do Brasil, e vivia nas altas rodas da sociedade carioca.

Marisa e Hosmany estavam juntos havia 6 meses quando ele foi preso. As acusações: roubo, assassinato e tráfico de drogas.

Marisa perdeu o emprego por causa da prisão dele. Perdeu também as amigas (que certamente eram “amigas”, ou amigas da onça).

Preso e condenado a mais de 20 anos, Hosmany ficou mais famoso do que antes. Escreveu vários livros na cadeia, alguns publicados também no Exterior. E quando, em 2007, recebeu o indulto de natal convocou a imprensa para dizer que fugiria e não voltaria para a prisão e que queria denunciar as péssimas condições dos presídios. Tem um site na Internet, onde se lança como candidato à Presidência da República  e diz que sua prisão foi uma armação da ditadura militar.

Em 1982  Marisa publicou o livro “Meu Amor Bandido”, sobre seu envolvimento com Hosmany.

Quando a obra da famosa feminista americana Betty Friedan foi lançada no Brasil, a editora convidou Marisa para falar.

Surpreendentemente, ela embarcou no discurso machista de acreditar que as reivindicações de Betty só aconteciam porque ela era feia.

Marisa não era feia e certamente não desconhecia a condição feminina nos anos de 1960 e 1970, quando as mulheres ocidentais apenas começavam a, timidamente, dar seus primeiros passos em direção à liberdade da qual podemos hoje desfrutar. Quando eram consideradas, pela Lei, incapazes e passíveis de tutela, como as crianças e os índios. Quando não tinham direito ao prazer sexual e raras eram aquelas que conquistavam uma carreira e independência econômica.

De opiniões avançadas para o seu tempo mas, mesmo assim, comungando das idéias machistas da nossa sociedade, ela foi, acima de tudo, uma mulher de coragem.

Marisa Raja Gabaglia deixou duas filhas ao morrer de leucemia em 13 de fevereiro de 2003, com apenas 61 anos de idade.

03 de janeiro

1984, morreu Ivete Vargas

 

Em 1950 a lei brasileira ainda considerava a mulher um ser inferior comparada aos selvagens e às crianças (como se selvagens fossem inferiores e as crianças, idiotas).

Mas Ivete Vargas, uma gaúcha arretada, sobrinha neta do ditador Getúlio Vargas, meteu a cara no mundo dos homens e se tornou uma das primeiras parlamentares brasileiras, tendo sido eleita deputada federal por vários mandatos.

Entre outras coisas, quebrou o pau com Leonel Brizola, disputando com ele o comando do PTB, foi cassada pela ditadura militar e – coisa que pouca gente sabe – viveu um caso de amor com Afonso Arinos.

Cândida Ivete Vargas Tatsch nasceu em São Borja, em 17 de julho de 1927, filha de Newton Tatsch e Cândida Vargas Tatsch, que era sobrinha de Getúlio Vargas.

Diferentemente das meninas da sua geração, aos 15 anos não estava pensando apenas em vestidos de baile ou artistas de Hollywood mas escrevendo artigos políticos para o jornal Brasil-Portugal.

Estudou na Universidade Católica, PUC, do Rio de Janeiro e diplomou-se em História, Geografia e Letras Neo Latinas.

Em 3 de outubro de 1950 foi eleita deputada federal, por São Paulo e pelo Partido Trabalhista Brasileiro, o famoso PTB.

Em 1951, seu tio avô, Getúlio Vargas, depois de ter sido ditador, era novamente presidente do Brasil e enfrentava uma oposição brava de gente importante da época, como Carlos Lacerda e Afonso Arinos, que era o líder oposicionista na Câmara.

Ivete tinha 24 anos e estava no seu primeiro mandato como deputada federal. Afonso Arinos era uma velha raposa política, com mais do dobro da idade dela. Mesmo assim, eles viveram um escandaloso caso de amor, com direito a grandes brigas e constantes suspeitas de gravidez, o que deixava Arinos em pânico. (Naquele tempo não havia pílula).

Em 1953, Ivete foi nomeada representante brasileira na ONU e se mudou para Nova Iorque.

Foi embaixadora especial na condecoração do presidente do Líbano e, em 1956, chefiou a delegação de parlamentares brasileiros que visitaram países socialistas.

São Paulo foi responsável por sua reeleição pelo PTB como deputada federal em 1957. O Rio, em 1962, desta vez com o PTB coligado ao partido socialista.

Em 1964 aconteceu o golpe militar que derrubou o então presidente João Goulart e Ivete, que então era presidente do PTB, teve que se filiar ao PMDB (que se chamava MDB), já que a ditadura militar só permitia a existência de dois partidos: o deles e o dos outros. O deles era a Arena (Aliança da Renovação Nacional). O dos outros, MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Ivete foi eleita em 1966 para um novo mandato como deputada federal e, dois anos depois, quando os milicos baixaram o AI5 (Ato Inconstitucional número cinco), cassaram o mandato dela, junto com o mandato de todos aqueles que ousavam incomodar o regime militar.

Esperou quase 10 anos para conseguir começar a reerguer o velho PTB. Mas não era só ela que queria ser a “dona” do antigo partido trabalhista brasileiro. Outra velha raposa política disputava com ela: Leonel Brizola.

Ivete venceu, na Justiça Eleitoral, em 1980, tornando-se presidente do partido, e Brizola fundou então o PDT.

Em 1982 Ivete foi um dos deputados federais mais votados em São Paulo, 276 mil votos, e assumiu a liderança da bancada em Brasília.

Vítima do câncer, Ivete Vargas morreu em 3 de janeiro de 1984, com apenas 56 anos de idade.

16 de dezembro

1973, nasceu a cantora Mariza

(clique na primeira foto para ouvir Mariza)

 

A menina que, aos cinco anos de idade, cantava fado no restaurante da família, em Lisboa, hoje recebe um cachê de 30 mil euros por hora de apresentação.

Morou quase um ano no Brasil e se apaixonou pela nossa música.

Grava com o maestro brasileiro Jacques Morelenbaum (que também faz arranjos para Caetano Veloso) e, na adolescência, cantava jazz, blues e rock, porque achava que o fado era cafona.

Mas antes de completar 30 anos de idade já era considerada a sucessora de Amália Rodrigues, a grande dama do fado.

Mariza Reis Nunes nasceu na cidade de Lourenço Marques, então capital de Moçambique (quando ainda era colônia de Portugal) em 16 de dezembro de 1973, filha de José e Isabel Nunes.

Prematura de apenas seis meses, o próprio pai disse que ela era o bebê mais feio que ela já vira.

Seu pai dirigia uma loja portuguesa de eletrodomésticos em Moçambique quando estourou a revolução da independência, em 1977, e ele teve que fugir para Lisboa, levando a filha pequena e a mulher moçambicana.

Na Mouraria, um bairro típico da capital portuguesa, a família abriu o restaurante Zabala, onde Mariza começou a cantar. Lá, imperava o fado. Assim como na casa da família, onde quase nunca se ligava uma TV e sempre se ouvia música.

Mariza cantou por toda a vida.

Em 1997 se apaixonou pelo filho da dona do bar onde cantava, João Pedro Ruela, e ficou casada com ele até 2008. Mas até hoje ele é o seu empresário.

Foi no Brasil que Mariza fez as pazes com o fado. Veio cantar aqui, em 1996, e acabou ficando por vários meses. Adorava a música brasileira, mas os brasileiros pediam a ela que cantasse fado. E ela cantou.

Hoje, Mariza é considerada a maior cantora de fado do mundo.

08 de dezembro

1913, Casamento do Presidente Marechal Hermes da Fonseca com Nair de Teffé.

Nair de Teffé era caricaturista, num tempo em que as mulheres, em sua maioria, eram apenas donas de casa.

Quando ela se casou com o nosso Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca, tinha 27 anos e ele, 58.

Fazer sucesso, no Brasil e no Exterior, com as suas caricaturas, ainda não era o bastante para ela, que também era pintora, cantora, pianista e atriz de teatro.

No entanto, ela largou tudo para se tornar a Primeira Dama Brasileira. Mas continuou ousando e escandalizando no Palácio do Catete.

Filha dos barões de Teffé, Nair nasceu no Rio de Janeiro em 10 de junho de 1886 e estudou em Paris.

Começou a publicar seus trabalhos no Brasil em 1909, na então famosa revista Fon Fon.

Como seria de se esperar, Nair era amiga de outra mulher que desafiava os costumes da época: Chiquinha Gonzaga. Foram as duas que levaram o violão – instrumento considerado vulgar – para os saraus que promoviam no Palácio do Catete.

Ruy Barbosa, que perdera a eleição presidencial para Hermes, saiu falando horrores dela, que ela estava desrespeitando o protocolo do palácio do governo, que não tinha a compostura necessária para o cargo de primeira dama e por aí afora. Nair não teve dúvidas: publicou uma caricatura ridicularizando o então senador e o intelectual mais badalado do país, o “Águia de Haia”.

Aliás, no colégio de freiras onde ela estudava quando criança, na Bélgica, já tinha feito a mesma coisa. Seu espírito libertário desagradava a madre superiora e Nair, para se vingar de um castigo recebido, desenhou a madre com um quilométrico nariz, que era realmente o que a religiosa tinha de mais feio. Casou furor também quando apareceu numa festa onde estavam os mais importantes políticos, vestindo uma saia em cuja barra estavam desenhadas as caricaturas de todos os Ministros de Estado.

E, ainda, quando já era velhinha e o imposto de renda andava atrás dela, em plena ditadura militar, ela devolveu à receita o formulário, que haviam enviado, em vez de preenchido, desenhado: lá estava a caricatura do então Ministro da Fazenda, Delfim Neto.

Hermes da Fonseca governou o Brasil de 1910 a 1914. Depois disso o casal passou cinco anos na Europa. De volta ao Brasil, o Marechal (como ela sempre o chamara) se envolveu em conspirações militares e acabou passando cinco anos na prisão. Ele morreu em 1923, deixando Nair viúva e com apenas uma herança paterna que não era lá essas coisas e mais meia pensão, já que metade dela era para o filho dele (com a primeira esposa) que tinha problemas mentais.

Mas como ela era mesmo uma mulher à frente do seu tempo, tratou de investir num negócio, abriu um cinema no Rio de Janeiro. Seu sócio era o distribuidor de filmes Luiz Severino. A sociedade durou até 1946 quando Nair decidiu ir morar em Niterói com seus três filhos adotivos e seus animais de estimação.

Dizem que o que restava da herança paterna, ela perdeu nas mesas de jogo.

Em 1959 voltou a desenhar profissionalmente.

Morava numa pequena casa em Niterói, pagando aluguel.

Quase foi despejada nos anos 1970. Foi salva pelo gongo quando morreu o filho do Marechal e ela passou a receber integralmente a pensão.

Nos anos 1960 e 1970 aparecia na TV de vez em quando, era fã da Jovem Guarda, aprovava a mini saia (que causava enormes polêmicas na sociedade) e participava das cerimônias comemorativas do Dia Internacional da Mulher, ao lado de feministas históricas. Enfim, era uma velhinha arretada!

Nair de Teffé morreu no dia em que completava 95 anos de idade, 10 de junho de 1981.

Foi sepultada ao lado do marido, no cemitério de Petrópolis.

03 de dezembro

1931, morreu Francisca Praguer Fróes

 

Nome de rua no Bairro da Barra, em Salvador, ela foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1893.

Foi também jornalista, unindo a informação da saúde feminina e dos direitos da mulher.

Euclides da Cunha, impressionado por sua força e caráter, dedicou a ela um poema.

Francisca oi uma das precursoras da luta sufragista na Bahia e no Brasil. E ainda escrevia poesias!

Francisca Barreto Praguer nasceu em 21 de outubro de 1872, filha de Henrique, imigrante crota de origem judaica e de Francisca Rosa Barreto Praguer, na cidade de Cachoeira que, naquele tempo, tinha uma importante vida cultural.

Aos 16 anos matriculou-se na Faculdade.

Formada, depois de enfrentar preconceitos de colegas e professores que não admitiam mulheres médicas, passou a ter uma grande participação nos debates políticos e médicos, ressaltando a condição feminina.

Em 1899 casou-se com João Américo Garcez Fróes, ex-colega de faculdade, com quem teve dois filhos. Ele vinha de uma tradicional família baiana e ela causou escândalo, defendendo publicamente o divórcio, quando nenhuma outra mulher ousaria.

Foi a primeira mulher em seu estado a dirigir uma clínica obstétrica. E era redatora na Gazeta Médica da Bahia, a mais importante publicação de saúde.

Dona de uma vasta contribuição jornalística, Francisca defendia a abertura de todas as escolas médicas para a inclusão de alunas (que raramente eram aceitas nas faculdades), defendia a educação igualitária para os sexos , o direito ao voto e à propriedade.

Em 1931 tornou-se presidente da União Universitária Feminina, entidade ligada ao movimento criado, em 1922, pela bióloga Bertha Lutz, feminista brasileira pioneira.

E morreu, em 3 de dezembro de 1931, no Rio de Janeiro, onde participava do II Congresso Internacional Feminino.

26 de novembro

1886, nasceu Dra. Ermelinda Vasconcelos

 

O nosso Imperador, Dom Pedro II, havia ajudado a jovem Maria Augusta Estrela a ir para os Estados Unidos estudar Medicina, já que, a partir da formatura da primeira médica, em 1848, só naquele país era possível para uma mulher cursar a faculdade de medicina.

Por isso, em 1888, o Imperador prestigiou – no colégio que hoje leva seu nome, no Rio de Janeiro – a formatura da segunda mulher a conseguir um diploma de médica no Brasil: a gaúcha Ermelinda Vasconcelos.

A família real brasileira (foto) era progressista e tanto D.Pedro como sua esposa Thereza Christina e sua filha, a Princesa Isabel, muitas vezes se colocaram em posições contrárias à discriminação das mulheres.

Mas a conquista do diploma de médica ainda não significava o rompimento do preconceito. Se estudar Medicina para uma mulher era difícil e custoso, pois ela enfrentava barreiras colocadas por professores, colegas e a sociedade em geral, exercer a profissão era outra batalha.

Quando se formou, Ermelinda foi alvo de muitas críticas, inclusive a do historiador e jornalista Silvio Romero (que hoje é nome de praça no bairro do Tatuapé em São Paulo) que publicou uma crônica sobre ela com o título de “Machona” que continha a seguinte frase: "Esteja certa a doutora que os seus pés de machona não pisarão o meu lar".

Ironicamente, alguns anos depois, quando a Dra. Ermelinda já estava à frente de uma grande clínica de obstetrícia, foi ela quem fez, na casa de Silvio Romero, o parto da mulher dele.

Ermelinda Lopes Vasconcellos nasceu em 26 de novembro de 1866 no Rio Grande do Sul e foi para o Rio de Janeiro com a família quando ainda era criança.

Em 1881 começou a trabalhar como professora na mesma escola onde se formara, em Niterói e, apaixonada pela Medicina, comprava todos os livros que podia e os estudava.

Seu pai – que já não gostava de ver a filha trabalhando num século em que mulheres só trabalhavam como domésticas, professoras e operárias e, mesmo assim, só quando não podiam sobreviver sem seu próprio trabalho – não queria nen ouvir falar na filha ingressando numa faculdade. E ainda mais de Medicina, coisa realmente reservada aos homens. Onde já se viu – pensava-se na época – uma mulher manipulando o corpo de alguém?

Mas Ermelinda não era de desistir. Com a ajuda do político gaúcho Lopes Trovão, a quem seu pai admirava e respeitava, acabou conseguindo que o pai a deixasse ir para a faculdade.

Era a segunda mulher a cursar Medicina numa escola brasileira.

No começo, os colegas e professores a discriminavam.

Mas diferentemente da primeira médica que estudara no Brasil, a também gaúcha Rita Lobato, Ermelinda não precisava de proteção para andar nas ruas à caminho da faculdade.

Ao contrário. No final do curso, ao defender brilhantemente a tese “Formas Clínicas da Meningite na Criança”, foi carregada pelas ruas do centro do Rio, cumprimentada por gente importante como Ruy Barbosa e Quintino Bocayúva e até pelo próprio Imperador.

Quintino era o editor chefe do jornal “O Globo” e dedicou a ela uma grande reportagem.

Mas, depois de formada, exatamente como aconteceu com todas as médicas pioneiras (Elizabeth e Emily Blackwell nos EUA e Maria Augusta Estrela e Rita Lobato no Brasil) teve que se especializar no atendimento apenas a mulheres e crianças.

No entanto, Ermelinda Vasconcellos conseguiu mesmo, com o seu trabalho, montar uma clínica obstétrica e trabalhou duramente até a sua morte, em 1952, aos 86 anos de idade.

19 novembro

1988, morreu Christina Onassis

Mãe da mais rica herdeira do mundo, Athina (que se casou em 2005 com o brasileiro Doda Miranda), ela foi também a mais rica herdeira do mundo, no seu tempo, e nasceu em berço de ouro, filha do arquimilionário grego Aristóteles Onassis.

Mas dinheiro nem sempre é garantia de felicidade.

A vida da Christina mais parece uma tragédia grega, com uma história de obesidade, drogas para emagrecer, muita bebida e muita droga ilícita. Pra coroar, casamentos fracassados e toda a família morta antes que ela completasse 25 anos.

Christina morreu com 37 anos de idade. Oficialmente, por causa de um aneurisma. Extra oficialmente, por causa do abuso de drogas. Certamente, por infelicidade.

Christina Onassis nasceu em Nova Iorque no dia 11 de dezembro de 1950, filha de Aristóteles Onassis e da primeira esposa dele, Athina Livanos, com quem o milionário se casara em 1944 e que se divorciou dele em 1959, por não aguentar as seguidas traições do marido.

Numa época em que só mulheres velhas e muito ricas faziam cirurgia plástica, Christina, com apenas 17 anos, já estava modificando o nariz e já sofria por estar muito acima do peso ideal. Mas tomava 30 garrafas de coca cola por dia. (E não existia refrigerante diet...).

Enquanto seu pai mantinha seu famoso caso de amor com Maria Callas, a diva da ópera, para Christina estava tudo bem. Ela se entendia com a cantora famosa. Mas quando Onassis resolveu casar-se com a viúva do presidente dos Estados Unidos, Jackie Kennedy, Christina detestou a idéia. Acreditava que seu pai estava, mais uma vez, magoando a mulher que o amava, exatamente como fizera com sua mãe e estava agora fazendo com Maria Callas.

Jackie foi morar em Atenas e Christina deu um jeito de passar a maior parte do tempo, então, longe da casa do pai.

Aos 20 anos, casou-se com um homem de 48, com quatro filhos, divorciado duas vezes. Os filhos dele eram mais velhos que ela. O casamento durou seis meses.

Christina tinha 23 anos quando seu único irmão e grande companheiro, Alexandre, morreu num acidente de avião, deixando Onassis desesperado. Um ano depois, em 1974, sua mãe, Athina, se suicidou e em março de 1975 morreu seu pai. Assim, aos 24 anos, Christina herdou a maior fortuna do planeta.

Depois da morte do pai e já podre de rica, Cristina casou-se com Alexandre Andreadis, ele também um rico herdeiro na Grécia. O casamento durou pouco.

Seu terceiro marido foi Serguei Kauzov, um russo pobretão e com fama de ser agente da KGB. Menos de um ano depois se separaram e ele levou uma fortuna com o divórcio.

Então, milionária, sozinha, enganada, frustrada e gorda, Christina tentou se matar. Foi salva. Era 1980.

Cinco anos depois ela se casou com Thierry Roussel, o pai da sua famosa filha Athina. Roussel também era rico e sua família, dona de uma das maiores indústrias farmacêuticas do mundo da época. Athina – a quem ela deu o nome da mãe suicida – nasceu depois de uma série de tentativas frustradas de gravidez e com o auxílio das então recentes técnicas da reprodução assistida. A menina tinha seis meses de idade quando Christina descobriu que o marido não precisara de técnicas para ter outro filho, um menino, com a amante. A amante de Roussel era uma modelo sueca e, antes dele se divorciar de Christina, ela teve mais um filho.

Em 1987, depois de apenas dois anos de casamento, Christina e o marido se divorciaram. Ele saiu da história levando 75 milhões de dólares do patrimônio dela.

Alguns meses depois Christina estava de férias na fazenda de amigos, na Argentina e morreu de repente, numa cabine telefônica, em Buenos Aires.

Seu corpo foi enterrado na Grécia, na ilha de Skorpios e nunca a opinião pública soube quais foram exatamente as circunstâncias de sua morte.

O famoso e badalado iate que leva seu nome, a embarcação “Christina”, que foi berço de algumas das mais colunáveis festas e dos mais badalados cruzeiros, tendo à bordo a fina flor do Jet set internacional, palco das cerimônias de casamento de Grace Kelly com o Príncipe de Mônaco, do casamento próprio Onassis com Jackie Kennedy; do encontro histórico entre John Kennedy e Winston Churchill, passou anos enferrujando no porto de Atenas. Hoje, recuperado, pode ser alugado por quem quiser fazer cruzeiros com o conforto de seus 99 metros de comprimento, 18 quartos, biblioteca, heliporto, piscinas, pista de dança e salão de beleza.

