Meus Textos que vc encontra aqui: 32. Verborragia e Aniversário de Casamento /31.Feminismo e Bom Humor (o equívoco das feministas e a propaganda da calcinha) 30. Inventando o Pecado 29. Escuridão e Cultura /28.Os Novos Velhos./ 27. Página Virada/ 26. Menos os Políticos/25. A Mulher que Muda Tudo (com repercussão)/24. As Herdeiras/ 23. Minha Posição Política/ 22. A Coragem de Ser Livre/ 21. 60 Anos de TV: Gênios Geniosos/20. Os Donos da Verdade/19. Santa Mãe, a Mentira Social/18. Aldeia Profética/17. Sangue no Asfalto/16. 8 de março/ 15. A Culpa da Chuva/14. O Sucesso e o Tempero do Bife/13. O Último Recurso/ 12. Igual, Porém Diferente/ 11. Os que Fazem a Diferença/ 10. O Grande Poder das Mulheres / 9. Eles Só Pensam Naquilo/ 8. Igualdade/ 7. Se Estivéssemos Juntas.../6. A Paz nas Mãos das Mulheres/ 5. Os Covardes e as Sandálias Havaianas /4. Jogando Pra Perder/ 3 .O Sopro e A Onda /2. Sexo Grupal e Monogamia / 1. Conto, Estela do Paulicéia
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32.Verborragia e Aniversário de Casamento
No
dia 28 fomos jantar, meu amor e eu, aqui ao lado de casa, para comemorar os
nossos 28 anos de vida em comum. Na mesa atrás de mim havia um senhor que
falava muito alto e só pude imaginar duas razões para isso: ou ele era
deficiente auditivo ou estava se exibindo. Sua conversa era uma sequência de
pensamentos alheios e citações de filósofos ou políticos; o tom era
acadêmico e logo percebi que o conteúdo era nenhum. Então, certamente, o
senhor em questão não era deficiente auditivo.
Não
foi fácil deixar de ouvi-lo (e esse parecia ser mesmo o seu objetivo, o
restaurante inteiro era a sua platéia) e eu me senti numa máquina do tempo.
O cara parecia saído de alguma cena daquele bar, da esquina da Consolação
com a Paulista, nos anos 1970. Esse era o tom dos intelectuais de esquerda
daqueles tempos. “A gente já era uma barra no tempo do rock no Blue Riviera”...
Por analogia, pensei na Eliana Cardoso. Suas críticas, crônicas e contos publicados atualmente no caderno de fim de semana do jornal Valor deixam clara a sua sólida formação intelectual. Mas são pensamentos legítimos, que a formação intelectual inspira.
Tanto no caso do sujeito atrás de mim no Reserva Cultural, quanto no caso da maioria dos habitantes da fauna setentista do Riviera, naquele passado negro e censurado do nosso país, a formação intelectual se traduzia apenas e tão somente em verborragia.
Existe uma grande, mas sutil, diferença entre a verborragia e o discurso legítimo inspirado pela familiariedade com os grandes pensadores da história do mundo.
A verborragia é a citação lógica, porém despida de conteúdo e de sentimento.
O que estou chamando de discurso legítimo é fruto do nosso próprio pensamento e, principalmente dos nossos sentimentos, que nascem, é claro, influenciados e inspirados pelas nossas experiências de vida, incluindo o conhecimento intelectual e até a linguagem intelectual, mas sendo sempre uma fala sincera, indagadora e cheia da nossa própria reflexão pessoal.
O sentimento, enfim, é o que distingue o texto do jurássico e verborrágico senhor (que perturbou o nosso jantar) de pessoas maravilhosas e sinceras como, por exemplo, a citada Eliana Cardoso.
Mas, sabe como é, intelectual machista não sente, só pensa. Afinal, homens não choram...
Não?
31. Feminismo e Bom Humor
(o equívoco das feministas e a propaganda da calcinha)
“A propaganda brasileira precisa mudar. As agências de publicidade responsáveis pela elaboração de propagandas precisam amadurecer e aprender a respeitar as mulheres. As supostas "brincadeiras" publicitárias que utilizam o corpo feminino para vender produtos, como na recente propaganda da Hope, reforçam estereótipos de que as mulheres brasileiras são tão infantis que precisam ser "ensinadas" a lidar com questões cotidianas desagradáveis e a forma de lidar com isso é "tirando a roupa".
/.../Retirar do ar a propaganda é uma demonstração de respeito às mulheres e reconhecimento que mais não suportamos ser tratadas como objetos ou estereotipadas em comerciais. As mulheres brasileiras elegeram a primeira Presidenta do país.../.”
Carmen Hein de Campos, Coordenadora Nacional do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher - CLADEM/Brasil.
Sou feminista (por feminista leia-se alguém que luta pela igualdade social das mulheres) desde que me conheço por gente. Minha mãe, Wanda, foi quem me ensinou que mulheres e homens devem ser iguais perante a lei e aos costumes sociais e que não existe muita diferença entre os sexos, seja de capacidade intelectual ou de desejo sexual. Tudo o que diz respeito à condição da mulher é um equivoco cultural fruto do desejo de dominação das fêmeas pelos machos. E ponto.
Acho que todas as piadinhas que reforçam preconceitos são tristes e atrasadas e que contribuem para que o que resta dos machistas continue existindo.
No entanto, não consigo ver onde é que está o grande pecado da propaganda da calcinha e do sutiã. É uma piada bem humorada e que apenas constata o poder que as mulheres podem ter sobre os homens quando se trata de sedução e sensualidade. Ninguém está ensinando nada as mulheres nesse comercial. As mulheres sadias sabem disso desde que o mundo é mundo. É apenas uma brincadeira com um fato incontestável.
Por atitudes burras como essa é que as feministas são consideradas umas mal-amadas. Negar o poder de sedução das mulheres sobre os homens (bem maior do que o poder equivalente dos homens sobre as mulheres) é coisa de mulher que não gosta de sexo. Mulheres liberadas sexualmente morrem de rir do comercial porque sabem que ele está constatando o grande poder (um dos poucos) das mulheres sobre os homens: o da sedução. Só isso.
Detalhe: a sedutora do comercial é uma mulher bem sucedida, que soube administrar sua carreira de modelo e atriz, que participa de inúmeros movimentos sociais pelo planeta e costuma doar muita grana pra causas bem nobres. Não é uma coitadinha, não quer “ensinar” nada às mulheres. Ela é Gisele, a poderosa. Bem mais poderosa do que as feministas radicais e mal humoradas da nossa Secretaría da Mulher em Brasília ou dessa senhora Carmen, que deve ser uma batalhadora digna de respeito mas que pisou feio na bola na questão desse comercial. Inclusive está muito equivocada quando diz que “as mulheres” elegeram a Dilma. Todo mundo sabe que maioria das mulheres vota em homens e não em mulheres. Quem elegeu a Dilma foi o Lula, não as mulheres.
Em tempo: não conheço ninguém nem na agência que criou o comercial nem na Hope, não tenho procuração pra defender nenhuma das duas. Mas defendo o poder de sedução das mulheres, da mesma forma que defendo a igualdade de direitos entre os sexos. Chô, mal amadas!! (protestos e/ou apoios: isabel@isabelvasconcellos.com.br )
De: "Raquel Biorke"
PARA: "Isabel Vasconcellos (PR)" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: propaganda
Data: sábado, 8 de outubro de 2011 14:42
Olá amiga,eu ainda não tinha visto a propaganda,mas entrei no youtube,vi e
achei o maximo,e concordo com vc.O que mais diferencia os homens das
mulheres é o poder de sedução que exercemos sobre eles.Uma vez eu até ri de
uma cena do seriado freinds em que a Rachel pede desculpas mostrando parte
dos seios,quem vai negar,só se for gay.Vc tem todo meu apoio,não vejo nada
de errado com a propaganda....Bjos e bom fim de semana....
De: "Lusimar Alvares"
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: O grande engano das feministas e a calcinha da Gisele
Data: segunda-feira, 3 de outubro de 2011 12:56
Oi, querida,
Estive fora no final de semana e, como odeio escrever naquele microteclado
e ler naquela tela do telefone, deixei para comentar seu texto hoje. E, pela
manhã, vi o texto do Luiz Felipe Pondé, na Folha. Somando a+b, ainda
acrescento o patrulhamento moral em cima do Rafinha Bastos e Danilo Gentilli.
Que coisa chata é o Estado posar de guardião moral do Brasil. Eu preferiria
que ele fosse o guardião dos patrimônios financeiro/cultural brasileiros.
Não discuto se ou quanto os humoristas passaram dos limites. Só acho que o
mundo vai ser muito chato se não se puder rir- porque a propaganda também
tinha esse intuito. Há pouco tempo fui assistir a um monólogo, no meu
entender chatíssimo, no qual a personagem se lamentava de um casamento mal
sucedido, através de clichês sobre mulheres e maridos (Não sou feliz, mas
sou casada). A mídia era outra- e eu sei bem o alcance de ambas- mas a mim
incomoda muito mais a passividade da mulher que aceita a relação ruim que a
exteriorização de um jogo íntimo de casais. Da peça eu não achei graça,
confesso que cochilei com os estereótipos, mas não saí dando declarações
sobre o “louvor à subserviência”. Até porque ninguém iria se interessar pela
minha revolta. Quem é essa louca?
Quem se sentir ofendido, procure seus direitos.
Se minorias ou cantoras grávidas se sentiram ofendidas com humoristas, devem
pedir retratação, indenização, enfim buscar soluções para os casos. Sempre
que me sinto ofendida, vilipendiada em minha condição de ser humano,
protesto, escrevo, procuro SAC etc.
Posso estar velha, mas penso que o jogo da sedução admite a oscilação entre
forte e fraco. Nesse jogo, tanto gosto do papel de Dalila quanto do de
Chapeuzinho Vermelho.
PS.: Recebi os livros. Obrigadíssima!!!!!! Vou ler.
Abraços, Lusimar
30. Inventando o Pecado
foto: arquivo do jornal O Estado de S.Paulo
“Você,
que inventou o pecado, esqueceu-se e inventar o perdão.”
