Meus Textos que vc encontra aqui: 20. Santa Mãe, a Mentira Social/19. Aldeia Profética/18. Sangue no Asfalto/17. 8 de março/ 16. Abaixo a Ditadora! /15. A Culpa da Chuva/14. O Sucesso e o Tempero do Bife/13. O Último Recurso/ 12. Igual, Porém Diferente/ 11. Os que Fazem a Diferença/ 10. O Grande Poder das Mulheres / 9. Eles Só Pensam Naquilo/ 8. Igualdade/ 7. Se Estivéssemos Juntas.../6. A Paz nas Mãos das Mulheres/ 5. Os Covardes e as Sandálias Havaianas /4. Jogando Pra Perder/ 3 .O Sopro e A Onda /2. Sexo Grupal e Monogamia / 1. Conto, Estela do Paulicéia
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Santa Mãe, A Mentira Social
O
Jornal Valor traz uma matéria, em seu caderno de cultura, sobre a francesa
Elisabeth Badinter.(foto)
Para quem não se lembra, ela é a mais importante feminista da França, ou talvez mesmo do continente europeu.
Badinter volta a frequentar a mídia porque está alertando as mulheres para um perigoso retrocesso em suas conquistas que pode ocorrer por exigências dos ambientalistas. Por exemplo: o uso de fraldas descartáveis se tornar “politicamente incorreto”, a sugestão de trocar alimentos industrializados por orgânicos e potinhos de comida infantil por purezinhos feitos em casa e tudo isso vir a somar mais trabalho na já conhecida dupla jornada feminina, fazendo com que a incompatibilidade aparente entre a vida profissional e a vida doméstica se torne ainda maior.
Tudo isso e muito mais está no livro “Le Conflit, La Femme e La Mère” (O Conflito, a Mulher e a Mãe – a ser lançado no Brasil pela Editora Record e ainda sem título em português).
Há três décadas, a autora botou fogo nas discussões feministas quando publicou o antológico “Mito do Amor Materno” onde mostrava que o amor materno é uma simples invenção das necessidades econômicas do final do século XIX e que mãe nenhuma ama os filhos por instinto biológico, mas sim por opção consciente. Muitas vezes, nem ama.
Como sempre acontece quando Elisabeth Badinter bota a boca no mundo, muita gente cai matando em cima dela. Mas, na minha maneira de ver, ela está sempre certa.
Fiquei entusiasmada ao ver fotos da Badinter no jornal. Fotos dela são uma raridade na mídia e depois que a poeira, que suas polêmicas levantam, abaixa, todo mundo quer se esquecer dela bem depressinha.
Badinter, assim como outros seres humanos da vanguarda, que vivem muito à frente de seu tempo, é profundamente odiada pelos covardes sociais. E é sempre bom lembrar que a grande maioria dos seres humanos morre de medo das mudanças sociais e passa a detestar e, se possível, esquecer os vanguardistas que ousam propor essas mudanças.
Tenho muito orgulho de, numa escala muitíssimo mais modesta que a Badinter, fazer parte do time dos odiados da vida. Na minha adolescência diziam que eu era uma pessoa “capaz de tudo”, por causa do que muita gente considerava a minha ousada atitude diante da vida.
Não sou capaz de tudo. Sou incapaz de matar, de comer quiabo e, graças a Deus, também sou incapaz de odiar alguém por mais de meia hora.
Todas as minhas convicções sobre a repressão sexual foram consideradas “absurdas” durante muitas décadas. Hoje, defendendo essas mesmas convicções, sou primeiro lugar de audiência na Rádio Tupi AM de São Paulo e meus ouvintes se manifestam muito positivamente sobre as mesmas convicções que escandalizavam editores, professores, censores da Ditadura e similares na década de 1960.
Isso me mostra claramente que aqui, no Ocidente, evoluímos sexualmente, que estamos muito mais sadios do que éramos na época da minha juventude, quando eu ousava viver uma liberdade sexual que escandalizava, mas que já era e fora vivida por mulheres excepcionais como Anais Nin, Pagu, Leila Diniz, Luz Del Fuego, Virginia Lane, Gilda de Abreu e tantas outras.
A grande questão que parece escapar a este debate acirrado sobre a contraposição entre o trabalho profissional e a maternidade está justamente na negação, às mulheres e pelas próprias mulheres, da opção.
Ninguém questiona um solteirão que nunca quis ser pai.
Mas todo mundo acha um horror uma mulher que não quer ser mãe.
Cada vez mais, mulheres percebem que não tem, como outras a tem, a vocação para a maternidade. Mas a maioria ainda considera que a maternidade é “sagrada” ou que a mulher só se realiza sendo mãe e outras solenes bobagens que foram incutidas na cabeça social exatamente, como diz a Badinter, pela necessidade econômica de gerar um monte de mão de obra.
A necessidade acabou mas o costume continua.
Hoje o mundo não precisa mais de tanta gente. Ao contrário.
Mas, agora que se criou o grande mito do amor materno e da necessidade absoluta e imperiosa de gerar criancinhas, como ficamos?
A Dra. Angelita Gama, pioneira cirurgiã e Professora Titular da Faculdade de Medicina da USP, foi uma das brasileiras que, entre a carreira e a maternidade, preferiu optar pela carreira. Hoje muitas mulheres estão fazendo isso. Eu fiz isso e nunca me arrependi.
Não são todos os seres humanos que trazem em si a vocação da maternidade ou da paternidade.
Por isso não adianta nada a mulherada ficar brigando entre si, procurando soluções para conciliar a maternidade com a vida profissional, modelos que serviriam para todas as mulheres. Há vários tipos de mulheres. Não somos todas iguais. Não precisamos de padrões únicos.
Sempre haverá aquelas que vão preferir dedicar-se integralmente aos seus filhos. E não há nada de errado com elas. Como não há nada de errado com aquelas que preferem dedicar-se integralmente às suas atividades profissionais.
Paz para a Badinter! Ela bem a merece.
Aldeia Profética
Quando, nos deslumbrantes e inquietantes anos 1960, Marshall McLuhan afirmou que
o mundo era uma aldeia e Andy Wharoll disse que, no futuro, todo mundo teria
seus 15 minutos de fama, ninguém ainda imaginaria a Internet e os celulares
cumprindo essas profecias.
Um episódio da clássica série de ficção científica na TV “Além da Imaginação” mostrava, também nos anos 1960, um futuro onde todas as pessoas do planeta poderiam ser identificadas e localizadas através de um número. Parecia um pesadelo, mas de fato era o sonho profético (e maravilhoso) do telefone celular.
A Internet, com seus sites e blogs, permite que cada um de nós possa ser famoso por 15 minutos e o mundo se tornou uma aldeia globalizada onde pessoas de diferentes culturas se vestem com as mesmas modas, usam os mesmos termos técnicos, independentemente da sua língua de origem, assistem aos mesmos filmes, leem os mesmos best sellers e basta sentar em frente à TV ou à tela do computador para conhecer o planeta sem sair de casa.
No Brasil do governo Lula vemos a ascensão de uma classe até outro dia muito pobre e que hoje tem ao seu alcance muitos dos bens de consumo que sempre foram privilégios das classes mais favorecidas.
Estamos nos tornando todos iguais. Nas ruas, quase todas as pessoas seguem a moda, quase todas as pessoas podem ter a roupinha, o sapatinho, o estilinho que está nas revistas e nas novelas.
Quase todas podem, graças ao milagre do crédito e da moeda estável, desfrutar de tratamentos estéticos que antes eram só para milionários, como implantes dentários, cirurgias estéticas e produtos cosméticos que mantém todos com a cara limpa.
Quase todas as famílias têm celulares e automóveis e TVs de plasma e câmeras digitais e computadores.
É o paraíso do consumo atingindo os arcaicos objetivos (nunca alcançados, diga-se de passagem) dos anacrônicos comunistas.
A democratização ainda é maior na informação do que no consumo, mas -- outra vez -- a Internet vai colocar por terra a antiga máxima: “Informação é Poder”.
É claro que ainda existe a mais absoluta miséria no Brasil e no mundo. É claro que ainda existem os descamisados do Collor e os excluídos do Brizola. É claro que ainda existe violência, preconceito, intolerância e muita injustiça, principalmente na distribuição da riqueza.
Mas o caminho foi aberto e, cada vez mais, o esclarecimento atingirá mais e mais pessoas, derrubando preconceitos, intolerâncias raciais e religiosas, discriminações sociais, todos os frutos – enfim – da ignorância.
Ninguém mais ignorará coisa alguma num futuro muito próximo.
O esclarecimento (ou deveria dizer iluminação?) da humanidade, via tecnologia, derrubará e tornará peças de museu, gente como Fidéis, Marco Aurélios, Dilmas, Chávez, Morales... Tornará autênticos dinossauros fossilizados todos os generais das ditaduras militares brasileira, argentina, chilena. Fará dos Bush figuras risíveis e tirará o rei da barriga dos esnobes e dos aristocratas.
Todos os babacas sucumbirão à grande aldeia globalizada.
Isso, é claro, se os outros profetas, aqueles das baleias e do aquecimento global, estiverem errados.
Infelizmente, eu não sou nada profética (como o meu pai que, quando entrei na faculdade de cinema, em 1970, me disse que eu deveria ter ido para a engenharia eletrônica porque era ali que estava o futuro da imagem...), mas, mesmo não sendo, aposto sim num futuro de grande esclarecimento, onde os Edires da vida não conseguirão mais fazer dinheiro a custa da ingenuidade do povo e onde os terroristas serão apenas lendas aterrorizantes que tirarão o sono das criancinhas, como tiravam os vampiros das crianças do passado.
Além disso, seremos todos nobres. Até lá, esses sites da Internet que descobrem os antepassados de todos nós e saem por aí distribuindo brasões familiares, já terão estabelecido que, na ascendência de cada ser humano sobre a terra, existe um antepassado nobre e outro ladrão.
Iluminação e esclarecimento gerando a igualdade social.
Esse é o meu sonho profético para a nossa aldeia global.
Sangue no Asfalto
Todo mundo fica
extremamente chocado com números como os de centenas de mortos em desastres de
avião, com as vítimas dos terremotos, com os 33 assassinados recentemente em
Moscou pelas mulheres-bomba.
Também causa escândalo as dezenas de vítimas da epidemia de gripe suína.
Pior ainda, os que pereceram quando as encostas de Angra vieram abaixo em pleno Réveillon.
Se cair um prédio e morrerem 200 pessoas, teremos assunto para 200 dias.
No entanto, cada vez que há um feriado prolongado no Brasil, milhares de pessoas são vítimas dessas máquinas de moer carne que chamamos de automóveis ou simplesmente carros. Mas ninguém vê, ou ninguém quer ver.
Em 1908 o grande poeta Olavo Bilac escrevia, horrorizado, ao prefeito de São Paulo, dizendo que o grande número de automóveis que estavam chegando à cidade (eram todos, claro, importados) acabaria por destruir a beleza da capital paulista e seria um grande perigo para os transeuntes.
Cento e dois anos depois são os automóveis que aterrorizavam o poeta os responsáveis pelos 200 atropelamentos/dia que acontecem na cidade e por um número incontável de vítimas do trânsito, mutilados, aleijados, com a vida destruída. São famílias sofrendo. É gente morrendo. Pior que uma guerra. Só nesse feriado de Páscoa houve um aumento de 34% nos acidentes nas estradas federais com relação ao ano passado.
Além disso – mas isso já bastaria – os congestionamentos de trânsito estão transformando as cidades em fábricas de loucos e significam enormes prejuízos não só aos cofres públicos e das empresas privadas como também ao bolso do cidadão.
Se alguma seriedade houvesse nos governos, todos estariam procurando adotar medidas restritivas à circulação de automóveis e criando alternativas de transporte para oferecer ao povo. Metrô. Trens. Ônibus confortáveis. Bondes. Carruagens. Qualquer coisa que tirasse das ruas essas máquinas velhas, ultrapassadas, assassinas e poluidoras que são os carros.
Mas, ao invés disso, continua a publicidade a vender a falsa idéia do poder e do status através dessas máquinas ridículas. Continuam os comerciais a exibir peripécias automobilísticas que os coitados dos jovens desavisados vão tentar imitar, principalmente quando tiverem bebido ou se drogado, pra fazer bonito e, assim, acabar morrendo no asfalto.
O automóvel é um mal tão ou mais grave que o cigarro.
Venho de uma geração para quem ambos – cigarro e carro – eram símbolos de progresso e elegância. Mas, graças a Deus e ao progresso, evoluímos.
Hoje são o máximo da
cafonice.
Chique é andar de bicicleta, a pé, de metrô.
Chique é a atividade física e a alimentação saudável.
Chique é o ecológico e o sustentável.
Há 102 anos Olavo Bilac já sabia.
Em breve, todos saberão.
O Oito de Março
Em
8 de março de 1857 cento e vinte nove operárias de uma fábrica de tecidos em
Nova York foram assassinadas, queimadas vivas, quando protestavam, reivindicando
a redução da jornada de trabalho de 12 para 10 horas.
Foi a primeira greve americana conduzida exclusivamente por mulheres.
Os patrões delas e a polícia simplesmente tacaram fogo na fábrica.