Em 1990 o cantor espanhol Joaquin Sabina dedicou à Christina Onassis uma música que chamou de “Pobre Christina”, numa triste e irônica alusão ao destino da mulher que fora a mais rica do mundo.

11 de novembro

1880, morreu Lucretia Mott

 

Imagine, se for capaz, o que era nascer mulher nos anos de 1800.

Nenhum direito, nenhum estudo, se herdasse algum bem este seria automaticamente do homem que se casasse com ela, sem prazer sexual, sem opinião, sem voz, sem nada. Os maridos tinham plenos poderes sobre elas. Quando as esposas incomodavam eles as mandavam para o convento ou para o hospício. E, se alguma delas ousasse pedir a separação judicial, os filhos ficavam com os maridos.

Uma das primeiras mulheres a ousar erguer a voz contra essa humilhante condição feminina foi a americana Lucretia Mott.

Ela falava também contra a escravatura e era tão incisiva que foi apelidada de “o tigre do abolicionismo”.

Aos 47 anos atravessou o Atlântico para participar de uma convenção internacional contra a escravidão, em Londres. Mas foi barrada na porta por ser mulher. Outra americana passou pelo mesmo constrangimento: Elizabeth Stanton. Ficaram amigas.

Lucretia, Elizabeth e Susan B.Anthony foram responsáveis, oito anos depois, pela primeira convenção de mulheres da História: a Sêneca Falls.

Lucretia Coffin Mott nasceu em 3 de janeiro de 1793 em Nantucket, Massachusetts. Sua família era Quaker e ela foi a segunda filha de Thomas Coffin e Anna Folger.

Aos 13 anos foi estudar numa escola onde, mais tarde, se tonaria professora. Foi aí que ela descobriu que os professores homens ganhavam duas vezes mais que as professoras mulheres. Mesmo assim, casou-se com um deles, James Mott, quando tinha apenas 18 anos de idade.

James e Lucretia eram radicalmente contra a escravidão e se recusavam a consumir qualquer produto em cuja produção houvesse mão de obra escrava, como roupas de algodão ou cana de açucar.

Com as companheiras Elizabeth Stanton, Susan B. Anthony e Lucy Stone, Lucretia Mott (as três, no monumento ao lado)passou para a história como pioneira na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres nos Estados Unidos.

Em 1850 Lucretia escreveu “Discursos de Mulher”, uma obra onde ela analisa todas as restrições que a lei de seu país impunha ao sexo feminino e reivindica duramente o direito das mulheres à educação.

Ela se tornou a primeira presidente da Associação Americana pela Igualdade de Direitos, que lutava pelas mulheres e pelos negros.

Lucretia Mott morreu em 11 de novembro de 1880, aos 87 anos de idade.

03 de novembro

1867, morreu Marquesa dos Santos

 

Amante do nosso imperador D.Pedro I, a Marquesa dos Santos , aos 30 anos de idade, pensou que finalmente seria a imperatriz, quando D.Leopoldina, esposa de D.Pedro, morreu.

Mas casamento de nobre é sempre casamento de conveniência e, assim, a corte decidiu que a próxima imperatriz  seria Amélia, uma princesa européia.

A Marquesa dos Santos então deixou a corte e se instalou em São Paulo, sua terra natal, onde seu solar ficou famoso por abrigar artistas e intelectuais, e lá eram promovidos inesquecíveis saraus. A casa existe até hoje e está aberta à visitação pública.

O verdadeiro nome da Marquesa era Domitila de Castro e ela nasceu em São Paulo, capital, em 27 de dezembro de 1797, filha do Visconde João de Castro Canto e Melo e de Escolástica Ribas.

Tinha apenas 16 anos quando foi dada em casamento a Felício Pinto Coelho de Mendonça, com quem teve 3 filhos.

A maternidade no entanto não diminui-lhe em nada a beleza e o marido morria de ciúmes dela e eles viviam brigando por causa dos olhares gulosos que os rapazes viviam dando a ela.

Domitila estava grávida do terceiro filho, em 1819, quando, no auge de uma briga, Felício acabou dando duas facadas na perna dela e fugiu.

Foi por isso que ela foi à corte, para pedir a Dom João VI que lhe concedesse o divórcio e a deixasse ficar com os filhos.  

Dom Pedro a viu na Corte e apaixonou-se instantaneamente. Por isso ela passou a viver no Rio, como amante oficial do imperador. Foi ficando cada vez mais poderosa.

Em 1824 a imperatriz Leopoldina fez dela sua primeira dama de companhia. Era melhor ter a amante do marido debaixo do seu nariz do que longe e com todo aquele poder.

O imperador acabou dando a ela o título de Marquesa e acrescentou “de Santos” para irritar José Bonifácio, que era santista.

Politicamente, Domitila era liberal e foi ela quem influenciou nesse sentido muitas das decisões do Imperador. Ela teve mais cinco filhos com ele, mas um, em 1823, nasceu morto.

A Marquesa de Santos já vivia na corte há oito anos quando a imperatriz morreu e ela, então, sonhou em, finalmente, transformar-se na mulher mais poderosa do Brasil.

Mas a vida foi exatamente na contramão dos seus sonhos. Com a chegada da princesa Amélia, para se casar com D.Pedro, os inimigos da Marquesa conseguiram pressionar o Imperador para livrar-se da amante.

Foi assim que Domitila voltou para sua cidade natal, cheia de dinheiro, mas sem o antigo poder.

Em 1833 ela tornou-se amante de um dos homens mais ricos de São Paulo, Rafael Tobias de Aguiar. Em 1842, casou-se com ele.

Sua casa tornou-se um ponto de encontro de maçons, artistas e intelectuais e ela recuperou grande parte da influência política que tivera na Corte. Ficou conhecida por sai grande generosidade para com os pobres e pela enorme ajuda que dava aos estudantes de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco.

Muitas atrizes brasileiras viveram a Marquesa dos Santos: Em 2009, no teatro, Ana Paula Vieira; Luana Piovani em 2002 na minisérie Quinto dos Infernos; Rejane Santos em 2001 na minisérie Entre o Amor e a Espada; em 1987 pela cantora Marlene na novela Helena; em 1984 por Maitê Proença na minisérie Marquesa de Santos;em 1972 por Glória Menezes no filme Independência ou Morte e em 1917 por Luiza Lambertini no filme O Grito do Ipiranga.

A Marquesa morreu em 3 de novembro de 1867, aos 70 anos de idade e foi sepultada no Cemitério da Consolação, cujo terreno foi doado por ela a São Paulo.

29 de outubro

1905, nasceu Adalgisa Nery

Linda, Poderosa, Moderna e Esquecida.

O Brasil também tem mulheres notáveis e avançadas na sua História. Mas como somos um país sem memória, a enorme contribuição social dessas mulheres vai se perdendo pelo caminho. Adalgisa Nery é um bom exemplo disso.

Ela nasceu no começo do século passado, em 29 de outubro de 1905 mas viveu a liberdade que ainda vão viver as meninas que nasceram em 2005, um século depois dela.

O poeta Carlos Drummond de Andrade a chamava de “a deusa”.

Era famosa, invejada e lutadora.

O também famoso pintor Ismael Nery foi seu primeiro marido e pintou inúmeros retratos dela.

Era cronista, jornalista, poeta e trabalhou na televisão.

Era politicamente de esquerda, do partido socialista. Mas casou-se e viveu 14 anos com o chefe da repressão da Ditadura de Getúlio Vargas.

Aliás, dizem que ela também foi amante do ditador.

Morreu com 74 anos, numa casa de idosos que o apresentador de TV Flávio Cavalcanti pagava para ela.

Adalgisa Maria Feliciana Noem Cancela Ferreira nasceu numa família pobre do Rio de Janeiro. Sua mãe morreu quando ela estava com apenas 8 anos de idade e seu pai a internou num colégio de freiras, onde havia vagas beneficentes.

Adalgisa sentiu então, pela primeira vez, o peso da discriminação. Era uma órfã pobre, estudava por caridade e tanto as colegas como as freiras não deixavam que ela esquecesse disso.

No entanto, como já habitava nela o espírito da justiça social, começou a protestar contra o tratamento discriminatório que recebia e, por isso, foi expulsa da escola.

Seu primeiro amor aconteceu aos 15 anos: apaixonou-se perdidamente por um vizinho. Era Ismael Nery, que seria um dos mais famosos pintores do Brasil e integrante do movimento Modernista de 1922. Ela casou-se com ele em 1921 e começou a frequentar a intelectualidade do Rio de Janeiro. O casal viveu dois anos na Europa e teve 7 filhos, dos quais apenas 2 sobreviveram.

Ismael, embora fosse um gênio das artes plásticas, era um tremendo machista e vivia espancando a esposa. Por isso, foi um alívio para ela a morte dele em 1934.

Viúva antes do 30 anos de idade, com dois filhos, ela foi trabalhar na Caixa Econômica Federal e depois no Conselho do Comércio Exterior, no Itamaraty. Poucas mulheres trabalhavam naquele tempo. Mas Adalgisa não era uma mulher qualquer.

Seu primeiro livro de poesia foi lançado em 1937.

Adalgisa era conhecida no meio intelectual carioca como socialista e surpreendeu todo mundo ao se casar com um legítimo representante da direita, o advogado e jornalista Lourival Fontes, diretor do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – que era o braço repressor da ditadura de Getúlio Vargas, o equivalente ao que foi o DOPS na ditadura militar, especialista em torturar cruelmente qualquer inimigo político.

Lourival virou embaixador e Adalgisa viveu com ele em Nova Iorque, onde ele serviu por dois anos, e no México, em 1945. Nesse país, ela fez o maior sucesso, ficou amiga de Frida Khalo e Diego Rivera, que admiravam o seu talento literário.

De volta ao Brasil, em 1953, Lourival se apaixonou por outra mulher e separou-se de Adalgisa, que ficou arrasada.

Mas já era uma mulher famosa no Brasil e no Exterior, especialmente na França, onde seus livros vendiam muito.

Escrevia crônicas nos jornais do Rio e traduzia obras para a editora José Olympio. Então foi trabalhar com Samuel Weiner, num dos mais importantes jornais da época, a Última Hora.

Seus artigos eram nacionalistas e ela batia de frente com grandes nomes da elite brasileira, inclusive Assis Chateaubriand, o famoso fundador da TV no Brasil e do Museu de Arte de São Paulo, o MASP. Ele a odiava e, certa vez, escreveu sobre ela a chamando de “cinquentona devassa, infiel ao corpo, à alma e à decência conjugal.”

No entanto, ele estava apenas dando voz aos seus preconceitos machistas, já que Adalgisa sempre foi uma mulher sexualmente livre, enquanto ele é quem tinha um comportamento moralmente duvidoso na condução de suas empresas de comunicação.

Adalgisa Nery se tornou uma das mais bem sucedidas escritoras brasileiras quando, em 1959, publicou um romance autobiográfico – A Imaginária – que virou um best seller de primeira. No livro ela escancarava uma questão que ninguém tinha coragem de discutir naquele tempo: a violência doméstica, contando todo o terror que vivera nas mãos de seu primeiro marido, o consagrado Ismael Nery.

Adalgisa foi duas vezes deputada, primeiro pelo Partido Socialista e depois pelo MDB (atual PMDB). Em plena ditadura militar, ela continuava desafiando os costumes conservadores e foi um dos políticos cassados, em 1969, pelo AI-5 (Ato Institucional n.5 do governo militar que acabou de vez com os direitos políticos dos cidadãos brasileiros).

Adalgisa tornou-se uma figura “perigosa” e ninguém queria saber de dar-lhe um emprego. Ela foi ficando deprimida. Foi salva pelo então famoso apresentador de TV Flávio Cavalcanti, que a colocou como jurada em seu programa de calouros.

Flávio, naquela época, tinha a fama de “dedo duro” da Ditadura Militar. No entanto, foi ele quem abrigou inúmeros artistas e intelectuais que se tornaram “malditos” por sua oposição ao regime. Foi ele quem, inclusive, escondeu a musa Leila Diniz, depois da famosa e escandalosa entrevista que ela deu ao “Pasquim”, e a livrou de ser presa.

No meio da década de 1970, Adalgisa foi viver na casa de campo que Flávio tinha em Petrópolis, sozinha e longe da badalação do mundo intelectual que ela sempre frequentara.

Mas ainda assim, nessa época, publicou dois livros de poesia, dois de contos e um romance.

Em 1976, a própria Adalgisa resolveu ir viver numa casa de idosos em Jacarepaguá. Flavio pagava as despesas.

Em 1977 teve um derrame e ficou hemiplégica.

Adalgisa Nery, mulher corajosa, à frente do seu tempo, escritora e jornalista poderosa e invejada morreu, aos 74 anos de idade, em 7 de junho de 1980,na miséria e na solidão. E caiu no esquecimento.

 

Algumas Obras:

Poemas, 1937

O Jardim das Carícias, 1938

A mulher ausente (poemas), 1940

Og (contos), 1943

Ar do deserto (poemas), 1943

Cantos de angústia (poemas), 1948

As fronteiras da quarta dimensão (poemas), 1952

A imaginária (romance), 1959

Mundos oscilantes (poemas) 1962

Retrato sem retoque (crônicas), 1966

22 menos 1 (contos), 1972

Neblina (romance), 1972

Erosão (poemas), 1973

 

Leia:

“Pensamentos Que Reúnem um Tema” e "A gargalhada" - texto extraído do livro "Contos de escritoras brasileiras"

 

17 de outubro

1847, nasceu Chiquinha Gonzaga

Mais inovadora do que muita mulher de hoje, a maestrina Chiquinha Gonzaga foi o músico responsável por incorporar a música popular ao repertório da elite brasileira.

Ela foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e a primeira compositora: Chiquinha compôs mais de duas mil músicas e escreveu setenta e sete peças trilhas para peças de teatro.

Na política, era republicana e abolicionista. Mas não gostou da República e escreveu uma contra o Marechal Floriano Peixoto. Quase foi presa.

Foi fundadora da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), em 27 de setembro de 1917, uma entidade que existe e atua até hoje. (Eu sou sócia...kkkk).

Chiquinha era independente, corajosa, sincera e talentosa. Num tempo em que a maioria absoluta das mulheres não podia ser nada.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847. Era filha de um general do exército – José Basileu Gonzaga – com uma mulher de origem humilde, Rosa Maria de Lima. Seu padrinho de batismo foi o Duque de Caxias e ela teve uma educação primorosa, o que não era muito comum naquele tempo, mesmo entre as moças de classe alta, como era ela.

Com apenas treze anos de idade, Chiquinha casou-se com o oficial da Marinha Mercante Jacinto Ribeiro do Amaral. Tiveram cinco filhos e ela detestava sua vida no navio onde o marido servia, revolta-se contra as ordens dele que não queria que ela se dedicasse à música.

Por tudo isso, Chiquinha resolveu enfrentar a sociedade, que condenava as mulheres descasadas e deixou o marido e quatro filhos, pois só o mais velho – João Gualberto – a acompanhou.

Sobreviveu com professora de piano e apresentando-se em lojas de música,uniu-se aos grupos de choro e, em 1877, emplacou o seu primeiro sucesso: a polca “Atraente”.

Foi para o teatro, tornou-se conhecida do público e todas as suas composições, impressas, viravam sucesso.

Escrevia polcas, valsas, tangos e causou furor e escândalo na imprensa ao compor maxixes, ritmo então proibido pela polícia.

Em 1897 o Brasil inteiro conhecia seu trabalho.

Em 1899 compôs a primeira marcha carnavalesca, cantada até hoje: O Abre Alas.

Tinha 52 anos quando se apaixonou por João Batista Fernandes Lage, com quem viveria 35 anos, até o dia de sua morte. Mas ele tinha apenas 16 e Chiquinha o adotou como filho, o que fez com que duas de suas filhas – Maria do Patrocínio e Alice Maria – mais tarde, movessem um processo contra ela, para destituir João Batista de seu direito à herança.

Desiludida com os rumos do primeiro governo da república, Chiquinha foi para a Europa, onde viveu de 1902 a 1910, fazendo sucesso em Portugal.

De volta ao Brasil, em 1911 viveu o seu maior sucesso no teatro com uma opereta, Forrobodó, que teve mil e quinhentas apresentações.

Em 1934, aos 87 anos, escreveu a partitura da opereta Maria.

A nossa pioneira da música foi homenageada por escolas de samba e foi personagem no cinema e na TV.

Em 1985 ela foi enredo da Mangueira com “Abram Alas que Eu Quero Passar”; em 1997 o enredo da Imperatriz Leopoldinense foi “Eu Sou da Lira Não Posso Negar”.

No mesmo ano, Rosamaria Murtinho viveu o papel de Chiquinha no teatro.

Em 1999, dirigida por Jayme Monjardim, a Rede Globo exibiu a minissérie que levou o nome da compositora que foi vivida na telinha por Regina Duarte, na maturidade e pela filha de Regina, Gabriela, na juventude.

Em 2006, no filme Brasília 18%, de Nelson Pereira de Souza, Bete Mendes fez o papel de Chiquinha e Malu Galli, no filme Xangô de Baker Street.

Chiquinha Gonzaga morreu em 28 de fevereiro de 1935 deixando não apenas o seu legado artístico mas também o exemplo de independência feminina que, no seu tempo, as mulheres estavam longe de conquistar.

12 de outubro

1810, nasceu Nísia Floresta

 

Uma das primeiras vozes brasileiras a reivindicar os direitos das mulheres, Nísia Floresta baseou-se no trabalho da chamada “mãe do feminismo”, a inglesa Mary Wollstonecraft, para escrever o seu primeiro livro, publicado em 1832, e que fala do direito das mulheres ao trabalho e à independência.

Nesta época, nenhuma brasileira ousaria sequer contrariar o marido, quanto mais contestar em público, com fez Nísia, a autoridade dos homens sobre as mulheres.

Em 12 de outubro de 1810 nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, ou Nísia Floresta Brasileira Augusta, no Rio Grande do Norte.

O município onde ela nasceu se chamava Papari e hoje tem o nome dela.

Filha de Dionísio Gonçalves Pinto, um advogado português e de Antônia Clara Freire.

Nísia tinha 13 anos de idade quando se casou com Manuel Seabra de Melo. Mas a garota não gostou da brincadeira e, apenas alguns meses depois do casamento, voltou para a casa de seus pais.

Em 1824 o Rio Grande do Norte estava à beira de uma guerra civil e a família dela resolveu se mudar. Em 4 anos, moraram em vários cidades: Recife, Olinda e Goiânia. Mas o pai de Nísia acabou morrendo assassinado, em 17 de agosto de 1828 e ela foi viver com um estudante de direito, Manuel Augusto de Faria Rocha. Tiveram uma filha em 12 de janeiro de 1830. Essa filha, Lívia Augusta, se transformaria em fiel escudeira da mãe nas viagens que fizeram à Europa e também traduziria suas obras.

Um ano depois do nascimento de Lívia, Nísia começou a escrever para um jornal feminino, o “Espelho das Brasileiras”.

Trinta artigos seus, analisando a condição das mulheres no Brasil e no mundo, foram publicados por este jornal.

Em 1832, com apenas 22 anos de idade, publicou seu primeiro livro: “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”, baseado na obra publicada 40 anos antes por Mary Wollstonecraft, “A Vindication of the Rights of Woman”, mas enfocando os inúmeros preconceitos sofridos pelas brasileiras e adotou o pseudônimo com o qual ficou famosa, Nísia Floresta.

Logo depois da publicação do livro, foi morar em Porto Alegre onde dirigiu um colégio para moças.

Seu segundo filho nasceu em 12 de janeiro de 1833, Augusto Américo e neste mesmo ano, em 29 de agosto, seu companheiro morreu subitamente, aos 25 anos de idade.

Como acontecera na sua juventude, mais uma vez foi a guerra que fez com que Nísia e seus filhos se mudassem para o Rio de Janeiro, em 1837, fugindo da Revolução Farroupilha.

No Rio, Nísia fundou mais um colégio para moças.

Seu primeiro livro estava sendo um sucesso, já estava na terceira edição e ela publicou então aquele que viria a ser o seu livro mais traduzido: “Conselhos à Minha Filha”.

A condição da mulher brasileria e a exploração e exterminação dos nossos indígenas – numa época em que quase ninguém se preocupava com essas questões – foram os temas desenvolvidos por Nísia, que lançou mais quatro livros de 1845 a 1849.

No início de 1850 Nísia, com seus filhos, estava morando na Europa. Vendera as terras que herdara do pai para financiar sua estadia no Velho Mundo e fez amizade com intelectuais importantes, entre eles Victor Hugo, George Sand e Augusto Conte. Conheceu todo o continente euroupeu e também o Oriente. Estudou em Londres, Paris e Roma.

Mas mesmo longe de sua terra continuava a publicar livros e a escrever para os mais importantes jornais brasileiros.

Era abolicionista e lutava contra todos os preconceitos.

Publicou seus livros na França, depois na Itália e na Inglaterra.