O verso de Chico Buarque é da famosa canção “Apesar de Você”, que quando foi censurada nos anos 1970 (como o foram tantas canções do Chico, tantas que ele começou a mandá-las pra censura sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide), ficou ainda mais conhecida. Perguntado se a música tinha sido mesmo feita sobre a ditadura militar ele respondeu que não, que tinha sido feita para uma namorada dominadora que ele tinha.
A música do Chico é representativa de um momento da história brasileira, mas, apesar disso (ou de você...kkk), seus versos não perderão nunca a sua atualidade. É um hino contra todas as atitudes e regimes e religiões e pessoas intolerantes.
Pessoas ou instituições intolerantes vivem inventando pecados para os quais não há perdão.
Penso que ainda haja um longo caminho a ser percorrido pela humanidade até que se possa eliminar a arrogância e a estupidez dos que se julgam donos da verdade, dos que vivem cheios de razão e cagam regras como se alguém ou algum deus lhes tivesse dado esse direito.
É preciso entender que, quem não tem abertura para aceitar ou mesmo considerar idéias e posições diferentes das suas próprias, quer apenas arrumar seu mundo numa forma imutável e é apenas covarde demais para se permitir bagunçar a ordem da casa ou abrir as janelas para novos horizontes. É preciso fugir deles se quisermos preservar a liberdade, principalmente a liberdade de pensamento e de expressão.
Quando se supre a liberdade de expressão automaticamente se compromete a liberdade de pensamento. Pouca gente admite isso porque, outra vez, a arrogância de todos nós nos faz imaginar que o pensamento é inatingível, que mesmo que vivamos num regime de absoluto calaaboca, o nosso pensamento é só nosso e não pode ser influenciado por aquilo que está supostamente fora de nós.
Triste engano. De tanto policiar a boca, a mente também se policia. Mesmo as mentes de gênios, como o grande poeta Chico Buarque, sofrem. Isso porque nós somos todos interligados, embora nos acreditemos absolutamente individuais. Existe o inconsciente coletivo, existe uma ligação mental entre todos os seres humanos, uma ligação que, algum dia, a ciência decifrará. Mas a poesia já decifrou: “Sou imenso, multidões contenho”, disse o poeta Walt Whitman.
Tudo o que acontece a um ser humano afeta a todos. Mas é o orgulho do individualismo que não nos deixa perceber.
Quando nos trancamos em nossas próprias convicções, quando acreditamos que a nossa verdade deva ser a verdade de todos, aí sim, estamos inventando a escuridão.
29.Escuridão e Cultura
Às
vezes o Brasil é como o livro do Loyola: Cômico, se não fosse trágico.
Uma diretora de escola de Goiás é afastada do cargo porque denunciou o atraso nas verbas para a merenda.
Em vez dos responsáveis tentarem resolver o problema, afastam a diretora. Boa fé e competência? Alguém se lembra?
Mas enquanto as escolas caem aos pedaços e os professores são cada vez menos respeitados, ganhando salários ridículos, menores do que os de muitos serviçais humildes do governo, a ministra da cultura acha que fomentar a cultura é distribuir grana aos montes para suas amiguinhas e parentes, cantorazinhas meio esquecidas que um dia foram sucesso, para que elas façam inexpressivos shows na web.
A jovem ministra deveria vir mais à São Paulo e observar iniciativas verdadeiramente importantes para a cultura, como as Viradas Culturais, por exemplo, além de várias outras que promovem eventos gratuitos, abertos ao público, levando música clássica, apresentações teatrais de qualidade, isso sem falar nas bibliotecas que se instalam em qualquer canto, às vezes por obra e graça de cidadãos comuns e com poucos recursos.
Essa ministra parece não fazer jus à confiança que esse governo depositou nas mulheres. Parece, senhora presidenta, que está na hora de desistir de colocar cantores no Ministério da Cultura. É melhor tentar um intelectual político de carreira, com experiência na matéria.
Sem cultura, sem educação e sem segurança o Brasil não cumprirá esse seu hoje tão badalado destino de país emergente, quase saindo do buraco do subdesenvolvimento. Sem cultura, sem educação e sem segurança, o futuro é tão sombrio quanto a alma dos arquitetos e decoradores que acreditam ingenuamente que a escuridão esteja na moda.
De: "Belvedere" >
Assunto: Escuridão e cultura
Data: sábado, 14 de maio de 2011 17:17
Isabel
É uma escuridão que parece não ter fim. Parabéns pelo texto. Mil abraços por ser essa pessoa maravilhosa e atuante. Belvedere
De: "Cleds Fernanda"
Assunto: artigo
Data: segunda-feira, 16 de maio de 2011 20:49
Isabel,
ORGULHOSÍSSIMA DE SEU ARTIGO SOBRE ESCURIDÃO E CULTURA
Se estivesse em uma apresentação de ballet clássico ou uma ópera: ficaria de pé, e aos gritos e palmas efusivas, me manifestaria: BRAVÍSSIMO!!!!!!!!!!!!!
Abração,
Cleds
28. Os Novos Velhos
(ou Saudosista É a Vovozinha)
Ninguém
fala, mas ficar velho é um horror.
Ficam inventando eufemismos, chamam de Melhor Idade o que, de fato, é a pior idade.
Hoje em dia melhorou. Pode-se fazer atividade física, prevenção de doenças crônicas, alimentação saudável, um montão de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas e chegar-se aos 60 com o corpo que os nossos avós chegavam aos 40. Mas isso também não passa de um “eufemismo” prático.
O mais grave, porém, é quando os outros começam a achar que você, velho, ou é “uma gracinha” ou é um saudosista.
Eu, que desde criança luto pela igualdade das mulheres e pela preservação da memória, sou constantemente acusada de ser saudosista. E olhe que eu sou uma fera no computador e nas redes sociais, sou bem mais avançada do que mulheres muito mais novas do que eu, completamente ativa profissional e sexualmente, sou um exemplo da “nova velha” do século XXI, assim como também o são Hebe, Roberto, Suzana, Abilio Diniz e outras figuras públicas.
Ainda assim não escapo do preconceito.
Não sou nenhuma "gracinha", tenho um estradão de vida atrás de mim, sou um mulherão, bem vivida e bem esperta.
Não sou nenhum pouco saudosista. Acho que tudo, antes, era muito pior do que é hoje:
Imagine, câncer e aids como sentença de morte inexorável.
Imagine andar de fuska (ai, que horror! como é que a gente conseguia???).
Imagine usar mimeógrafo, filmar e fotografar em película, esperar horas para falar com outro estado ou país ao telefone...
Imagine o que era viver sem computador, pesquisando em livros empoeirados das bibliotecas públicas, sem nem sonhar com um google... Imagine viver sem celular.. Uau!! Nem pensar.
No entanto, a História tem que ser preservada.
Um povo que não conhece seu passado não entende nada do presente e muito menos pode planejar seu futuro. Um povo e qualquer pessoa, individualmente.
Outro dia um amigo do meu marido (que graças a Deus eu não conheço e nem me interessa conhecer) disse a ele que eu escrevia bem mas só sobre o passado. O bobão do cara tem tanto pavor de ser confundido com um “velho-velho” que já foi me rotulando sem ver nenhum dos vídeos do meu site (ele deve ter lido só as páginas de memória...kkkk...e desprezado as outras 20 e tantas...), sem ler nenhum dos meus livros, sem sequer me conhecer, já foi me rotulando. Saudosista, senhor amigo do meu marido, é a vovozinha!
Gostar de Mozart, Drummond ou Chico Buarque é ser saudosista? Minha priminha de 22 anos posta versos de Chico no Facebook. Preservar a história da humanidade, do país e a própria história pessoal é ser saudosista?
Pra coroar todos esses meus pensamentos, ontem um sujeito me acusou de estar 30 anos atrasada porque eu falei, no mesmo Facebook, na importância de se denunciar a verdadeira condição social das mulheres.
Respondi pro babaca que fingir que não existe mais discriminação das mulheres é ignorar que todas elas ganham 30% a menos do que os homens nas mesmas funções, é ignorar que a cada 15 segundos uma mulher é espancada pelo companheiro e que, no Brasil, cerca de 20 mulheres por mês são assassinadas por homens que se julgaram “donos” delas... E esses são apenas alguns exemplos.
Isso sem lembrar que, há alguns anos, uma jovem e brilhante jornalista me disse que alguém precisaria ser idiota para se dispor a lutar contra a Ditadura Militar Brasileira, que mandava torturar quem era contra ela. Nossa presidente, Dilma, pra essa moça, seria apenas mais “uma idiota”.
O desfrutar do conforto e da liberdade, sem a consciência histórica, dá nisso.
É justamente por isso que insisto em divulgar fatos históricos. Não por um suposto saudosismo.
Sou muito mais Maria Rita e Maria Gadu do que Maria Bethânia e Elis Regina. Mas gosto igualmente das quatro. É que as novas tem novas coisas para mostrar: novos arranjos, novas leituras, novas posturas. E o novo me interessa. Só que gostar do novo não desmerece o que é velho e bom.
Velho e bom? Legal. Velho e bom, assim como eu. Assim como o vinho. Assim como eu, o mundo de hoje está cada vez mais repleto de novos e bons velhos.
De: "Facebook" <notification+odldcci1@facebookmail.com>
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Luiz Augusto Campos Pereira comentou sua foto.
Data: sexta-feira, 8 de abril de 2011 17:36
Luiz Augusto Campos Pereira comentou sua foto.
Luiz escreveu:
"Somos semi novos, com um certo uso, mas com a carroceria sem riscos, pintura um pouco opaca, mas ainda presente; carburação acertada; fazemo por quilômetros o consumo certo, nem mais nem menos. Estofamento de primeira, couro puro; nada desses plásticos modernos. Cambio suave e quando nos propomos a viajar sempre chegamos. Somos só semi novos, objeto valioso por ser de coleção ou como você diz no seu texto: um bom vinho."
De: "Caio Martins" <caiomartins@cebinet.com.br>
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: Saudosista é a vovozinha!
Data: sábado, 9 de abril de 2011 17:52
Brilhante, o artigo! Só discordo quanto ao fusca: se tivesse como, comprava
algum e remontava. Fiz coisas com eles que até deus duvida! No demais, se me
permitir assino em baixo!
Beijos, Isabel. Bom fim de semana!
27. Página Virada
Tenho
reparado que, nas últimas semanas, nas muitas mídias que frequento, desde a
Internet até os canais de notícias da TV por assinatura, um súbito
ressurgimento do interesse pelas velhas histórias da ditadura militar
brasileira.