No mesmo ano, 1857, na Alemanha, nascia Clara Zetkin (foto) que se tornou militante socialista e feminista e propôs, em na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, que a data da greve das tecelãs de 1857 se tornasse oficialmente o Dia Internacional da Mulher.
Assim, as mulheres de todo o mundo, passaram, a partir de 1911, a reverenciar a memória de todas as lutadoras da terra no dia 8 de março. A data, no entanto, só foi oficializada em 1975, quando a ONU decretou este como o Ano Internacional da Mulher e se realizou, no México, a Primeira Conferência Internacional da Mulher, com a participação de lideranças feministas de todo o mundo, inclusive, é claro, do Brasil.
Em 1910, quando Clara Zetkin propôs a data, as mulheres não tinham nenhum direito, eram cidadãs de segunda classe. Não podiam votar. Não podiam conservar as propriedades em seu nome, depois de casadas: todos os seus bens passavam automaticamente para o marido e, se ele rompesse o casamento, ela ficaria pobre, ainda que fosse rica antes de se casar. Não podiam conservar os filhos juntos delas se divorciadas. Poderiam ser trancafiadas em hospício com a simples palavra do marido, quando este queria se livrar delas. Os maridos tinham o direito de matar as esposas caso elas os traíssem. No Brasil, havia a figura jurídica da “legítima defesa da honra”, que absolvia, nos tribunais, os maridos assassinos.
Em
1910, enquanto Clara lutava pelas mulheres na Convenção Socialista, a enfermeira
norte americana, Margaret Sanger (foto), era perseguida e exilada porque ousara
ensinar às mulheres de Nova Iorque, onde vivia, os pouquíssimos métodos
anticoncepcionais disponíveis naquele tempo. Foi acusada de divulgar
pornografia.
A pílula anticoncepcional é de 1960. Só a partir da pílula as mulheres começaram a reivindicar o seu direito ao prazer sexual. Mulher chamada “direita” não podia ter prazer, isso era para as outras, as prostitutas.
Na metade da década de 1960, as feministas americanas queimaram sutiãs em praça pública, numa atitude simbólica, que reivindicava liberdade para o corpo feminino que, antes, já fora espremido em espartilhos e tantas vezes deformado, em várias culturas orientais, para satisfazer aos fetiches sexuais masculinos. Foram as americanas que, depois da segunda guerra, lutaram contra o hábito de amarrar os pés das meninas japonesas para que eles não crescessem e dessem a elas aquele andar miudinho que tanto agradava aos homens.
Na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil, as primeiras décadas do século passado viram crescer as sufragistas, mulheres que, nestes países, lutavam pelo direito de votar.
O voto feminino só veio em 1920 nos EUA, em 1928, na Inglaterra, em 1934 no Brasil, em 1973 – pasmem—na França.
Só nas décadas de 1970 e 1980 as mulheres começaram a deixar de ser minoria absoluta nos cursos superiores e no mercado de trabalho.
Mas hoje, 100 anos depois de Clara Zetkin, ainda ganham menos que os homens na mesma função, ainda têm seu clitóris extirpado à faca em 80% dos países africanos, ainda são mortas por maridos e namorados ciumentos, ainda estão longe da plena igualdade de direitos com o sexo masculino.
Por isso, embora a mídia tenha transformado o 8 de março numa data de florzinhas, presentinhos e outras baboseiras que se convencionou chamar de típicas do sexo frágil, essa data, para as mulheres, ainda significa sim uma data de luta pela igualdade de direitos sociais.
E se hoje nós temos alguns direitos conquistados, no 8 de março, é obrigatório agradecer à memória de todas as feministas que lutaram, sofreram e até morreram para que estivéssemos hoje onde estamos.
À memória delas e ao enorme valor de todas as mulheres de hoje, que trabalham, que amam, que são mães, esposas e guerreiras, tudo ao mesmo tempo, a nossa admiração e solidariedade.
Abaixo a Ditadora!
Mais um Dia Internacional da Mulher onde tenho algo a lamentar. Desta vez lamento que a primeira mulher candidata à presidência da república no Brasil seja uma dinossaura da esquerda, companheira do dinossauro que acha a TV a cabo “imperialista” (ai! tem gente que parou no tempo mesmo), companheira de outro dinossauro que quer reinstituir a censura à imprensa e adepta das ditaduras latino americanas (lembrar Caetano: “até quando a América Latina precisará de ridículos tiranos?”).
Consolo-me lembrando que as mulheres são novas na política, são novas como cidadãs de primeira classe e por isso algumas decepcionam quando estão no poder, como a Dama de Ferro que, na verdade, era um homem.
A esmagadora maioria das mulheres que ascenderam ao poder no Brasil e na América Latina o fez porque são esposas e/ou filhas de políticos poderosos e não porque tenham feito a carreira política com seus próprios pés, como é o caso de Luiza Erundina, por exemplo.
Esta será a primeira vez que, numa eleição, vou gostar do fato de a maioria das mulheres não votar em mulheres, já que a classe é desunida e mulher que ainda se sente inferior, lá no fundo, tende a não confiar em outra mulher porque a julga inferior também.
Esta será a primeira vez que eu não vou querer uma mulher no poder.
E não a quero porque, de Ditadura, eu já tive mais do que o suficiente na vida. Vivi a ditadura militar brasileira e todos os horrores que ela promoveu. Também tive palavras censuradas num grande jornal paulista. Passei duas décadas sem democracia. E, se os generais da ditadura de direita eram um horror, imagine como seria uma mulher na ditadura de esquerda.
Cho, horror!
A Culpa da Chuva
Às
vezes nem parece que estamos entrando na segunda década do século XXI. Apesar
de termos, com a internet e os twitters da vida, atingido a aldeia global que
Marshall McLuhan previa nos anos 1960 e os 15 minutos de fama que Andy Wahrol
dizia, nos mesmos 60, que todos teriam, de vez em quando eu me sinto em pleno
século XIX.
Dia
17 de janeiro alguns setores da nossa sociedade lembram-se dos 100 anos da morte do abolicionista Joaquim Nabuco.
Político e diplomata, Nabuco era um idealista. Lutou duramente pelo fim do regime escravagista no Brasil, aliás, poderíamos dizer “duramente” nos dois sentidos, literal e figurado, já que Nabuco, embora nascido em berço de ouro, passou a vida com pouquíssimo dinheiro e conseguiu até torrar o dote da esposa num negócio furado. No tempo dele não existia mensalão e nem brotava dinheiro das meias e cuecas dos homens públicos.
Políticos como este, do século XIX, são avis rara no século XXI.
Quem me dera fosse por isso que eu me sentisse no século XIX. Mas não é. É por causa de notícias como Hugo Chávez fechando emissoras de TV e dessa tal de segunda conferência nacional de cultura, quando mais uma vez a turma mais retrógada do governo Lula vai tentar censurar a imprensa brasileira e até a “incensurável” internet.
É irritante de tão retrógado, tão ridículo. Só gente insegura precisa de censura.
E por falar em gente insegura, outra coisa que tem frequentado muito os noticiários e que parece coisa do século XIX é o crime passional. Só nas últimas duas semanas, dois deles assustaram até os repórteres de TV, acostumados com a desgraceira de certos jornais matinais e vespertinos.
Primeiro o mecânico que matou a cabeleireira, apesar dela ter dado queixa das ameaças dele oito vezes e da Justiça ter proibido o bicho de chegar a menos de 300 metros dela. Segundo, o debilóide do ex-marido que matou o namorado atual da ex-mulher. Terceiro, os filhos do assassinado que surraram a coitada da moça porque acharam que a culpa pela morte do pai era dela. Quarto, o desequilibrado que matou os filhos antes de se matar apenas para se “vingar” da ex-esposa.
Chega de sangue, né? Só isso aí já está de bom tamanho mas há muito, muito mais...
Por isso é que o nosso querido Joaquim Nabuco deve estar se revirando no túmulo. Ele lutou tanto para acabar com a escravatura e libertar os negros do jugo dos fazendeiros e outros ricaços e, agora, em pleno século XXI, homens ignorantes acreditam que a mulher é deles, é posse deles, como um escravo era posse de seu senhor.
Essa mentalidade atrasada, infelizmente, é frequentemente reforçada pelas novelas de TV.
Mas Joaquim Nabuco também se escandalizaria com o descaso de todos os prefeitos paulistanos dos últimos 20 anos. Ninguém ousa dizer mas o Paulo Maluf foi criticado e gozado quando resolveu fazer piscinões para diminuir a tragédia das enchentes. Hoje se fala na urgência de novos piscinões.
A verdade, porém, é que não temos nenhum Joaquim Nabuco sentado na cadeira de prefeito da nossa cidade.
É simplesmente ridículo que uma megalópole como São Paulo, a cada verão, durante anos a fio, veja repetirem-se as mais variadas tragédias causadas pelas enchentes.
É ridículo que a cidade pare e some milhões de reais de prejuízo porque as Marginais inundam.
É ridículo que, em pleno século XXI, a gente tenha que constatar, mais uma vez, que os políticos escolhem essa carreira apenas pelas vantagens pessoais que podem auferir em seus cargos e não pelo desejo – como tinha Joaquim Nabuco – de servir à sociedade e de lutar por seus ideais. É claro que existem um ou dois políticos idealistas e bem intencionados mas, infelizmente, são a exceção que confirma a regra.
Neste ano de 2010 a desculpa é que choveu muito mais do que o habitual.
No entanto, se os prefeitos paulistanos tivessem tomado as mínimas providências necessárias para acabar (acabar, sim!) com as enchentes certamente o prejuízo seria bem menor.
O individualismo, a falta de consciência dos nossos políticos é tão retrógada quanto os crimes passionais.
Neste mundo globalizado é impossível ignorar que, como dizia o poeta, o que acontece a um afeta a todos.
É ridículo ignorar a imensa interdependência de todos os seres humanos.
É ridículo trabalhar apenas em proveito próprio.
É ridículo acreditar que um sentimento maravilhoso como o amor possa nos tornar “proprietários” do ser amado.
Ridículo.
Mas a culpa deve ser da chuva.
O Sucesso e o Tempero do Bife
Faço produção de TV há mais de vinte anos. A minha experiência mostra que, quando se trata de agendar convidados para ir ao ar, é, de longe, muito mais fácil agendar com homens do que com mulheres.
Faço programas médicos. Há tantas médicas quanto médicos. Mas há pouquíssimas médicas de carreira acadêmica, professoras, professoras titulares ou cirurgiãs.
No mercado de trabalho, as mulheres são 41%. Mas pouquíssimas ocupam cargos executivos, pouquíssimas participam do topo da pirâmede empresarial.
Na política, no Executivo ou no Legislativo elas nunca conseguem ser 10% dos cargos ocupados por homens.
O que acontece?
Serão as mulheres menos ambiciosas que os homens?
Serão menos competentes?
Acho que não. Acho que as mulheres são tão competentes quanto qualquer homem, algumas são muito mais competentes do que muitos homens. São ambiciosas também.
Então, por que ainda não chegam lá? Por que têm agendas tão complicadas o que torna muito mais difícil agendar compromissos com elas do que com eles?
Uma boa e simples explicação é a velha conversa da dupla jornada de trabalho: A mulher, trabalhando fora de casa, ainda acumula as tarefas domésticas e, portanto, não tem tempo para mais nada, não tem tempo para fazer política, para estudar, para se aperfeiçoar...
Bom, não deixa de ser verdade.
Mas o que dizer daquelas que tem um séqüito de empregados domésticos?
Acredito que o grande nó da questão seja a atitude mental da mulher e não exatamente o acúmulo de tarefas domésticas.
As mulheres estão no mercado de trabalho e na vida produtiva, pra valer, há coisa de cinco ou seis décadas.
Por milênios o único poder da mulher residia na maternidade ou no comércio do sexo. Ou ela tinha o poder porque era uma grande matriarca ou porque era uma grande cafetina.
Então, hoje, parece difícil para a maioria das mulheres se libertar do papel de “rainha do lar”. Mesmo que ela seja uma executiva ou uma política, mesmo que tenha empregados domésticos para realizar as tarefas da casa, ela não renuncia ao papel de rainha no lar. Ela quer ver tudo, dominar tudo. Do tempero do bife à quantidade de amaciante que vai na máquina de lavar.
A cabeça dela é que está dividida e ela não consegue (e não concebe) delegar as responsabilidades do cuidado da casa. Ela não divide essas responsabilidades com outros membros da família, filhos, marido, etc. Toma para si preocupações que poderia deixar por conta de profissionais do trabalho doméstico.
É claro que é muito importante cuidar do lar. É claro que é de suma importância preocupar-se com a educação dos filhos, com a alimentação e com a saúde da família.
No entanto, estas preocupações, num mundo em que a mulher participa da vida produtiva e política, não devem mais ser exclusivamente dela. O lar deve ser problema de todos os que vivem nele e não apenas da mulher.
Ousaria colocar uma nova expressão. Em vez de dizer “dupla jornada de trabalho”, dizer “dupla responsabilidade de trabalho”.
Para a mulher atuar no mundo a preocupação, a atitude mental de responsabilidade pelas questões domésticas, terá que ser igualmente dividida com outros membros da família.
Mulheres que participam da vida produtiva ou da vida política jamais poderão ter o mesmo sucesso e o mesmo empenho de seus competidores do sexo masculino enquanto não abrirem mão da sua imagem de rainhas-do-lar, enquanto estiverem preocupadas com o tempero do bife.