Passou quinze anos na Europa e só voltou ao Brasil em 1872.

Seus filhos ficaram lá, ambos já trabalhando.

Nísia ficou mais 3 anos no Brasil, dando conferências, escrevendo e falando contra a escravatura, pelos direitos dos negros e das mulheres.

Depois foi encontrar-se com seus filhos em Lisboa e nunca mais voltou ao Brasil. Continuou a escrever e a ser publicada em diversos países.

Nísia Floresta morreu na França, aos 75 anos de idade, em 24 de abril de 1885 e seus restos mortais so vieram para a sua cidade natal – que já tinha então o seu nome – em 1954.

06 outubro

1917, nasceu Fannie Lou Hamer

 

Se hoje vivemos a era Obama, isso só foi possível graças à militância política de negros corajosos que enfrentaram a violência da discriminação nos Estados Unidos.

 

Fannie Lou Hamer foi uma deles e nasceu no pior lugar para os negros americanos, no Mississipi, onde o preconceito e a intolerância eram maiores do que no resto do país.

 

Ela era neta de escravos e se tornou uma das mais conhecidas militantes na luta pela igualdade racial na América.

 

Fannie Lou Towsend nasceu em Montgomery County, Mississipi, em 6 de outubro de 1917.

 

Tinha 19 irmãos e era a filha caçula.

 

Trabalhava na lavoura desde os 12 anos de idade e, no campo, aos 24 anos, conheceu o motorista de trator Pap Hamer e casou-se com ele.

 

Mas foi só nos anos 1950 que Fannie uniu-se ao movimento afroamericano e sua militância política era cristã. Tinha uma bela voz e cantava no coro da Igreja.

 

Os negros, assim como as mulheres, já tinham direito ao voto no estado do Mississipi. Mas o voto, nos EUA, é facultativo. Então, os negros que se atrevessem a ir às urnas nas eleições passavam a ser perseguidos, perdiam o emprego e não conseguiam mais trabalhar.

 

Era contra essas práticas e outras manifestações do racismo que o reverendo Martin Luther King lutava.

 

No começo dos anos 1960 Fannie foi esterilizada, sem saber, por um médico que participava de um programa governamental destinado a diminuir o número de negros pobres no estado.

 

Fannie foi ainda a primeira pessoa a se apresentar como voluntária quando Martin Luther King se propunha a liderar um grupo de luta pelo direito real de voto para os negros. No dia seguinte, perdeu o emprego e recebeu ameaças de morte da Ku Klux Kan. Mas não desistiu.

 

Foi presa e torturada em 1963, sob uma falsa acusação.

 

Em 1964 tornou-se vice presidente do Partido Democrático da Liberdade do Mississipi, onde negros e brancos, que queriam o fim da discriminação racial tanto fizeram que conseguiram fazer com que o presidente Lyndon Johnson convocasse uma coletiva de imprensa para tentar se opor às acusações de Fannie Hamer.

 

O tiro do presidente saiu pela culatra. As TVs e rádios americanas deram tanto espaço a ela que a fizeram instantaneamente famosa em todo o país.

 

Em 1964 e 1965 ela concorreu às eleições para o Congresso.

 

Em 1968 era a delegada de Mississipi na Convenção do Partido Democrata e falava contra a Guerra do Vietnã. E até o fim de sua vida continuou na luta pela igualdade racial e pela paz.

 

Fannie Lou Hamer morreu de câncer de mama em 14 de março de 1977, com apenas 59 anos de idade.

 

No seu túmulo está escrito: “I am sick and tired of being sick and tired” (estou doente e cansada de estar doente e cansada).

 

29 de setembro

1972, morreu Helenira Resende

 

A notícia da morte de Helenira só chegou à sua família em 1979, quase 7 anos depois que os militares da nossa ditadura descobriram o acampamento dos guerrilheiros do Araguaia.

José Genoíno – que se tornaria famoso no PT – também estava lá mas escapou da morte. Helenira foi primeiro torturada e depois assassinada a golpes de baioneta.

Quando a Rede Globo de Televisão produziu a minissérie “Amazônia” mostrou o personagem que interpretava Chico Mendes dando o nome de Helenira à sua filha, em homenagem à “uma mulher de luta e de fibra”.

Helenira Resende de Souza Nazareth nasceu em Cerqueira César, cidade do interior paulista, em 11 de janeiro de 1944.

Seu pai era médico e ele mesmo fez seu parto.

Helenira foi a mais nova das seis filhas do Dr. Alberto de Assis Nazareth e de Eulália Resende.

Seu pai era famoso na cidade. Na Bahia, onde nascera, antes de conseguir estudar medicina, fora marceneiro e era conhecido na cidade como o Médico dos Pobres. Além disso, editava um jornal onde colocava suas idéias humanistas.

Mas teve que se mudar para a cidade de Assis quando começou a ser perseguido em Cerqueira César, onde fora candidato a vereador pelo Partido Comunista em 1947.

Helenira, como muitos jovens idealistas dos anos 1960, tornou-se líder estudantil e acabou sendo presa por participar de uma passeata de ferroviários.

Mudou-se para São Paulo para cursar a USP. Estava na faculdade quando estourou o golpe militar.

Helenira fazia parte da JUC (Juventude Universitária Católica) e da AP (Ação Popular Católica).

Sua primeira prisão em São Paulo aconteceu em 1967 e sua ficha no DOPS dizia: “ativa fanática em subversão e filha de um ativo comunista”.

Em 1968 aconteceu o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna. Helenira era vice presidente da UNE. A polícia política invadiu o congresso. Prendeu 800 estudantes, inclusive ela. A maioria foi solta alguns dias depois. Helenira foi torturada e jurada de morte e só saiu do Carandiru porque seu advogado conseguiu um habeas corpus alguns dias antes da decretação do AI-5, o que impossibilitou, daí para a frente, esse recurso jurídico.

Quando ela saiu da cadeia, o movimento a colocou, para sua própria segurança, na clandestinidade. Foi viver num “aparelho” (nome dado às residências que escondiam militantes de esquerda que lutavam contra a diradura) em Marabá, no Pará.

Helenira então passou a alfabetizar adultos e participar de treinamentos militares de guerrilha, preparando-se para o Araguaia.

Foi um jornalista da Editora Abril, cuja fonte era José Genoíno, que, em 8 de fevereiro de 1979, contou à família de Helenira que ela havia sido morta pelas forças da repressão, no Araguaia, em 29 de setembro de 1972.

24 de setembro

1862, nasceu Júlia Lopes de Almeida

 

Na época em que ela nasceu, escrever não era coisa para mulher. Como tantas outras atividades, a carreira de escritora era considerada imprópria para as mulheres.

 

Mas, mesmo assim, ela começou profissionalmente na Gazeta de Campinas, com apenas 19 anos e se tornou uma das mais importantes escritoras brasileiras e teve filhos que também seguiram o mesmo caminho.

 

Feminista e abolicionista, Júlia foi uma das colaboradoras da famosa revista “A Mensageira” que reuniu as mulheres brasileiras de vanguarda do fim do século XIX e começo do século XX.

Júlia Valentim da Silveira Lopes nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862, filha do Dr. Valentim José da Silveira Lopes, médico e professor, e de Adelina Pereira Lopes.

Passou a infância e a juventude na cidade de Campinas, no interior do estado de São Paulo e desde muito pequena queria ser escritora. Estreiou escrevendo no jornal em 1881.

Em 28 de novembro de 1887, casou-se, em Lisboa, com o escritor portugues Filinto de Almeida. Ele era editor da revista “A Semana”, no Rio de Janeiro, onde Julia escreveu por muitos anos.

Por mais de três décadas ela escreveu regularmente também para o jornal “O País”, onde começou várias campanhas em defesa dos direitos da mulher.

Júlia Lopes de Almeida publicou mais de 40 livros, romances, contos, literatura infantil, teatro, jornalismo, crônicas e obras didáticas. Foi a primeira brasileira capaz de viver apenas de seus escritos, fato raro até os dias de hoje. Reconhecida também fora do Brasil, recebeu homenagens em Paris, Lisboa e Buenos Aires.

Em 1885 foi morar numa chácara, a Santa Tereza, no Rio de Janeiro, local que se tornou um ponto de encontro de intelectuais e cientistas daquela época.

Em 1919 tornou-se presidente da Legião da Mulher Brasileira.

Ela participou também das reuniões para a criação da Academia Brasileira de Letras, mas não pode tornar-se membro da Academia por ser mulher.

Júlia Lopes de Almeida morreu em 30 de maio de 1934, aos 72 anos de idade. Deixou os filhos Afonso, Albano e Margarida, todos escritores.

 

21 de setembro

1967, nasceu Mafalda Minnozzi

 

Cantora e compositora italiana, Mafalda Minnozzi tem uma estreita relação com o Brasil e com a música brasileira que, segundo ela própria, teve grande influência em seus caminhos profissionais. Mafalda comanda, na TV RAI, na Itália, um programa dominical chamado "Brasil".

Mafalda nasceu em Pávia, no norte da Itália, em 21 de setembro de 1967.

Na adolescência, ouvia de Cole Porter a Elis Regina e muito cedo montou sua própria banda. Aos 20 anos já era considerada “cult” por seus compatriotas, dado o bom gosto de suas preferências musicais. A consagração definitiva veio em 1993, no Festival da Castrocaro Terme.

Estrela da RAI (principal rede de TV italiana).

Mafalda cantou no Brasil, pela primeira vez, em 1996, na casa Paradiso, no Rio de Janeiro, quando descobre o talento de Milton Nascimento, que a deslumbra, e lança seu primeiro CD brasileiro pela Som Livre, com a música Sei Tu, incluída na trilha sonora da novela Anjo de Mim, da rede Globo. Zazá e Andando nas Nuvens são outras duas produções globais que incluíram em sua trilha interpretações de Mafalda Minnozzi.

Na novela “Terra Nostra”. Mafalda foi uma das responsáveis pela elaboração da trilha sonora e o CD vendeu mais de um milhão de cópias. Em 2001, no Teatro Municipal de São Paulo, Mafalda recebe um prêmio como personalidade da comemoração dos 500 anos do Brasil. Volta a colaborar com a produção da Globo na trilha sonora da novela Esperança.

Desde 2004, Mafalda comanda, na RAI, o programa “Brasil”, no ar todos os domingos.

Em 2005, trabalha na trilha do filme “O Casamento de Romeu e Julieta” de Bruno Barreto, com Luana Piovani e Marco Ricca e ainda grava um CD com Martinho da Vila.

Em 2006, está novamente na trilha da novela “Cidadão Brasileiro”, desta vez na Rede Record.

Neste momento, Mafalda está no Brasil e faz show em São Paulo, lançando seu DVD “Live in Italy”.

 

10 de setembro

1797, morreu Mary Wollstonecraft

Ela é a mãe de uma outra Mary, certamente mais conhecida do que ela: Mary Shelley, a autora do inesquecível livro “Frankstein”.

Mary Wollstonecraff porém é considerada, pelas mulheres de vanguarda, uma escritora mais importante do que sua filha, pois é a primeira feminista da história.

Publicada em 1790, sua obra “Reivindicação dos Direitos do Homem” lançou as bases do pensamento feminista e marcou o início da luta das mulheres pela igualdade de direitos entre os sexos. Direitos estes que, no mundo ocidental, duzentos e doze anos depois da morte de Mary Wollstonecraft ainda não estão plenamente garantidos.

Ela nasceu numa família de classe alta, em Londres, a 7 de abril de 1759.

Seu pai era um homem temerário, que gostava de negócios arriscados e acabou ficando pobre. Mas era também violento e espancava a mulher e as filhas.

Era Mary, na família, que tentava proteger as irmãs, Everina e Eliza, da fúria paterna.

Na juventude, Mary trabalhou como dama de companhia de uma senhora de temperamento difícil, Mrs.Dawson, e tinha duas amigas que, segundo ela própria, a ajudaram a formar seus ideais: Fanny Blood e Jane Arden. Juntas, elas frequentavam palestras e conferências e liam muito.

Foi a sua dura experiência com Mrs. Dawson que a inspirou a escrever o livro “Thoughts on the Education of Daughters” (Pensamentos sobre a Educação das Filhas).

Mary deixou o emprego para viver com um homem mais velho e viúvo e em 1780 o deixou também para voltar para casa e cuidar se sua mãe que estava à beira da morte.

Enterrada a mãe, voltou a trabalhar como governanta, desta vez na Irlanda. Novamente, a vivência profissional, que desta vez incluía criança, a fez escrever “Original Stories from Real Life”, cuja primeira edição saiu em 1788.

Mas Mary não era mulher de se acomodar.

Em 1784 abriu uma escola num subúrbio de Londres, com sua irmã Eliza e uma amiga. Acabou ficando próxima de Richard Price, ministro anglicano líder de um grupo chamado “Dissidentes Racionais” que negava alguns dogmas de sua própria religião, como o pecado original e o juízo final e publicara um livro, em 1758, onde pregava que a consciência deveria ser o único juiz. Price era amigo do editor Joseph Johnson que se entusiasmou com as idéias avançadas de Mary e se dispôs a publicar seu primeiro livro.

Assim, em 1786, saiu a primeira obra dela aquela que falava da educação das filhas e analisava as restrições impostas às meninas para mantê-las ignorantes e dependentes, de aparência dócil e espírito conformado.

Revoltada pelas poucas oportunidades que o mercado de trabalho oferecia às mulheres pobres, sempre em funções serviçais, Mary decidiu tentar viver da carreira de escritora em Londres.

Trabalhando como assistente do editor J.Johnson, aprendeu o francês e o alemão, virou tradutora, depois crítica e passou a frequentar a intelectualidade londrina e conheceu gente importantes como Thomas Paine, Rosseau, Voltaire e William Godwin.

Com este último, ela vivia brigando e acabaria, mais tarde, se casando.

Mas, nesta época estava apaixonada por um homem casado: o artista plástico Henri Fuselli. Foi apenas uma aventura.

Sua irmã Eliza estava casada e o marido batia nela. Foi Mary quem a incentivou a se separar numa época em que isso era um verdadeiro escândalo. Eliza teve que se submeter aos trabalhos mais humildes, então, para garantir sua sobrevivência.

Em 1790 Mary lançou o seu “Vindication of the Rights of Men” e ficou instantaneamente famosa. Dois anos depois, publicou “Vindication of the Rights of Woman”.

Estava em Paris, divulgando seus livros e suas idéias sobre os direitos da mulher quando conheceu o americano Gilbert Imlay, por quem se apaixonou. Ela queria casamento. Ele, sexo (acho que já ouvi essa história antes...kkkk...). Em maio de 1794 nasceu a primeira filha de Mary e ela lhe deu o nome de Fanny, em homenagem à sua grande amiga na juventude. Agora eram duas irmãs a escandalizar a sociedade do século XVIII: uma separada e a outra mãe solteira.

Em 1794 publicou “Historical and Moral View of the French Revolution”. França e Inglaterra entraram em guerra. Mary escapou de ser presa porque passava por esposa de Imlay, embora, em Londres, suas irmãs e seus amigos julgassem que ela tivera o mesmo destino de todos os ingleses residentes em Paris: atrás das grades ou guilhotinados.

Com medo, Mary voltou para seu país e Imlay nem sequer se preocupou em escrever para ela.

Em maio de 1795, Mary tentou o suicídio. Depois, viajou com a filha e uma empregada para a Escandinávia, onde Imlay fora fazer negócios. A viagem a inspirou a publicar “Letters Written During a Short Residence in Sweeden, Norwy and Dennamark”, em 1796. Mas sua relação com Imlay estava irremediavelmente acabada.

Desesperada, voltou para Londres e tentou novamente se matar atirando-se no rio Tâmisa. Foi salva antes de se afogar.

Então ela foi retomando suas antigas amizades, conheceu Sarah Siddons, a maior atriz dramática da época e reencontrou William Godwin. Ele havia lido todos os livros de Mary e passara a admirá-la. Apaixonou-se por ela. Casaram-se, mas moravam em casas separadas pois queriam continuar independentes. Ela dizia que o casamento era uma espécie de prostituição legal.

Em 30 de agosto de 1797 Mary teve sua segunda filha: a Mary que se casaria com o grande poeta Shelley e escreveria um dos livros mais lidos e filmados do mundo, Frankstein.

Mary Wollstonecraft, a primeira feminista, morreu vítima do descaso e da ignorância com relação à saúde da mulher. Naquele tempo, nos hospitais, os médicos faziam o exame de toque numa fileira de grávidas e não lavavam as mãos entre um exame e outro. Mary pegou uma infecção e morreu apenas 11 dias depois de dar a luz à sua filha, em 10 de setembro de 1797.

No Brasil a primeira tradução das obras de Mary foi feita pela feminista Nísia Floresta, ainda no final do século XIX.

Nos anos de 1960, quando o feminismo começou a frequentar as universidades, Mary Wollstonecraft foi redescoberta pela intelectualidade e considerada então uma pensadora muito à frente de seu tempo que, 70 anos antes das primeiras manifestações sufragistas, já afirmava que as mulheres têm a mesmíssima capacidade que os homens e que, portanto, devem ter os mesmos direitos.

 

06 de setembro

1966, morreu Margaret Sanger

Até hoje ela é criticada por setores de ultra direita que costumam classificá-la como genocida.

Tudo isso porque ela foi a grande pioneira da luta pelo direito das mulheres à contracepção.

No começo do século passado, em Nova Iorque, ela começou a divulgar os poucos métodos contraceptivos disponíveis.

Foi presa, processada e exilada. Mas acabou vencendo.

Margaret Louise Higgins nasceu em 14 de setembro de 1879, no estado de Nova Iorque, nos EUA.

Era filha de irlandeses e, quando sua mãe morreu, com apenas 50 anos de idade, Margaret, que tinha 11 irmãos, atribuiu a morte da mãe ao excesso de gravidezes e partos a que esta fora submetida.

Naquele tempo, as mulheres tinham como única perspectiva de realização, a constituição da família. É claro que já existiam aquelas que exerciam alguma outra atividade ou profissão e, no começo do século XX, muitas e muitas mulheres se dedicavam à luta sufragista e pela igualdade social entre os sexos. Mas eram todas exceções.

Em 1900, Margaret já era enfermeira. Em 1902, casou-se com William Sanger. Na década de 10, o casal Sanger vivia na cidade de Nova Iorque e freqüentava seus altos círculos intelectuais.

Em 1912 ela começou a escrever para um importante jornal uma coluna intitulada “O que toda mulher deveria saber”, onde falava da necessidade da educação sexual e das práticas (poucas, é verdade) disponíveis para se controlar a natalidade. Ela acreditava que nenhuma mulher poderia ser livre se não controlasse seu próprio corpo. A partir de 1914 iniciou a publicação de um panfleto intitulado “Mulher Rebelde”, onde enfocava temas como a luta pelos direitos femininos e também a contracepção.

Foi perseguida, acusada de divulgar a pornografia, presa e condenada. Teve que se exilar na Inglaterra, para fugir à prisão e passou um longo ano longe do marido e dos filhos.

Ora, o movimento feminista, nessa época, era realmente muito forte na Inglaterra, berço de Mary Wollstonecraft (a mãe da Mary Shelley, autora de Frankstein, e considerada também a mãe do feminismo moderno) e Margaret logo se uniu às militantes inglesas, aprendendo ainda mais com elas.

Quando voltou aos EUA foi imediatamente presa. Mas seus escritos tinham alcançado uma aceitação tão grande entre as mulheres de todo o país, que a própria primeira dama escreveu ao promotor, interferindo em favor de Margaret. Resultado: ela foi absolvida de todas as acusações.

Foi presa outras vezes depois. Em 1916 fundou uma clínica de controle da natalidade.

E, por toda a sua vida, lutou para que as mulheres tivessem o direito de decidir se queriam ou não ter filhos.

Margaret dicorciou-se de William Sanger em 1920 e se casou, dois anos depois, com Noah H. Slee.

Em 1921 ela fundou a Liga Americana de Controle da Natalidade (rebatizada em 1942 como Federação Americana de Planejamento Familiar).

Em 1923 ela teve a sua primeira vitória, quando o Congresso americano aprovou uma lei que autorizava os médicos a informar suas pacientes sobre métodos contraceptivos.

De 1920 a 1930 Margaret viajou pela Europa e pela Ásia, dando palestras defendendo suas idéias.

A pílula anticoncepcional surgiu no começo dos anos 60, quando Margaret já tinha mais de 80 anos de idade. Mas só em 1965 os americanos reconheceram legalmente o direito ao planejamento familiar.

Margaret Sanger morreu em 6 de setembro de 1966, poucos meses depois de ver suas idéias finalmente reconhecidas.

Ela estava com 86 anos de idade.

Se hoje podemos ir tranqüilamente ao ginecologista e escolher um, entre os muitos disponíveis, método contraceptivo; se hoje podemos ser donas de nossos corpos e não precisamos mais, como as nossas mães, recorrer aos abortos clandestinos e cruéis, devemos isso também às mulheres corajosas e idealistas que muito lutaram, como Margaret Sanger.