Talvez esteja enganada, mas penso que isso se deva ao fato de a nossa atual Presidente da República ter sido uma das vítimas da tortura e da barbárie do antigo regime.
No Brasil daquela época, é verdade, existia um grupo de privilegiados que nós, simpatizantes da esquerda e/ou militantes da oposição, costumavamos chamar de “os contentes”. Eram pessoas que, felizes com a sua condição social particular, não percebiam ou fingiam não perceber o terror absoluto em que viviam aqueles que ousavam falar, agir ou simplesmente mesmo pensar contra a ditadura brasileira.
Do golpe de 1 de abril de 1964 até a anistia em 1979, qualquer cidadão deste país que se posicionasse, ainda quem no segredo do seu travesseiro, contra o regime estava correndo perigo de vida e colocando todas as pessoas de suas relações em igual perigo. Esta é a verdade e ponto. Inclusive, como bem mostrou o filme “Pra Frente Brasil”, um inofensivo encontro casual com um esquerdista num vôo doméstico poderia resultar em tortura e morte para um desavisado que nada tinha de fato a ver com isso.
No entanto, nós estamos em 2011 e, com todo respeito à luta e ao sofrimento da nossa presidente, essas histórias estão ficando rançosas, malcheirosas, chatas, neuróticas. Anistia significa perdão e esquecimento. E aconteceu em 1979, há mais de 30 anos... Gente!
Os generais e paramilitares responsáveis pelo terror que o cidadão comum viveu no Brasil nos tais dos “anos de chumbo”, aqueles que ainda não morreram, estão morrendo, e esperemos que, como se dizia naquele tempo, com a boca cheia de formiga.
Todos os povos injustiçados, massacrados, como os negros, os índios, os judeus (e os brasileiros que foram jovens na ditadura) precisam sempre contar a sua história para que as novas gerações repudiem qualquer tentativa de repressão à liberdade, de genocídio, de tortura e de outras práticas aviltantes (e completamente neuróticas, do tipo Freud Explica) que porventura poderosos venham a estabelecer com qualquer desculpa esfarrapada e camuflada de boas intenções.
É claro que é preciso contar as histórias.
Mas, minha gente, é melhor se conter e não exagerar na puxação de saco porque, assim como eu e outros sobreviventes dos anos 1960, para a nossa presidente, essas histórias horrendas já são “página virada do meu folhetim”.
26. Menos os Políticos
(foto: casa no alto do morro, em Campos do Jordão)
A
minha querida amiga Maria Carmen Dowe, jornalista e produtora de TV, me
escreve para observar que toda a sociedade civil, todas as instituições,
empresas de todos os segmentos e até mesmo os bancos (uau!!!) se mobilizaram
para se solidarizar e para auxiliar as vítimas da tragédia das cidades da
região serrana do Rio de Janeiro. Todo mundo, diz Maria Carmen, menos...
menos os políticos!
É verdade.
Os únicos políticos que abriram a boca (mas mesmo assim não o bolso) foram aqueles que não poderiam, de jeito nenhum, se esquivar de prestar declarações sobre a maior tragédia natural do Brasil, um país que, até então, se orgulhava de não ter grandes catástrofes naturais como vulcões e terremotos.
As cidades cariocas foram vítimas de um literal terremoto.
Não um terremoto causado por tremor de terra, por movimento natural das placas tectônicas abaixo da superfície terrestre. Mas um terremoto causado pela irresponsabilidade de quem permitiu que se construísse casas e empreendimentos em áreas que, se não eram de risco, eram áreas passíveis de causar danos ao meio ambiente.
Gramado, no Rio Grande do Sul e Campos do Jordão e Monte Verde, em São Paulo, são cidades turísticas serranas. Eu mesma passei o final do ano em Campos do Jordão e choveu lá, direto, como eu nunca vi. Mas não caiu nenhuma terrinha não. Nem na cidade nem na estrada.
Seria sorte?
Ou seria critério e responsabilidade ambiental?
Vão botar de novo a culpa na chuva e talvez a culpa possa mesmo ser da chuva.
Mas um passarinho me contou que, nas cidades atingidas pela tragédia, muita permissão temerária foi dada para se construir em áreas de alto risco. Será verdade ou o meu passarinho é mais um terrorista da informação?
Não sei.
O que eu sei é que um estranho silêncio por parte dos políticos brasileiros e cariocas sobre essa incomensurável tragédia me cheira a consciência culpada. Mas também pode ser paranóia minha, não é?
De: "Dowe" <mcdowe@terra.com.br>
PARA: "Isabel Vasconcellos"
Assunto: Re: [Spam] Nasceu Nara Leão. Morreu Elis Regina.
Data: domingo, 16 de janeiro de 2011 16:21
Isabel, boa tarde.
Tenho certeza de que você já percebeu e os seus leitores também, mas não custa comentar.
A sociedade civil (nós os cidadãos brasileiros ), os principais bancos privados naciconais, empresas de comunicação, associações e instituições médicas e o exercito brasileiro já se mobilizaram para levar ajuda às vitimas e parentes das enchentes ocorridas na região serrana do Rio de Janeiro.
Mas....., apesar dos gordíssimos salários e benefícios regados a aumentos astronômicos inalcançaveis para a maior parte da população brasileira, você viu na televisão, jornal, rádio, insternet e etc... que algum político tenha posto a mão no próprio bolso para prestar a sua parte pessoal de ajuda ?
Bom, eu não lí nada ainda. Mas se você encontrar em algum lugar esse tipo de informação, por favor me envie para que eu também tome conhecimento. OK ?
Obrigada
Maria Carmen Dowe
De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
PARA: "Dowe"
Assunto: Re: [Spam] Nasceu Nara Leão. Morreu Elis Regina.
Data: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 08:58
Imagina, Maria Carmen. Se bobear é capaz de alguns deles montarem um mercadinho com algum caminhão de doações desviado... Essa é outra limpeza que o Brasil vai precisar fazer: trocar os bandidos por mocinhos tb na política. Talvez com o voto facultativo e uma boa educação, né? Grande beijo.
Isabel.
De: "Dowe"
PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: [Spam] Nasceu Nara Leão. Morreu Elis Regina.
Data: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 17:55
É
Acho que a solução é uma boa educação.
Mas isso, leva anos ou gerações.
Enquanto isso, os políticos continuam se aproveitando e roubando descaradamente o quanto podem.
M. Carmen
P.S.: Esta explicado porque existem tantos brechós ( rissss.... )
De: "Dowe" PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Re: Você nos sites
Data: segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 23:10
Oi Bel:
Obrigada pela citação. Amei !
O artigo, está ótimo. Você como sempre disse o que tem que ser dito e isso, não é paranóia não: é bom senso, lucidez, responsabilidade e inteligência.
Eu aquí pensava com os meus botões: por que os políticos do Rio de Janeiro ( todos eles sem excessao incluíndo o governador Cabral que adora aparecer na mídia ) não põe a mão no bolso e doam este mês 10% ( apenas dez por cento) do seu salário para auxiliar as vítimas da catástrofe?
Garanto que a soma do valor faria uma grande diferença para ajudar a reconstruir a cidade que sustenta os seus próprios salários e os senhores políticos não iriam morrer de fome por isso. Nenhum deles !
Uma coisa que me surpreende, é ver que a grande maioria das pessoas não percebe isso. E as que percebem, não tem coragem de se manifestar.
Vote Brasil !
Bjs.
Maria Carmen
(Elenice comenta o que escrevi no meu newsletter desta semana, que eu esperava que a catásftrofe das enchentes colocasse alguma vergonha na alma dos políticos):
De: "elenice ricardo" <eleniceolvricardo@hotmail.com>
PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto:
Data: quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 16:54
Isabel Vasconcelos
Você acha mesmo que os políticos vão se comover com alguma coisa?
Eu não tenho esta ilusão, vc. queira me desculpar.
Os deputados eleitos assumiram ministerios e secretarias, vão se licenciar dos cargos e vão poder optar pela remuneração de parlamentar. A folha de pagamentos do Legislativo Federal é quem tem de arcar com o salário do suplente e do eleito.
E viva o Brasil!
Agora, vc. me diga se tem alguem se incomodando que a água leve, leve casas, leve pessoas, leve tudo?
Acho que é exatamente isso: "a água só não lava a pouca vergonha dos governantes".
Ah, e sem contar o aumentinho de 6o%....e ficcam fazendo um escarceu com o slario mínimo, com um aumentinho "besta" dos aposentados.... ainda quero fazer um protesto por causa disso (sou brasileira, aposentada e tenho 65 anos, mas não morri ainda, e VOTO)
E tenho dito.
Elenice
De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
PARA: "elenice ricardo" <eleniceolvricardo@hotmail.com>
Assunto: Re:
Data: quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 18:07
Elenice querida, eu disse "na alma" e não "no cérebro" ou "no coração"... Não acho que se trate de comoção mas sim de carma, para as próximas vidas... Bjão e muito obrigada por me escrever.
Isabel.
5. A Mulher que Muda Tudo
2011
começa com chuvas torrenciais em todo o Brasil.
Talvez o Universo esteja lavando a casa para que uma nova era comece.
Gostaria de acreditar nisso. Sempre pensei que acreditaria nisso quando a primeira mulher assumisse a presidência do país. Mas eu jamais poderia imaginar que seria uma mulher assim. Tomara que eu esteja errada e ela consiga fazer um bom governo.
Muitas mulheres já fizeram bonito no cenário político brasileiro, ainda que a maioria delas tenha herdado o poder de alguém: marido, irmão, tio. Assim como Dilma está herdando o poder de Lula.
Mas, por mais que a nossa presidente não seja a mulher que sonhei ver um dia no cargo máximo da nação, ela é uma mulher e governará, com certeza, com a sua cabeça de mulher, dando a contribuição que as mulheres tem dado à vida pública e ao mundo empresarial, uma contribuição de estilo novo, que inclui a intuição e a sensibilidade, atributos que são muito mais privilégio feminino do que masculino.
Vi a genial repórter Gloria Maria, em entrevista à outra jornalista genial, Marília Gabriela, dizer que não acreditava que uma mulher na presidência mudasse alguma coisa. Pelo jeito, pois não contestou, a Marília também acha.