O Último Recurso
“A violência é o último recurso da incompetência”
Isaac Asimov
Quando alguém está em discordância com outro alguém e não consegue dialogar para chegar a um acordo, a uma conciliação, parte para a briga.
As razões podem ser muitas: psicológicas, emocionais, políticas ou estratégicas. Mas, seja porque for, quando a violência se instala é porque se torna impossível resolver de outro modo. Em outras palavras: não se consegue resolver de outro modo. Em mais outras palavras: se é incompetente para resolver de outro modo.
Todo violento é um incompetente.
Toda atitude de violência é uma incompetência.
Ladrões e corruptos roubam porque são incompetentes para ganhar dinheiro honestamente e fazer fortuna dentro da lei, como fizeram os Abílios Diniz e os Amadeus Aguiar da vida.
Maridos batem nas mulheres porque são incompetentes para levar uma vida sadia e feliz, incompetentes para amar, para sentir e dar prazer.
Ditaduras torturam e reprimem violentamente seus opositores porque são incompetentes para conviver com a crítica e a pressão dos seus inimigos políticos.
O exemplo da polícia de Brasília, usando a cavalaria, cassetetes e bombas de efeito moral contra um grupo de estudantes e trabalhadores desarmados e pacíficos extrapola o raciocínio acima e beira o desespero dos encurralados que, sem ter como escapar, perdem a cabeça.
Até o presidente Lula ficou horrorizado e deve ter, como eu e outros da nossa geração, se lembrado da polícia da Ditadura Militar, dos tempos insanos da tortura, da perseguição e, enfim, da incompetência dos primitivos, dos que não sabem (ou não aprenderam a)dialogar.
Igual,
porém Diferente.
As pessoas são, é claro, muito diferentes.
Nascem com dons e talentos diversos, com tendências e características genéticas próprias, crescem moldando-se pelo ambiente familiar, social e político... Enfim, como diria meu pai, o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?
Porém,
pobres ou ricos, covardes ou corajosos, ignorantes ou intelectuais, homo ou
heterossexuais, altos ou baixos, brancos, pretos, vermelhos ou amarelos, todos
têm uma coisa em comum: não podem saber com certeza porque nasceram e muito
menos porque vão morrer.
O planeta também apresenta uma incrível diversidade de formas de vida, da ameba à baleia, do fungo à sequóia.
E o Universo, uma enorme diversidade de astros, do buraco negro à estrela de maior grandeza.
Diante de tamanha maravilha, deste estonteante deslumbramento que é viver na Terra, com seus mistérios e encantos;
diante de tantas conquistas sensacionais que tiraram o ser humano da caverna, de sua condição animal e o transformaram num ser racional capaz de visitar as estrelas e saber, com um simples toque de seu dedo, tudo o que se passa nos quatro cantos da terra;
diante da enorme evolução que vivemos e sabe-se lá o que ainda viveremos e, sobretudo,
diante da morte,
como é possível que ainda exista gente tão idiota que seja capaz de se sentir superior ao que quer que seja?
Homem superior à Mulher? Branco superior a negro? Ser humano superior ao animal? Cliente do restaurante superior ao garçom? Letrado superior ao ignorante? Europeu superior ao indígena? Paulista superior ao carioca? Palmeirense superior ao santista? Presidente superior ao operário?
Este tipo de sentimento, no século XXI, na época em que se comemora a biodiversidade, o armazenamento de informações na nuvem virtual, o Nobel da Paz ao negro presidente... Nossa! Sentir-se superior é tão antiquado quanto se comunicar por telex, viajar de carruagem, fotografar com filme de celulóide e gelatina, assistir filmes no videocassete...
A igualdade de direitos e de oportunidades ainda está muito longe da imensa maioria das comunidades do planeta terra.
Mas o sentimento de igualdade começa apenas no coração de cada um de nós.
Antenado, ecológico, contemporâneo da conquista, seja apenas igual conservando as suas diferenças.
E construiremos um mundo muito melhor.
Os
que Fazem a Diferença
Todos os dias, no meu programa de TV, de 1996 a 2006, eu falei sobre alguma mulher que, por qualquer razão, passou ou vai passar para a história.
Todos os dias, portanto, uma mulher importante nasceu, morreu, descobriu alguma coisa, ou inventou, ou foi premiada... Todos os dias eu falei, na TV e no meu site, de uma mulher que fez diferença no mundo. Durante 10 anos! Haja mulher importante, hein? Rainhas, inventoras, poetas, matemáticas, escritoras, atrizes, artistas plásticas, jornalistas, religiosas, pioneiras, feministas, políticas, humanistas... São as heroínas do dia.
Nem eu mesma imaginava, quando comecei esse quadro na TV, que havia tanto a dizer sobre tantas e tantas mulheres, personagens históricas.
Em mais de dois mil anos de dominação, reduzidas a um papel social menor, muitas vezes privadas da educação formal, as mulheres deixaram sua marca no mundo. Imagine o que elas não teriam feito se houvesse igualdade de oportunidades nas diversas culturas que compuseram o planeta durante todos esses anos!
Hoje,
quando em muitos países do mundo as mulheres conquistaram tantos direitos e
estão prestes a conquistar também a igualdade de oportunidades; hoje, quando
cresce a participação feminina no trabalho, na política e até nas esferas de
decisão e de poder, quanto não poderão realizar?
Mas ainda nos surpreendemos quando uma mulher realiza alguma coisa que, antes, era apenas privilégio dos machos. Ainda é notícia a primeira pilota de avião, a primeira chofer de ônibus, a primeira ministra de estado, a primeira presidente de um país.
Chegará o dia, no entanto, em que isso tudo será banalidade. Em que mulheres e homens serão iguais (na sua diferença) em oportunidades nas sociedades, em que as mães não mais precisarão recorrer à autoridade paterna para impor respeito aos seus filhos.
Chegará o dia em que mulheres com poder serão tão absolutamente normais como homens com poder.
E quando chegar esse dia, ele será fruto da luta de algumas poucas mulheres que ousaram, que se arriscaram, que refletiram e se revoltaram contra a sua condição social.
Será a vitória de algumas, beneficiando a todas.
E, então, não haverá mais sentido em se fazer efemérides femininas num programa de televisão.
É estranho que as conquistas sociais, que os avanços sociais, sejam o resultado de uns poucos seres humanos que, generosamente, se dispõem a lutar (e a sofrer e até a morrer) para beneficiar a todos, indiscriminadamente.
Para, num futuro nem tão distante, os beneficiados esquecerem que, sem os lutadores do passado, não viveriam como vivem.
Sem as feministas, as mulheres continuariam analfabetas e sem direito à propriedade, ao voto, ao prazer sexual, à contracepção.
Sem os líderes trabalhistas, a jornada ainda seria de 16 horas/dia, não haveria nenhum benefício, nem direito, todos os trabalhadores seriam quase escravos como eram no começo da era industrial.
Mas a vida é assim mesmo: uns poucos corajosos lutam por conquistas sociais, científicas e tecnológicas para que todos – inclusive os covardes, os acomodados, os ignorantes e um bando de corruptos – usufruam.
O Grande Poder de Mudança das Mulheres
Relatório do Fundo de População das Nações Unidas ressalta o papel feminino na preservação do meio ambiente.
Não é nenhuma novidade, mas o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) acaba de divulgar seu relatório 2009 onde a conclusão é que o futuro do planeta está na mão das mulheres e também que elas são quem mais afeta e quem mais é afetada pelas mudanças climáticas e pelo meio ambiente.
Já aquelas que fazem parte do um bilhão e meio de pobres do planeta são as que menos influência tem na questão ambiental e as que mais sofrem com as consequências da agressão ao planeta. São as famílias dessas mulheres as que mais dependem da agricultura e as que mais perdem seus empregos por causa dos desastres climáticos como enchentes, secas, etc.
Oprah Winfrey – a mais bem paga apresentadora da TV americana – e Hillary Clinton tem falado e atuado no sentido de capacitar as mulheres mais pobres do mundo para a vida profissional e para uma atitude que não somente as tire da exclusão social e as torne mais felizes, mas também as façam cidadãs de primeira classe. Madonna, a rainha do pop, está indo pelo mesmo caminho e foi exatamente isso que ela veio fazer no Brasil na semana passada: ver de perto a condição social das meninas pobres e usar sua grana e sua influência para ajudá-las a sair do buraco, como já fazem a própria Madonna e Oprah na África.
O relatório da UNFPA mostra ainda a importância do investimento na educação e na saúde das mulheres mais pobres porque é isso que pode modificar a situação econômica da região onde elas vivem. Meninas com maior índice de escolaridade e mais informadas sobre a sua saúde planejam sua prole e acabam por ter famílias menores e mais saudáveis, o que fará grande diferença na preservação dos recursos naturais do nosso pobre e vilipendiado planeta.
Thoraya Obaid, diretor executivo do UNFPA, afirma ainda que hoje são 3,4 bilhões de mulheres e meninas no mundo “fazendo papel de vítima” e que certamente seria muito melhor se elas fossem transformadas em agentes de mudança.
As mulheres tem de fato um enorme poder de influência em suas famílias e em suas comunidades. São capazes de mudar o comportamento de seus homens e de suas crianças e podem, por seu exemplo e atitude, realmente promover os hábitos que levam à preservação e ao respeito pelo meio ambiente.
Se, mesmo desunidas, são capazes de tudo isso, imagine o mundo novo que criariam se – como Oprah, Hillary e agora Madonna – fossem cúmplices e solidárias.
Eles Só Pensam Naquilo
É uma reclamação constante das mulheres essa conversa de que os homens “só pensam naquilo”. Como se eles estivessem errados.
Raramente uma mulher para pra pensar que ela também deveria viver “pensando naquilo”.
A enorme repressão sexual vivida pelo sexo feminino causou, além de outras mazelas, a grande dificuldade de, até hoje, vivenciar a plenitude sexual para a maioria absoluta das mulheres.
Bom, já sei que você aqui torceu o nariz e pensou : “A Isabel está exagerando de novo”.
Desculpe, mas não estou.
Metade das mulheres paulistanas tem uma destas dificuldades: para atingir o orgasmo, ou jamais chegaram lá ou sequer conseguem saber o que é desejo.
Já cansei de escrever sobre as causas disso tudo mas nunca é demais repetir.
Quando o homem descobriu que a mulher não era aquele ser mágico que ele imaginava, não bastava deitar à luz da lua para realizar o milagre da gestação, havia a participação do homem nisso. Então o homem pensou: se a minha mulher se deitar com qualquer um o filho dela poderá não ser meu e, se ele não for meu, como vai herdar as minhas propriedades?
Assim, surgiu a monogamia. Para garantir a paternidade.
Mas o homem não estava disposto a abrir mão de sua satisfação sexual plena e essa exigia a poligamia. Por isso, o homem dividiu a mulher em dois tipos: - Uma que era para casar e gerar os filhos dele e outra era para apenas lhe dar prazer.
Não contente com isso, o homem resolveu que as mulheres direitas, aquelas que eram para casar, não poderiam ter prazer. Porque, se tivessem, certamente também não se contentariam com um homem só.
Assim, por milênios, o prazer sexual foi proibido às mulheres chamadas “direitas” e, as outras, já que eram apenas um objeto para proporcionar prazer, muitas vezes também apenas davam e raramente tinham prazer.
O que é meio século de liberdade diante de alguns milênios de repressão?
Ao longo da História as mulheres foram lidando com a sua condição de inferioridade da melhor maneira possível. Entre os muitos pontos que pautavam a inferioridade feminina, a proibição do prazer sexual passou de restrição à distinção.
As mulheres, consciente ou inconscientemente, se “vingaram” dos homens passando a dominá-los pelo prazer. Como, para elas, o prazer não era mais a necessidade absoluta que sempre foi para os homens , elas aprenderam a usar o sexo como moeda, como instrumento de barganha, como arma de manipulação.
Além disso concentraram seus interesses em outras áreas e fecharam os olhos para as muitas amantes de seus maridos, já que o queriam deles não era sexo, mas poder, dinheiro, conforto e até amor.
Hoje, quando as mulheres estão teoricamente livres para o prazer, muitas delas precisam justificar seus episódios de atração sexual com o amor ou a paixão.
Por isso é que a gente vê mulheres se apaixonando por um novo homem
a cada nova balada.
Elas precisam acreditar que amam para poder justificar o seu desejo de simplesmente ir para a cama com um sujeito qualquer.
O resultado é desencontro. Ela pensa que ama o cara que apenas desejou, o cara que apenas a desejou não pensa que a ama, pode até vir a amá-la, mas não a ama, apenas deseja ou desejou.
Por que é que ele não me telefona?
A liberdade sexual ainda passa longe das mulheres. Mas, por isso, não se iludam, também está longe dos homens, ainda amarrados aos preconceitos pouco inteligentes que eles mesmos criaram.
Mas deveríamos ser todos, homens e mulheres, heteros ou homos ou bis, a viver “pensando naquilo”. Afinal “aquilo” é a maior força criativa da humanidade e a grande fonte de equilíbrio e de felicidade.
Igualdade
Já escrevi tanto sobre a condição social das mulheres brasileiras e de todo o mundo, já fiz tantos programas de TV sobre tudo isso, que, às vezes, o assunto me cansa.