 

27 de agosto

1934 nasceu Sylvinha Telles

 

Quase ninguém se lembra, mas Sylvinha Telles foi a primeira cantora a embarcar totalmente na onda da Bossa Nova.

 

Gravou mais de 50 músicas de Tom Jobim.

 

Mãe da cantora Claudia Telles e irmã do cantor e poeta  Mário Telles, Sylvinha era um tremendo sucesso quando, aos 32 anos, morreu estupidamente num acidente de carro numa rodovia do estado do Rio de Janeiro, próxima à cidade de Maricá.

 

 

Ela nasceu carioca da gema, em 27 de agosto de 1934.

 

Tinha 20 anos quando começou a cantar profissionalmente.

 

Foi ela a estrela do show com Carlos Lyra onde, pela primeira vez, se falou em “Bossa Nova”. O ano era 1958.

 

Nessa época era namorada de João Gilberto e foi fazer o espetáculo às escondidas dele, que não queria ver a amada no palco (bem ao contrário dos homens de hoje... kkkk...)

 

Seu primeiro LP foi lançado em 1957 (LP = “bolacha” de vinil, pra quem não sabe, pai do CD, chamava-se “long player” e rodava nas antigas vitrolas, em 33 rotações por minuto, tinha 12 músicas de cada lado. O avô do CD era um vinil bem mais duro e quebrável e tinha apenas 1 música de cada lado, rodava em 78 rpm).

 

Mas o seu primeiro mega sucesso veio com o disco Sylvia, de 1959. Em 1961 – época em que isso não era comum – foi gravar nos Estados Unidos.

 

Claudia Telles, a atual cantora, nasceu do casamento de Sylvinha com Candinho, um violonista que gravava com ela.(foto)

 

O casamento acabou quando a filha deles tinha apenas 3 meses de idade.

 

Aloysio de Oliveira, o famoso produtor que tinha sido um dos integrantes do “Bando da Lua”, a banda de Carmen Miranda que fez sucesso com ela nos Estados Unidos, foi o segundo marido de Sylvinha.

 

Completamente engajada no movimento da Bossa Nova, ela foi a primeira a gravar todos os papas desse gênero musical que acabaria por conquistar o mundo: Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Tito Madi, Carlos Lyra...

 

No entanto, afirma Claudia Telles, a participação de sua mãe na Bossa Nova é frequentemente esquecida quando se conta a história da MPB.

 

No auge do sucesso da Bossa Nova, havia uma rivalidade mortal entre a Música Popular Brasileira e a turma da Jovem Guarda, o iê-iê-iê.  A primeira era a predileta dos moços politizados do anos 1960 que acreditavam que a turma do iê-iê-iê fosse um bando de burguesões alienados politicamente.

 

Só alguns anos mais tarde, nomes importantes da bossa nova e da MPB, como Elis Regina, Nara Leão e Maria Bethânia, romperam a briga gravando canções de Roberto e Erasmo Carlos.

 

Mas Sylvinha não tinha preconceitos. Foi a primeira cantora do lado “politizado” a gravar o “alienado” Roberto Carlos.

 

Foi ela também quem recebeu o então desconhecido Caetano Veloso, que vinha para o sul tentar construir uma carreira.

 

Em 1966, Sylvinha e Edu Lobo foram se apresentar na Alemanha e estavam se preparando para voltar aos palcos americanos quando ela morreu (como 11 anos depois morreria Maysa) num acidente de automóvel (ou máquina de moer carne), no dia 17 de dezembro de 1966.

 

 

21 de agosto

1889 nasceu Cora Coralina

 

Como todos os escritores de verdade, Cora Coralina começou a escrever quando ainda criança.

 

No entanto, foi só em 1965, aos 76 anos de idade, que ela publicou seu primeiro livro. E foi somente em 1979, aos 90 anos, que alcançou o reconhecimento da crítica, quando Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta, escreveu a ela: “Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia; seu livro é um encanto, seu lirismo tem a força e a delicadeza das coisas naturais.

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ou Cora Coralina, nasceu em Goiás, na Vila Boa, em 21 de agosto de 1899. Seu pai, Francisco Lins do Guimarães Peixoto, era desembargador, tendo sido nomeado para o cargo pelo nosso Imperador D.Pedro II.

A casa onde nasceu foi construída nos anos 1700 e comprada por sua família no início do século XIX. Ainda está lá e hoje abriga o centro cultural dedicado à memória da poeta.

Cora tinha 14 anos quando publicou seu primeiro conto no Anuário Histórico Geográfico e Descritivo de Goiás: “Tragédia na Roça”. Foi então que começou a assinar com o pseudônimo de Cora Coralina.

Aos 21, Cora se casou com Cantídio Tolentino Barros, um advogado, e foi para São Paulo, tendo morado em algumas cidades do interior e, em 1924, se mudado para a capital.

Foi na cidade de São Paulo que seu marido morreu, deixando Cora com 3 filhos para criar. Naquele tempo, poucas eram as oportunidades de emprego para mulheres e ela resolveu sobreviver primeiro vendendo livros e depois cozinhando,  fazendo linguiças, banha de porco e doces. Foi morar  no interior de São Paulo onde viveu, em várias cidades, até 1956, quando voltou para Goiás.

Mas, durante toda a sua vida, escrevia.

A editora José Olympio publicou seu livro de estréia, em 1965 - Poemas dos Becos de Goiás. Cora tinha 76 anos de idade.  O segundo livro só veio 11 anos depois – Meu Livro de Cordel – e o terceiro em 1983 – Vintém de Cobre.

Foi eleita, neste mesmo ano, pela União Brasileira de Escritores, a Intelectual do Ano e foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Juca Pato.

“Que eu possa dignificar minha condição de mulher – escreveu ela – aceitar suas limitações e me fazer pedra de segurança dos valores que vão desmoronando”.

Cora Coralina morreu, aos 95 anos, em 10 de Abril de 1985. Duas obras póstumas suas foram publicadas.

16 de agosto

1930, nasceu Glauce Rocha

Ela foi uma das mais importantes atrizes brasileiras, mas, desde criança, sonhava em ser médica.

A vida, no entanto, a levou por caminhos bem diferentes.

Glauce Rocha se tornou atriz numa época politicamente difícil do Brasil, em plena ditadura Getúlio Vargas, quando as atrizes eram consideradas, oficialmente, prostitutas e recebiam, dos órgãos do governo, a mesma “carteirinha” de identificação.

Glauce foi uma das primeiras atrizes a lutar pelo reconhecimento da sua profissão.

Glauce Elddé Araújo Rocha nasceu em 16 de agosto de 1930, na cidade de Campo Grande, filha de Leopoldino de Araújo Rocha, migrante alogoano e soldado do exército, e de Edelweiss Ilgenfritz Rocha, gaúcha criada em Campo Grande; era a caçula de quatro irmãos.

O pai de Glauce morreu assassinado quando ela tinha apenas 5 anos de idade. Mas por toda a vida ela pode se lembrar, com detalhes, desse acontecimento.

Glauce era estudiosa e sempre se saiu bem na escola. Adolescente, foi mandada para Minas, num internato católico, dirigido por freiras. Com 17 anos voltou para Campo Grande para continuar seus estudos.

Com 19, foi morar com os avós, em Porto Alegre, para se preparar para o concorrido vestibular de Medicina. Lá, foi colega de classe do futuro ator Walmor Chagas. Depois, foi para o Rio para fazer o exame para a faculdade. Não passou. Morava num pensionato e aceitou o convite de uma amiga para ir a um curso de línguas. No mesmo prédio, funcionava o Curso Prévio de Teatro.

De repente, Glauce abandonou o cursinho pré vestibular, esqueceu a Medicina e se apaixonou pela arte de interpretar. Matriculou-se no Conservatório Nacional de Teatro.

Começou a carreira em 1950, fazendo peças infantis.

Em 1952, estava na Companhia Alda Garrido e, ainda nesse ano, alcançou sucesso de crítica e de público.

Foi para a TV e para o cinema.

E se tornou conhecida, no meio artístico, pela incrível capacidade de trabalho. O dia inteiro na TV, à noite no teatro e ainda conseguia tempo para fazer cinema, lutar politicamente pela regulamentação da carreira de ator e contra a censura (que tanto na ditadura de Getúlio quanto na ditadura militar campeava solta nos meios de comunicação do país).

Acontece que para fazer tudo isso, Glauce tomava remédios para dormir e remédios para acordar. Fumava muitíssimo. Abusava da saúde.

Também não era feliz no amor. Casou-se com o ator Milton Costa em 1952 e logo se separou dela. Teve vários companheiros e nenhuma relação ia para a frente. Seu último companheiro foi o médico psiquiatra Joaquim da Silva Nunes.

Muito presente no Cinema Novo, Glauce teve vários problemas com a censura. Participou de clássicos como Rio 40º, de Nelson Pereira dos Santos, em 1955 e Terra em Transe, de Glauber Rocha, em 1967.

Em 1970, sua mãe morreu de infarte.

E Glauce que, como a mãe, era uma fumante inveterada, começou a colecionar artigos sobre as doenças do coração. Seus camarins viviam cheios de cinzeiros e de caixinhas de remédios. E ela continuava trabalhando demais.

Estava fazendo a novela da TV Tupi, o Hospital, quando, em 12 de outubro de 1971, um ano depois da morte de sua mãe, o infarte a pegou. Morreu na Unidade Cardiológica da Alameda Santos, em São Paulo, às cinco da tarde. Tinha apenas 41 anos, era famosa, mas pobre.

 Filmes de Glauce Rocha:

1972 - Cassy Jones, o magnífico sedutor

1971 - Um homem sem importância

1970 - Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa

1970 - O dia marcado

1970 - Navalha na carne

1969 - Incrível, fantástico, extraordinário

1969 - Tempo de violência

1968 - Na mira do assassino

1968 - Jardim de guerra

1967 - Terra em transe

1966 - Engraçadinha depois dos trinta

1966 - A derrota

1965 - O beijo

1963 - Marafa (inacabado)

1962 - Quatro mulheres para um herói

1962 - Sol sobre a lama

1962 - Cinco vezes favela

1962 - Os cafajestes

1961 - Mulheres e milhões

1959 - Helena (inacabado)

1959 - Um caso de polícia

1958 - Traficantes do crime

1957 - O noivo da girafa

1955 - Rio, 40 graus

1954 - Rua sem sol

1952 - Aventura no Rio

1952 - Com o diabo no corpo

1950 - Aviso aos navegantes

 

11 de agosto

1253, morreu Santa Clara, Padroeira da TV.

Ela é a imagem feminina dos franciscanos. É o ideal de São Francisco na versão das mulheres. Em 14 de fevereiro de 1958, o papa Pio XII a transformou na santa padroeira da televisão, já que, um ano antes de morrer, ela, impossibilitada de sair do leito, teve a visão de tudo o que estava acontecendo numa missa celebrada em seu convento e narrou as imagens, com precisão, para as Clarissas, suas discípulas.

Nascida em berço de ouro, a menina Clara deixou para trás todas as riquezas para ir viver literalmente numa pobreza franciscana, unindo-se ao grupo de São Francisco de Assis.

Em sua busca de um maior sentido para a vida, renunciou até aos seus longos cabelos louros, que foram cortados pelo próprio Francisco.

Caetano Veloso fez uma música para ela. Diz “Santa Clara, clareai”.

Ela nasceu Chiara d’Offreducci.

Sua mãe, Hortolona teve uma gravidez muito complicada. Passou mal, quase perdeu o bebê, mas pediu aos céus que lhe fosse dada a graça de conceber aquele filho, que, ela sabia, com aquela intuição que só foi concedida ao sexo feminino, seria alguém muito especial e que faria diferença no mundo.

Em meio a muitas dores, finalmente, em 11 de julho de 1193, Hortolona deu à luz. Era uma menina, de límpidos olhos, e a mãe, agradeceu ao Universo, por ser ela, de gestação tão difícil, perfeita e sadia. Aquilo era uma benção! Era realmente a luz. E, por tudo isso, por sentir-se, naquele momento, agraciada e iluminada, Hortolona resolveu dar à filha o nome de Clara, para que esta viesse também a iluminar o mundo.

Clara foi criada como todas as meninas muito ricas de seu tempo. Mas, à medida que crescia, perguntava-se por que todas as meninas do mundo não tinham a mesma sorte que ela. E, por sorte, ela compreendia o grande amor que sentia em sua família, a fartura de sua mesa, a saúde, a vitalidade de seu corpo e sua beleza extrema, abençoada pelos vastos cabelos louríssimos e aqueles olhos azuis.

A medida que ia crescendo, a menina se perguntava qual seria a razão de todas as pessoas, no mundo, não desfrutarem de tudo aquilo que ela própria desfrutava. Perguntava-se também, frequentemente, sobre os muitos mistérios da vida. O que, afinal, estariam os seres humanos, as flores, os bichos e as plantas a fazer sobre a face da terra? Que mistério era aquele de, de repente, nascer e ter consciência (teriam as árvores e os bichos, consciência também?) e, também de repente, morrer? Morrer e acabar? Ou haveria alguma espécie de vida depois da morte?

Já adolescente, viu sua família animada, pensando num bom casamento para ela. Um rapaz de sua classe social, com quem ela pudesse ter lindos filhos e seguir assim o curso de prosperidade e nobreza de sua própria estirpe. Mas Clara estava mais interessada nos mistérios da vida. Ouvira falar de um grupo de pessoas que, renunciando às riquezas mundanas, dedicava suas vidas à meditação, à discussão dos mistérios, ao trabalho social e ao cuidado dos animais e das plantas. O líder deles se chamava Francisco e era um homem que, cada vez mais, tinha reconhecida publicamente a sua extrema bondade e compreensão. Também se dizia que aquelas pessoas, vivendo na maior simplicidade, traziam no rosto a alegria e nos olhos a benevolência.

Um dia, aos dezoito anos de idade, para desgosto de sua família, Clara fugiu de casa e foi se unir ao grupo de Francisco, na Porciúncula. Cortou seus lindos cabelos louros, abdicou de toda a fartura e de todos os privilégios, aos quais estava acostumada, para dedicar sua vida aos pobres, aos bichos, à reflexão e à meditação que talvez pudessem levá-la a atingir um sentido maior para a vida.

É que ela já compreendera que os seres humanos não são apenas esses indivíduos isolados que o ego nos faz crer. Ela compreendera que aquilo que acontece a um ser humano afeta a todos, que somos um grande corpo, que estamos indissoluvelmente unidos e interdependentes.

Assim, Clara fundou o ramo feminino da Ordem Franciscana, que é também conhecido como Damas Pobres ou Clarissas.

Houve aquele dia em que as irmãs se sua congregação saíram, como sempre, às ruas para pedir donativos para os pobres que iam ao mosteiro. Voltaram desanimadas, porque quase nada haviam conseguido arrecadar. Vendo o desânimo delas, Clara apenas disse: “Confiem em Deus”. Quando as moças voltaram para pegar a sacola onde estavam os poucos donativos que receberam, viram que já não a podiam carregar. Tudo o que estava lá dentro tinha se multiplicado.

Clara foi feliz no grupo de Francisco e lá viveu pelo resto de seus dias. Sua natural sabedoria fez com que ela se tornasse a líder feminina do grupo e suas lideradas eram então chamadas de clarissas.

Houve uma ocasião em que um bando de malfeitores sarracenos tentou atacar a sede do grupo. Clara, numa súbita inspiração, saiu  à rua, onde os bandidos atacavam, carregando uma linda taça dourada que era usada em celebrações. O sol, como seu aliado, mandou seus raios diretamente para a taça e o reflexo foi tão forte, criando uma luz tão incrível, que os homens recuaram apavorados e fugiram.

Muitos anos depois, quando estava para morrer, impossibilitada de sair de seu leito, Clara lamentava não poder estar presente a um importante ritual que seu grupo celebrava. Mas, de repente, começou a ver, com absoluta clareza, tudo o que acontecia naquele momento no ritual. Narrou tudo às clarissas que a acompanhavam e elas, mais tarde, confirmaram que as visões de Clara estavam corretas.

Por isso, Clara tornou-se, em 1958, a padroeira da televisão.

Clara nasceu em 11 de julho de 1193 e morreu em 11 de agosto de 1253.

02 de agosto

1894, nasceu Bertha Lutz

 

Ainda bem que aquele jornal carioca tinha um colunista machão que, em 1918, escreveu um artigo dizendo que as brasileiras não sofreriam nenhuma influência das lutas pelo direito ao voto para as mulheres; lutas que explodiam, então, na Inglaterra.

Ainda bem porque, se não fosse o artigo machista, talvez Bertha Lutz não tivesse mergulhado com tanto ardor na iniciativa de reunir as mulheres brasileiras em movimentos sufragistas nacionais. Foi essa atitude que fez dela a maior líder na luta pelos direitos políticos do sexo feminino no Brasil.

 

Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo, capital, no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista pioneiro em Medicina Tropical, Adolfo Lutz (com ela, na foto).

 

Educada na Europa, Bertha tinha apenas 17 anos quando descobriu os movimentos organizados de mulheres na Inglaterra, as sufragistas pioneiras, lideradas por Emmeline Pankhurst e suas filhas, Sylvia e Cristabel.

 

Berço do feminismo, a Grã Bretanha era o país natal de Mary Woolstonecraft, considerada a primeira feminista da história, nascida no século XVIII e mãe da autora de “Frankstein”, a escritora Mary Shelley.

 

Bertha estudou na Inglaterra e na França, formando-se na Sorbonne em Ciências Naturais.

Só voltou ao Brasil em 1918, prestou concurso para o Museu Nacional e se tornou a segunda mulher a trabalhar como funcionária pública no Brasil.

 

Foi aí que apareceu aquele artigo machista no jornal carioca e o sangue de Bertha ferveu.

 

Em 1919 ela fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, de onde acabaria derivando uma organização poderosa: a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, da qual ela foi presidente e que liderou a campanha sufragista (pelo direito de voto feminino) em nosso país.

 

Mas Bertha foi mais longe. Em 1922 foi eleita vice presidente da Sociedade Panamericana da Liga Internacional das Mulheres Eleitoras, em Assembléia realizada nos Estados Unidos.

 

O escritor Lima Barreto, machista como a maioria dos homens daquela época, ficou incomodado com a projeção de Bertha na imprensa e também na ciência. Em 6 de maio de 1922 escreveu na então badalada revista Careta: “Agora temos a faladora Bertha Lutz que foi aos Estados Unidos, em Baltimore, creio, dizer que as moças do Brasil se dedicam a ensinar crianças. Grande novidade! Uma coisa, porém, não disse e é que as moças do Brasil se fizeram arautos do feminismo burocrático. O que elas querem é ser escriturárias, mediante concursos duvidosos, em que entram influências ‘brunísticas’, para que tirem os primeiros lugares. Isto é o feminismo à Bruno Lobo, quando não é à Carlos Chagas”

 

Mas Bertha continuava com sua brilhante atuação política em prol das mulheres. Em 1929 participou da criação da União Universitária Feminina.

 

Foi só dez anos depois do ingresso das brasileiras na Liga Internacional das Mulheres Eleitoras que um decreto lei do presidente Getúlio Vargas estabeleceu o direito das mulheres de votarem e serem votadas.

 

Bertha foi eleita suplente na Câmara Federal e, em julho de 1936, assumiu a cadeira de deputada, com a morte do titular, Cândido Pereira.

 

Como deputada, ela propunha mudanças na legislação do trabalho da mulher e do menor, licença maternidade (que só conquistamos nos anos 1990), redução da jornada de trabalho (que era de 13 horas) e – algo que quase um século depois ainda não temos – igualdade salarial.

 

Mas a alegria durou pouco. Em novembro de 1937 o presidente Getúlio Vargas se tornou ditador e fechou o congresso. Bertha perdeu o mandato mas continuou em seu trabalho público como chefe do setor de botânica do Museu Nacional, cargo que ocupou até sua aposentadoria em 1964.

 

“As pessoas respeitavam Bertha Lutz pelo que ela era dentro e fora do Museu Nacional. Ninguém mexia com a Dra. Bertha Lutz”, disse certa vez Esmerladino de Souza, que trabalhou como assistente dela.

 

Atuante na política e na ciência, Bertha realizou inúmeras descobertas na área de zoologia e botânica, além de preservar a herança do trabalho realizado por seu pai, brilhante cientista como a filha.

 

A ONU estabeleceu o ano de 1975 como Ano Internacional da Mulher e Bertha, a convite do governo brasileiro, integrou a delegação do nosso país no I Congresso Internacional da Mulher, que aconteceu na cidade do México e reuniu as mais importantes lideranças femininas do planeta. Tinha 81 anos e este foi seu último ato público em defesa dos direitos das mulheres.

 

Bertha Lutz morreu no ano seguinte, 1976, em 16 de setembro.

 

27 de Julho

1792, nasceu Maria Quitéria

 

Como é que podia ser uma coisa dessas? Todo mundo, na Bahia, lutando ferozmente para expulsar os portugueses e tornar o Brasil um país independente e ela não? Ela também queria entrar na briga. Mas, naquele tempo de 1821, mulher era proibida de tanta coisa, tanta coisa... Imagine se ia poder lutar! Nem pensar!