Aliás, muitas mulheres tem essa tendência de negar a sua história, o seu passado de cidadãs de segunda classe, sem direito à coisa nenhuma e sua condição de ainda discriminadas, de ainda sofredoras das consequências de um passado de milênios modificado apenas por conquistas de poucas décadas.
Dizer que uma mulher na presidência não muda nada, é negar a verdadeira condição social da mulher.
Uma mulher na presidência muda tudo.
Os 80 e tanto por cento de popularidade do ex presidente Lula, principalmente entre o povo mais simples, deu a vitória nas urnas à Dilma. E esse povo mais simples é justamente quem tem mais dificuldade de aceitar as mulheres como iguais. Não apenas os homens aceitarem as mulheres como iguais, mas também as mulheres se enxergarem como iguais. Então, de repente, Lula passar o cetro para uma mulher, eleva todo o sexo feminino, para a maioria dos brasileiros, de pouco capaz à competente, a digno da confiança do presidente Lula. E isso, pode crer, muda muita coisa. Muda dentro de casa: o marido começa a enxergar a atitude da esposa com outros olhos. Muda na empresa: já não se duvidará tanto da capacidade da mulher que se candidata à promoção. Muda na corporação, na marinha, no exército, na polícia, na igreja, muda em todas as instituições.
Lembro-me de quando, na década de 1980, eu comandava um programa de TV chamado “Condição de Mulher” e entrevistei a Amelinha Telles, que então era presidente de uma organização chamada União de Mulheres. Recebi, dias depois, uma carta de uma telespectadora do Rio Grande do Sul que era militante da União de Mulheres em sua cidade. Ela me dizia que o seu marido sempre fizera grandes gozações em cima da militância dela na organização, que nunca a levara a sério mas que, quando vira na TV a matéria sobre a União de Mulheres, mudara completamente de atitude.
Uma mulher na presidência muda tudo.
Repercussão:
De: "Caio Martins"
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: A Mulher que Muda Tudo
Data: domingo, 2 de janeiro de 2011 22:04
Isabel, Deus te ouça... Conheço bem Dilma, gosta de pensar com a própria cabeça. O que preocupa é o entorno, com as mesmas feras predadoras no mesmo esquema de sempre. Conheci também a Bachelet, fez um bom governo, mas não conseguiu romper as regras do jogo, impostas pelo sistema (leia-se corporações financeiras, comerciais, industriais e quejandos) num projeto para mais de meio século.
Dos chefes que tive, duas das mais competentes eram mulheres, uma engenheira e a outra gerente comercial. E em casa a última palavra é sempre minha: Sim, senhora!
Beijos, minha amiga.
Caio.
http://prosaeversodeboteco.blogspot.com
http://caiovmartins.blogspot.com
http://www.votebrasil.com/coluna/caio-martins/todas
De: "Joao Figueiró" PARA: "'marisamanso'" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: RES: A Mulher que Muda Tudo
Data: segunda-feira, 3 de janeiro de 2011 05:29
Muito bom, Isabel.
Você tem historia, você tem consistência na defesa da mulher.
Sabe o que diz, sabe o que pensa.
Parabéns.
Amnésia, é a deusa das águas, dos rios e do esquecimento.
É a deusa que lava e leva os resíduos, o lixo, a sujeira.
Vamos ver!!!
Joao Augusto Figueiró
figueiro@zeroaseis.org.br
www.zeroaseis.org.br
http://redecriancaepaz.ning.com/
De: Maria Alice Maluf
PARA: "maris amanso" <marisamanso@prestonet.com.br>; "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Res: A Mulher que Muda Tudo
Data: segunda-feira, 3 de janeiro de 2011 12:19
Tomara, minha querida amiga Isabel Vasconcellos, que essa mulher que afirmou ontem, "ser presidente de todos os brasileiros"
(minha ela não é! Se acha, mas não é!) se supere, que enterre seu passado de guerrilheira /sequestradora /agressiva e de esquerdista fanàtica e rancorosa; que deixe de ser um fantoche e mero produto do mkt político criado pela esperteza do seu mentor analfabeto, que realmente tenha espírito democrático e respeite o Estado de Direito, a liberdade de expressão , de informar e de ser informado; que tenha lucidez e iluminação divina, para que com sua falta de preparo para exercer o cargo e, ao lado de gente como Temer, Palocci, Zé Dirceu, Sarney, Mercadante e tantos mensaleiros e fichas sujas reeleitos e reempossados , consiga- com um mínimo de decência- governar esse Brasil, tão carente de políticos honestos, íntegros, éticos e preparados !
Sò rezando muiito e suplicando a Deus, que volte seus olhos para nosso país e nosso povo semi analfabeto e ignorante, que cultua o " jeitinho" e admira a "esperteza".
Que esse Deus de amor e de bondade, de perdão e de misericórdia, nos proteja de agora em diante, mais do que nunca, do populismo demagógico de um pelego e seus párias!
Grande bj e um $uper 2011 pra você e o Caetano!
$aùde
$uce$$o
$orte e muita
Paz
Com o carinho e amizade da
M. Alice Maluf
Enviado pelo meu BlackBerry
De: "Marisa Sanabria" <msanabria@terra.com.br>
PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>
Assunto: Re: A Mulher que Muda Tudo
Data: domingo, 2 de janeiro de 2011 18:56
Isabel, concordo plenamente com vocÊ, também não é a mulher que
eu sonhei ver na Presidencia mas muda o olhar no universo doméstico,
empresarial enfim acho que algumas questões como a condição, a
saúde e os direitos das mulheres estarão no palco com um
protagonismo muito importante, acredito que para todas nos militantes
da questão do feminino de diversas maneiras e desde diferentes
perspectivas é um momento interessante, de reflexão, trabalho e
desafios, nos cabe um posicionamento importante en todo este panorama
e tomara que o governo seja feito para todos com serenidade e
equilibrio, e o que esperamos e vamos torcer para que aconteça, um
grande abraço, um feliz 2011 , meu carinho de sempre. Marisa
Marisa Sanabria
Psicóloga/Mestre em Filosofia
www.clinicadofeminino.com
24. As Herdeiras
A
primeira mulher a governar o Brasil foi a Princesa Isabel, no século XIX,
que assumia a regência quando seu pai, o nosso Imperador D.Pedro II,
viajava.
Foi durante uma dessas regências que ela, vencendo uma oposição ferrenha, assinou a Lei Áurea e acabou de vez com a mácula da escravidão em nosso país.
Princesas
são educadas para assumir o governo de seus países.
Hoje, no Brasil, as mulheres políticas eleitas não chegam a 10% dos políticos homens.
Mesmo
assim, temos, a exemplo do Chile e da Argentina, uma mulher eleita para a
presidência da República.
É preciso observar, no entanto, que são pouquíssimas as mulheres políticas eleitas que chegaram às urnas caminhando apenas com suas próprias pernas.
Luiza Erundina,
entre as não herdeiras, foi a que conseguiu a maior façanha: a prefeitura de
São Paulo. E Alda Marco Antonio, a vice de Kassab. Mas a maior parte delas
“herdou” a candidatura de
algum homem: marido, tio, pai, avô.
É claro que já é um avanço. Até menos de 50 anos passados nem se cogitava entregar o poder político a uma mulher, fosse ela quem fosse.
Os exemplos de
“herdeiras” são muitos. Vão desde Ivete Vargas (que era Vargas Tatsch),
passando por Wilma Faria, Roseana Sarney, até chegar a nossa presidente
eleita, que não é da família do presidente Lula mas foi “adotada” por ele
como herdeira política.
O que consola é o
fato da competência das mulheres ficar cada vez mais evidente à medida que o
sexo feminino vai assumindo
cargos cada vez mais elevados, como a Ministra Ellen Gracie, por exemplo e
mostrando que, ao contrário do que se pensava, elas são competentes também
para emporcalhar as fichas limpas, como pode ser o caso da ministra Elenice.
Para todas as brasileiras, Dilma Roussef no Palácio da Alvorada, no cargo máximo do País, significa um belo cala a boca nos maridos machistas, mal resolvidos e ruins de cama, que, entre outras violências, costumam ofender sistematicamente as suas companheiras chamando-as de burras e incompetentes.
Estamos melhorando.
Estamos herdando o poder quando, até muito pouco tempo, herdávamos apenas o preconceito.
23. Minha Posição Política
Se
há algo que está sempre presente em minha vida esse algo é o amor. O meu, o
dos outros, o que eu proporciono, o que eu observo, o que eu adivinho.
Tenho medo de dizer isso. Antes, não teria. Mas já vivi o suficiente para saber que, para a maioria mal amada do mundo, o amor é um imenso gerador de inveja e a inveja, como se sabe, mata.
Tive a sorte e o privilégio de nascer fruto de um grande amor, o dos meus pais, que viveram 60 anos juntos depois de lutar para poder viver juntos.
Nasci cercada de amor. E o amor, apenas ele, foi o valor que norteou, ingenuamente, a minha juventude. Fui jovem no turbilhão revolucionário dos anos de 1960 e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, fui jovem na ordem de calar, imposta pela ridícula ditadura militar brasileira.
Eu era boba, como são bobos todos aqueles que são alimentados apenas com o amor. Era ingênua e trouxa, incapaz de ver o ódio atrás das falsas declarações de amor. Mas jamais me arrependi de assim ter sido.
Passei a vida a quebrar a cara com as decepções emocionais e passei a vida a celebrar as vitórias dos verdadeiros amores, dos amigos e do grande amor da minha vida, que levei 32 anos pra encontrar mas que vivo feliz até hoje.
Muitos dos que me temeram, que temeram a força do meu amor, a força da minha alma libertadora, que passou a vida a desafiar preconceitos burros, muitos desses me abandonaram pelo caminho.
Ah, doeu. Mas foi um favor que me fizeram. Ao meu lado quero apenas os corajosos, os que ousam contestar os velhos costumes, os acomodados costumes, os que saúdam o novo, os que saúdam o sol.
Hoje, já meio velha, recebo com alegria e humildade o sol que me saúda todos os dias, decompondo pelo meu prisma, a luz em arco iris.
Hoje, já meio velha, mando praquele lugar os babacas, os covardes, os escravos dos costumes sociais, os invejosos, os arrogantes, os bobões, e abro meus braços pra todos aqueles que, comigo, erguem a taça (de cristal, é claro) contra a luz, para saudar os astros e viver apenas - como queria Drummond- a alegria de conviver.