Lembro-me de, em 1975, em plena ditadura, ter conhecido um grupo de mulheres organizadas que estavam trabalhando na semiclandestinidade. Uma delas, que finalizava um livro sobre a saúde da mulher, dirigido às mais simples, disse-me em tom de desabafo:
- Sabe, Isabel, o meu sonho feminista não era exatamente estar aqui ensinando as operárias a limpar a bunda.
Trinta e cinco anos depois, sinto-me um pouco assim. Decepcionada.
Quando encontrei Ana Montenegro, uma feminista histórica, na Bahia, ela me perguntou:
- Mas nós não estamos lutando por todas as mulheres, não é, Isabel?
Ainda temos muitas mulheres que não sabem limpar a bunda e ainda temos muitas mulheres pelas quais não vale a pena lutar.
Ouvi ainda, de uma secretária de multinacional, essa pérola:
- Quem foi que disse a você, Isabel, que as mulheres querem que você lute por elas?
Pois é. A gente se mata, passa por maldita, mal amada, eteceteras, e ainda tem que ouvir coisas assim.
Na verdade, todas as mulheres que lutaram, ao longo da história, pela igualdade social, pelo fim da discriminação, pela liberdade sexual, pelos direitos de cidadania, estavam, em primeiro lugar, lutando por si mesmas.
Eu, pobre de mim, não sou nada, nessa luta, perto de tantos exemplos históricos.
Mas também lutei e luto por mim. Porque sei o meu valor como ser humano, porque gosto de mim, porque não admito que a sociedade me veja como menor do que qualquer um. Somos todos iguais, na diferença. Todos, como dizia o poeta, acabaremos “com terra por cima e na horizontal”.
Sempre me achei capaz de me sustentar sem precisar de um homem para pagar-me as contas. E, graças a Deus e às feministas, pude passar a vida sendo independente e dona do meu nariz.
E hoje sinto, sinceramente, muita pena das meninas que se vendem, que fazem do sexo uma moeda e afastam de seu destino a oportunidade de se realizarem plenamente por conta própria e por mérito próprio. Sinto muita pena de mulheres que ainda acreditam que seus homens são melhores do que elas próprias. E mais pena ainda daquelas que dizem com horror: “Não, eu não sou feminista”.
Anos e anos lendo, escrevendo, entrevistando, aprendendo sobre essa cruel discriminação sexual, me fizeram endurecer, me fizeram ver tão claramente cada manifestação do preconceito contra as mulheres (que muitas delas, é claro, não só endossam como reforçam) que eu perdi um pouco a paciência.
É, no entanto, no eco das minhas palavras, no retorno que recebo das minhas crônicas, dos meus livros e dos meus programas de rádio e TV, que eu encontro a paciência perdida. Porque o que eu digo, o que eu acredito, encontra sim o coração e alma de muitas outras mulheres que pensam como eu, mas muitas vezes nem sabem disso.
Quando percebo que minhas palavras foram úteis para outras mulheres, então passo a acreditar, de novo, que vale a pena lutar.
E assim vamos. Aviltadas, desprezadas, discriminadas no amor e no trabalho, com tripla jornada de trabalho, confundindo amor e sexo, não sabendo bem qual é o nosso novo papel no mundo, mas vamos. Em frente.
O psiquiatra Paulo Gaudêncio disse um dia no meu programa de TV que a gente quer muito que tudo mude, mas não é assim que acontece. Tudo vai mudando. Lenta e gradualmente.
Hoje eu sei que vou morrer sem ver realizados os meus sonhos da juventude, sonhos de igualdade social para todos os discriminados, negros, pobres, índios, mulheres, idosos, deficientes... A turma dos “diferentes”.
Hoje eu sei que as guerras estúpidas vão continuar, as intolerâncias brutais de quem não consegue se perceber interdependente, como somos, todos, na vida.
Sei também que cada ser humano vive num tempo diferente, embora aparentemente estejamos todos na mesma época.
Ironicamente, escolhi viver no tempo da paz e, por isso, é preciso lutar. Como lutaram Lula, Obama, Marina Silva e tantos outros, na História da Humanidade, que derrubaram preconceitos e discriminação para mostrar que os diferentes também são muito iguais.
Lutar pela igualdade de oportunidades, para homens, mulheres, negros, pobres ou quem quer que seja, significa guerrear pela paz. Não é pra quem veio a este mundo a passeio. Não é mesmo.
Se Estivéssemos Juntas...
Segundo pesquisa publicada recentemente nos Estados Unidos, as mulheres representam 70% do consumo no mundo.
E o que significa isso? Poder.
O sexo feminino, que até menos de 100 anos passados, não tinha nem o direito de votar, hoje representa uma força econômica decisiva no planeta.
No Brasil, a mulher é mais de metade do eleitorado. Para um desavisado este dado significaria um enorme poder político na mão das mulheres. Juntas, elas elegeriam quem quisessem.
No entanto não é isso que acontece simplesmente porque as mulheres estão tudo, menos juntas.
A proverbial desunião feminina é histórica, cultural.
Durante milênios as mulheres se digladiaram para conseguir fisgar o homem mais importante das redondezas. Como a única forma de ter algum poder, era exercer o poder “por trás de um grande homem” e a única forma de ter dinheiro era casar com um homem de posses, as mulheres passavam a vida traindo uma as outras (quanta mulher não “roubou” o marido da melhor amiga?), denegrindo umas às outras (quanta mulher não assiste TV pra ficar reparando nos defeitos da maquiagem, da fala, da roupa, de qualquer coisa, das apresentadoras?) e sua arma predileta sempre foi o veneno, literal ou figurado.
Bom, acontece que hoje a mulher pode ter seu próprio lugar na sociedade. É dona do seu nariz, do seu corpo, do seu dinheiro e do seu desejo.
Não é mais necessário destruir as outras para conquistar o que quiser, inclusive um homem.
No entanto... Continuamos desunidas.
Quer mais?
Outro fator que pesa na desunião feminina é o hábito de não confiar umas nas outras (Também, depois dos poucos exemplos acima, já dá pra perceber que não dá pra confiar mesmo...).
A maioria das políticas que venceram eleições foi eleita por homens e não por mulheres. Mulher não vota em mulher. Mulher não promove outra mulher. E sabe por que? Por causa do milenar complexo de inferioridade.
As mulheres passaram tanto tempo sendo cidadãs de segunda classe, mercadoria, moeda de troca que, agora, poucas felizardas conseguem se livrar – consciente ou inconscientemente – desta certeza da inferioridade, da certeza de ser menos capazes e menos competentes, em qualquer campo, do que os homens. Sendo assim, se eu mulher sou inferior, a outra mulher também é. Portanto, não voto nela, não a promovo, não a prestigio.
No entanto, se somos 70% da força de consumo do mundo e se somos mais de 50% do eleitorado brasileiro, juntas seríamos invencíveis e poderíamos governar o mundo como bem entendêssemos.
A Paz nas Mãos das Mulheres
A conversa mais atual sobre as mulheres que está rolando hoje nos Estados Unidos, puxada por Hillary Clinton e Oprah Winfrey, é a necessidade de capacitar, através do estudo e da preparação profissional, as mulheres que ainda são brutalmente discriminadas em alguns países do mundo.
Não se trata apenas da velha conversa feminista de exigir igualdade de oportunidades e igualdade na diferença.
A exigência vai, além disso, ultrapassa os direitos da mulher: trata-se de uma questão de segurança nacional e de paz mundial.
Isso porque se constatou que, em países onde a mulher ainda é reprimida e não recebe educação ou não ocupa um papel produtivo na sociedade, a violência e o terrorismo correm soltos.
É interessante notar que, desde os primórdios do feminismo, quando surgiram os primeiros movimentos organizados de mulheres que lutavam pelo direito de votar (as famosas sufragistas) e por uma condição social que as tornasse cidadãs de primeira classe, uma das grandes bandeiras do sexo então chamado “frágil” é a paz.
Agora vem a constatação que, em países onde a mulher estuda e trabalha, onde ela, portanto, tem voz ativa na sociedade, existe muito menos violência.
No feminismo mais radical e primitivo, a idéia de que não havia diferença natural entre a maneira de ser de homens e mulheres era forte. As primeiras feministas não gostavam nem um pouquinho da conversa, por exemplo, de Esther Harding (psiquiatra discípula de Yung que fez grande sucesso com suas obras publicadas nos anos de 1930) que afirmava que as mulheres eram a lua e os homens, o sol.
Ou seja: as mulheres seriam mais sonhadoras, mais sensíveis, mais ternas e mais conciliadoras, enquanto os homens trariam em si a agressividade e o desejo de dominação do nosso astro rei.
Essa idéia corresponde ao que os médicos dizem sobre os hormônios sexuais. As mulheres são estrogênicas e progesterônicas (brilhantes e maternais) e nos homens domina a testosterona, o hormônio do desejo e da agressividade.
Algumas feministas ainda podem torcer o nariz, mas a verdade é que essa diferença é real e refletiu-se em toda a nossa história cultural. E a maior diplomacia e ternura das mulheres contra a agressividade exacerbada dos homens não significa que elas sejam mais trouxas ou menos capazes que eles.
Existe um desequilíbrio no mundo que é fruto do afastamento das mulheres das esferas produtivas, políticas e – portanto – da decisão.
O mundo construído pelos homens é testosterônico demais, é agressivo demais, é violento demais.
Quando as mulheres entraram maciçamente no mundo produtivo, na década de 1980, passaram pela fase da masculinização. Até a moda refletia isso, nos paletós com enormes ombreiras usados pelas executivas. Elas realmente precisavam de ombros largos – característicos dos homens – para enfrentar a barra de desafiar os preconceitos gerados por milênios de discriminação e se afirmar como seres tão competentes quanto os homens.
Hoje, porém, as mulheres já não precisam se masculinizar para serem aceitas no mundo produtivo.
Está na hora, portanto, de trazer os valores tipicamente femininos para este mundo testosterônico.
Aliás, essa é a tônica de um dos meus livros publicados, a contribuição que a mulher – com a cultura do universo feminino, com sua intuição e sua maior emotividade – pode e deve dar ao mundo.
Vemos agora os estudos americanos apontarem para a evidência de que as nações são menos violentas quando tem mulheres ativas.
Os Covardes e as Sandálias Havaianas.
É inacreditável: foi só o comercial das sandálias Havaianas colocar uma vovó dizendo pra neta que vale a pena fazer amor apenas por prazer pra que uma chiadeira nacional banisse o tal filme de propaganda para o “ostracismo” da Internet.
Diante do escândalo causado pelo comercial, a empresa optou por veiculá-lo na Internet, certamente apostando na maioria jovem da audiência da web.
É um festival de preconceitos, porque a verdade é que:
- tem muita gente de idade avançada na Internet;
- tem muito jovem preconceituoso;
- tem muito velho liberal e de mente aberta
- e sexo, prazer sexual, nada tem a ver com o amor.
Parabéns para a agência de propaganda que criou o filme e para o executivo das Havaianas que o aprovou.
Vaias para a Rede Globo que, reforçando o preconceito, diz que é de sexo o programa que é de amor e relacionamento.
Há muito eu tenho falado sobre as muitas tristes consequências desse antiquíssimo preconceito de unir o sexo ao amor.
Isto deriva de uma sequência de mentiras que se perpetuaram ao longo da história da humanidade.
A repressão sexual e social da mulher tem razões políticas e econômicas.
Quando o homem descobriu que ele tinha um papel na concepção, a mulher deixou de ser venerada como um ser especial que tinha a capacidade de gerar. E pior que isso: havia o risco, então, dela gerar filhos de diferentes homens.
Com o advento da propriedade, imagine que horror seria a mulher do dono da terra ter um filho do vizinho. Seria então o filho do vizinho quem herdaria a terra do homem dela.
Foi assim, portanto, que surgiu a monogamia.
Mas a monogamia foi inventada apenas para a mulher. O homem, é claro, jamais renunciaria à sua natural poligamia.
Por isso o homem – que já havia inventado a posse da terra e a consequente posse da mulher – inventou dois tipos de mulher: a que é para gerar os filhos dele e a que é para dar prazer a ele.
Ao sexo feminino, ao longo da história da nossa cultura, muita coisa foi negada às mulheres: a propriedade, a plena cidadania, a educação, a opinião própria, a liberdade de iniciativa e o prazer sexual.
A partir do final do século XVIII, na sociedade ocidental, algumas mulheres começaram a contestar todas as suas limitações. No século XIX apareceram as sufragistas, lutando ferozmente pelo direito de votar. Na primeira metade século XX perceberam que jamais seriam livres se não fossem donas de seu corpo e de seu dinheiro. Na segunda metade do século passado começaram a concretizar todas essas antigas reivindicações.
Foram para o mercado de trabalho, invadiram as universidades e, afinal, mostraram ao mundo que eram, sim, iguais na diferença.
Mas ainda não conquistaram a verdadeira liberdade sexual.
Mesmo entre as mais jovens – algumas já assumem seu desejo puro e simples – ainda existe essa conversa de “sexo pra mim só com amor”.
Este é um enorme preconceito que causa inúmeros problemas na relação homem-mulher.
Um homem, quando deseja alguém, simplesmente assume que deseja. Uma mulher, quando deseja alguém, pensa que está apaixonada.
As mulheres precisam, ainda, justificar o desejo com o amor, a paixão.