 

Maria Quitéria não era uma mocinha tola, conformada. Um dia, olhando o uniforme militar do cunhado, teve uma idéia.

Roubou a farda, vestiu-se de homem e se mandou para o campo de batalha, onde se apresentou não só com a roupa, mas também com o nome e a patente do cunhado: José Cordeiro de Medeiros.

 

Maria Quitéria de Jesus nasceu no dia 27 de julho de 1792 no Arraial de São José das Itaporocas na comarca de Rosário do Porto de Cachoeira, atual município de Feira de Santana, na Bahia.

 

Era a filha mais velha de Gonçalo Alves de Almeida e Quitéria Maria de Jesus, por isso, quando sua mãe morreu, em 1803, coube a ela, com apenas 11 anos de idade, toda a responsabilidade do trabalho doméstico.

 

Gonçalo casou-se de novo e logo essa nova esposa morreu.

Ele então partiu para o terceiro casamento, desta vez com Maria Rosa Brito, com quem teve mais três filhos. Mas esta nova madastra não gostava nem um pouco da independência de Maria Quitéria que estudava, sabia usar armas de fogo, montava como o melhor cavaleiro e caçava como o melhor caçador.

 

Maria Quitéria estava noiva no ano de 1821 e a Bahia começava a se mobilizar pela independência do Brasil.

Quando a vila de Cachoeiro resolveu apoiar a regência de D.Pedro I, um navio português que estava na costa baiana abriu fogo contra a cidade. E começou a briga entre os baianos e os portugueses, que só terminaria em 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva dos portugueses.(Por isso, na Bahia, a comemoração da Independência acontece em 2 de julho e não em 7 de setembro, como no resto do país).

 

Quando a luta pela independência começou, Maria Quitéria não se conformava em ficar de fora. Fugiu de casa, alistou-se como se fosse homem, mas a brincadeira durou apenas quinze dias. Seu pai saiu à procura dela e acabou descobrindo a travessura.

 

No entanto no batalhão onde ela se alistara estava o avô do poeta Castro Alves, o Major José Antonio da Silva Castro. Impressionado com a determinação de Maria Quitéria permitiu que ela continuasse a lutar e até inventou um uniforme para ela, com uma saia escocesa.

 

E a moça foi um sucesso. Era boa de briga e competente com as armas. Recebeu homenagens do exército e quando, em 2 de julho de 1823, o Exército Libertador fez sua entrada triunfal na cidade de Salvador, Quitéria foi ovacionada pelo povo.

 

O Imperador a condecorou com a insígnia dos Cavaleiros da Imperial Ordem do Cruzeiro.

 

A família a recebeu como heroína e ela acabou se casando com Gabriel Pereira de Brito, e teve a única filha, Luísa Maria da Conceição.

 

Porém, como a memória é curta, Maria Quitéria – que tinha 31 anos quando se tornou heroína, morreu esquecida, aos 61, em 21 de agosto de 1853. Estava viúva e quase cega.

 

Fernando Henrique Cardoso, quando presidente do Brasil, foi quem lembrou-se dela e, em 1996, a fez Patrono do Quadro Complementar do Exército Brasileiro.

 

19 de julho

1967, morreu Luz Del Fuego

 

Ela foi o delírio erótico de toda uma geração de brasileiros. Vedete do teatro de revista, dançava nua, com cobras enroladas no corpo e inventou o biquini muito antes de alguém pensar em diminuir o grande traje de banho que as mulheres usavam naquele tempo.

Era tão ousada que sua família, escandalizada, costumava interná-la em hospícios, achando que ela não podia ser normal. A sociedade também pensava parecido pois várias vezes a colocaram atrás das grades das cadeias.

Luz Del Fuego criou a primeira colônia de nudistas do Brasil, numa ilha. E a sua ilha ficou mundialmente famosa. Astros de Hollywood se hospedaram lá mas foi também lá, na sua ilha, que Luz morreu assassinada.

Dora Vivacqua, o verdadeiro nome dela, nasceu em 21 de fevereiro de 1917 na mesma cidade que, mais tarde, nos daria Roberto Carlos: Cachoeiro do Itapemerin, no estado do Espírito Santo. Era a décima de um time de 15 filhos do casal Etelvina e Antonio.

Ainda criança, mudou-se com a família para Belo Horizonte.

Também era criança quando se deixou fascinar pelas serpentes e, adolescente, aboliu o sutiã, muito antes das feministas queimarem os seus em praça pública. Nesta época, ao ir de férias às praias do seu estado natal, Dora amarrava um lenço de cabeça sobre os seios, vestia uma calcinha e desfilava assim pelas areias, muito antes da invenção do biquini e quando as mulheres usavam maiôs que cobriam os ombros e iam até os joelhos.

É claro que Espírito Santo e Minhas Gerais eram pouco para a ambição da menina Dora. O que ela queria mesmo era ir viver no Rio ou em São Paulo. Conseguiu.

Quando seu pai foi assassinado e ela foi viver no Rio com um de seus irmãos mais velhos, Atílio.

Aos 19 anos se apaixonou por um jovem de família tradicional do Rio de Janeiro, José Mariano Carneiro da Cunha Neto.

Atílio, seu irmão, tentando separar o casal (porque sabia que ia dor rolo) mandou Dora de volta para Belo Horizonte.

Ela então passou a morar com Angélica, uma de suas irmãs. Também não deu certo porque, um dia, Angélica flagrou o marido na cama, com Dora.

O marido de Angélica era um empresário de renome em Minas Gerais, era um ótimo casamento. Angélica e a família preferiram colocar a culpa em Dora e a internaram num hospício onde ela passou dois meses e perdeu dez quilos.

Achiles, um de seus irmãos, tirou-a do sanatório e a levou para viver na fazenda do outro irmão, Achilau.

Também não deu certo porque Dora resolveu desfilar pela propriedade vestida de Eva, usando apenas folhas de parreira. O irmão chiou e ela jogou um vaso na cabeça dele.

Resultado? Hospício de novo, mas, agora, no Rio de Janeiro.

Mais uma vez, foi salva por uma irmã, Mariquinhas, que a tirou de lá e a levou para morar com ela, em Cachoeiro.

Ela tinha apenas 20 anos quando fugiu para o Rio e foi viver com José Mariano, sem querer se casar com ele. Brigavam muito porque Dora não queria saber de monotonia. Quis ser paraquedista. Ele a impediu. Então ela foi estudar dança na academia de Eros Volúsia, a bailarina brasileira de sucesso internacional, filha da poeta Gilka Machado.

Foi assim que, em 1944, Dora virou Luz Divina, abalando o Rio de Janeiro com um temporada de apresentações no Circo Pavilhão Azul, anunciada como a mais corajosa dançarina, já que ia para o palco com Cornélio e Castorina, um casal de jibóias de estimação que se enrolavam pelo corpo de Dora.

E ela começou a ficar famosa. Virou Luz del Fuego em 1947, por sugestão do palhaço Cascudo.

Então, no alvorecer dos anos 1950, Luz era famosa, desejada e tinha conquistado o que a maioria absoluta das mulheres de seu tempo não tinha: a independência.

Estaria tudo maravilhoso, se não fosse... a família!

Seu irmão Atílio agora era senador. Como explicar a irmã vedete? Naquele tempo, vedete e prostituta significavam rigorosamente a mesma coisa para a opinião pública preconceituosa.

Luz escreveu um livro de memórias. Atílio quase enlouqueceu. Conseguiu comprar metade da edição e botou fogo nos livros.

Nessa época, Luz começou a falar em nudismo. Ia com amigos para as praias desertas do Rio e todos tiravam a roupa. Foram todos presos.

Aí, ela escreveu outro livro, “A Verdade Nua”. Desta vez a família nem precisou tomar providências, porque o livro foi imediatamente censurado e recolhido pela polícia.

Só que ela não desistia. Mandou fazer uma outra edição e vendia pelo correio. Ganhou um dinheirão e conseguiu arrendar uma pequena ilha, onde fundou sua primeira colônia de nudismo.

Durante toda a década de 1950 Luz excursionou Brasil afora, em turnês cujos cachês serviam também para as muitas doações que ela fazia a instituições beneficentes.

Mas o problema era mesmo a família. Irmão senador, cunhado empresário famoso em Minas, outros irmãos donos de estabelecimentos comerciais bem sucedidos.

Cada vez que uma revista publicava reportagens e fotos de Luz o irmão senador saía feito louco tentando comprar todas as revistas de todas as bancas de jornais do país.

Mesmo assim, ele perdeu as eleições para governador do Espírito Santo porque os outros candidatos viviam dizendo que ele tinha uma “irmã demoníaca” que dançava nua com cobras enroladas no corpo.

Aí então ela criou o PNB, Partido Naturalista Brasileiro. Seu irmão senador conseguiu bloquear o registro.

Namorando nada mais nada menos que o Ministro da Marinha, Luz conseguiu uma ilha maior para instalar sua colônia nudista.

Foi assim que nasceu a “Ilha do Sol”, que se tornou a grande sensação do turismo carioca. Astros de Hollywood frequentavam a ilha. Seriam hoje os Brad Pitt e Angelina Jolie da vida. Eram Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Power, Errol Flynn, Glenn Ford, Cesar Romero, Brigitte Bardot... e outros. Jane Mansfield foi até lá com o marido mas não deixaram que ela entrasse porque ela se recusava a ficar nua.  Steve Mac Queen teve um ataque histérico ao acordar com as cobras de Luz enfiadas em sua cama.

Era o auge do sucesso.

Mas como tudo que sobe um dia desce... a fama de Luz, a beleza, o exotismo, tudo isso foi saindo da moda, principalmente com a chegada dos revolucionários anos sessenta com seus jovens rebeldes para quem Luz era apenas um exemplo da exploração do sexo feminino.

A Ilha do Sol já não era frequentada por astros de cinema, mas por gente comum, entre eles os irmãos Alfredo Dias e Mozart Gaguinho, os assassinos dela.

Quem descobriu o crime, ocorrido em 19 de julho de 1967, foram dois jornalistas, um de O Dia e outro da Última Hora, respectivamente Mauro Dias e Mauro Costa.

Alfredo foi preso e confessou. Mas Gaguinho resistiu à prisão e, trocando tiros com a polícia, matou um cabo. Só então as autoridades deram importância ao caso. A morte de Luz del Fuego não era nada demais, mas a de um  cabo, em plena ditadura militar, era coisa séria. Gaguinho foi para o manicômio judiciário. Seu irmão cúmplice, Alfredo, se tornou evangélico na prisão e acabou escrevendo um livro, onde narra o crime em detalhes, chamado “A Tragédia da Ilha do Sol”.

Luz tinha apenas 50 anos quando morreu.

14 de julho

1972, morreu Leila Diniz

 

Ela sacudiu o país. Os homens a desejavam e as mulheres a invejavam. A esquerda a taxava de alienada política e a direita achava que ela era comunista.

 

Tudo acabou, porém, quando o avião em que ela voltava da Austrália se esborrachou no chão. Leila tinha apenas 27 anos quando morreu.

 

(foto de Antonio Guerreiro: Lelia e Betty Faria, muito antes de Madona...)

 

Atriz de novelas da Globo, mas fazendo também cinema à sério, Leila Diniz desafiava todos os preconceitos sexuais que, na época em que ela viveu, eram muito maiores do que são hoje, apesar da suposta liberdade dos jovens dos anos 60, cujo lema era “faça amor, não faça guerra”.

 

Ficou famosa, principalmente, por falar tudo o que pensava, sem dar a menor bola para a repressão da ditadura militar brasileira que prendia e exilava todo mundo que ousasse pensar.

 

Leila era tão desbocada quanto Dercy Gonçalves e foi uma entrevista dela ao jornal “O Pasquim” (sucesso absoluto na época, porque ousava enfrentar, com bom humor, a caretice da ditadura) que fez o governo baixar de vez a censura prévia à imprensa. O decreto que instituiu a presença dos censores dentro das redações de jornais, revistas, rádios e TVs, ficou então conhecido como o “Decreto Leila Diniz”.

 

 

Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945, em Niterói. Estudou para ser professora de crianças, cursando um segundo grau que, naquela época, se chamava “Escola Normal” e formava bandos de moças para uma das poucas profissões toleradas para mulheres.

 

Aos 17 anos, porém, Leila se apaixonou por Domingos de Oliveira, um cineasta que pertencia à vanguarda intelectual carioca, e se casou com ele.

 

Três anos depois o casamento acabou mas Leila, que já embarcara de vez na carreira de atriz e fazia teatro, foi convidada para ser a estrela do filme “Todas As Mulheres do Mundo”, cujo diretor era o seu ex-marido.

 

O filme não só fez um tremendo sucesso como se tornou um clássico das telas nacionais. Nele, Leila contracenava com Paulo José, Flavio Migliaccio, Joana Fomm e outros.

 

Do sucesso no cinema para as novelas da Globo foi apenas um passo.

 

Leila fez 14 filmes, 12 novelas de TV, inúmeras peças de teatro e ganhou alguns prêmios internacionais como melhor atriz.

 

Casou-se novamente com outro diretor de cinema, Ruy Guerra, o moçambicano que foi parceiro de Chico Buarque na peça e na trilha musical da peça “Calabar”. Com Ruy, Leila teve sua filha única, Janaína.

 

Em 1969, entrevistada pelos criadores do “O Pasquim”, Tarso de Castro, Jaguar, Sérgio Cabral (o pai do atual governador do Rio de Janeiro) e Millôr Fernandes, criou todo um bafafá no Brasil da ditadura e acabou tendo que ir se esconder para não ser presa (e, naquele tempo, prisão era também sinônimo de tortura).

 

Flávio Cavalcanti, então um famosíssimo apresentador de TV, muito criticado e caluniado, vivia dando abrigo aos artistas endividados ou perseguidos pela ditadura militar. Foi na casa dele que Leila se escondeu.

 

Quando a poeira baixou, Leila voltou aos palcos para estrelar o musical “Tem Banana na Banda” onde os autores (José Wilker, Millor, Luis Carlos Maciel e Oduvaldo Viana Filho) tentavam reerguer o gênero “teatro de revista”, que tivera seu auge no Brasil dos anos 1940 e 50.

 

Virgínia Lane, a vedete que fora a rainha absoluta deste gênero teatral declarou então que Leila era a nova rainha das vedetes.

Não colou. Pegou mais o outro reinado: em 1971, Leila foi

eleita Rainha da Banda de Ipanema.

O reinado não durou até o próximo carnaval.

 

 

Em 14 de julho de 1972 o avião que trazia, entre outros, Leila e o cantor Agostinho dos Santos, de volta da Austrália, explodiu perto de Nova Delhi, na Índia.


 

 

03 de julho

1860, nasceu Charlotte Perkins Gilman

 

Escritora e reformista social, Charlotte Gilman se tornou mais conhecida por seu livro “The Yellow Wallpaper”, que se baseia na doença depressão que a vitimou por toda a vida e suas tentativas de se livrar disso.

 

Foi sufragista, editora e, apesar de dois casamentos, sendo o último de mais de 30 anos de duração, teve um caso homossexual.

 

Sua mãe morrera, com muito sofrimento, de câncer de mama e ela, ao se descobrir portadora da mesma enfermidade,  preferiu a morte.

 

Charlotte Perkins Gilman nasceu em 3 de julho de 1860 em Hartford, Connecticut, EUA, filha de Frederick e Mary Perkins. Tinha um irmão mais velho e duas tias, Catherine e Isabella, que eram sufragistas. Depois dela, nasceram mais duas crianças gêmeas que morreram ainda na infância e sua mãe decidiu que não teria mais filhos. Por isso, seu pai acabou deixando a família e Charlotte, seu irmão e sua mãe passaram a viver de favor na casa de parentes, se tornando muito pobres.

 

Seu primeiro livro foi lançado em 1893, In This World, uma coleção de poemas satíricos com temas feministas.

 

Charlotte estudou desenho por dois anos e se casou com um artista, seu colega, Charles Walter Setson, em 1884 e, com ele, teve uma filha, Katharine. Então começou a sofrer de uma depressão que a acompanharia pelo resto de sua vida e que, inclusive, influenciaria sua obra.

 

Separou-se do marido em 1888 e foi viver na Califórnia com a filha, onde se envolveu com os movimentos sociais. Mais tarde a filha iria morar com o seu ex-marido e com a sua segunda esposa, que era amiga de infância de Charlotte. Sobre esse fato, a própria Charlotte disse que a amiga era uma melhor mãe do que ela, para sua filha.

 

Em 1894, Charlotte se tornou editora da revista The Impress, uma publicação literária semanal da Associação de Mulheres da Imprensa e acabou se envolvendo nos movimentos de mulheres. Em 1897, escreveu “Women and Economics”, que fez muito sucesso.

 

Em São Francisco, conheceu uma repórter socialista, Adeline Knapp e as duas viveram um caso de amor.

 

Mas Charlotte acabou se casando novamente, com um advogado de Nova Iorque que era seu primo, George Houghton Gilman, em 1900 e viveram juntos até a morte dele em 1934.

 

Em junho de 1903 Charlotte foi à Berlin para o Congresso Internacional de Mulheres e viajou pela Inglaterra, Holanda, Alemanha, Áustria e Hungria.

 

De 1909 a 1916 Charlotte manteve seu próprio jornal feminista, The Forerunner, onde publicou a maioria de seus contos, que se tornaram famosos e apreciados. Em 1995, foram reunidos e publicados em um volume.

 

Em 1915, com a feminista Jane Addams, Charlotte fundou o Women’s Peacy Party (Partido Feminino da Paz).

 

Em 1922, lançou His Religion and Hers.

 

Seu marido morreu em 1934 e, pouco depois, ela teve câncer de mama. Sua mãe havia morrido da mesma doença e, sem querer passar pelo mesmo sofrimento, ela se suicidou em 17 de agosto de 1937, aos 77 anos de idade.

 

Sua autobiografia foi publicada após sua morte e um romance de mistério só veio a público em 1997.

 

Por mais de duas décadas, Charlotte ficou esquecida, até que os movimentos de mulheres nos Estados Unidos a redescobriram, nos anos de 1960.

 

 

25 de junho

2008, morreu Sylvinha Araújo

 

Os anos 1960 revelaram inúmeros talentos na música brasileira. Depois da turma da Bossa Nova, veio a turma da chamada MPB (Elis, Caetano, Gal, Bethânia, Gil, Edu Lobo...) que se contrapunha à turma da Jovem Guarda (Roberto, Erasmo, Wanderléa, Ronnie, Sérgio Reis, Golden Boys...).

A TV Excelsior era líder de audiência, seguida de muito perto pela TV Record que, de repente, emplacou o programa Jovem Guarda, com Roberto Carlos no comando.

A Excelsior não ia ficar atrás. Pra concorrer com Roberto e Wanderléa, inventou um programa com um dos grandes nomes da Jovem Guarda: Eduardo Araújo. Mas tinha um problema: Eduardo queria que sua parceira fosse uma cantora que ele conhecera recentemente. A TV já tinha contratado uma cantora para comandar o programa com ele. O que nem Eduardo nem a TV sabiam é que estavam falando da mesma cantora. Era a Sylvinha. Eduardo acabaria se casando com ela e vivendo um dos mais sólidos casamentos da área artística, até a morte dela, em 2008, 39 anos depois.

Silvia Maria Vieira Peixoto Araújo nasceu na cidade de Mariana, Minas Gerais, em 16 de setembro de 1951.

Nelson Motta, até hoje uma das maiores autoridades em crítica musical, passou a chamá-la  de “Janis Joplin Brasileira”, depois de ouvir a versão soul que ela gravou da música “Paraíba”, de Luiz Gonzaga.

Ela ainda não tinha 18 anos quando apareceu na TV pela primeira vez, no programa do Chacrinha, o grande apresentador da época.

Logo depois veio a fama, no palco da Jovem Guarda.

Ao lado de Eduardo Araújo comandou o programa “O Bom” e, juntos, gravaram inúmeros sucessos.

Por alguns anos, esconderam dos fãs o seu relacionamento amoroso. E Carlos Imperial, que era empresário dos dois, queria processá-los em 30 milhões de cruzeiros por desrespeitar a cláusula contratual que estipulava que, na vigência do contrato, era proibido se apaixonar.

Mas, quando se casaram, em 1969, a famosa igreja da Consolação, em São Paulo, foi pequena demais para abrigar a multidão que veio prestigiar o casal.

Sylvinha chegou na limousine de Roberto Carlos e entrou na igreja conduzida por Ronnie Von, grande amigo do casal até os dias de hoje e padrinho de casamento. Todos os ídolos da Jovem Guarda lá estavam.

O casamento foi uma verdadeira “Festa de Arromba”, como queria a música de Erasmo e Roberto.

Dos ídolos da Jovem Guarda, só Roberto se manteve no auge por décadas e até hoje pode ser considerado um grande sucesso. Todos os outros diversificaram suas carreiras. Por exemplo, Sérgio Reis virou um sucesso sertanejo; Ronnie Von, apresentador de TV. Wanderléia continua muito solicitada para shows e grava frequentemente, a exemplo do disco que está lançando agora, “Nova Estação”.