Boa eleição. Isabel Vasconcellos, a rainha das Bobas.
22. A Coragem de Ser Livre.
“Ninguém pode calar dentro em mim
Essa chama que não vai passar.
É mais forte que eu e eu não quero dela me afastar.
Eu não posso explicar como foi e nem quando ela veio,
Mas só digo o que penso, só faço o que gosto e aquilo em que creio”
Maysa Monjardim Matarazzo.
Custou-me
toda a vida, até agora, recuperar a plena liberdade de expressão.
Pensei nisso quando vi, numa banca aqui da Paulista, a reedição de uma revista apreendida pelos militares no tempo da Ditadura.
Foi em 1967, se não me falha a memória. Revistas novas no mercado ainda eram um acontecimento. A Editora Abril, que começara na década anterior editando a semanal em quadrinhos “O Pato Donald”, já se aventurava em passos bem mais largos, lançando Claudia, por exemplo, uma verdadeira revolução no segmento feminino que, até então, só vivia de “figurinos”, as revistas de moda da época no mais puro estilo Burda, e das melosas fotonovelas.
As bancas de jornal brasileiras ofereciam quase nada, se comparadas à oferta de hoje: os Bloch com a Manchete – lançada para peitar a mais famosa revista nacional de então, O Cruzeiro – e alguns pouco títulos a mais. Foi neste contexto que a Abril lançou a sua “Realidade”, uma publicação moderna, de diagramação moderna e matérias mais profundas. Pois um dos primeiros números de “Realidade”, que enfocava a condição da mulher brasileira, foi recolhida das bancas pela Ditadura.
Por sorte, eu já comprara e lera. E fiquei com a impressão que a revista fora recolhida por causa do corajoso depoimento de uma atriz – Ítala Nandi – que era sexualmente livre, quando a maioria das mulheres era cem vezes mais escrava do que hoje.
Todas nós, em 2010, somos Ítalas Nandis.
Mas, há 40 anos, seria impensável, por exemplo, o meu programa de rádio, Sexo Sem Vergonha, e a liberdade sexual que prego aos meus ouvintes.
Na década de 1970, entre outras atividades, eu escrevia crônicas assinadas para o então importante jornal paulistano “O Diário popular”. Vivíamos, naquele momento, os anos mais difíceis da Ditadura Militar Brasileira, em plena vigência do Ato Institucional n.5 e com a censura, aos meios de comunicação e às diversas atividades culturais, correndo solta.
Não me lembro mais em que carnaval daquela década quase fui presa porque os homens da censura não se conformaram em apenas parar as máquinas do jornal para impedir a publicação da minha crônica como também queriam porque queriam ir me buscar em casa pra me levar pro DOPS s fim de “prestar esclarecimentos”. Para quem não sabe, isso significava ir parar nos porões daquela deplorável instituição, na famosa masmorra da Rua Tutóia, para sofrer – como tantos sofreram – as mais bárbaras e primitivas torturas.
Foi o editor de economia do jornal, Carlos Acuio, quem convenceu os milicos que eu era apenas uma garota romântica, sem nenhuma ligação com os movimentos chamados “terroristas”. É, porque bastava ser contra a ditadura para ser tachado de terrorista. Nem todos éramos Dilmas, favoráveis à luta armada. Nem todos éramos Gabeiras, heróis dos sequestros. Mas quase todos éramos contra o horror e a barbárie que vivíamos no Brasil e na América Latina.
O fato é que escapei.
Meu crime? Ter escrito uma crônica (da qual não possuo cópia, pois naquele tempo os “originais” eram literalmente originais, já que usávamos máquinas de escrever, ainda não existia computador) que falava de um deficiente físico que, para sobreviver, vendia bilhetes de loteria na rua, ele e sua cadeira de rodas. O pouco que me lembro dessa crônica que quase me levou para a masmorra é que ela comparava a vida do vendedor de bilhetes com a vida do possível ganhador da loteria e, de quebra, analisava a condição social e econômica dos contentes e dos descontentes da ditadura militar.
Quando veio a tal da “lenta e gradual” abertura política do Brasil, em 1979, com a anistia e o fim das receitas culinárias que substituíam, no Estadão, as matérias censuradas, e quando finalmente, em 1985, a ditadura acabou, eu não sabia mais escrever livremente.
O fato é que me acostumara a escrever por metáforas, a insinuar apenas o que queria dizer, a colocar a opinião nas entrelinhas.
Levei algum tempo para conseguir me expressar com a liberdade que o faço hoje.
Essa garotada brilhante que milita no jornalismo de hoje e reclama que não existe liberdade de imprensa (porque o veículo de comunicação reflete necessariamente, segundo eles, a posição dos donos da empresa que os mantém) não sabe o que é viver SEM liberdade de imprensa, sob censura.
Porque é claro que a Rede Globo pensa com a cabeça dos Marinho e não há nada demais nisso, já que o consumidor da informação sabe muito bem qual é a posição de cada veículo de comunicação onde ele recebe a informação.
O povo deixou de ser alienado. O Brasil de hoje tem crítica. Levou duas décadas pra consertar mal e mal o estrago que a ditadura fez na nossa opinião. A decadência do ensino, a alienação imposta pela censura à imprensa e à produção cultural transformaram a maior parte dos brasileiros pós ditadura em meros consumidores de entretenimento, incapazes de distinguir uma obra de arte de uma obra de consumo e incapazes de exercer o saudável direito da crítica, fosse na arte, na cultura, na política ou mesmo na simples informação.
Mas essa fase da alienação passou. Os maiores contribuidores para a “cura” da alienação nacional foram o rádio e a popularização da Internet.
Deixamos de ser uma nação de trouxas, engabelados e iludidos pelos donos do poder.
Hoje a informação é livre. É claro que os grandes conglomerados da comunicação expressam a posição política de quem os domina. Mas qualquer Zé Mané pode ter um blog. E todo mundo sabe muito bem como pensam os manda chuvas da informação.
O povo brasileiro não é imbecil, como alguns querem nos fazer crer.
Exatamente por acreditar nisso é que tenho certeza que o Brasil não elegerá ditadores ou ditadoras, sejam eles de esquerda ou de direita.
Mentalidades atrasadas, gente que parou lá nos anos 1960, que não percebeu o que na verdade estava atrás do Muro de Berlim, gente que ainda acredita que os fins justificam os meios, que compactua com os “ridículos tiranos” da América Latina, como Castro ou Chávez, gente que pensa que TV a Cabo é “lavagem cerebral do imperialismo americano”, gente que precisa censurar a imprensa, fazer calar os que pensam de maneira diferente deles, gente assim, gente que se arroga a detenção da verdade, é gente que já morreu e não sabe.
Ainda bem que o Nobel da Paz acaba de ser dado ao professor de literatura que está preso na China. Liu Xiaobo foi condenado a 11 anos de prisão por ter publicado um manifesto em defesa da liberdade de expressão em seu país.
Ele joga no time dos corajosos. Dos que tem coragem de dizer o que pensam e não precisam calar a boca de quem pensa diferente deles.
Todos os ditadores, censores e donos-da-verdade, no planeta, são apenas covardes travestidos em poderosos. Incompetentes para conviver com a diferença, imaginam que possam eliminar, calar, submeter, aqueles com quem não conseguem conviver.
Abaixo os ditadores, venham de onde vierem. Viva Maysa! Viva Marina! Viva Ítala!
21. 60 Anos de TV: Gênios Geniosos
(foto: Lolita Rodrigues, no início da TV Tupi - do site Tudo Sobre TV)
A
televisão acaba de completar 60 anos no Brasil.
Muito se falou nesta semana no aniversário, em quase todas as TVs, a cabo ou abertas.
Quando eu nasci a TV já estava dentro da minha casa, não apenas o aparelho, mas algumas das pessoas que faziam a TV.
O laboratório de cinema do meu pai, na época, era um dos pouquíssimos (ou talvez o único, não estou certa) capazes de revelar um filme 16 mm com a agilidade e rapidez que o jornalismo da televisão exigia.
Era tudo ao vivo, o videotape só viria 15 anos depois, a transmissão por satélite só quase 20 anos depois, o jeito era o filminho preto e branco mesmo. Até porque a TV em cores só 22 anos depois daquele longínquo ano da inauguração da televisão brasileira, por obra e graça do controverso Assis Chateaubriand.
Não sei se o Chateau era um sujeito irritadiço. Não devia ser porque criou um império e pra administrar um império o sujeito não pode ser desses estouradinhos de plantão.
Será que o Silvio Santos é? Ou o Edir Macedo? Não, muito provavelmente não.
O que eu sei (e como sei) é que um dos grandes gênios da TV Brasileira era. Estou falando de um verdadeiro gênio da comunicação, que tinha pouco mais de 20 anos de idade quando assumiu a direção artística de uma televisão iniciante e fez dela um das grandes lideranças da história televisiva no mundo. Fez, mas xingando.
Não estou contando nenhuma novidade. Todo mundo sabe que o gênio tinha um gênio daqueles. Antes de falar com ele ninguém sabia se ele ia atirar flores ou pedras.
A verdade é que todo mundo copia os gênios.
Assim, existe até hoje uma geração de executivos de rádio e TV no Brasil que talvez pensem que, pra ser gênio, precisa ter um temperamento igual ao do grande gênio primeiro: estourado e imprevisível.
Meu irmão, que dirigiu muitas emissoras de TV, era assim. Eu adorava ele, aprendi tudo de TV com ele, aprendi muita coisa da vida com ele e ele era maravilhoso e tinha um humor sensacional, uma inteligência privilegiada, tudo isso quando não estava num “daqueles dias” em que o mau humor o fazia ser grosseiro.
Trabalhei 25 anos na TV. Vi inúmeros diretores no estilo grito+bronca.
Até que, no começo dos anos 1990, uma nova geração começou a chegar aos postos diretivos das rádios e TVs brasileiras. E começamos a nos livrar dos mal humorados de plantão.
No entanto, como em rádio e TV, graças a Deus, não existe aposentadoria compulsória, até hoje eles estão aí. Existe uma geração inteirinha de diretores de rádio e TV cuja marca registrada é o grito.