Séculos de repressão sexual ainda estão presentes na maioria das mulheres.
A maior queixa feminina nos ambulatórios médicos de sexologia é a ausência de desejo, a falta de orgasmo. Cerca de 90% dessas queixas são de origem sócio-cultural e só 10% de origem orgânica.
Poucas, infelizmente, são ainda as mulheres capazes de assumir seu desejo, como a vovó do comercial das Havaianas.
E é muito triste que essas ainda escandalizem parte da nossa sociedade, essa parte que vive um falso moralismo, um moralismo hipócrita e covarde.
Jogando Pra Perder
Talvez porque tenham tido, ao longo da História da Humanidade, que usar de muitos subterfúgios para sobreviver num mundo que as desvalorizava, as mulheres até hoje conservam algumas características que vem do tempo em que lutavam com unhas e dentes para conseguir um bom homem, já que um bom homem era a única maneira de ter algum destaque na sociedade.
O veneno (literal ou figurado), a desvalorização constante de qualquer outra mulher, a incrível desunião, a ausência de cumplicidade, a fragilidade da amizade, tudo isso ainda existe no universo feminino e é fruto da discriminação. Sim, porque a discriminação social gera a desunião e a competição desleal. Isso acontece com todos os segmentos discriminados de qualquer grupo social.
Mas de todas essas características indesejáveis que ainda sobrevivem em muitíssimas mulheres, a mais terrível para a sua própria felicidade talvez seja a milenar mania de usar subterfúgios e joguinhos adolescentes para “conquistar” um homem ou “prendê-lo”.
Isso, reafirmo, vem do tempo em que, para ser alguém, a mulher tinha que ter um homem do lado. Aí, valia tudo.
Hoje em dia usar joguinhos no relacionamento homem-mulher é um grande equívoco e certamente a maneira mais eficaz de assegurar o fracasso – a curto ou a longo prazo – do relacionamento.
Nenhuma relação vai se segurar se não for baseada na confiança, na cumplicidade e, principalmente, na sinceridade. Ah, e, sem dúvida, em uma grande afinidade sexual.
A mania feminina de confundir desejo com paixão, de justificar o sexo com o amor, a ausência de desejo ou de prazer, todas essas péssimas interpretações do sexo, são obstáculos femininos para uma relação feliz. São também de origem, na sua absoluta maioria, sociocultural e devem ser tratados por especialistas, de preferência com formação em Medicina e Sexologia.
Dessa disfunção sexual crônica vem o joguinho número um: fingir na cama.
Fingir orgasmos é fácil para as mulheres e impossível para os homens. Mas por quanto tempo uma mulher vai conseguir fingir? Um dia ela cansa e começa a evitar o sexo, vem a famosa dor de cabeça, a eterna indisposição.
Mas não adianta se iludir: para os homens, o sexo é absolutamente fundamental na relação. Então as fingidoras acabarão inevitavelmente traídas ou trocadas.
O joguinho número 2 é aquele de não fazer sexo logo no primeiro encontro, nem no segundo, se fazer de difícil e de rogada, julgando assim que ele vai enlouquecer de tesão e, quando finalmente a boboca for pra cama com ele, ficar tão agradecido e feliz que tenderá a perpetuar o relacionamento. Na maioria das vezes, o homem se enche da história dessa “dificuldade” para uma coisa tão simples e natural como ir pra cama. E, acredite minha amiga, quando ele se enche, você dança.
Existem muitos outros joguinhos. Existem até livros de (suposta) autoajuda que “ensinam” essas “técnicas”. Não leia. E se leu, não use.
A manutenção de um relacionamento feliz exige amor, muito sexo bem feito, compreensão, diálogo franco, enfim: alma limpa! Falo de cátedra, pois tenho uma vida conjugal feliz há 26 anos.
Se você quer um amor limpo, nunca jogue sujo.
Se você tem dificuldades sexuais, os serviços de sexologia dos hospitais estão aí para resolvê-las para você.
Afinal, depois que as nossas avós lutadoras conquistaram um novo lugar para nós na sociedade, os joguinhos servem apenas para por tudo a perder.
O Sopro e A Onda
A Phillips divulga nesta semana, através de sua assessoria de imprensa, uma pesquisa internacional sobre os problemas do sono.
Nela, Charles Kreisler, professor de Medicina do Sono da Harvard Medical School, afirma: “O sono não é opcional – é absolutamente crucial para a saúde das pessoas”.
O sintoma apontado como número um da falta de sono foi diminuição da paciência e da tolerância.
A pesquisa foi feita com executivos mas eu gostaria de ver uma pesquisa semelhante com mulheres na menopausa, fossem elas executivas, donas de casa,pobres, ricas, de qualquer nacionalidade ou raça... enfim, todas!
Porque todas as mulheres que chegam à menopausa sofrerão, por um dia ou por anos a fio, as horrorosas ondas de calor.
A pesquisa da Phillips constata o que todos os torturadores do planeta, desde que o mundo é o mundo, estão fartos de saber: prive o infeliz do torturado do sono e você terá quase 100% de eficácia na tortura.
Dormiu? Jogue um balde d’água nele, aplique um choque elétrico, queime a sua mão... Faça-o acordar até que ele desmaie.
Ou mais simples: programe você, para experimentar a barra pesada, o seu celular para tocar de hora em hora durante a noite e veja como você se levantará no dia seguinte. É isso que acontece com as mulheres menopausadas: acordam em intervalos de uma hora ou duas, no meio da noite, tomadas por uma horrenda onda de calor.
Imaginou?
Depois desse exercício, qualquer pessoa, da mais incompreensiva ou intolerante à mais machista, pensará duas vezes antes de criticar a mamãe, a vovó, a titia ou a colega por ela estar assim tão “inexplicavelmente” irritada se até já passou da época da TPM.
Pois é. Mal se livrou da menstruação e da irritação da TPM vêm as malditas ondas de calor para acabar com a paciência de qualquer mulher, por mais boazinha que ela possa ser.
Então a esta altura do campeonato você pode estar pensando que um bom médico poderia facilmente dar um jeito nisso.
Será mesmo ou esse é mais um mito da classe dos mitos “acalma mulher”?
Existe a famosa Terapia Hormonal da Menopausa (que antes se chamava Reposição Hormonal): Tome hormônios e livre-se de vários “sintomas” da menopausa, entre eles a onda de calor.
Fácil né?
Uma ova.
Começa que, a cada ano, surge uma nova pesquisa falando contra ou a favor desta ou daquela maneira de se fazer a tal da terapia hormonal. Já se disse que ela beneficiava o coração e hoje se diz que ela pode prejudicar o coração. Já se disse que ela causava cânceres ginecológicos e hoje está na moda dizer que o risco de câncer é muito pouco aumentado e que “os benefícios superam os riscos”. Ah, ótimo. Então mesmo que 1 mulher em 100 mil desenvolvesse câncer, as outras 99 mil ficariam só com os benefícios, mas e se fosse eu essa mulher 1? Risco é risco. Se não fosse importante ninguém jogava na loteria, afinal a chance de ganhar é 1 em um milhão, mas alguém ganha, né?
Você se arriscaria a ganhar um câncer?
Aí vem os adeptos da fitoterapia e os não menos famosos naturebas. Soja e outras plantinhas acabariam com o calor. Ninguém nunca provou e eu conheço montanhas de mulheres que experimentaram e não deu certo. Nem em remédios fitoterápicos, nem em chazinhos caseiros.
E aqui é preciso lembrar que não basta ser “natural” para estar livre de efeitos colaterais. O efeito colateral do natural arsênico é a morte. Além disso, eu vivo dizendo que natural mesmo é morar na caverna.
É claro que muitas mulheres já experimentaram tanto a terapia hormonal como alguns dos fitoterápicos conseguiram ficar satisfeitas, felizes, sem calores, etc.
Mas essas “muitas” são uma minoria muito pequena. Entre elas, algumas tiveram câncer. Outras engordaram e ouviram dos seus médicos que “engordar na sua idade é natural”. Outra mentira cabeluda pra salvar a terapia das acusações. O metabolismo pode ser menor, depois dos 50, mas o apetite também é. Engordar não é uma sentença da idade, quase sempre é por causa dos medicamentos mesmo.
E, para terminar, todos esses remédios tem preços absolutamente proibitivos para a maioria do nosso povo.
Porém, se servir de consolo e esperança, vale aqui lembrar que a saúde da mulher, em sua atenção integral, é coisa muito nova, existe de umas duas décadas pra cá apenas. Antes, os médicos viam as mulheres apenas como um aparelho reprodutor, mais ou menos como uma vaca parideira.
A Atenção Integral à Saúde da Mulher, um conceito praticado hoje por quase a totalidade dos ginecologistas, é uma conquista feminista que, no Brasil, muito deveu aos movimentos organizados de mulheres e ao apoio de corajosos médicos como Albertina Duarte, Tânia Santana e o nosso saudoso José Aristodemo Pinotti, entre outros.
É preciso a presença feminina na Ciência e na Medicina para que se pesquise soluções para os problemas específicos das mulheres.
Um exemplo típico é o surgimento dos modernos absorventes íntimos. Por milênios as mulheres tiveram que suportar aquela sujeirada menstrual entre as pernas, primeiro com as toalhinhas e depois com aqueles absorventes enormes e desconfortáveis. Foi preciso que, nos anos 1980, uma médica alemã inventasse o OB para libertar as mulheres desse suplício mensal. (Ainda que, até hoje, muitas mulheres altamente reprimidas sexualmente se recusem a usar a comodidade dos absorventes internos por medo de manipular seus próprios órgãos sexuais e pelo preconceito resultante de milênios de repressão sexual que gerou um imenso desconhecimento da genitália feminina por parte das próprias mulheres e também dos homens).
Como as mulheres começaram a entrar na Medicina e na Ciência de uma forma maciça apenas a partir da década de 1970, e a alcançar projeção nessas áreas apenas em meados de 1980, faça a conta: é agora, em 2010 que as cientistas, pesquisadoras e médicas começarão a entrar na menopausa. Aí, minha amiga, para a nossa felicidade, elas descobrirão uma maneira bem melhor de nos livrar dos incômodos da menopausa.
Pois, como já dizia a minha sábia e falecida mãe, se os homens ficassem grávidos, o aborto jamais teria sido proibido. Há muito eles teriam estabelecido, para a sua própria conveniência, que a vida só começa quando o bebê sai do corpo da mãe e recebe nos pulmões a primeira golfada de ar; como está na Bíblia: o sopro da vida.
Sexo Grupal e Monogamia
Bom, agora que o filme Os Normais 2 tocou no assunto, todo mundo vai ter coragem de desenrolar o tema.
Coragem de fazer, muita gente já tem e sempre teve, ao longo da história da humanidade. Assumir é que é difícil.
A verdade é que, em matéria de sexo, somos todos uns hipócritas.
A coisa estava bem arranjada para e pelo sexo masculino.
O homem era o sexo forte, a mulher, o fraco.
O homem sustentava a mulher, que não tinha direito a nada, a não ser ter filhos e governar a casa ou, então, virar mulher “fácil”. Mulher raramente estudava. Raramente trabalhava (sempre em posições extremamente serviçais). Não podia ter propriedades e muito menos prazer sexual.
O sexo feminino era dividido em dois grandes grupos: as direitas e as outras.
Com as direitas os homens casavam, copulavam só pra fazer filhos e, se alguma delas reivindicasse qualquer coisa ou se recusasse a engravidar, ou, ainda, se tivesse o atrevimento de querer conhecer o prazer sexual, muito provavelmente passaria o resto de seus dias trancada num convento ou num hospício.
Com as outras, os homens faziam sexo. Com uma ou mais de uma ao mesmo tempo. Pagavam para que elas lhes dessem prazer e não estavam nem aí pro eventual prazer delas.
Aqui você suspira aliviada: ainda bem que tudo mudou!
Será que mudou?
Os garotos de hoje ainda separam as garotas em “menina do bem” e “menina do mal”. Ou seja, a “do mal” é aquela que ousa ser sexualmente livre. Com essa, só se transa, nunca se casa.
As mulheres adultas, independentes, donas de sua conta bancária e supostamente de seu destino, na maioria, são as mesmas que se recusam a ir para a cama no primeiro encontro com medo do que “ele” vai pensar dela. Ou seja: são tão submissas e dependentes da aprovação do homem como foram suas avós.
A verdade histórica, nunca mencionada, é que os homens inventaram a monogamia apenas para as mulheres. Eles sempre tiveram mais de uma mulher, sempre tiveram casos extraconjugais, amantes fixas (as “teúdas e manteúdas” na linguagem jurídica) e sempre mentiram tanto para as esposas quanto para as amantes.
Agora, que as mulheres conquistaram a independência econômica, a cidadania plena e o direito ao prazer, será que se contentarão em continuar tendo um homem só? Será que continuarão fingindo que o sexo só existe com amor?
E, na hora do swing?
Sempre duas mulheres com um só homem?
Ou sexo grupal com homens casados e garotas de programa?
Homens podem admitir sexo grupal, mas quase nunca com a esposa.
E por que não dois homens com uma mulher?
Desde que o mundo é mundo, gente avançada como o pintor Salvador Dali, só pra dar um exemplo clássico, assume tranquilamente que a monogamia é uma mentira hipócrita para tentar “ajeitar” de maneira socialmente conveniente a questão do prazer sexual.