Eduardo Araújo passou pelo rock pesado, montou uma gravadora (Number One) e Sylvinha, que foi jurada do programa de calouros do Silvio Santos nas décadas de 1970 e 80, se transformou numa das mais importantes cantoras de “jingles” do país (gravou mais de 2 mil), tendo gravado poucos discos, mas todos os que gravou são verdadeiras maravilhas, como o CD “Suave É a Noite”, de 2001.

Ronnie Von a considera uma das vozes mais afinadas do Brasil.

Mas Sylvinha, que nos deixou sua autobiografia, pela editora Novo Século, “Anjo Lilás”, soube também se dedicar ao marido e aos filhos, num casamento que durou quatro décadas, até a sua morte.

Em 1996 ela descobriu um câncer de mama, infelizmente já avançado. Foram 12 anos de luta, sem nunca deixar suas atividades. Em 2007, Eduardo e Sylvinha lançaram o CD “40 Anos de Jovem Guarda”.

Mas o câncer venceu a guerra e levou Sylvinha, precocemente, aos 56 anos de idade, no dia 25 de junho do ano passado. Ela estava internada, havia 21 dias, no Hospital 9 de Julho e foi enterrada em Itapecerica da Serra.

Minha mais nova amiga, e uma das mais queridas, Norma Portal, que mora em Portugal, veio ao Brasil para acompanhar os funerais de Sylvinha que era também sua grande amiga.

 

17 de Junho

1948, morreu Eugênia Brandão

Eugênia tinha 16 anos quando, em 15 de maio de 1914, emplacou uma estupenda reportagem investigativa no jornal “Última Hora” do Rio de Janeiro. Foi, por isso, considerada a primeira repórter brasileira. Naquele tempo a imprensa só admitia mulheres atuando como escritoras de folhetins (as novelas impressas da época) ou publicando poemas.Os jornalistas de então criaram a palavra “reportisa” para descrever o cargo de Eugênia. Mas ela ainda se tornaria muito mais importante, líder feminista de primeira linha e casando-se com Alvaro Moreira, escritor e jornalista de renome. A casa dos dois, em Copacabana, era ponto de encontro de intelectuais cariocas. Mais ou menos como era em São Paulo com Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade.

Eugênia Brandão nasceu em 1898, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Mas ainda muito criança foi com a família para o Rio de Janeiro.

Foi o jornal “A Rua” quem primeiro aceitou admitir Eugênia como repórter. Isso causou um certo espanto na provinciana sociedade carioca daquele tempo. Reportagem era coisa para homem.

Um dia, Eugênia afirmou que estava deixando o trabalho no jornalismo para entrar para um convento, o Asilo Bom Pastor. Novo espanto: por que uma mulher bonita e bem sucedida decidira se recolher ao claustro? Falava-se em uma misteriosa desilusão de amor, depressão, alma mística... Ninguém, adivinhou que era apenas uma estratégia.

Neste convento estava a irmã de uma mulher que fora brutalmente assassinada num crime muito comentado e que ficou conhecido por “A Tragédia da Rua Dr.Januzzi, 13”.

Quando Eugênia saiu da reclusão, trazia uma matéria com detalhes e pormenores que jornal nenhum havia conseguido sobre a tragédia. Foi matéria de capa da “Última Hora” e o jornal bateu recordes de venda.

Começou então, usando de seu prestígio, a falar em favor das mulheres e das sufragistas. Mensalmente, promovia campanhas pelo voto feminino. Tornou-se uma das maiores portavozes da luta pela igualdade de direitos entre os sexos.

Casou-se então com o escritor e também jornalista Álvaro Moreira e viria a ter seis filhos com ele.

Nos anos 1920, Eugênia foi uma das musas do Movimento Modernista e, trabalhando ao lado de Álvaro, promoveu uma intensa renovação no teatro brasileiro.

Foi ainda a fundadora, em 1935, da União Feminina do Brasil que acabou se unindo à Aliança Libertadora Nacional para lutar contra o fascismo na era getulista. Eugênia esteve à frente, ainda, do movimento para a libertação da filha de Olga Prestes. Olga havia sido deportada, pelo governo de Getúlio Vargas e estava num campo de concentração nazista quando nasceu a menina, Anita Leocádia.  Foi graças ao imenso barulho feito no Brasil que foi possível trazer Anita de volta para casa.

Eugênia Brandão Moreira morreu no dia 17 de junho de 1948, com apenas 50 anos de idade.

03 de junho

1867, nasceu Presciliana Duarte de Almeida

 

Lá pela metade do século XIX as inglesas e as americanas amadureciam o pensamento e a luta das mulheres por plenos direitos de cidadania, inclusive o direito do votar. Eram as sufragistas que começavam a aparecer no cenário mundial.

Depois, se tornariam feministas e foram elas, as nossas antepassadas feministas que conquistaram para nós, mulheres contemporâneas, todos os direitos que temos hoje: de votar, de fazer contracepção, de estudar e aprender a ler e a escrever, de ter propriedades, trabalhar e até ter direito ao prazer.

No Brasil, algumas mulheres pioneiras começaram também a se organizar.

Entre elas, estava Presciliana Duarte de Almeida.

Ela nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais, em 3 de junho de 1867, cinco anos depois de sua prima, Júlia Lopes de Almeida, que se tornaria uma das mais importantes jornalistas e escritoras brasileiras do século XIX, tendo sido, inclusive, presidente da Legião da Mulher Brasileira e uma das criadoras da Academia Brasileira de Letras.

Presciliana, como sua prima Júlia, foi também jornalista, colaboradora de várias publicações periódicas e, em 1897 fundou a revista “A Mensageira”, onde as maiores inteligências femininas nacionais escreviam regularmente, inclusive Júlia.

“A Mensageira” discutia a condição social das brasileiras e foi tão moderna que, 90 anos depois, em 1987, o Conselho Estadual da Condição Feminina, de São Paulo, reeditou todos os números da revista, em dois volumes, porque as reflexões ali contidas eram – e ainda são – de grande importância para as mulheres que não estavam – e que não estão – satisfeitas com a sua condição de inferioridade social e cultural.

Presciliana, além de livros, publicou inúmeros artigos em jornais e revistas e foi membro fundador da Academia Paulista de Letras e, em 1909, ocupou a cadeira de número 8, tendo escolhida para sua patrona a poetisa Bábara Heliodora, sua trisavó. Foi ainda uma das precursoras da literatura infantil brasileira, junto com Olavo Bilac e Francisca Júlia.
São palavras dela: “Ora, esse desenvolvimento intelectual da mulher brasileira não se haverá cingido unicamente ao grupo das que surgem à tona, aparecendo na imprensa ou nos cursos de ensino superior. Havemos convir que em seu desenvolvimento coletivo deve ter sido enorme para que tantas tenham podido individualizar e excitar a admiração dos contemporâneos.”

Presciliana Duarte de Almeida morreu aos 77 anos, em São Paulo, em 13 de junho de 1944.

 

23 de maio

1810, nasceu Margaret Fuller

 

Para quem nasceu há dois séculos passados, Margaret Fuller era um fenômeno. Escritora e filósofa, numa época em que a maioria das mulheres sequer aprendia a ler e a escrever.

Nascida numa família de nove filhos, recebeu a mesma educação que seus irmãos homens, isso porque seu pai acreditava que meninas e meninos deveriam ter formação igual para se tornarem seres humanos capazes de realizar todas as suas potencialidades intelectuais.

Com um pai desses, Margaret só poderia se tornar feminista e sufragista e ela é, até hoje, considerada como uma das grandes pensadoras da condição da mulher.

Ela nasceu em Cambridge, Massachusetts, em 23 de maio de 1810, filha de Timothy Fuller, que era um político importante.

Com apenas 26 anos e na sua condição de mulher era aceita pelos mais importantes intelectuais americanos e foi muito amiga de Emerson.

Aos 30, editava um jornal e organizava grupos de mulheres para discutir questões da cultura, da arte e da educação feminina. Nestes grupos também contribuíram para a formação de algumas líderes sufragistas que deixaram sua marca na História.

O livro mais marcante de Margaret Fuller foi publicado em 1845 com o título de “Mulheres no Século XIX” e falava sobre a necessidade de tornar todas as mulheres independentes.

Margaret foi a primeira mulher a trabalhar num grande jornal, o New York Tribune e tornou-se a primeira mulher a ser jornalista correspondente quando, em 1846, o jornal a mandou para a Europa. Lá, como já acontecera nos Estados Unidos, ela frequentava as rodas intelectuais e foi amiga de George Sand.

Antes de se casar, foi mãe solteira. O pai era um conde italiano, revolucionário, dez anos mais novo que Margaret, Giovanni Ossoli. O filho deles, Ângelo, nasceu em 1848 e eles só se casaram um ano depois.

Margaret Fuller deixou muitas obras importantes, embora tenha morrido muito jovem, com apenas 40 anos.

Ela, o marido e o filho, estavam voltando para a América num navio que naufragou em 19 de junho de 1850. Seus corpos nunca foram encontrados.

 

07 de maio

1944, nasceu Iara Iavelberg

A hoje ministra Dilma Rouseff, era uma guerrilheira de codinome Vanda, quando conviveu com Iara Iavelberg e o seu apaixonado capitão Lamarca. (Carlos Lamarca, pra quem não sabe, é considerado, pelos de esquerda, um herói da oposição à ditadura militar brasileira e, pelos da direita, um terrorista guerrilheiro que deserdou do exército, roubando armas e munição)

Iara e Lamarca viveram um romance completamente clandestino.

Perseguidos pela ditadura militar, pouco podiam se encontrar, ambos se esgueirando de “aparelho” em “aparelho” (esse era o nome dos esconderijos dos militantes de esquerda, pra quem não sabe).

Lamarca apaixonou-se por Iara, mas culpava-se pela relação extraconjugal, já que tinha outra mulher (com filhos) exilada em Cuba.

Tanto Iara quanto Lamarca foram mortos pela repressão militar.

Iara nasceu em 7 de maio de 1944, filha de David e Eva Iavelberg, na cidade de São Paulo.

Teve uma educação comum às garotas de classe média alta, desde pequena cultivou o hábito da leitura, e, com apenas 16 anos de idade casou-se com um médico, Samuel Halberkon, nove anos mais velho que ela. Três anos depois, o casamento acabou.

Iara tornou-se professora e foi fazer psicologia na USP.

Como a maioria dos estudantes secundaristas e universitários do seu tempo, era frequentadora da famosa Rua Maria Antonia, onde Chico Buarque começou a cantar e onde aconteceram várias “guerras” entre o pessoal da direita (Mackenzie) e esquerda (Economia da USP, que funcionava num prédio na mesma rua Maria Antonia, próximo a onde até hoje está o Mackenzie).

José Serra (hoje governador do Estado de São Paulo), Wladimir Travassos (que morreu jovem) e José Dirceu (o ex-ministro do presidente Lula) eram líderes estudantis que faziam as jovens politizadas, mas românticas, suspirarem de paixão.

Iara era muito bonita e conseguiu a façanha de ser namorada do Zé Dirceu.

Vivia como todas as jovens daquela época: ligada nos movimentos culturais e políticos do planeta, curtindo boa música brasileira e estrangeira, tendo discussões filosóficas nos bares da vida, frequentando teatros e cinemas.

Acabou se engajando em um dos mais radicais movimentos que lutavam contra a ditadura no Brasil que pregava, inclusive, a luta armada.

Em 1968 deixou a família e caiu na clandestinidade, indo para Quitaúna, onde jovens militantes de esquerda aprendiam as técnicas da guerrilha. Iara era uma das professoras.

Em 1969 Lamarca deserdou e fugiu para se unir aos guerrilheiros. Foi então que ele e Iara se conheceram e se apaixonaram.

São famosas as cartas de amor que Lamarca escrevia para Iara, eles sempre separados em diferentes “missões” do movimento. Mas as cartas jamais foram lidas por Iara.

Era agosto de 1971 e Iara estava em Salvador, na Bahia, num “aparelho” na Praia da Pituba. A polícia, DOI CODI do Rio de Janeiro, chegou. E ninguém nunca conseguiu saber exatamente como Iara morreu.

A versão oficial (que está, inclusive, no filme “Lamarca”, onde Carla Camurati interpreta Iara) diz que ela, ao ser acuada pelos policiais, entrou num banheiro e se matou com um tiro na cabeça, no dia 6 de agosto.

O atestado de óbito, porém, tem a data de 20 de agosto e muitos ex-presos políticos, que estavam no DOPS de Salvador naquela ocasião, afirmam ter sabido que Iara fora levada para lá e dizem ter ouvido seus gritos durante as bárbaras torturas que teria sofrido.

Cinco semanas depois do “estouro” do aparelho onde estava Iara, em 17 de setembro de 1971, Lamarca foi morto em combate.

O corpo de Iara veio para São Paulo em 22 de agosto, num caixão lacrado e com a ordem de não ser aberto em nenhuma hipótese.

Por causa da versão oficial de sua morte, Iara, que é de família judia, foi enterrada na ala dos suicidas, no cemitério israelita de São Paulo.

Depois de muita luta, a família de Iara conseguiu a exumação do corpo em 2003 e a versão do suicídio não pôde mais ser sustentada.

Finalmente, Iara pôde descansar em paz, no túmulo a que tinha direito.

Caso não tivesse sido brutalmente assassinada pelos torturadores da ditadura, Iara certamente estaria hoje, no Brasil democrático, brilhando na vida política.

28 de abril

1931, nasceu Nair Bello

 

A atriz e comediante Nair Bello, depois de passar cinco meses internada no hospital, por causa de uma parada cardíaca que sofreu quando estava no cabeleireiro, morreu no dia 17 de abril de 2007, onze dias antes de completar 76 anos de idade.

Uma das grandes damas da TV brasileira, era amiga íntima de outras duas: Hebe Camargo e Lolita Rodrigues.

Nair era supersticiosa, não usava marrom de jeito nenhum (igual ao Roberto Carlos) e se auto-intitulava “perua”: sempre de unhas e batom vermelhos, com acessórios enormes, brincões e colares imensos.

Sua marca era a alegria e ela fez o Brasil rir por décadas.

Nascida no bairro do Cambuci, descendente de italianos e cercada por italianos, ela costumava dizer: “Se tem um papel de italianona, chamam a Nair”. Nas muitas novelas em que trabalhou, fazia sempre a mãe e a italiana. Mas era, acima de tudo, uma comediante. “Adoro rir – dizia – e quando junta com a Hebe então, ficamos impossíveis. Não podemos ir nem a velório”.

A carreira de Nair Bello se iniciou na Rádio Excelsior, em 1949. Em 1950, ela era uma das garotas-propaganda da recém inaugurada TV Tupi de São Paulo. Logo depois, fez seu primeiro filme, contacenando com sua amiga Hebe Camargo:  Liana, A Pecadora, de Antonio Tibiriçá. Em 1952, estava de novo no cinema em Simão, O Caolho.

Nair afastou-se do meio artístico, por três anos, quando se casou com o publicitário Irineu Francisco e teve seus três filhos.

Mas, em 1956, foi para a TV Record.

O sucesso veio em 1959, quando Blota Jr., que percebera seu talento para a comédia, a escalou para um programa de humor.

Nair criou então a personagem Santinha que, contracenando com Renato Corte Real, agradou em cheio ao público e lhe valeu um troféu Roquette Pinto, em 1961. Aliás, ela considerava esta premiação como uma das mais alegrias de sua carreira. Nair Bello dizia que se inspirara em Lucille Ball (I Love Lucy) e também em Dercy Gonçalves.

Em 1962, Carlos Manga a levou para o Rio, onde, no programa de J. Silvestre, fazia o quadro O Riso é o Limite.

Só fez teatro uma vez, em 1976, na peça Alegro Desbum, de Oduvaldo Vianna Filho.

Em 1978 fez João Brasileiro, de Geraldo Vietri, na TV Tupi.

Em 1980, outra vez o sucesso nacional, desta vez na TV Bandeirantes: sua personagem, Dona Santa, uma motorista de táxi, virou antológico na história da televisão.

Depois disso, foi para a Rede Globo, onde fez inúmeras novelas e onde, por fim, retomou o personagem do começo de sua carreira na TV, a Dona Santinha, no humorístico Zorra Total.

Nair Bello, 52 anos de carreira, três filhos, quatro netos, viúva desde 1999, ria muito ao dizer que, além das italianas, só fazia papéis de mãe na TV e que nunca, na telinha, deu um beijo num galã.

Internada no Hospital Sírio Libanês, desde o dia 11 de novembro de 2006, morreu em 17 de abril de 2007.

14 de abril

1976, morreu Zuzu Angel

 

Zuleika Angel Jones foi uma estilista de sucesso no exterior e vestiu estrelas como Liza Minelli, Joan Crawford e Kim Novak. Suas criações, na moda eram tipicamente brasileiras e tinham a marca da liberdade. O símbolo de sua confecção era um anjo.

Zuzu Angel inspirou, em 2006, um filme de Sérgio Rezende, com Patrícia Pillar no papel principal. O filme conta a história da luta de Zuzu, contra a ditadura militar brasileira, em busca de seu filho, Stuart, preso em maio de 1971 e morto pela repressão.

Chico Buarque compôs para ela a canção “Angélica”.  Ela tinha 55 anos de idade quando, em 14 de abril de 1976, sofreu um acidente fatal na Estrada da Gávea, na saída do túnel Dois Irmãos.

Hoje se acredita que o “acidente” foi forjado e que ela foi assassinada. Uma semana antes de sua morte Zuzu deixara, na casa de Chico Buarque, um documento que deveria ser publicado “caso algo lhe acontecesse”.

Nascida em Curvelo, MG, em 5 de junho de 1921 filha de Pedro e Francisca Gomes Netto, Zuzu mudou-se ainda criança para Belo Horizonte,. Em Minas Gerais fazia roupas para primas, quando começou a trabalhar profissionalmente como costureira nos meados dos anos 50.

Em 1947, foi para o Rio de Janeiro onde morou até o fim de sua vida. Nos anos 70, abriu sua loja em Ipanema e fez desfiles com bastante sucesso no exterior, para onde levou a linguagem brasileira..

Seu filho Stuart Angel Jones, militante político, foi preso, em 14 de maio de 1971, pelos agentes do CISA. Tido como desaparecido, na verdade foi torturado e assassinado. Segundo o depoimento de Alex Polari, encaminhado a Zuzu, Stuart foi arrastado por um jipe pelo pátio interno da Base Aérea do Galeão, com a boca no cano de descarga do veículo. Ele também ouviu os gritos de Stuart – numa cela ao lado – pedindo água, dizendo que ia morrer e, pouco depois, seu corpo foi retirado da cela.

Zuzu Angel passou a denunciar de  as torturas realizadas pela ditadura militar, inclusive para a imprensa estrangeira. Zuzu chegou a entregar uma carta a Henry Kissinger, na época Secretário de Estado do Governo norte-americano, pedindo apoio, visto que seu filho também tinha a cidadania americana. Depois da morte de Stuart, Zuzu passou a trabalhar como o que própria definia como “a primeira coleção de moda política da história”; estampas mostravam canhões disparando contra anjos.

Nunca encontrou o corpo de Stuart, cuja morte não foi admitida pela repressão militar.

Zuzu morreu em um acidente de automóvel muito estranho. Testemunhas afirmam que havia um jipe do Exército, logo após o acidente, na saída do túnel Dois Irmãos. Ela própria anunciou as ameaças que vinha recebendo: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho".

Sua filha, Hidelgar Angel, jornalista, fundou uma ONG que divulga e forma estilistas de moda, inspirada em Zuzu.

Existe um site na Internet que contesta a versão de assassinato, diz que não há provas, que a versão não se sustenta. Mas quem viveu a ditadura militar brasileira sabe que acidentes de automóveis eram sempre muito convenientes para sumir com as pessoas “indesejadas” pelo regime.

O filme “Zuzu Angel” trouxe, novamente, para as discussões cotidianas o caso da morte não esclarecida desta brasileira de sucesso e de coragem. Por causa das polêmicas geradas pelo filme, escrevi um artigo para o site www.votebrasil.com , que reproduzo aqui, abaixo.

 

Zuzu Angel e os Idiotas 

Adriana de Castro, maravilhosa jornalista, com quem eu tive a honra de trabalhar na Rede Mulher de TV (ela era a apresentadora do Jornal da Rede e eu, do Saúde Feminina) me surpreendeu muitíssimo. Ela me contava que assistiu ao filme sobre a Zuzu Angel.

Zuzu, como todo mundo sabe, lutou muito para descobrir o paradeiro de seu filho, preso pelo regime militar nos negros tempos da década de 70. Zuzu foi uma espécie de Clarice Herzog mal sucedida. Clarice conseguiu provar que seu marido fora assassinado nos porões da ditadura e mobilizou o país. Zuzu percorreu o mesmo caminho de luta mas acabou morrendo em circunstâncias misteriosas num acidente de carro mal explicado.