Acho que ninguém falou a eles sobre aquele ditado dos malandros cariocas, um primor da arte da diplomacia: “Bronca É Ferramenta de Otário”.
No 60º aniversário da TV registro aqui o meu lamento por tanta gente boa que sofreu nas mãos desses gênios geniosos. Mas tenho certeza que, se perguntar para qualquer um deles, dirão que o mau humor desses diretores era nada, ou muito pouco, perto da genialidade e da criatividade de todos eles.
Agora, cá entre nós, prefiro o estilo doce, como o do meu ex-diretor na Rede Mulher de TV, Marcus Cacais.
É mais eficiente, mais agradável e derruba aquela convicção dos publicitários dos anos 1980 que acreditavam – toscamente— que só se cria sob tensão e, por isso, soltavam os cachorros nos coitados dos redatores e diretores de arte.
Hoje em dia, sob tensão provocada, o que se criará certamente serão apenas a mágoa, a dor de estômago e, quem sabe, um processo por assédio moral.
20. Os
Donos da Verdade
Antes de dormir estava assistindo a um filme chamado Ágora que mostra o lamentável episódio dos cristãos do século IV DC queimando as obras da biblioteca de Alexandria. Ou seja, acabando com a sabedoria da Antiguidade.
Não é uma atitude muito surpreendente para a Igreja Católica que passou 600 anos queimando mulheres nas fogueiras da Inquisição.
Os católicos também preservaram muitos conhecimentos durante a Idade Média, mas só aqueles conhecimentos que não contradiziam a sua visão do mundo. Levaram, ainda, mais de meio milênio para admitir que erraram ao condenar à fogueira quem acreditasse que a terra era redonda.
De manhã, ao acordar, o noticiário me fala de um pastor americano que propõe queimar exemplares do Alcorão no quintal da sua igreja na Flórida.
Maravilha! Ainda estamos na Baixa Idade Média, pelo jeito.
Não concorda comigo? Te jogo na fogueira. Ai, que tédio! Já estou cansada de ver esse filme.
Nos anos 1990 Caetano Veloso cantava “até quando a América Latina precisará de ridículos tiranos”?
Os ridículos tiranos não vivem apenas na América Latina, infelizmente.
Hitler adorava fogueiras: queimou livros e gente.
Queimar livros é igualzinho a fechar emissoras de rádio e TV ou submeter a imprensa a “conselhos” que se arrogam o direito de julgar o conteúdo da informação democrática.
Quem precisa de fogueiras e de censura não tem fé no próprio taco. Não acredita que a sua verdade seja forte o bastante para sobreviver ao confronto e/ou à oposição.
Todo censor, no poder, é um incompetente.
No Brasil, as ditaduras de Vargas e dos militares precisaram da censura para se segurar na corda bamba do poder. Na China, a Internet mete medo.
Na Venezuela, são as imagens que ameaçam e são cortadas, nas TVs e nos jornais.
Mas é tudo igual. De direita ou de esquerda, hoje ou no tempo da Biblioteca de Alexandria, os donos da verdade temem o diálogo, o conhecimento, a ciência, a pesquisa.
Os donos da verdade são na verdade os arautos do atraso.
Cuidado, nas próximas eleições, pra não votar em nenhum deles, tá?
19. Santa Mãe, A Mentira Social
O
Jornal Valor traz uma matéria, em seu caderno de cultura, sobre a francesa
Elisabeth Badinter.(foto)
Para quem não se lembra, ela é a mais importante feminista da França, ou talvez mesmo do continente europeu.
Badinter volta a frequentar a mídia porque está alertando as mulheres para um perigoso retrocesso em suas conquistas que pode ocorrer por exigências dos ambientalistas. Por exemplo: o uso de fraldas descartáveis se tornar “politicamente incorreto”, a sugestão de trocar alimentos industrializados por orgânicos e potinhos de comida infantil por purezinhos feitos em casa e tudo isso vir a somar mais trabalho na já conhecida dupla jornada feminina, fazendo com que a incompatibilidade aparente entre a vida profissional e a vida doméstica se torne ainda maior.
Tudo isso e muito mais está no livro “Le Conflit, La Femme e La Mère” (O Conflito, a Mulher e a Mãe – a ser lançado no Brasil pela Editora Record e ainda sem título em português).
Há três décadas, a autora botou fogo nas discussões feministas quando publicou o antológico “Mito do Amor Materno” onde mostrava que o amor materno é uma simples invenção das necessidades econômicas do final do século XIX e que mãe nenhuma ama os filhos por instinto biológico, mas sim por opção consciente. Muitas vezes, nem ama.
Como sempre acontece quando Elisabeth Badinter bota a boca no mundo, muita gente cai matando em cima dela. Mas, na minha maneira de ver, ela está sempre certa.
Fiquei entusiasmada ao ver fotos da Badinter no jornal. Fotos dela são uma raridade na mídia e depois que a poeira, que suas polêmicas levantam, abaixa, todo mundo quer se esquecer dela bem depressinha.
Badinter, assim como outros seres humanos da vanguarda, que vivem muito à frente de seu tempo, é profundamente odiada pelos covardes sociais. E é sempre bom lembrar que a grande maioria dos seres humanos morre de medo das mudanças sociais e passa a detestar e, se possível, esquecer os vanguardistas que ousam propor essas mudanças.
Tenho muito orgulho de, numa escala muitíssimo mais modesta que a Badinter, fazer parte do time dos odiados da vida. Na minha adolescência diziam que eu era uma pessoa “capaz de tudo”, por causa do que muita gente considerava a minha ousada atitude diante da vida.
Não sou capaz de tudo. Sou incapaz de matar, de comer quiabo e, graças a Deus, também sou incapaz de odiar alguém por mais de meia hora.
Todas as minhas convicções sobre a repressão sexual foram consideradas “absurdas” durante muitas décadas. Hoje, defendendo essas mesmas convicções, sou primeiro lugar de audiência na Rádio Tupi AM de São Paulo e meus ouvintes se manifestam muito positivamente sobre as mesmas convicções que escandalizavam editores, professores, censores da Ditadura e similares na década de 1960.
Isso me mostra claramente que aqui, no Ocidente, evoluímos sexualmente, que estamos muito mais sadios do que éramos na época da minha juventude, quando eu ousava viver uma liberdade sexual que escandalizava, mas que já era e fora vivida por mulheres excepcionais como Anais Nin, Pagu, Leila Diniz, Luz Del Fuego, Virginia Lane, Gilda de Abreu e tantas outras.
A grande questão que parece escapar a este debate acirrado sobre a contraposição entre o trabalho profissional e a maternidade está justamente na negação, às mulheres e pelas próprias mulheres, da opção.
Ninguém questiona um solteirão que nunca quis ser pai.
Mas todo mundo acha um horror uma mulher que não quer ser mãe.
Cada vez mais, mulheres percebem que não tem, como outras a tem, a vocação para a maternidade. Mas a maioria ainda considera que a maternidade é “sagrada” ou que a mulher só se realiza sendo mãe e outras solenes bobagens que foram incutidas na cabeça social exatamente, como diz a Badinter, pela necessidade econômica de gerar um monte de mão de obra.
A necessidade acabou mas o costume continua.
Hoje o mundo não precisa mais de tanta gente. Ao contrário.
Mas, agora que se criou o grande mito do amor materno e da necessidade absoluta e imperiosa de gerar criancinhas, como ficamos?
A Dra. Angelita Gama, pioneira cirurgiã e Professora Titular da Faculdade de Medicina da USP, foi uma das brasileiras que, entre a carreira e a maternidade, preferiu optar pela carreira. Hoje muitas mulheres estão fazendo isso. Eu fiz isso e nunca me arrependi.
Não são todos os seres humanos que trazem em si a vocação da maternidade ou da paternidade.
Por isso não adianta nada a mulherada ficar brigando entre si, procurando soluções para conciliar a maternidade com a vida profissional, modelos que serviriam para todas as mulheres. Há vários tipos de mulheres. Não somos todas iguais. Não precisamos de padrões únicos.
Sempre haverá aquelas que vão preferir dedicar-se integralmente aos seus filhos. E não há nada de errado com elas. Como não há nada de errado com aquelas que preferem dedicar-se integralmente às suas atividades profissionais.
Paz para a Badinter! Ela bem a merece.
18. Aldeia Profética
Quando, nos deslumbrantes e inquietantes anos 1960, Marshall McLuhan afirmou que
o mundo era uma aldeia e Andy Wharoll disse que, no futuro, todo mundo teria
seus 15 minutos de fama, ninguém ainda imaginaria a Internet e os celulares
cumprindo essas profecias.
Um episódio da clássica série de ficção científica na TV “Além da Imaginação” mostrava, também nos anos 1960, um futuro onde todas as pessoas do planeta poderiam ser identificadas e localizadas através de um número. Parecia um pesadelo, mas de fato era o sonho profético (e maravilhoso) do telefone celular.
A Internet, com seus sites e blogs, permite que cada um de nós possa ser famoso por 15 minutos e o mundo se tornou uma aldeia globalizada onde pessoas de diferentes culturas se vestem com as mesmas modas, usam os mesmos termos técnicos, independentemente da sua língua de origem, assistem aos mesmos filmes, leem os mesmos best sellers e basta sentar em frente à TV ou à tela do computador para conhecer o planeta sem sair de casa.
No Brasil do governo Lula vemos a ascensão de uma classe até outro dia muito pobre e que hoje tem ao seu alcance muitos dos bens de consumo que sempre foram privilégios das classes mais favorecidas.
Estamos nos tornando todos iguais. Nas ruas, quase todas as pessoas seguem a moda, quase todas as pessoas podem ter a roupinha, o sapatinho, o estilinho que está nas revistas e nas novelas.
Quase todas podem, graças ao milagre do crédito e da moeda estável, desfrutar de tratamentos estéticos que antes eram só para milionários, como implantes dentários, cirurgias estéticas e produtos cosméticos que mantém todos com a cara limpa.
Quase todas as famílias têm celulares e automóveis e TVs de plasma e câmeras digitais e computadores.
É o paraíso do consumo atingindo os arcaicos objetivos (nunca alcançados, diga-se de passagem) dos anacrônicos comunistas.
A democratização ainda é maior na informação do que no consumo, mas -- outra vez -- a Internet vai colocar por terra a antiga máxima: “Informação é Poder”.