Dali amava Gala, sua mulher, e Gala era apaixonada por Dali. Mas eles faziam sexo com os amigos. Dali, Gala e uma amiga. Dali, Gala e um amigo. Dali, Gala e um casal de amigos. E assim por diante.
Mas não eram os únicos.
Muita gente viveu plenamente seus desejos sexuais sem fazer o joguinho hipócrita da mulher “do bem” e da mulher “do mal”.
Da antiguidade até os dias de hoje existem pessoas que ousam viver a verdadeira liberdade sexual sem dar nenhuma bola pra torcida.
Costumam ter a pele e os olhos mais brilhantes, são mais saudáveis, menos neuróticas e bem mais felizes do que os que se acovardam no modelo hipócrita. Infelizmente, a maioria.
Estela,
do Paulicéia
No
começo da década de 1950, José e Maria Rita, os pais de Estela, foram
convencidos, por um amigo, a investir num dos primeiros edifícios residenciais
que estava sendo construído na Avenida Paulista. Com projeto de Jacques Pilon e
Gian Carlo Gasperini, o prédio estava sendo erguido entre as Alamedas Campinas e
Joaquim Eugênio de Lima e prometia ser tão luxuoso quanto eram as mansões da
avenida, reduto da elite paulistana. Além disso, ocuparia o terreno onde fora
construída a primeira residência da Avenida, logo depois de sua inauguração em
1891 (residência de Von Bullow, foto de 1902).
José e Maria Rita haviam alcançado uma situação econômico-financeira razoável, mas vinham de uma origem humilde, eram gente do povo mesmo. Ela, que desde menina, trabalhara no magistério, primeiro como auxiliar de classe, enquanto ainda cursava o Normal, acabara se tornando uma das sócias de uma escola pequena, mas muito bem sucedida, na zona sul da cidade. Ele, que começara sua vida fotografando, com uma máquina emprestada de um cunhado, os prédios da cidade, na década de trinta, acabara por se tornar um dos mais bem sucedidos fotógrafos de São Paulo, comandando uma equipe de profissionais, em seu próprio estúdio, que se encarregavam de registrar o ritmo cada vez mais frenético da arquitetura paulistana.
Pois fora justamente um cliente, que se tornara amigo da família, que falara ao casal desse novo empreendimento do escritório de Gasperini, esse um arquiteto de origem italiana, jovem ainda, que adotara o Rio de Janeiro e, depois, São Paulo, como seu lar e prometia ser um dos maiores nomes da arquitetura brasileira.
Embora Maria Rita não quisesse nem pensar em morar em apartamento e, ainda mais, dizia ela, em plena Avenida Paulista, lugar de gente rica, acabou concordando com o marido. Era um bom investimento. O prédio, depois de erguido, acabaria se valorizando naturalmente e dinheiro para investir, felizmente, havia. Tanto a escola como o estúdio de fotografia estavam, nos últimos anos, pós-guerra, se revelando uma excelente fonte de renda para o casal. Foram ao local, examinaram as obras e o projeto.
No
vasto terreno, antes ocupado pela primeira mansão da avenida, de propriedade de
Von Billow, dono da cervejaria Antártica, seriam erguidas duas torres: uma de
frente para a Paulista, o Edifício Paulicéia, e outra de frente para a Rua São
Carlos do Pinhal, o Edifício São Carlos. O condomínio teria assim duas entradas.
Os prédios seriam estreitos e os apartamentos teriam janelas para os dois lados.
No caso do Paulicéia, as salas teriam ampla visão para a avenida e os quartos
dariam para o jardim interno. Uma beleza, o jardim – explicava o jovem corretor
Manoel.
E a garagem! Ocuparia todo o espaço do subsolo do terreno, podendo acomodar os grandes automóveis rabos de peixe que estavam na moda.
Os prédios apresentavam quatro versões de apartamentos: de quatro, três, dois e um dormitório. “Assim- explicava o jovem Manoel – as famílias do interior, por exemplo, que mandassem seus filhos estudar na capital, poderiam instalá-los num apartamento de menores proporções, mas com todo o conforto dos demais, como a água quente abundante que jorraria das torneiras e dos chuveiros, graças a uma potente caldeira a óleo, que seria colocada no subsolo.
Sim –explicava Manoel – porque a apenas clientes indicados pelas melhores famílias da cidade estavam sendo oferecidos os apartamentos”. Nenhum anúncio em jornais ou revistas. Todos os potenciais compradores estavam vindo por indicação de conhecidos dos empreendedores” . E esta seria uma tradição que se estenderia, afinal, nos edifícios, por décadas e décadas.
Maria Rita gostou do tamanho das janelas. “Se um dia eu viesse morar aqui – pensou ela – poderia ter grandes vasos de plantas nas salas ensolaradas”.
O casal optou por um apartamento de três quartos, no Paulicéia, de frente para a Paulista, no sétimo andar.
Quando
o prédio foi inaugurado e foram ver o apartamento pronto, Maria Rita se
apaixonou. Era lindo! Amplo, claro, confortável, luxuoso. E de frente para a
Avenida, que tinha apenas mais dois prédios, mas que prometia um futuro aonde
todas aquelas maravilhosas mansões e seus enormes jardins iriam cedendo, cada
vez mais, seus espaços para outros edifícios. Embora ela gostasse da casa onde
moravam, ali perto, na Rua Vergueiro, comparada ao novo apartamento, sua casa
parecia muito, muito antiga. Mudaram-se. E foi ali, na Avenida Paulista, que,
pela primeira vez naqueles quinze anos de casamento, Maria Rita conseguiu
engravidar e o casal teve sua primeira e única filha, a quem chamaram de Estela.
O
futuro realizou todas as previsões do casal, naquele começo dos cinqüenta.
Gasperini se tornou um dos mais importantes arquitetos da cidade, sendo
responsável, entre outros, pelo prédio sede do jornal O Estado de S.Paulo, na
Rua Major Quedinho; pela Galeria Metrópole, na Rua Augusta e mais tarde, no fim
da década de oitenta, pelo revolucionário prédio azul do City Bank, na mesma
Paulista, quase em frente ao Paulicéia.
As mansões da avenida deram lugar aos mais imponentes edifícios, a começar pelos mais antigos, como o próprio Paulicéia, o Conjunto Nacional (que, em 1957 abrigou o chiquésimo Fasano, em cujo jardim de inverno se apresentaram artistas como Nat King Cole e Marlene Dietrich) e tantos outros, que se tornaram famosos, como o prédio-pirâmede da Federação das Indústrias do Estado ou residencial Baronesa de Arary, onde morou Cacilda Becker.
No final do século XX, a Paulista era o símbolo de São Paulo, todos os bancos e escritórios importantes estavam ali instalados e das velhas mansões quase nada sobrara, a não ser um casarão decadente, um outro preservado pela cadeia de lanchonetes Mac Donald e a famosa Casa das Rosas, projetada por Ramos de Azevedo em 1935 e que virou espaço público. Sobreviveram ainda o prédio do Instituto Pasteur e o colégio Rodrigues Alves, construídos nos primeiros anos do século XX.


A última mansão a ser destruída, por uma bomba, pelo proprietário que temia vê-la tombada pelo Patrimônio Público, fora a famosa casa dos Matarazzo, na esquina da Rua Pamplona, no fim da década de oitenta.
Havia ainda o Parque Trianon (que preservava a flora original de 1891, quando a avenida fora construída por Joaquim Eugênio de Lima) e o MASP, Museu de Arte de S.Paulo, de Lina Bo Bardi e Pietro Maria, que abrigava um dos mais ricos acervos de arte do país. Isso sem contar o comércio, galerias de arte, institutos culturais, cinemas, restaurantes e uma multidão que circulava pela avenida todos os dias. No prédio da Fundação Cásper Líbero, onde a partir da década de sessenta, funcionavam os estúdios da TV Gazeta e também o mais famoso cursinho pré-vestibular, ali, bem ao lado do Paulicéia, a Rede Globo de Televisão instalara sua maravilhosa antena-torre, visível de quase toda a cidade. Antenas e heliportos se espalharam pelo alto da Paulista. A avenida se tornou uma amostra do mundo.
Estela
cresceu e foi mudando junto com a avenida. Cresceu como uma menina mimada, de
classe média alta, freqüentando os melhores lugares da cidade, nos Jardins,
sendo educada nos melhores colégios, fez seu pré-vestibular ao lado de sua casa,
experimentou maconha sentada nas escadarias do Objetivo e da Fundação e cursou a
Faculdade de Economia do tradicional Colégio São Luiz, dos jesuítas, ali no
final da Avenida, quase esquina com a Consolação.
Com uma educação privilegiada, com a casa dos pais freqüentadas por intelectuais e jornalistas, era inevitável que Estela, na adolescência, fosse engrossar a turma de jovens brasileiros burgueses que eram contrários à ditadura militar que se instalara no país, jovens que compunham o que se convencionou chamar de “esquerda festiva”, que liam todos os profetas da década, de Marcuse à McLuhan; idolatravam Mao, Fidel e Guevara, mas também tinham simpatias por Kennedy e ouviam jazz. Beatles, bossa nova e mpb. Eram da turma “fino da bossa” e acreditavam que os da ala “jovem guarda” eram apenas alienados. Mesmo assim, Estela quase desmaiou de emoção quando um dia, entrando no elevador, deu de cara com nada mais nada menos do que o Rei da Jovem Guarda, o cantor Roberto Carlos.
Descobriu, assim, que ele estava querendo ser seu vizinho, morar também no Paulicéia. O problema é que os moradores temiam uma invasão de fãs no prédio e deram um jeito de convencer o proprietário a não alugar para o cantor. Aliás, Roberto não seria a única celebridade que Estela encontraria no elevador de seu prédio. A jornalista de moda, Regina Guerreiro; o crítico de arte, Jacob Klintowitz; o cantor Wilson Simonal; o maestro Diogo Pacheco; o famoso produtor musical Zuza Homem de Mello; vários cônsules de países importantes; a apresentadora de TV, Marisa Leite de Barros; a escritora Isabel Vasconcellos e outras personalidades foram, algum dia, moradores do Paulicéia.
Mas, com o passar do tempo e a invasão dos grandes edifícios comerciais, o prédio foi decaindo. Não era mais chique morar na Avenida Paulista. Novos e modernos edifícios comerciais, em outros bairros, passaram a ser considerados “nobres” e o perfil dos moradores foi mudando. Muitos proprietários começaram a alugar seus apartamentos para executivos estrangeiros, de passagem pelo país. Gente que trabalhava nas imediações achava confortável morar ali. E assim, poucas famílias dos primeiros anos restavam, a população do Paulicéia tornou-se diferente e muito variada. Mas José e Maria Rita não queriam nem ouvir falar em mudar. Na verdade, nem Estela.
Diferentemente, por exemplo, do Baronesa de Arary (que teve que ser desocupado em 1993 para não correr o risco de pegar fogo, dada a precariedade de sua manutenção) o Paulicéia conservou-se em ordem, graças ao homem que foi seu Síndico por décadas, Manoel (que antes fora apenas o corretor e agora tinha vários apartamentos nos prédios do condomínio).
O prédio tinha algumas figuras que faziam parte de sua história e que trabalhavam pela manutenção de seu nível de conforto: os irmãos André e Cláudio, encanadores, que tinham na cabeça todo o sistema hidráulico dos edifícios; Walter, o velho marceneiro, responsável pela confecção de todas as estantes da biblioteca de José e Maria Rita e por tantos outros móveis em tantos outros apartamentos; Luiz, o zelador português que estava lá desde a inauguração e só se aposentou no final dos anos 90, cedendo seu lugar ao Edson, por anos seu fiel escudeiro; Antonio, o porteiro da garagem; Thiago, o homem-sorriso... e tantos outros!
Estela gostava daquele prédio, gostava das pessoas que trabalhavam ali, conhecia cada planta do jardim, onde passara horas brincando quando era criança. Aliás, sofrera muito quando, no começo dos anos 70, a avenida fora alargada e roubara uns bons metros do jardim da frente do condomínio. No do fundo havia uma enorme touceira de azaléias, de todas as cores, que formavam uma espécie de “caverna” no interior, onde ela frequentemente se abrigava, quando não queria ver ninguém, para ler um livro. Mesmo, depois de adulta, às vezes ainda fazia isso.
Quando terminara sua faculdade, no meio dos anos setenta, Estela foi mandada pelos pais, que temiam as conseqüências das atividades e relações de sua filha com o pessoal da esquerda, para estudar na França.
Voltou na época da anistia e encontrou um clima de festa no Brasil. Reviu os amigos e, para a surpresa de José, embora tivesse um currículo excelente e pudesse conseguir boa colocação no mercado de trabalho, Estela preferiu ir trabalhar com o pai.
Maria Rita, no começo dos anos oitenta, deixou a escola, vendendo a sua parte na sociedade e morreu logo depois, vítima de um repentino e fulminante câncer de esôfago. José morreu seis meses mais tarde, fumante inveterado, de câncer no pulmão. E Estela se viu sozinha no apartamento e no estúdio de fotografia que, graças a Deus, conservava seu movimento e sua clientela e lhe permitia viver sem preocupações.