Eu era jovem nos anos setenta e lutava, com a única arma que tenho até hoje,- as letras- , contra a ditadura. Escrevia num jornal paulistano de grande circulação, crônicas assinadas, e tive várias delas censuradas. Virei a rainha das fábulas e das metáforas, tentando enganar o pouco discernimento dos censores e passar aos meus leitores alguma coisa da nossa indignação com aquele estado totalitário, arbitrário, assassino mesmo. Assassino não só de corpos mas, pior, de cérebros. Nunca é demais lembrar que, além dos horrores da repressão militar, como a tortura de gente inocente e idealista, foi durante a Ditadura que se desmantelou o ensino público no Brasil que, até a metade dos anos sessenta, era de qualidade excelente e de mestres respeitados; que exilou muitas das melhores mentes, tanto entre acadêmicos quanto produtores culturais.

Pois bem, a minha linda, doce e inteligente Adriana de Castro, a propósito do filme da Zuzu, exclama, para a minha perplexidade:

-  Isabel, como é que alguém podia, naquela época, ser idiota a ponto de tentar lutar contra a ditadura? Não sabiam que poderiam morrer, ser torturados, ver sua família destruída?!

Quase caí da cadeira. Idiotas. Aquela jornalista maravilhosa estava chamando aos heróis da minha juventude de idiotas!

Poderia esperar tudo menos isso! Eu ri, um riso de gente bem vivida, quase idosa, como já sou. Expliquei (ou tentei explicar a ela) que a minha geração era idealista. Nós crescemos no clima do Brasil de JK, no clima do Brasil dos anos cinqüenta. Aprendemos, nas escolas, que este seria de fato, o país do futuro. Aprendemos que no nosso país não tinha discriminação de raça, de cor (tinha, mas era dissimulada). Aprendemos que o Brasil era um celeiro de riquezas naturais, de bom clima, sem furações, sem tornados, sem vulcões. A terra onde se plantando, ia dar. Cresceríamos 50 anos em apenas 5. Carmen Miranda conquistara Hollywood e agora era vez de Vinicius, Tom, João Gilberto, os moços da genial bossa nova, que estavam levando (e efetivamente levaram) a nossa música ao reconhecimento internacional. Tínhamos Manuel Bandeira, Drummond, Villa Lobos, Niemayer, Portinari e tantos outros!

Um dia, num primeiro de abril dos piores, acordamos amordaçados sob os tanques militares.

Um de meus amigos, anos depois, se enforcou na árvore mais frondosa do quintal da casa pequeno burguesa de seus pais porque sabia que seria preso e sabia que, sob tortura, delataria seus companheiros de movimento estudantil.

Ouvindo Chico e Caetano, escondidos em algum apartamento, os jovens da minha geração se reuniam (reunião era proibido!) para ouvir os relatos de quem “caíra” (fora preso) e de quem não resistira e delatara fulano ou beltrano, sob as mais bárbaras torturas, e de como faríamos para ajudar fulano ou beltrano a fugir, a se esconder e até a se exilar.

Não. Não éramos idiotas. Nos nossos sonhos de “faça amor, não faça a guerra”, na ingenuidade de nossos sonhos por um mundo de mais justiça social, menos desigualdade, menos preconceitos, mais amor e mais tolerância, fomos até muito, muito corajosos!

- Mas não eram todos comunistas? – perguntou Adriana.

Não, claro que não! Bastava se opor à ditadura e você era logo de tachado de “lacaio de Moscou”. Eu, por exemplo, sempre fui uma burguesona, desfrutando dos privilégios de classe média alta da minha família, mas não podia, nem poderia hoje em dia, concordar com a censura, com a tortura (repare: as duas rimam!), com aquele brutal e estúpido cerceamento das liberdades democráticas, pelas quais a humanidade tanto lutou e ainda luta! Como se calar? Como se omitir?

Compreendo perfeitamente que a minha amiga querida, essa moça tão brilhante no exercício da sua profissão, esteja muito distante dos nossos ingênuos sonhos juvenis. Ela é de outra geração. Não contaram a ela. (Mas filmes como Zuzu estão contando...)

Hoje em dia, decepcionada com alguns dos meus heróis de juventude que, chegando ao poder, se mostram tão ou mais corruptos que políticos da velha guarda; hoje em dia, decepcionada com essa idéia atrasada do PT de que “os fins justificam os meios”; hoje em dia, decepcionada por ver que os nossos sonhos foram apenas ingênuos e babacas, ainda assim, não posso me calar.

Vou gritar contra as tentativas do governo Lula de amordaçar jornalistas, seja pela criação de conselhos que serão novas agências de censura, seja por uma lei que restrinja ainda mais a liberdade de qualquer cidadão criar um pasquim, um jornalzinho do sindicato, um jornalzinho na escola, no condomínio...  Hoje em dia, além das letras, tenho uma outra arma: o meu voto. E não o darei a deputados metidos em escândalos. E se tivermos a infelicidade de ver outra ditadura (será da esquerda, desta vez?) tentando se instalar no país eu falarei contra ela. Falarei por metáforas. Por fábulas. Driblarei, como já o fiz, todos os censores, até os meus internos.

Porque foi assim, lutando, que a humanidade conseguiu ir saindo das trevas da escravidão (mas não totalmente: metade do mundo ainda é escravo), da ignorância, da injustiça, do desamor, da falta de solidariedade.

Como você pode ver, minha querida Adriana, nasci idiota e continuo idiota.

Com muito orgulho.

06 de abril

1921, nasceu Cacilda Becker

 

Era a Ditadura Militar e Maria Bethânia estrelava o show “Tempo de Guerra”, no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Um censor apareceu por lá querendo proibir alguma coisa e Plínio Marcos começou a bater boca com ele acabou preso.

 

De repente apareceu Cacilda Becker, a então grande dama do teatro nacional, e simplesmente ordenou a um dos guardas que soltasse o Plínio. E ele, diante da autoridade que emanava daquela mulher, concordou.

 

O representante da cruel e arbitrária Ditadura Militar Brasileira, cedia à força e ao prestígio de Cacilda.

Cacilda Becker Iáconis nasceu em Pirassununga em 6 de abril de 1921, filha do imigrante italiano Eduardo Iáconis.

Tinha apenas 9 anos quando seus pais se separaram e ela e suas duas irmãs (uma delas, Cleide Yáconis, também atriz) foram criadas pela mãe, que se mudou para Santos, no litoral paulista.

A mãe, professora, mal conseguia sustentar a família e Cacilda, que aprendeu a dançar descalça, só pode ter seu primeiro sapato aos 14 anos de idade. 

Jovem, Cacilda frequentou os boêmios de vanguarda até vir para a capital tentar a sorte no teatro amador.

Em 1948, a atriz Nídia Lícia recusou um papel na peça Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida.

Nídia tinha um contrato de publicidade com uma grande loja e a peça, onde ela faria cenas de amor, acabaria por custar-lhe o rendoso trabalho.

Assim, Cacilda foi escolhida para substituí-la e, já em seu primeiro papel no teatro profissional, exigiu um contrato, rompendo assim com o costume de atores trabalharem apenas com compromissos apalavrados.

Nos 30 anos seguintes, Cacilda encenaria, sempre com absoluto sucesso, 68 peças. Ficou 10 anos no TBC, até 1958, de onde saiu para montar a sua própria companhia, o Teatro Cacilda Becker, que dirigiu até sua morte.

Fez ainda dois filmes: Luz dos Meus Olhos, em 1947 e Floradas da Serra, em 1954.

Participou dos famosos teleteatros da TV Tupi e fez uma telenovela, em 1966, Ciúmes.

Durante os anos negros da ditadura militar, seu apartamento de cobertura no Edifício Baronesa de Arary, na Avenida Paulista, tornou-se um centro de encontro de intelectuais e artistas que queriam a volta do estado de direito no Brasil.

Cacilda era daquelas mulheres inesquecíveis, libertas e fortes. Brilhava no palco e na vida. Teve muitos casos de amor e três maridos. O último, Walmor Chagas, um dos mais belos atores da época.

"Esperando Godot", de Samuel Beckett, era um grande sucesso nos palcos paulistanos, com Cacilda no papel de Estragon.

Em 6 de maio de 1969 começou a sentir-se mal, ainda em cena, e disse a Walmor, que contracenava com ela, que deveria estar tendo um derrame. Desmaiou.

Era um aneurisma cerebral.

Foram quase 40 dias de agonia para todos que a amavam. Os fãs faziam plantão na porta do hospital, onde ela entrara ainda com as roupas de seu personagem. Foi talvez a única batalha que ela perdeu.

Em 14 de junho, com apenas 48 anos, morria Cacilda Becker, a grande diva do teatro brasileiro.

Carlos Drummond de Andrade, o poeta, escreveu :

"A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.

Não era uma só. Eram tantas."

 

 

 

 

 

29 de março

1987, morreu Maria Von Trapp

 

Escritora austríaca, matriarca de uma família de cantores, inspirou o sucesso do cinema, estrelado por Julie Andrews, “A Noviça Rebelde”. Antes de virar filme, o livro de Maria – The Story of the Trapp Family Singers - , que foi um tremendo sucesso de vendas, havia sido adaptado para a Broadway, num musical, por Rodgers e Hammerstein. E tudo fez sucesso. O filme é sucesso até hoje. Mas Maria havia vendido os direitos autorais para as adaptações por menos de 10 mil dólares e, portanto, nunca colheu os benefícios desses sucessos.

Maria Augusta (Kutschera) Von Trapp nasceu em 26 de janeiro de 1905, na Áustria. Era órfã e foi criada por um tio, ateu e socialista. Cresceu ouvindo o tio dizer que as histórias da Bíblia eram meras invenções.

Um dia, quando estava terminando seus estudos básicos, Maria foi ouvir um concerto de Bach numa igreja. Ficou impressionada com o sermão do padre e sentiu despontar em si uma vocação religiosa. Entrou para um convento católico em Salzburg com a intenção de tornar freira.

Enquanto ainda era uma noviça, foi trabalhar como governanta e educadora de uma das filhas do oficial naval Capitão George Ritter Von Trapp e de sua primeira esposa, Agathe. O casal tinha sete filhos.

Maria conquistou a todos através de sua música.

Um dia, George, que se apaixonara por ela, a pediu em casamento.

Diferentemente da versão romanceada que aparece no filme, Maria diz, em seu livro, que se George não tivesse pedido para que ela fosse “a segunda mãe de seus filhos”, ela não teria aceito o pedido. Porém, mais apaixonada pelas crianças do que pelo pai delas, Maria casou-se com George em 26 de novembro de 1927. Juntos, eles teriam mais 3 filhos.

Depois do crack da bolsa de Nova Iorque, em 1929, com a  Depressão americana, George perdeu grande parte de sua fortuna em 1935, porque vários bancos faliram.

Sem dinheiro, com uma casa cheia de empregados e crianças, Maria se viu obrigada a reduzir drasticamente as despesas domésticas, dispensar empregados... e aí teve a idéia de transformar o hobby da família – cantar – em atividade profissional.

Sua primeira apresentação aconteceu em 1935, num festival. E logo a família cantora estava excursionando pelo país.

Em 1938, os nazistas anexaram a Áustria. George se negou a aderir ao novo regime e a família fugiu para a Itália e depois para os Estados Unidos.

“The Trapp Family Singers” logo fez muito sucesso na América e começou a excursionar mundo afora. Acabaram fixando residência numa fazenda, em Vermont, nos EUA, onde montaram, inclusive uma escola de música. Ganharam muito dinheiro e ajudaram financeiramente a Áustria em sua luta para se libertar dos nazistas.

George morreu de câncer em 30 de maio de 1947. Mas a família de cantores continuou atuando por mais 10 anos. Em 1957, o grupo se desfez. Maria e três dos seus filhos foram servir como missionários no Pacífico Sul.

Depois de alguns anos, Maria retornou à Vermont e administrou a sua fazenda até o dia de sua morte, em 1987.

A história real de Maria Von Trapp, como se viu aqui, é um pouco diferente da sua versão cinematográfica. Mas é uma história de luta e de sucesso.

No filme A Noviça Rebelde (The Sound of Music) a Maria real faz uma figuração: é ela a mulher que cruza uma praça na cena em que Julie Andrews canta “I Have Confidence”.

28 de março

1974, morreu Dorothy Fields

A menos que você seja uma fã de carteirinha do jazz, certamente você não sabe quem é Dorothy Fields. Até porque quando se fala em letristas do jazz fala-se de Ira Gershwin, Cole Porter e outros e nunca na mulher que colocou palavras em algumas das obras primas dos  mais importantes músicos de jazz.

A famosa cançaõ On the Sunny Side of The Street, é apenas uma das muitas músicas que têm letra da Dorothy Fields.

Ela escreveu mais de 400 canções entre 1928 e 1973. Para Hollywood, para a Broadway... mas, estranhamente, seu nome quase nunca é citado quando se fala nos compositores de jazz.

O fato é quando você for curtir o seu disco de jazz e olhar o nome dos compositores das músicas lembre-se que aquele Fields que aparece em músicas como A Fine Romance, I Can´t give you anything but love e tantos outros sucessos, aquele nomezinho Fields é de uma mulher que brilhou no jazz e o nome dela é Dorothy. 

Ela nasceu em 15 de julho de 1905, filha do comediante Lew Fields, um imigrante polonês, e sua esposa, Rose. Seu pai se tornaria, mais tarde, um produtor de sucesso na Broadway.

Teve uma irmã mais nova, Frances e dois irmãos mais velhos, que se tornaram escritores de peças teatrais, com inúmeros sucessos musicais.

A mãe, Rose, não queria que os filhos seguissem a carreira artística e costumava dizer que eles teriam que ser mais educados que a média, já que o pai era um ator. Havia ainda, é claro, um preconceito contra atores.

A carreira profissional de Dorothy Fields se iniciou em 1928, quando Jimmy McHug a convidou para escrever letras para as suas músicas. Trabalharam juntos até 1935 e são desse período as famosas (e até hoje gravadas por grandes astros) “I Can’t Give You Anything But Love” e “On the Sunny Side of the Street”.

Na década de 1930 Dorothy começou a escrever letras para músicas do cinema e a trabalhar com diversos compositores, inclusive com Jerome Kern. Juntos, eles faturaram o Oscar de melhor canção, em 1936, com “The Way You Look Tonight”.

De volta a Nova Iorque, trabalhou nos shows da Broadway, como roteirista.

Nos anos de 1940, junto com seu irmão, Hebert, escreveu três shows para Cole Porter. Outro parceiro seu foi Irving Berlin, com quem bateu a marca de 1147 apresentações.

Dorothy emplacou ainda varias canções e musicais de sucesso, em 1959, 1960 e 1973.

Escreveu mais de 400 canções, para 15 shows e 26 filmes.

Morreu aos 68 anos, de um ataque cardíaco, em 28 de março de 1974.

26 de março

1923, morreu Sarah Bernhardt

 

Quando alguém quer elogiar uma atriz, diz que ela é “uma Sarah Bernhardt”. Afinal, Sarah é considerada a maior atriz de seu tempo.

 

Francesa, nascida em 1844, era filha de uma prostituta.

 

Aos 15 anos de idade, sua mãe queria iniciá-la nas artes de agradar os homens ricos pelo sexo. Mas um dos amantes de sua mãe, o Duque de Morny, que era meio-irmão de Naopleão III, achou que a menina levava jeito para a carreira de atriz e conseguiu uma matrícula para ela no Conservatório de Paris.

Sarah Bernhardt, já famosa, esteve quatro vezes no Brasil.

Sarah é também personagem de dois filmes brasileiros: Amélia e O Xangô de Baker Street.

Sarah Bernhardt é o pseudônimo de Henriette Rosine Bernard. Ela nasceu em Paris em 22 de outubro de 1944, filha de uma famosa cortesã holandesa, Judith van Hard e de um estudante de direito francês, Edouard Bernard.

Foi, ainda criança, mandada para um convento de Versalhes onde se tornou católica. Era considerada uma menina difícil e de saúde frágil.

Quando voltou para casa, o Duque de Morny conseguiu que ela fosse estudar no Conservatório de Paris, onde ela não foi considerada uma grande promessa como atriz. Mas Sarah achava que o errado era o conservatório e não ela. Assim conseguiu que o Duque de Morny a colocasse na Comédie Française. Lá, participou de três espetáculos e ninguém tomou conhecimento da sua existência. Acabou demitida, quando esbofeteou  a atriz principal.

Foi  para o elenco do Thêatre du Gymnase-Dramatique onde fez papéis menores em peças também menores e, nessa época, quase abandonou a carreira.

Teve alguns amantes, entre eles o príncipe de Ligne, que foi pai do seu único filho, Maurice.

Mas em 1866 a sua sorte começou a mudar.

Com um contrato no Teatro Odeon foi se tornando conhecida  e considerada a atriz favorita dos estudantes.Em 1869, Napoleão III pediu-lhe uma apresentação exclusiva. Em 1870 a França entrou em guerra com a Prússia. Sarah montou um hospital dentro do teatro.

Quando a guerra acabou e Napoleão III foi deposto, a França tornou-se uma república. Sarah, que fora auxiliada pela nobreza, tivera um filho com um príncipe e era a queridinha do imperador caído, ficou numa situação difícil. Mas isso não a impediu de conquistar o papel principal numa peça de Victor Hugo, que a chamava de “A Voz de Ouro” e a levou para apresentações no Exterior, dando o primeiro impulso em sua carreira internacional.

Oito anos depois, estava montando sua própria companhia e excursionou pelos Estados Unidos, fazendo muito sucesso. Começam as produções mais sofisticadas e muito caras. O diretor e dramaturgo Victorien Sardou escreve para ela e a dirige no palco. É sucesso na Europa. Na Austrália. Na Rússia, com direito a homenagens do próprio Czar.

Foi no Brasil, em 1905, que Sarah machucou o joelho durante uma apresentação. Dez anos depois as consequências do ferimento levaram a amputação de sua perna. Mas imagine se ela, a grande Sarah, iria parar de trabalhar apenas por uma perna... Foi para a frente de batalha, em plena I Guerra Mundial, para alegrar e entreter os soldados. Em 1918, estava em tournê pelos Estados Unidos. Em 1920 publicou um romance: “Petite Idole” sobre a vida das atrizes..

Estava filmando, produzida por Hollywood, em sua própria casa, em Paris, quando morreu, debilitada por seguidos problemas de saúde, em 26 de março de 1923.

Tinha 78 anos de idade e era uma das maiores atrizes que o teatro conheceu.

25 de março

1945, nasceu Leila Diniz

 

Até hoje, quando se fala em mulher liberada, aparece a lembrança de Leila Diniz. Estrela de cinema e TV no Brasil dos anos 1960, ainda tão preconceituoso e ameaçado pelos horrores aplicados a quem ousava pensar, pela Ditadura Militar, Leila era a personificação do anseio de liberdade de muitas jovens brasileiras.

 

Tão desbocada quanto Derci Gonçalves, falando o que realmente pensava, desfilando grávida e de biquini (uma ousadia naqueles tempos), ela morreu com apenas 27 anos de idade, mas deixou sua marca na história do país.

 

Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945, em Niterói. Como a maioria das meninas da sua geração, fêz o curso Normal e foi ser professora do jardim de infância num subúrbio do Rio de Janeiro.

 

Tinha apenas 17 anos quando se apaixonou pelo cineasta Domingos de Oliveira e casou com ele.

 

Aos vinte, estava separada mas já começara a sua carreira de atriz.

 

Em 1966, estrelou o filme “Todas As Mulheres do Mundo”, hoje m clássico do cinema nacional, com Paulo José, Joana Fomm, Ivan de Albuquerque e Flávio Migliaccio, com direção do ex-marido, Domingos de Oliveira.

 

Como o filme foi sucesso, a TV Globo a chamou para seu elenco de novelas. Instantaneamente, o Brasil passou a conhecer Leila Diniz.

 

Suas entrevistas, consideradas avançadas demais para a época, começaram a criar polêmicas e ela virou o símbolo da mulher liberada, liberada demais até para os revolucionários anos de 1960.

 

Leila fez 14 filmes, 12 telenovelas e muitas peças teatrais.

 

Ganhou, na Austrália, o prêmio de melhor atriz pelo filme “Mãos Vazias”.

 

Casou-se novamente com outro diretor de cinema: Ruy Guerra, que trabalhava com Chico Buarque no teatro e na música.

Com ele, Leila teve sua única filha, Janaína.

 

Leila Diniz era criticada pela direita – porque era livre demais – e  pela esquerda, que a julgava alienada.

 

A maioria das mulheres, sem coragem de assumir que ela falava por todas, a julgava apenas vulgar.

 

O Brasil daqueles tempos era  Brasil da Ditadura Militar, era proibido pensar, proibido falar.

 

Os jornalistas Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Millôr e Sergio Cabral (o pai do atual governador do Rio de Janeiro) haviam criado um jornal que era uma pulga atrás da orelha dos censores: O Pasquim. Foi para o Pasquim que Leila Diniz deu sua entrevista mais bombástica.

 

Era 1969 e ela, na capa do jornal, de toalha de banho enrolada na cabeça, e dizendo tudo o que pensava.