É claro que ainda existe a mais absoluta miséria no Brasil e no mundo. É claro que ainda existem os descamisados do Collor e os excluídos do Brizola. É claro que ainda existe violência, preconceito, intolerância e muita injustiça, principalmente na distribuição da riqueza.
Mas o caminho foi aberto e, cada vez mais, o esclarecimento atingirá mais e mais pessoas, derrubando preconceitos, intolerâncias raciais e religiosas, discriminações sociais, todos os frutos – enfim – da ignorância.
Ninguém mais ignorará coisa alguma num futuro muito próximo.
O esclarecimento (ou deveria dizer iluminação?) da humanidade, via tecnologia, derrubará e tornará peças de museu, gente como Fidéis, Marco Aurélios, Dilmas, Chávez, Morales... Tornará autênticos dinossauros fossilizados todos os generais das ditaduras militares brasileira, argentina, chilena. Fará dos Bush figuras risíveis e tirará o rei da barriga dos esnobes e dos aristocratas.
Todos os babacas sucumbirão à grande aldeia globalizada.
Isso, é claro, se os outros profetas, aqueles das baleias e do aquecimento global, estiverem errados.
Infelizmente, eu não sou nada profética (como o meu pai que, quando entrei na faculdade de cinema, em 1970, me disse que eu deveria ter ido para a engenharia eletrônica porque era ali que estava o futuro da imagem...), mas, mesmo não sendo, aposto sim num futuro de grande esclarecimento, onde os Edires da vida não conseguirão mais fazer dinheiro a custa da ingenuidade do povo e onde os terroristas serão apenas lendas aterrorizantes que tirarão o sono das criancinhas, como tiravam os vampiros das crianças do passado.
Além disso, seremos todos nobres. Até lá, esses sites da Internet que descobrem os antepassados de todos nós e saem por aí distribuindo brasões familiares, já terão estabelecido que, na ascendência de cada ser humano sobre a terra, existe um antepassado nobre e outro ladrão.
Iluminação e esclarecimento gerando a igualdade social.
Esse é o meu sonho profético para a nossa aldeia global.
17. Sangue no Asfalto
Todo mundo fica
extremamente chocado com números como os de centenas de mortos em desastres de
avião, com as vítimas dos terremotos, com os 33 assassinados recentemente em
Moscou pelas mulheres-bomba.
Também causa escândalo as dezenas de vítimas da epidemia de gripe suína.
Pior ainda, os que pereceram quando as encostas de Angra vieram abaixo em pleno Réveillon.
Se cair um prédio e morrerem 200 pessoas, teremos assunto para 200 dias.
No entanto, cada vez que há um feriado prolongado no Brasil, milhares de pessoas são vítimas dessas máquinas de moer carne que chamamos de automóveis ou simplesmente carros. Mas ninguém vê, ou ninguém quer ver.
Em 1908 o grande poeta Olavo Bilac escrevia, horrorizado, ao prefeito de São Paulo, dizendo que o grande número de automóveis que estavam chegando à cidade (eram todos, claro, importados) acabaria por destruir a beleza da capital paulista e seria um grande perigo para os transeuntes.
Cento e dois anos depois são os automóveis que aterrorizavam o poeta os responsáveis pelos 200 atropelamentos/dia que acontecem na cidade e por um número incontável de vítimas do trânsito, mutilados, aleijados, com a vida destruída. São famílias sofrendo. É gente morrendo. Pior que uma guerra. Só nesse feriado de Páscoa houve um aumento de 34% nos acidentes nas estradas federais com relação ao ano passado.
Além disso – mas isso já bastaria – os congestionamentos de trânsito estão transformando as cidades em fábricas de loucos e significam enormes prejuízos não só aos cofres públicos e das empresas privadas como também ao bolso do cidadão.
Se alguma seriedade houvesse nos governos, todos estariam procurando adotar medidas restritivas à circulação de automóveis e criando alternativas de transporte para oferecer ao povo. Metrô. Trens. Ônibus confortáveis. Bondes. Carruagens. Qualquer coisa que tirasse das ruas essas máquinas velhas, ultrapassadas, assassinas e poluidoras que são os carros.
Mas, ao invés disso, continua a publicidade a vender a falsa idéia do poder e do status através dessas máquinas ridículas. Continuam os comerciais a exibir peripécias automobilísticas que os coitados dos jovens desavisados vão tentar imitar, principalmente quando tiverem bebido ou se drogado, pra fazer bonito e, assim, acabar morrendo no asfalto.
O automóvel é um mal tão ou mais grave que o cigarro.
Venho de uma geração para quem ambos – cigarro e carro – eram símbolos de progresso e elegância. Mas, graças a Deus e ao progresso, evoluímos.
Hoje são o máximo da
cafonice.
Chique é andar de bicicleta, a pé, de metrô.
Chique é a atividade física e a alimentação saudável.
Chique é o ecológico e o sustentável.
Há mais de cem anos, Olavo Bilac já sabia.
Em breve, todos saberão.
16.
O Oito de Março
Em
8 de março de 1857 cento e vinte nove operárias de uma fábrica de tecidos em
Nova York foram assassinadas, queimadas vivas, quando protestavam, reivindicando
a redução da jornada de trabalho de 12 para 10 horas.
Foi a primeira greve americana conduzida exclusivamente por mulheres.
Os patrões delas e a polícia simplesmente tacaram fogo na fábrica.
No mesmo ano, 1857, na Alemanha, nascia Clara Zetkin (foto) que se tornou militante socialista e feminista e propôs, em na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, que a data da greve das tecelãs de 1857 se tornasse oficialmente o Dia Internacional da Mulher.
Assim, as mulheres de todo o mundo, passaram, a partir de 1911, a reverenciar a memória de todas as lutadoras da terra no dia 8 de março. A data, no entanto, só foi oficializada em 1975, quando a ONU decretou este como o Ano Internacional da Mulher e se realizou, no México, a Primeira Conferência Internacional da Mulher, com a participação de lideranças feministas de todo o mundo, inclusive, é claro, do Brasil.
Em 1910, quando Clara Zetkin propôs a data, as mulheres não tinham nenhum direito, eram cidadãs de segunda classe. Não podiam votar. Não podiam conservar as propriedades em seu nome, depois de casadas: todos os seus bens passavam automaticamente para o marido e, se ele rompesse o casamento, ela ficaria pobre, ainda que fosse rica antes de se casar. Não podiam conservar os filhos juntos delas se divorciadas. Poderiam ser trancafiadas em hospício com a simples palavra do marido, quando este queria se livrar delas. Os maridos tinham o direito de matar as esposas caso elas os traíssem. No Brasil, havia a figura jurídica da “legítima defesa da honra”, que absolvia, nos tribunais, os maridos assassinos.
Em
1910, enquanto Clara lutava pelas mulheres na Convenção Socialista, a enfermeira
norte americana, Margaret Sanger (foto), era perseguida e exilada porque ousara
ensinar às mulheres de Nova Iorque, onde vivia, os pouquíssimos métodos
anticoncepcionais disponíveis naquele tempo. Foi acusada de divulgar
pornografia.
A pílula anticoncepcional é de 1960. Só a partir da pílula as mulheres começaram a reivindicar o seu direito ao prazer sexual. Mulher chamada “direita” não podia ter prazer, isso era para as outras, as prostitutas.
Na metade da década de 1960, as feministas americanas queimaram sutiãs em praça pública, numa atitude simbólica, que reivindicava liberdade para o corpo feminino que, antes, já fora espremido em espartilhos e tantas vezes deformado, em várias culturas orientais, para satisfazer aos fetiches sexuais masculinos. Foram as americanas que, depois da segunda guerra, lutaram contra o hábito de amarrar os pés das meninas japonesas para que eles não crescessem e dessem a elas aquele andar miudinho que tanto agradava aos homens.
Na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil, as primeiras décadas do século passado viram crescer as sufragistas, mulheres que, nestes países, lutavam pelo direito de votar.
O voto feminino só veio em 1920 nos EUA, em 1928, na Inglaterra, em 1934 no Brasil, em 1973 – pasmem—na França.
Só nas décadas de 1970 e 1980 as mulheres começaram a deixar de ser minoria absoluta nos cursos superiores e no mercado de trabalho.
Mas hoje, 100 anos depois de Clara Zetkin, ainda ganham menos que os homens na mesma função, ainda têm seu clitóris extirpado à faca em 80% dos países africanos, ainda são mortas por maridos e namorados ciumentos, ainda estão longe da plena igualdade de direitos com o sexo masculino.
Por isso, embora a mídia tenha transformado o 8 de março numa data de florzinhas, presentinhos e outras baboseiras que se convencionou chamar de típicas do sexo frágil, essa data, para as mulheres, ainda significa sim uma data de luta pela igualdade de direitos sociais.
E se hoje nós temos alguns direitos conquistados, no 8 de março, é obrigatório agradecer à memória de todas as feministas que lutaram, sofreram e até morreram para que estivéssemos hoje onde estamos.
À memória delas e ao enorme valor de todas as mulheres de hoje, que trabalham, que amam, que são mães, esposas e guerreiras, tudo ao mesmo tempo, a nossa admiração e solidariedade.
15. A Culpa da Chuva
Às
vezes nem parece que estamos entrando na segunda década do século XXI. Apesar
de termos, com a internet e os twitters da vida, atingido a aldeia global que
Marshall McLuhan previa nos anos 1960 e os 15 minutos de fama que Andy Wahrol
dizia, nos mesmos 60, que todos teriam, de vez em quando eu me sinto em pleno
século XIX.
Dia
17 de janeiro alguns setores da nossa sociedade lembram-se dos 100 anos da morte do abolicionista Joaquim Nabuco.
Político e diplomata, Nabuco era um idealista. Lutou duramente pelo fim do regime escravagista no Brasil, aliás, poderíamos dizer “duramente” nos dois sentidos, literal e figurado, já que Nabuco, embora nascido em berço de ouro, passou a vida com pouquíssimo dinheiro e conseguiu até torrar o dote da esposa num negócio furado. No tempo dele não existia mensalão e nem brotava dinheiro das meias e cuecas dos homens públicos.
Políticos como este, do século XIX, são avis rara no século XXI.