Embora mantivesse alguns amigos de infância e da juventude, embora freqüentasse os mais badalados eventos culturais da cidade, os melhores shoppings, cinemas, teatros, restaurantes e cabeleireiros, Estela sentiu-se ainda mais só, depois do súbito desaparecimento de seus pais. Já estava com mais de 30 anos e apesar de ter namorado alguns dos mais cobiçados partidos da cidade, parecia que os homens da sua geração haviam preferido unir-se a mulheres menos intelectuais e menos independentes do que ela.
Muitos amigos e parentes estranhavam que ela, depois da morte dos pais, continuasse a viver no Paulicéia. “Mude-se para o Portal do Morumbi. Ou para o Panambi. Ou para Moema” – diziam. “Não tem sentido morar no meio da Paulista”. Mas Estela apenas ria. “Adoro aquele prédio, nasci e cresci lá, adoro meu apartamento e adoro a Paulista”, ela respondia. Depois da morte de sua mãe, que deixara mais de 70 vasos no apartamento, incluindo duas bananeiras, um coqueiro e uma imensa árvore da felicidade, Estela foi obrigada a aprender a cuidar das plantas e descobriu, nesse cuidado, uma atividade fascinante. Ela costumava rir da mãe, sempre preocupada com as plantas, e só quando teve que cuidar ela própria percebeu que se estabelecia, sim, uma forte e gratificante relação entre ela e aqueles serzinhos vegetais que respondiam tão evidentemente à sua atenção.
Em 1991, quando Estela ia completar 38 anos, a Paulista comemoraria seu centenário. Ela foi convidada a ir a uma reunião, no Clube Holms, da recém criada Associação Paulista Viva, que seria responsável pela comemoração. Lá ficou conhecendo as bisnetas de Joaquim Eugênio de Lima, o empreendedor que idealizara e criara a avenida, Newmar e Vera Helena, e com estas aprendeu muito sobre a história da Paulista. Estela nascera e crescera na avenida e surpreendeu-se ao perceber que nada sabia, até então, de sua história. A avenida fora concebida por seu criador para ser, de fato, o abrigo das elites paulistanas do fim do século XIX. Para que ela fosse uma linha reta, de dois quilômetros de extensão, indo do Paraíso à Angélica, Eugênio de Lima teve que aterrar o vale que cortava o morro do Caaguaçu, criando assim a necessidade de se construir, cinqüenta anos depois, um túnel na Avenida nove de Julho. O empreendedor tinha já, naquele tempo, suas convicções ecológicas e trouxe um paisagista francês para preservar, no Parque Trianon, parte da mata Atlântica original que ocupava a região. Calçou a avenida de pedras brancas e a ladeou por árvores. O empreendimento foi inaugurado a 8 de dezembro de 1891. A elite prestigiou a iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima. Em 1895 era inaugurada a primeira mansão, de uma série de outras que viriam, exatamente no terreno onde fora erguido o edifício Paulicéia. Em 1909, a Paulista viria a ser a primeira via asfaltada de São Paulo, com material importado da Alemanha.
Caminhando de volta do clube Holms para sua casa, uns poucos metros, fitando a moderna Paulista, com sua rica imponência, naquela noite estrelada, Estela sentiu-se, de repente, muito, muito só. Morava ali, no centro da efervescência daquela metrópole, cercada de muita gente, muito barulho, muita confusão. Mas o que a aguardava, no apartamento onde nascera e onde, agora, morava sozinha, eram apenas suas plantas, seus “discos e livros e nada mais”, como dizia a velha canção. Seus amigos iam e vinham. Mas cada um tinha a sua própria vida. Seus namorados eram tão efêmeros quanto as suas flores e a lembrança da alegria dos seus pais, que habitava as paredes do apartamento, era uma saudade doída. Estava tudo bem. Gostava de sua casa, de seu trabalho, de sua vida, mas sabia que lhe faltava um companheiro, filhos, uma família. Faltava mais que isso. Faltava um ideal, um objetivo, uma razão para viver. E isso a entristecia.
Estela percebeu de repente que, naquela noite, conversando com as bisnetas de Eugênio de Lima, havia tido um momento de alegria, como, há muito, não havia. Tudo era bom em sua vida, mas morno, previsível, rotineiro. A música e os livros costumavam, antes, lhe dar uma certa alegria. Mas, nos últimos tempos, já não era assim. Nos últimos tempos, nem mesmo o cinema, o teatro, nem as conversas divertidas no cabeleireiro, nada... Até das plantas andava se descuidando. E nunca mais se escondera, dentro da touceira de azaléias, para devorar um livro querido. Tudo se tornara uma sucessão de dias iguais, administrando as contas e os eventuais problemas do estúdio, dirigindo no trânsito, saindo cedo e chegando tarde, vendo TV, comendo sozinha o jantar que a empregada deixava pronto. Nem mesmo a empregada, que sempre tinha uma história engraçada para contar, ela estava encontrando.
Entrou em casa, sentindo o peso da solidão e foi até o escritório, contíguo à sala, onde uma das paredes era totalmente forrada por fotos feitas por seu pai. Havia paisagens, momentos familiares, flagrantes do cotidiano da cidade e, muitas, muitas retratos seus, em diversas épocas de sua vida, desde quando era um bebê até o final da adolescência. Havia também uma foto, tirada por ela há mais de 10 anos, de seus pais, juntos e rindo. “Cresci num lar feliz”, concluiu ela olhando detalhadamente para aqueles flagrantes na parede. “Mas para que? Para acabar assim, quarentona e solitária, numa vida medíocre e rotineira?”.
Tomou um uísque e foi dormir. Um sono sem sonhos. Na manhã seguinte, a empregada chegou cedo, risonha como sempre. Estela tomou um café reforçado, deu uma olhada nos jornais e, sem muita vontade, arrumou a bolsa para ir para a academia. A porta do elevador se abriu no saguão de seu apartamento e ela entrou. Lá dentro, sozinha, estava uma menininha de seus 7 ou 8 anos de idade. Estela disse um bom dia e a menina sorriu. Estela quase desmaiou ao olhar para o rosto da menina. Ela era igualzinha a uma das fotos que admirara na noite anterior, era igualzinha a ela própria, Estela, naquela idade. Até as roupas pareciam um tanto antiquadas. O corte da cabelo, tudo. A menina, talvez um pouco incomodada com o olhar assustado de Estela, levou a mão direita ao cabelo e ajeitou uma mecha. Então Estela viu a pinta no dorso da mão dela. Era exatamente igual à pinta que Estela tinha na mão. Mostrou a própria mão a ela e disse, tentando aparentar uma naturalidade que estava longe de sentir:
- Veja, que coincidência! Eu tenho uma pinta igualzinha à sua na minha mão!
A porta do elevador se abriu, tinham chegado ao térreo. A menina sorriu de novo e saiu correndo. Estela ia para a garagem mas, confusa e assustada, desceu no térreo.
- Bom dia, dona Estela – disse o porteiro, Thiago, que a conhecia desde criança. Posso ajudar em alguma coisa?
- Thiago, quem é essa menina?
- Que menina?
- Essa que estava comigo no elevador e saiu correndo agora.
- Ué, não vi nenhuma menina, não.
- Como, você estava distraído? Ela passou por você, correndo.
Thiago riu, aquele sorriso aberto que Estela sempre invejara nele. Muitas vezes se perguntara por que seria que aquele homem, que sabia tudo do prédio, que ocupava um cargo humilde e que, nas horas vagas, era visto pendurado do lado de fora de algum apartamento, lavando as enormes janelas, vivia sempre tão alegre. Era pobre, negro, trabalhava doze horas por dia... Thiago sempre fora um mistério para Estela. Mas, desde criança, ela era sempre socorrida por ele. Ou porque o elevador parava e abria a porta no meio da parede. Ou porque a máquina de lavar inundara a área de serviço. Ou porque ela não tinha força para empurrar aquela cristaleira da sala. Ou mesmo para trocar as lâmpadas. “Chama o Thiago!”...
- Não sei que menina é essa, não, dona Estela. Aí no seu bloco só tem a meninazinha filha da Dona Clotilde.
- Deve ser essa. Como é que ela é?
Ele riu de novo:
- Ela fez alguma mal criação?
- Não. Não. Eu só estranhei porque, bem... ela é parecida comigo.
Ele riu de novo:
- Ah, então não é ela, não, a filha da Dona Clotilde é ruiva e sardenta, bem diferente da senhora.
- Você se lembra como eu era, quando era criança?
Thiago riu outra vez:
- Vige! Se me lembro... levada que dava gosto!
- Estou falando fisicamente... Lembra como eu usava o cabelo?
- Assim, por aqui – fez ele – levando as mãos à altura do queixo. Era preto seu cabelo. Não tinha esses pedaços louros que tem agora.
- Reflexos.
- É. Não tinha.
- E quem é essa menina parecida comigo, quando eu era criança, que eu vi agora no elevador?
- Não sei, não, Dona Estela.
- Bom, deixa pra lá. Já estou atrasada mesmo. Tchau, Thiaguinho.
E se foi. Mas, durante todo o dia, pensou na garota. Até a pinta na mão... que coisa estranha era aquela? Teria sido uma alucinação? Por toda aquela semana, um arrepio percorria seu corpo a cada vez que a porta do elevador se abria no saguão do seu andar.
O tempo foi passando e a impressão, que a semelhança daquela menina consigo mesma deixara nela, também.
Quase sem perceber, Estela foi ficando cada vez mais triste. Já não encontrava prazer e alegria em nada. A vida era apenas uma chatíssima rotina. Lembrava-se porém que, antigamente, uma estranha alegria habitava dentro dela. Imaginou que a menininha do elevador fosse apenas uma visão, uma projeção do seu inconsciente, uma alucinação, uma mensagem, algo para fazê-la lembrar-se sua infância, de sua juventude, de seus sonhos passados e daquela alegria perdida.
Mas, refletia ela, quando era criança havia no país um clima de euforia. O próprio prédio onde morava era um exemplo dessa euforia e dessa esperança nacional. A fachada azul. As linhas, consideradas arrojadas, da arquitetura dos anos cinqüenta... eram típicas dos tempos de Juscelino Kubitischeck, de 50 anos de progresso em apenas cinco, da construção de Brasília, capital de um país predestinado a ser o celeiro do mundo e a futura potência progressista... Ela era criança, sim, mas não era burra. Ouvia a conversa dos adultos, amigos de seus pais, muitos intelectuais inflamados por um otimismo nacionalista. Os próprios professores das escolas que freqüentava transmitiam essas idéias aos pequenos alunos. A coisa era tão forte que, lembrava-se, um dia lera num santinho do Jânio Quadros a frase “tirar o país da sua condição de subdesenvolvimento” e fora perguntar à sua mãe como era possível que o Brasil, aquele país que ela aprendera ser tão cheio de riquezas e privilégios, afinal, fosse menos que desenvolvido...
Depois, pensa Estela, vieram os anos sessenta. Os anos revolucionários, os anos da pregação da liberdade. E o Brasil mergulhara nos duríssimos tempos da repressão do regime militar, da ditadura militar. Ela era jovem então e, apesar do regime, vivera aquele clima libertário em toda a sua plenitude. Acreditava que a sua geração fora predestinada a forjar um mundo melhor e mais livre. Era preciso não confiar em ninguém com mais de trinta anos, ninguém que houvesse sido formado fora dos anseios de justiça social e liberdade absoluta. Era preciso endurecer sem perder a ternura. Era preciso fazer amor e não a guerra. Todas as idéias, todos os poemas, todas as canções, todas as peças de teatro, todos os filmes, todos os livros, tudo o que não pregasse o amor, a igualdade de oportunidades, a solidariedade, tudo era considerado por fora, careta, retrogrado. Sim, aquela geração, a qual Estela se orgulhava de pertencer, estava construindo um mundo novo.
Mas... qual! Em 1970 os Beatles se separaram. John Lennon disse “o sonho acabou” e, como sempre, ele estava certo. Os jovens dos anos 60 viraram adultos e foram seduzidos pelos anos do milagre brasileiro quando se consolidou o consumismo desenfreado e todos começaram a medir a todos pelos valores do “ter”,completamente esquecidos do “ser”; Belchior gritava, no meio da década: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Estela sabia que os poetas sempre tinham razão. Quando fora estudar na França encontrara lá alguns brasileiros exilados. Eram todos um pouco mais velhos que ela e haviam sido seus ídolos na adolescência. Eram os seus heróis estudantis dos tempos da resistência à ditadura militar. Vistos de perto, porém, revelavam-se tão pequeno burgueses, tão deslumbrados com a sua própria condição de intelectuais politicamente exilados... uns bobos, ingênuos, primários!
Agora, mais de uma década depois de sua volta, Estela sentia falta de lideres, de ideais, de alguma coisa a qual pudesse se unir. Fora ficando, naqueles anos, cada vez mais só. Seus amigos casaram-se, sumiram, mudaram... E ela apenas trabalhara e trabalhara. Fazendo crescer, é verdade, o negócio aberto por seu pai. Mas para que? Há uns anos passados quase se entusiasmara ao ver, da janela do apartamento, a Paulista totalmente tomada pelos jovens, de cara pintada, vindos dos quatro cantos do país, a desfilar pela avenida em passeata aos gritos de “Fora Collor”. Mas percebera logo que aquilo era apenas mais uma ilusão. Aquela impressionante manifestação jovem fora simplesmente orquestrada pela grande rede de televisão a quem interessava o “impeachment” do presidente que ela própria ajudara a eleger. Era apenas a ditadura da moda. E Estela se pôs a refletir, pensando se tudo o que ela vivera na adolescência, se aquele sonho dourado de amor e liberdade dos anos sessenta, não fôra também apenas moda...