 

A entrevista foi a gota que faltava: depois dela, os militares resolveram instituir a censura prévia à Imprensa e o decreto  que fez isso passou a ser conhecido popularmente como “Decreto Leila Diniz”.

 

Perseguida pela polícia (embora sem ter cometido nenhum crime) Leila foi se esconder na casa de um dos mais populares (e injustiçados) apresentadores de televisão da época: Flávio Cavalcanti. Flávio era desprezado pela esquerda brasileira, mas costumava abrigar e amparar as figuras públicas perseguidas pelo regime.

 

Quando a poeira baixou, Leila voltou à cena, reabilitando o Teatro de Revista, gênero que tivera seu auge nos anos de 1940 e 50. Estrelou a peça “Tem Banana na Banda”, com textos de Millor, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. A mais famosa estrela do antigo teatro de revista, Virgínia Lane, passou então à Leila o título de Rainha das Vedetes.

 

Em 1971, Leila foi eleita Rainha da Banda de Ipanema.

 

Estava no auge de sua popularidade quando, numa viagem à Austrália, o avião da Japan Airlines, onde estava também o cantor Agostinho dos Santos, se despedaçou matando todos os que estavam a bordo, inclusive Leila Diniz que morreu, em 14 de julho de 1972, com apenas 27 anos de idade.

 

 Novelas:

1966/67 - O Sheik de Agadir - Madelon

1966 - Eu Compro Esta Mulher - Úrsula

1965 - Um Rosto de Mulher

1965 - Paixão de Outono - Maria Luísa

1965 - Ilusões Perdidas

 Principais Filmes:

Todas as mulheres do mundo

O homem nu

Corisco, o Diabo Loiro

Mãos Vazias

 

 

 

 

20 de março

1922, nasceu Nora Ney

 

Clique na capa do livro "Cantores do Rádio", para ver a entrevista que Nora Ney, Jorge Goulart e o professor Alcir Lenharo (autor do livro sobre o casal) me deram na Rede Mulher de TV.

 

 

 

 

Imortalizada pelo seu maior sucesso, entre tantos, a música “Ninguém Me Ama”, Nora Ney foi uma das mais importantes cantoras brasileiras da década de 1950.

 

Ela foi pioneira em muitas coisas: foi a primeira a gravar Tom Jobim e também a primeira brasileira a gravar um rock e a primeira artista a assumir-se publicamente como comunista, além de -- numa época em que não havia divórcio e acabar um casamento era uma tragédia – ter largado seu marido e pai dos seus filhos, para ir viver com o também famoso cantor Jorge Goulart, com quem viveu, afinal, o resto da vida.

 

Iracema de Sousa Ferreira, ou Nora Ney, nasceu no Rio de Janeiro no dia 20 de março de 1922.

 

Aprendeu a tocar violão sozinha, numa época que tocar violão era coisa de malandro do morro, nunca de rapazes de boa família e muito menos de moças de boa família ou não.

 

Mocinha, começou a frequentar os programas de auditório das rádios cariocas, sempre fascinada pela música popular.

 

Mas sua carreira só se iniciou aos 28 anos de idade, em 1950, em 1953 já se tornara uma das grandes divas do rádio, cantando canções de Noel Rosa, Ary Barroso e Dorival Caymmi.

 

Começou pelas mãos do homem forte da Rádio Tupi-Tamoio, Sergio Vasconcellos. Haroldo Barbosa se encantou com a voz dela.

 

Frequentadora do Sinatra-Farney Fã Clube, lá fez amigos ilustres como João Gilberto, Baden Powell, Lúcio Alves e Carlos Manga.

 

Nora, no inicio de sua carreira, cantava jazz: Geswhin, Cole Porter, mas acabou se tornando uma das grandes e famosas intérpretes do samba canção e foi eleita Rainha do Rádio no início da década em 1953.

 

Seu nome artístico era Nora May, mas uma fã confundiu-se e a chamou de Nora Ney. Ela gostou e assumiu.

 

Getúlio Vargas se apaixonou pela voz dela e a tornou sua cantora predileta e ele ia vê-la nos teatros de revista, onde também se apresentava a vedete Virginia Lane, com quem o ditador teve um caso amoroso por anos a fio.

 

Nora Ney era crooner do Copacabana Palace quando conheceu outro cantor famoso, Jorge Goulart. Nora era casada e tinha dois filhos, Hélio e Vera. Mas separou-se do marido para ir viver com Jorge. Eles passaram o resto da vida juntos mas só se casaram 39 anos depois, no dia em que Nora completou 70 anos.

 

Jorge e Nora foram os primeiros artistas a se declararem abertamente comunistas.

 

Juntos eles se apresentaram em quase todo o mundo. Na China, Nora foi deliramente aplaudida por 45 mil pessoas ao cantar o seu hoje clássico “Ninguém Me Ama” e Jorge fez com que os chineses cantassem com ele, em portugues, o refrão de “Aurora”: “Se você fosse sincera, ooooo, Aurora, olha só que bom que era, ooooo Aurooora”.

 

No Brasil, Nora manteve por décadas uma coluna na popularíssima Revista do Rádio.

 

Em novembro de 1955, foi a primeira cantora brasileira a gravar um rock: “Rock Around The Clock”. Em uma semana, estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso.

 

Em 1963, sua filha, Vera Lúcia, foi eleita Miss Guanabara, ficou em segundo lugar no Miss Brasil (neste ano, a vencedora foi Ieda Maria Vargas, que se tornou Miss Universo) e foi representar a beleza da brasileira em Londres, no concurso de Miss Mundo. Lá, também ficou em segundo lugar.

 

Com o golpe militar de 1964, Nora Ney e Jorge Goulart, saíram do Brasil para o exílio.

 

Nora Ney voltou aos palcos brasileiros e aos noticiários no começo dos anos 2000,  com o show “Cantoras do Rádio” que levou para os palcos Carmélia Alvez, Zezé Gonzaga, Ellen de Lima, Violeta Cavalcante, Rosita Gonzales e ela, que brilhava num longo preto, os cabelos presos num elegante coque, a mesma voz grave de sempre.

 

Nora Ney morreu no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2003, aos 81 anos de idade.

 

 

15 de março

1950, morreu Alice Stone Blackwell

 

Alice Stone Blackwell era sobrinha da Elizabetth Blackwell, a primeira mulher a obter oficialmente um diploma de medicina nos EUA.

Sua tia, além de ser a primeira mulher médica, era também uma lutadora pelos direitos da mulher.

Mas não foi só a tia feminista. A mãe de Alice, Lucy Stone, também é uma famosa sufragista, reverenciada e admirada pelas americanas que, diferentemente de nós brasileiras, sempre prestam tributo às antepassadas.

É que as americanas sabem (e as brasileiras permanecem ignorantes) que, sem nossas avós feministas, nós não teríamos conquistado os direitos que conquistamos na sociedade ocidental.

Alice Stone Blackwell editou um importante jornal de mulheres, iniciado por sua mãe em 1872, de 1881 a 1916, portanto por 35 anos. Ela também escreveu a biografia de sua mãe, Lucy Stone. (na foto, com Alice bebê)

Ela nasceu, filha única, em 14 de setembro de 1857, em Orange, Nova Jersey, Estados Unidos.

Sua mãe, Lucy Stone, fora a primeira mulher a receber um título universitário em Massachusetts, a primeira mulher a conservar seu nome de solteira quando casou-se com Henry Blackwell e a primeira também a dedicar-se integralmente à defesa dos direitos das mulheres.

Dizem que foi Lucy quem colocou a famosa sufragista Susan B. Anthony no movimento feminista.

Alice cresceu, portanto, numa família que se preocupava com os direitos humanos e deve ter ouvido, por toda a sua infância e adolescência, algumas das conversas que ajudaram a humanidade a evoluir para um mundo menos injusto.

Alice formou-se na Universidade de Boston em 1881.

Imediatamente foi trabalhar no famoso Jornal das Mulheres, fundado por Lucy Stone e Henry Blackwell (seus pais) e que era a publicação oficial da Associação Americana do Voto Feminino.

Em 1890, foi Alice quem conseguiu resolver as discordâncias que existiam entre dois diferentes movimentos sufragistas que acabaram se unificando e tornando-se então um movimento único: “National American Women Suffrage” e ela foi secretária do movimento até 1918, por 28 anos, portanto.

Em 1893 sua mãe, Lucy Stone morreu.

Alice assumiu então a editoria do jornal da família e ficou no cargo por quase quarenta anos.

Uma tia de Alice, Isabel Barrows, apresentou-a ao teólogo alemão Ohannes Chatschumian. Alice e Ohannes fizeram juntos um importante trabalho, coletando, organizando e traduzindo poemas de autores de vários países do mundo, que tinham em comum a luta contra a tirania e a opressão de seus povos.

“Lucy Stone, Uma Pioneira dos Direitos da Mulher” e o título da biografia escrita por Alice.

Ela tornou-se ainda Doutora honoris causa em Ciências Humanas pela Universidade de Boston, título que recebeu em 1945, como a coroação de uma vida dedicada às causas dos Direitos Humanos.

Alice Stone Blackwell morreu em 15 de março de 1950, aos 92 anos de idade.

12 de março

1893, nasceu Gilka Machado

“Ser Mulher... /... buscar um companheiro e encontrar um senhor”

 

 

Escritora, tinha seus poemas chamados pela crítica de “maratona imoral”.

O preconceito contra a mulher, na época em que ela viveu, cegava os olhos dos críticos, que se negavam a ver, na poesia erótica que ela escrevia, o anseio da libertação feminina e a denúncia da humilhante condição social das mulheres de então.

Gilka estava à frente do seu tempo.

Só os modernistas, incluindo Mário de Andrade, perceberam o imenso valor da obra dela e, mais tarde, intelectuais liderados por Jorge Amado trabalharam – sem sucesso -- para que ela fosse a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Gilka Machado nasceu em 12 de março de 1893, filha do também poeta Hortêncio da Gama Sousa Melo e da atriz de rádio e teatro Thereza Christina Muniz, no Rio de Janeiro.

Desde criança Gilka escrevia poemas. Aos 13 anos, venceu o Concurso Literário do jornal A Imprensa. Como ela se inscrevera no concurso usando três pseudônimos diferentes acabou ganhando os três primeiros lugares.

Nela, tudo era precoce. Com 17 anos se casou com o poeta Rodolfo Machado e, com ele, teve dois filhos. Embora fosse comum as poucas moças, que tinham empregos, deixaram o trabalho para cuidar apenas dos filhos e da casa, Gilka continuou como funcionária da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Foi também aos 17 anos, em 1910, que ela escandalizou os moralistas cariocas publicando, no Jornal da Manhã, um folhetim (a novela da época, em capítulos) sobre a vida de jornalistas sem preconceito.

Como era de se esperar, Gilka uniu-se aos movimentos organizados de mulheres e tornou-se uma militante feminista, tendo sido, inclusive uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino.

Tinha 22 anos quando publicou seu primeiro livro, Cristais Partidos, muito mal visto pelos críticos, que, mais uma vez, se escandalizaram com o erotismo da literatura de Gilka.

Um ano depois disso, seu marido morreu.

Gilka obteve um maior reconhecimento literário quando fez parte de uma antologia, publicada na Bolívia, onde estavam também Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Ronald de Carvalho, escritores e poetas já consagrados.

Havia no Rio de Janeiro dos anos 1930 uma revista muito importante chamada O Malho. Esta publicação promoveu, em 1933, uma eleição para descobrir quem era a maior poeta do Brasil. Votaram 200 intelectuais importantes. Gilka venceu. Teve 200 votos.

Ela era muito amiga de Eugênia Moreyra, aquela famosa jornalista que escandalizava o Rio de Janeiro com sua liberdade.

Viveu sempre com pouco dinheiro. Tinha dois filhos para criar, era viúva e conhecida por suas posições políticas a favor dos direitos das mulheres e pela sua ousadia, o que dificultava ainda mais a hora de conseguir empregos.

Acabou montando uma pensão. Mas era apontada na rua e chamada de “mãe imoral” porque, em suas obras, denunciava o não reconhecimento da função social da maternidade, a repressão sexual sofrida pelas mulheres, os salários mais baixos pagos as mulheres nas mesma funções que os homens e todas essas questões que ainda não foram totalmente resolvidas até hoje.

Mas, com todas as dificuldades e discriminações, Gilka criou sozinha os seus dois filhos.

A sua filha tornou-se uma das mulheres mais famosas do Brasil nos anos 1940. Era a atriz e bailarina Eros Volúsia, que foi capa da revista Life, nos Estados Unidos, em 1941, e fez um filme em Hollywood, Rio Rita, com os também famosos humoristas Abbot & Costello.

De 1915 a 1968 Gilka Machado teve 11 livros publicados.

Sua obra completa foi editada em 1978.

Em 1976, seu filho, Hélio, morreu.

Gilka passou a velhice no anonimato e foi sendo esquecida. Em 1977, Jorge Amado liderou o movimento para colocá-la na Academia Brasileira de Letras, mas ela não quis.

Morreu em 17 de dezembro de 1980, aos 87 anos de idade.

E, até hoje, apesar de ter tido seu valor sobejamente reconhecido como poeta, muitas publicações sobre a Literatura Brasileira ainda fazem questão de esquecer que ela existiu.

Ser Mulher ...


Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

 

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
 

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
 

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Publicado no livro Cristais partidos (1915).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 106.

 

10 de março    

1929, nasceu Lolita Rodrigues

clique na foto para ver vídeo

da entrevista que ela me deu,

sobre o começo da TV.

Lolita, cujo verdadeiro nome é Sílvia Gonçalves Rodrigues Leite, começou a cantar no rádio com apenas 15 anos de idade. Mas ela crescera numa família de imigrantes espanhóis, uma família musical.

 

Foi ela quem cantou, substituindo Hebe Camargo, o hino da TV brasileira (de autoria de Guilherme de Almeida) na noite da inauguração da TV Tupi, a primeira TV do Brasil, em 18 de setembro de 1950.

 

Por décadas, brilhou na TV ao lado do ex-marido, comandando o antológico programa “Almoço Com as Estrelas” que depois se tornou “Clube dos Artistas”.

Hoje Lolita  trabalha como atriz nas novelas da Rede Globo. É uma das melhores amigas de Hebe, que conheceu quando ambas tinham 15 anos.

Assista a entrevista que eu fiz com ela, clicando na foto.

Lolita nasceu em 10 de março de 1929 em Santos, onde seus pais se fixaram ao chegar ao Brasil.  

Começou sua carreira, já morando em São Paulo, na Rádio Record, num programa de calouros. Ela foi a vencedora e passou a voltar ao programa uma vez por mês.

Murillo Antunes Alves a levou, então, para a Rádio Bandeirantes, em 1944, onde ela conseguiu seu primeiro contrato. Depois ela foi para as Rádios Cultura e Tupi. Já ganhando prêmios, como o Roquete Pinto.

Na inauguração da TV Tupi, ela foi o segundo rosto a aparecer, depois de Yara Lins.

Em 1957 estreiou como atriz no TV de Vamguarda, fazendo a Esmeralda do Corcunda de Notre Dame.

Nesta época, conheceu Airton Rodrigues, secretário de Assis Chateuabriand. Casou-se com ele e teve uma filha, Silvia, que hoje é médica em São Paulo.

Airton e Lolita comandaram, por décadas, desde 1956, um programa de absoluto sucesso na TV brasileira: “O Almoço Com as Estrelas”, que, anos depois, virou “Clube dos Artistas”, mas mantendo o mesmo formato: estrelas da TV e do cinema sendo entrevistados enquanto almoçavam (ou jantavam), números musicais, etc.

Mas um dia o casamento acabou. Depois de 31 anos de sucesso conjugal e de sucesso na TV, Airton e Lolita se separaram. A separação foi um abalo para ela. Mas ela jamais parou de trabalhar. Teve contratos em outras emissoras, como a Record, SBT e Globo.

Hoje ainda brilha na telinha nas novelas da Rede Globo.

“Se eu não trabalhar, sinto-me morta”, diz ela.

09 de março

1952, morreu Alexandra Kollontai

Apesar dos movimentos de esquerda serem todos tradicionalmente tão machistas quanto os direita, Alexandra Kollontai conseguiu ser a mais importante dirigente feminina da Revolução de Outubro de 1917, na Rússia.

Foi ela a responsável pela elaboração da legislação revolucionária do estado soviético, a qual, pela primeira vez na História da Humanidade, impôs a igualdade de direitos entre os sexos. E foi, junto com Clara Zetkin, quem propôs a criação do Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

Era rica e privilegiada, mas estava mais interessada na igualdade social do que em suas próprias regalias.

Ela nasceu em 31 de março de 1872, na Finlândia, país que, na época fazia parte do império russo. Filha do general ucraniano Michael Domontovich, vinha de uma linhagem nobre, tendo entre seus antepassados o famoso príncipe Dovmont, que vivera no século XVIII , canonizado pela Igreja Ortodoxa como São Timofei de Pskoy.

Alexandra estudou nas escolas de elite e, aos quinze anos, pensava em ser professora e escritora.

Em 1893 casou-se com seu primo em terceiro grau, Vladimir Kolontai. Os pais de Alexandra foram contra o casamento. Vladimir era oficial do exército e vinha de uma família pobre, seus pais haviam sido expulsos de sua propriedade no Cáucaso por autoridades cazaristas.

Alexandra escreveu: “Amava o meu belo marido e dizia a todos que era extraordinariamente feliz. Mas essa felicidade parecia manter-me prisioneira. E eu queria ser livre. Não queria passar a vida como minhas amigas que, enquanto o marido ia trabalhar, ficavam em casa apenas se dedicando à cozinha e às compras domésticas”.

Na época em que Alexandra era jovem, o marxismo ganhava cada vez mais espaço entre a juventude russa, inclusive nos círculos universitários.

O seu primeiro romance tratava da igualdade entre mulheres e homens e contava as aventuras de uma solteirona de mais de 40 anos que, contratiando os costumes da época, trabalhava e que acaba se apaixonando por uma homem muito mais jovem que ela.

Para tentar publicá-lo, Alexandra mandou os originais a maior autoridade literária da Russia de então, o escritor Korolenko. Em vez de ter o seu valor reconhecido, viu seu texto rechaçado e desprezado, considerado apenas imoral.

Com dois anos de casada, Alexandra teve seu primeiro e único filho, Mikail. Nessa época, pertenceu a um grupo literário, discutia política e fazia trabalho voluntário com o povo pobre dos arredores de Moscou.

Em 1898 já trabalhava em missões do partido socialista, embora ainda sem estar afiliada.

Começou a chamar o casamento de “tirania do amor”, já que seu marido, como qualquer homem da época, não via com bons olhos as suas atividades além do lar.

Alexandra terminou então seu casamento, filiou-se ao Partido Social Democrata Operário e foi para a Suiça, estudar marxismo. Na Universidade, apaixounou-se pelo trabalho de Rosa de Luxemburgo e começou a se especializar em proferir palestras e redigir artigos, divulgando os ideias socialistas.

Em 1890, estava em Londres, convivendo com o movimento operário inglês.

Quinze anos depois, era uma liderança feminista, amiga de Lênin e de sua esposa. Mas tinha lá suas discordâncias do movimento de mulheres, pois acreditava que o problema feminino tinha que estar inserido na causa social democrata e não ser tratado separadamente. Isso também, para ela, era discriminação.

Em 1910 Alexandra foi a única mulher russa a participar como delegada daquele histórico VII Congresso Socialista. Foi ela que, junto com a alemã Clara Zetkin, propôs a criação do Dia Internacional da Luta da Mulher, o 8 de Março.

Alexandra fora exilada em 1908 e agora brilhava, em defesa dos direitos da mulher, em toda a Europa e nos Estados Unidos.

É desse momento na sua vida que surge sua mais importante obra: “A Sociedade e A Maternidade”.

Depois da Revolução Russa, em 1917, Alexandra voltou ao seu país e foi a única mulher a ter um cargo no novo governo socialista, no primeiro escalão, em função semelhante a de Ministro de Estado. Por causa dela, a Rússia tem então a mais avançada legislação do mundo da época no que tange aos direitos femininos. Ela ainda editava o jornal “A Operária” e organizou o primeiro congresso da mulher trabalhadora.

Romance e Revolução, A Mulher Moderna e a Classe Trabalhadora, Comunismo e Família, A Nova Mulher e a Moral Sexual e O Amor Vermelho, foram sua obras publicadas nesse período.

Mas em 1918, divergindo de Trotski, Alexandra abandonou seu cargo no governo.

Tinha 45 anos quando se apaixonou por Pavel Dibenko. Ele, 28. O casamento deles escandalizou a sociedade e durou apenas 5 anos.

Alexandra foi a primeira mulher do mundo a ocupar o cargo de embaixadora, de 1923 a 1945, na Suécia, no México, na Noruega e na Suécia. Representava então os interesses do stalinismo, um regime que contrariou grande parte das conquistas pelas quais ela tanto lutara na juventude.

Alexandra Kollontai morreu em 9 de março de 1952, aos 80 anos de idade.

 

FALE COMIGO: isabel@isabelvasconcellos.com.br

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