Nem mesmo no amor ela se realizara. Aqueles garotos, seus companheiros de geração, libertários e lutadores haviam se revelado tão machistas quanto seus avós. Namoravam e transavam com as meninas modernas, que tomavam pílula e pregavam a revolução, que tinham idéias feministas e queriam estudar e fazer carreira... Mas acabaram se casando com as outras, as submissas, as dependentes, as caretas... Mulheres como ela – e ainda lhe restavam algumas amigas assim – livres, independentes, donas de seu próprio nariz, assustavam esses homens e acabaram ficando solteironas ou virando amantes eventuais de senhores bem casados. Por tudo isso, os sonhos enterrados e esquecidos, Estela sentia-se cada vez mais só, cada vez mais triste.
Meses depois do encontro com a garota no elevador, entediada, numa tarde de sábado, resolveu ir dar uma volta no jardim do prédio. Ainda tinha muito tempo antes de se preparar para a festa de aniversário de um amigo, aonde iria nessa noite. Era julho, mas o dia estava quase quente, com um céu muito azul. De longe, Estela admirou a touceira de azaléias. Plantados em círculo, pés de azaléia de várias cores, formavam uma bola e, dentro, havia aquela “clareira”, quase uma caverna, onde ela gostava de se esconder quando era criança. Aproximou-se. Sob o sol, flores de todas as cores vibravam. Era muito lindo, pensou. Abaixou-se para passar entre os galhos e entrar em seu esconderijo infantil. Lá dentro, sentada num canto, um livro nas mãos, estava de novo aquela estranha menina.
- Oi – disse Estela.
- Oi – respondeu a menina.
- O que você está lendo?
- Vinte Mil Léguas Submarinas.
Júlio Verne fora um dos autores prediletos de Estela na infância.
- Você sempre vem ler aqui? – perguntou.
- Hum, hum – fez a menina, com uma afirmativa de cabeça e sem tirar os olhos do livro.
Estela olhou bem para ela. Era igual a ela própria quando criança. Uma coisa impressionante.
- Onde está sua mãe?
- No céu, eu acho. Ela morreu.
Estela se desconcertou.
- Me desculpe. Eu não podia imaginar... Bom, até logo.
- Até logo – respondeu a menina, ainda sem tirar os olhos do livro.
Estela saiu procurando o Thiago. Encontrou-o na garagem:
- Thiago, vi a tal menina de novo!
- Que menina, dona Estela?
- Aquela que parece comigo, quando eu era criança. Quem é ela Thiago? Ela disse que a mãe dela morreu. Você conhece todo mundo aqui no prédio! Quem é ela?
- Não sei... Ela disse que a mãe morreu? Não conheço nenhuma menina sem mãe aqui no prédio, não.
- Vem, comigo. Ela está no jardim. Preciso saber quem é ela.
Thiago subiu com Estela. Mas a menina já não estava lá, dentro das azaléias. Jogado num canto, estava o livro. Era um livro muito antigo. Estela o pegou. Na página de rosto, estava escrito com a sua própria letra infantil: “Pertence a Estela Soares”. Ela gritou:
- Mas esse livro é meu!
Thiago riu:
- Pode ser. A senhora se lembra que, quando seu pai faleceu, a senhora fez uma limpeza nas estantes do apartamento? Eu fui lá ajudar, no domingo. Coloquei um montão de livros numa caixa e deixei lá no quartinho da garagem. Muita gente andou pegando os livros que a senhora não queria mais.
Era verdade. Estela se lembrava. Mas já haviam se passado anos. Como a menina, que era a sua cara escrita e escarrada, estaria lendo aquele livro velho, que fora, seu e por que o teria abandonado ali, justamente no seu esconderijo predileto?
Estela achou que estava tendo alucinações. Ou, pior, enlouquecendo. Lembrava-se de que havia jogado aquele livro fora porque o tinha em duplicata. Na adolescência o pai comprara para ela toda a coleção de Julio Verne, ricamente encadernada. Voltou ao apartamento e foi direto à estante. Pegou o volume encadernado de “Vinte Mil Léguas Submarinas” e começou a ler. De repente, a leitura estava lhe dando aquela alegria perdida, uma alegria da qual ela mal se lembrara nos últimos anos. Quando olhou o relógio, era quase meia noite. A festa! Esquecera-se da festa! Bah, mas que importava? Leu o livro até o fim e foi dormir. Sonhou que estava num navio e, a cada porta que abria, lá estava a menina, com seu velho livro nas mãos. De repente a menina disse: “Estela, venha para o mar!”
Acordou assustada.
A voz da menina ainda ecoava em seus pensamentos: “Venha para o mar!”
O que significava tudo aquilo? Quem era aquela menina, afinal? Ela existia ou era uma simples lembrança de sua própria infância, que estava a se materializar, como a querer dizer algo? Mas o que? O que ela deixara perdido na infância?
Venha para o mar. Há anos, muitos anos, Estela não ia à praia. Seus pais tinham tido, por um bom tempo, um confortável apartamento na praia de Itararé, em São Vicente e também um barco que ficava guardado num estaleiro, do outro lado da Ponte Pênsil. Estela gostava de esquiar na baía e passar sob a ponte. Um dia, quando ela já era moça e não queria mais esquiar com o pai, ele vendera o barco e o apartamento. Estela sentiu saudades. Oito horas da manhã. Domingo. Tomou uma decisão. Jogou umas coisas e uma toalha numa valise, vestiu um biquíni por baixo da roupa, pegou o carro e foi para a praia. Estava um dia lindo e quente, embora fosse inverno. Achou um hotelzinho perto da praia, tinha vaga, registrou-se e, quinze minutos depois, estava passeando pelas praias que ladeavam a Ilha Porchat, mergulhada em lembranças de sua adolescência feliz. Lá pelas duas da tarde, sentou-se num quiosque para comer alguma coisa, pediu uma cerveja. Na mesa ao lado, um homem com uma criança não tirava os olhos dela. Aproximou-se. Ela estava sozinha? Podia sentar-se? O garoto que estava com ele saiu correndo em direção ao mar.
“Criança é fogo”, ele comentou. Mostrou o binóculo pendurado no pescoço. “Nunca venho a praia com ele sem trazer isso. Assim posso ver onde ele está. Esse menino não é mole. E, se eu perder ele na praia, a mãe dele me mata.” Riram. Ele era o Carlos, com quem Estela viveria até o fim de seus dias. Divorciado, no fim de semana pegava o filho de 10 anos e gostavam de ir para aquela praia. Ele trabalhava numa rede de TV, dirigia o departamento comercial. Estava divorciado havia pouco mais de um ano. Começaram a conversar e logo estavam se entendendo às mil maravilhas. Estela ria, feliz, pensando que fizera muito bem de vir à praia. De repente ele perguntou:
- E você mora aonde, em São Paulo?
- Na Avenida Paulista.
Ele fez uma cara de espanto.
Estela estava acostumada a ver a cara espantada de muita gente quando ela dizia onde morava. A maioria dos paulistanos achava que não existiam apartamentos residenciais na Paulista. Mas o espanto dele era outro. Riu:
- Não é possível! Somos vizinhos, então.
- Você também mora por ali?
- Eu moro no edifício Paulicéia, na avenida mesmo – respondeu ele.
Aí foi a vez de ela rir.
- Eu também. Eu nasci no Paulicéia e moro lá até hoje.
Como era possível? Nunca tinham se visto e ele já morava lá há mais de um ano. Comentaram que aquele prédio era mesmo muito grande e não tinha áreas comuns de lazer, não existia esse conceito quando o prédio fora construído. O condomínio tinha ao todo 280 apartamentos e um elevador para cada bloco. Era natural, por fim, que nunca tivessem se encontrado.
Carlos contou a ela que, depois do divórcio, tinha que achar um apartamento, um lugar para morar. E que, de repente, tinha se lembrado daquele prédio. “Você sabe – disse ele – que o edifício Paulicéia é o prédio mais filmado da televisão brasileira?”. Estela nunca tinha pensado nisso, mas lembrou-se imediatamente que já vira, incontáveis vezes, o prédio servindo de fundo para imagens de entrevistas gravadas pelas TVs na rua. Talvez porque, pela avenida, circulasse todo o tipo de gente e talvez ainda porque aquele exato trecho da avenida, bem em frente ao edifício, tivesse sido, e ainda fosse, palco de quase todas as manifestações populares de comemorações e reivindicações, as TVs tinham mesmo elegido aquele trecho como o lugar ideal para se fazer entrevistas de rua. Assim, o Paulicéia servia de fundo para inúmeras reportagens.
“Eu estava pensando – disse Carlos – aonde iria morar quando, nos monitores de TV da minha sala de trabalho, vi mais uma reportagem de rua onde aparecia o prédio. O azul da fachada, a touceira de azaléias na grade da frente... Pensei: quero morar nesse prédio. Fui até lá, mas o porteiro me disse que tinha ordem de mostrar apartamentos, que estivessem para vender ou alugar, a pessoas indicadas por outros moradores. Voltei para a TV e pedi à minha secretária que telefonasse para proprietários do Paulicéia, usando a lista telefônica. Por sorte, no segundo telefonema, uma proprietária se mostrou interessada e acabei alugando... Foi assim, que eu fui parar no seu prédio.”
- É – disse Estela – sempre foi assim lá no prédio. Quase todo mundo que vai morar lá foi indicado por alguém que mora ou já morou. Raramente alguém anuncia um apartamento lá. É tudo mesmo por indicação. Muita gente mesmo foi morar lá por indicação dos meus pais e, recentemente, um amigo meu, o professor de jornalismo e escritor, Antonio Costela, comprou dois apartamentos lá, no primeiro andar, morando num e fazendo o seu escritório no outro.
- Eu moro no bloco do meio – disse Carlos – aquele que tem apartamentos de um quarto. Mas é um apartamento lindo, muito amplo.
Estela e Carlos viveram um lindo caso de amor.
E três anos depois de seu encontro na praia, Carlos mudou-se para o apartamento de Estela, que passou por uma bela reforma, mas manteve a parede de fotografias de José no escritório.
O casal adquiriu, com o passar do tempo, o hábito de caminhar, aos domingos, a Paulista inteirinha. Nos primeiros anos do século XXI, as calçadas da avenida, nos fins de semana, foram ficando lotadas de camelôs que vendiam, desde CDs e DVDs piratas ao mais variado artesanato, bolsas, bibelôs, quadros, camisetas, cintos. E incensos, que Estela acendia pela casa. Naqueles dias, a Paulista, de centro financeiro, se transformava em mercado aberto. Era um espetáculo! De vez em quando, se o título do filme chamava atenção, entravam num dos muitos cinemas da avenida. Passavam um tempão, no vão do Masp, a admirar os objetos da Feira de Antiguidades. Sentavam-se no barzinho da esquina da Joaquim Eugênio de Lima para saborear um chopp de vinho, servido pela garçonete Zuleide, que preferia ser chamada de Lady Zu. E Estela, algumas vezes, viu livros, que tinham sido seus, à venda nas bancas “sebo” montadas pelos camelôs e lembrou-se, é claro, daquela edição de Júlio Verne, esquecida pela menina que parecia seu clone, dentro da touceira de azaléias.
Estela e Carlos já estavam juntos havia doze anos quando, Marina, uma antiga moradora do Paulicéia, que Estela conhecia apenas de conversas rápidas e casuais, foi ao apartamento deles para que Estela a ensinasse a operar um programa de computador. Haviam conversado sobre isso na garagem e Estela se oferecera para esclarecer a moça sobre alguns procedimentos do programa, que dominava bem. Marina viu as fotos na parede e comentou:
- Incrível! Essa menina é você quando criança?
- Sim.
- Nossa! É a cara da minha sobrinha!
- Sua sobrinha?
- É. Ela já é uma moça agora. Mas,quando era criança, era igualzinha a você! I-gual-zi-nha!
Estela sentiu o velho arrepio percorrer-lhe o corpo.
- Ela morou aqui no prédio?
- Não exatamente. Você sabe, ela é filha da minha irmã que morreu num acidente horrível de carro, na Via Dutra, com o marido. A menina era sua única filha e foi para um internato. Mas, quando não estava na escola, passava alguns dias aqui conosco.
- Por isso ninguém a conhecia!
- Você se lembra dela?
- Lembro, sim – disse Estela. – Lembro-me de tê-la visto no elevador e no jardim e fiquei muito impressionada com a nossa semelhança.
Marina riu:
- É. Vocês eram muito parecidas mesmo, quando crianças.
- Até a pinta – disse Estela, mostrando sua mão à Marina.
- Nossa, menina, que coisa incrível! Será que nós somos parentes, você e eu? Será uma coisa genética? Incrível! A mesma pinta.
- São mistérios – disse Estela.
- É, disse Marina. – É muito difícil encontrar pessoas tão parecidas. E ainda no mesmo prédio, hein?
- Muita gente mora nesse prédio – respondeu Estela. E acrescentou: - Graças a Deus!
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