Quem me dera fosse por isso que eu me sentisse no século XIX. Mas não é. É por causa de notícias como Hugo Chávez fechando emissoras de TV e dessa tal de segunda conferência nacional de cultura, quando mais uma vez a turma mais retrógada do governo Lula vai tentar censurar a imprensa brasileira e até a “incensurável” internet.
É irritante de tão retrógado, tão ridículo. Só gente insegura precisa de censura.
E por falar em gente insegura, outra coisa que tem frequentado muito os noticiários e que parece coisa do século XIX é o crime passional. Só nas últimas duas semanas, dois deles assustaram até os repórteres de TV, acostumados com a desgraceira de certos jornais matinais e vespertinos.
Primeiro o mecânico que matou a cabeleireira, apesar dela ter dado queixa das ameaças dele oito vezes e da Justiça ter proibido o bicho de chegar a menos de 300 metros dela. Segundo, o debilóide do ex-marido que matou o namorado atual da ex-mulher. Terceiro, os filhos do assassinado que surraram a coitada da moça porque acharam que a culpa pela morte do pai era dela. Quarto, o desequilibrado que matou os filhos antes de se matar apenas para se “vingar” da ex-esposa.
Chega de sangue, né? Só isso aí já está de bom tamanho mas há muito, muito mais...
Por isso é que o nosso querido Joaquim Nabuco deve estar se revirando no túmulo. Ele lutou tanto para acabar com a escravatura e libertar os negros do jugo dos fazendeiros e outros ricaços e, agora, em pleno século XXI, homens ignorantes acreditam que a mulher é deles, é posse deles, como um escravo era posse de seu senhor.
Essa mentalidade atrasada, infelizmente, é frequentemente reforçada pelas novelas de TV.
Mas Joaquim Nabuco também se escandalizaria com o descaso de todos os prefeitos paulistanos dos últimos 20 anos. Ninguém ousa dizer mas o Paulo Maluf foi criticado e gozado quando resolveu fazer piscinões para diminuir a tragédia das enchentes. Hoje se fala na urgência de novos piscinões.
A verdade, porém, é que não temos nenhum Joaquim Nabuco sentado na cadeira de prefeito da nossa cidade.
É simplesmente ridículo que uma megalópole como São Paulo, a cada verão, durante anos a fio, veja repetirem-se as mais variadas tragédias causadas pelas enchentes.
É ridículo que a cidade pare e some milhões de reais de prejuízo porque as Marginais inundam.
É ridículo que, em pleno século XXI, a gente tenha que constatar, mais uma vez, que os políticos escolhem essa carreira apenas pelas vantagens pessoais que podem auferir em seus cargos e não pelo desejo – como tinha Joaquim Nabuco – de servir à sociedade e de lutar por seus ideais. É claro que existem um ou dois políticos idealistas e bem intencionados mas, infelizmente, são a exceção que confirma a regra.
Neste ano de 2010 a desculpa é que choveu muito mais do que o habitual.
No entanto, se os prefeitos paulistanos tivessem tomado as mínimas providências necessárias para acabar (acabar, sim!) com as enchentes certamente o prejuízo seria bem menor.
O individualismo, a falta de consciência dos nossos políticos é tão retrógada quanto os crimes passionais.
Neste mundo globalizado é impossível ignorar que, como dizia o poeta, o que acontece a um afeta a todos.
É ridículo ignorar a imensa interdependência de todos os seres humanos.
É ridículo trabalhar apenas em proveito próprio.
É ridículo acreditar que um sentimento maravilhoso como o amor possa nos tornar “proprietários” do ser amado.
Ridículo.
Mas a culpa deve ser da chuva.
14. O Sucesso e o Tempero do Bife
Faço produção de TV há mais de vinte anos. A minha experiência mostra que, quando se trata de agendar convidados para ir ao ar, é, de longe, muito mais fácil agendar com homens do que com mulheres.
Faço programas médicos. Há tantas médicas quanto médicos. Mas há pouquíssimas médicas de carreira acadêmica, professoras, professoras titulares ou cirurgiãs.
No mercado de trabalho, as mulheres são 41%. Mas pouquíssimas ocupam cargos executivos, pouquíssimas participam do topo da pirâmede empresarial.
Na política, no Executivo ou no Legislativo elas nunca conseguem ser 10% dos cargos ocupados por homens.
O que acontece?
Serão as mulheres menos ambiciosas que os homens?
Serão menos competentes?
Acho que não. Acho que as mulheres são tão competentes quanto qualquer homem, algumas são muito mais competentes do que muitos homens. São ambiciosas também.
Então, por que ainda não chegam lá? Por que têm agendas tão complicadas o que torna muito mais difícil agendar compromissos com elas do que com eles?
Uma boa e simples explicação é a velha conversa da dupla jornada de trabalho: A mulher, trabalhando fora de casa, ainda acumula as tarefas domésticas e, portanto, não tem tempo para mais nada, não tem tempo para fazer política, para estudar, para se aperfeiçoar...
Bom, não deixa de ser verdade.
Mas o que dizer daquelas que tem um séqüito de empregados domésticos?
Acredito que o grande nó da questão seja a atitude mental da mulher e não exatamente o acúmulo de tarefas domésticas.
As mulheres estão no mercado de trabalho e na vida produtiva, pra valer, há coisa de cinco ou seis décadas.
Por milênios o único poder da mulher residia na maternidade ou no comércio do sexo. Ou ela tinha o poder porque era uma grande matriarca ou porque era uma grande cafetina.
Então, hoje, parece difícil para a maioria das mulheres se libertar do papel de “rainha do lar”. Mesmo que ela seja uma executiva ou uma política, mesmo que tenha empregados domésticos para realizar as tarefas da casa, ela não renuncia ao papel de rainha no lar. Ela quer ver tudo, dominar tudo. Do tempero do bife à quantidade de amaciante que vai na máquina de lavar.
A cabeça dela é que está dividida e ela não consegue (e não concebe) delegar as responsabilidades do cuidado da casa. Ela não divide essas responsabilidades com outros membros da família, filhos, marido, etc. Toma para si preocupações que poderia deixar por conta de profissionais do trabalho doméstico.
É claro que é muito importante cuidar do lar. É claro que é de suma importância preocupar-se com a educação dos filhos, com a alimentação e com a saúde da família.
No entanto, estas preocupações, num mundo em que a mulher participa da vida produtiva e política, não devem mais ser exclusivamente dela. O lar deve ser problema de todos os que vivem nele e não apenas da mulher.
Ousaria colocar uma nova expressão. Em vez de dizer “dupla jornada de trabalho”, dizer “dupla responsabilidade de trabalho”.
Para a mulher atuar no mundo a preocupação, a atitude mental de responsabilidade pelas questões domésticas, terá que ser igualmente dividida com outros membros da família.
Mulheres que participam da vida produtiva ou da vida política jamais poderão ter o mesmo sucesso e o mesmo empenho de seus competidores do sexo masculino enquanto não abrirem mão da sua imagem de rainhas-do-lar, enquanto estiverem preocupadas com o tempero do bife.
13. O Último Recurso
“A violência é o último recurso da incompetência”
Isaac Asimov
Quando alguém está em discordância com outro alguém e não consegue dialogar para chegar a um acordo, a uma conciliação, parte para a briga.
As razões podem ser muitas: psicológicas, emocionais, políticas ou estratégicas. Mas, seja porque for, quando a violência se instala é porque se torna impossível resolver de outro modo. Em outras palavras: não se consegue resolver de outro modo. Em mais outras palavras: se é incompetente para resolver de outro modo.
Todo violento é um incompetente.
Toda atitude de violência é uma incompetência.
Ladrões e corruptos roubam porque são incompetentes para ganhar dinheiro honestamente e fazer fortuna dentro da lei, como fizeram os Abílios Diniz e os Amadeus Aguiar da vida.
Maridos batem nas mulheres porque são incompetentes para levar uma vida sadia e feliz, incompetentes para amar, para sentir e dar prazer.
Ditaduras torturam e reprimem violentamente seus opositores porque são incompetentes para conviver com a crítica e a pressão dos seus inimigos políticos.
O exemplo da polícia de Brasília, usando a cavalaria, cassetetes e bombas de efeito moral contra um grupo de estudantes e trabalhadores desarmados e pacíficos extrapola o raciocínio acima e beira o desespero dos encurralados que, sem ter como escapar, perdem a cabeça.
Até o presidente Lula ficou horrorizado e deve ter, como eu e outros da nossa geração, se lembrado da polícia da Ditadura Militar, dos tempos insanos da tortura, da perseguição e, enfim, da incompetência dos primitivos, dos que não sabem (ou não aprenderam a)dialogar.
12. Igual,
porém Diferente.
As pessoas são, é claro, muito diferentes.
Nascem com dons e talentos diversos, com tendências e características genéticas próprias, crescem moldando-se pelo ambiente familiar, social e político... Enfim, como diria meu pai, o que seria do azul se todos gostassem do amarelo?
Porém,
pobres ou ricos, covardes ou corajosos, ignorantes ou intelectuais, homo ou
heterossexuais, altos ou baixos, brancos, pretos, vermelhos ou amarelos, todos
têm uma coisa em comum: não podem saber com certeza porque nasceram e muito
menos porque vão morrer.
O planeta também apresenta uma incrível diversidade de formas de vida, da ameba à baleia, do fungo à sequóia.
E o Universo, uma enorme diversidade de astros, do buraco negro à estrela de maior grandeza.
Diante de tamanha maravilha, deste estonteante deslumbramento que é viver na Terra, com seus mistérios e encantos;
diante de tantas conquistas sensacionais que tiraram o ser humano da caverna, de sua condição animal e o transformaram num ser racional capaz de visitar as estrelas e saber, com um simples toque de seu dedo, tudo o que se passa nos quatro cantos da terra;
diante da enorme evolução que vivemos e sabe-se lá o que ainda viveremos e, sobretudo,
diante da morte,
como é possível que ainda exista gente tão idiota que seja capaz de se sentir superior ao que quer que seja?
Homem superior à Mulher? Branco superior a negro? Ser humano superior ao animal? Cliente do restaurante superior ao garçom? Letrado superior ao ignorante? Europeu superior ao indígena? Paulista superior ao carioca? Palmeirense superior ao santista? Presidente superior ao operário?
Este tipo de sentimento, no século XXI, na época em que se comemora a biodiversidade, o armazenamento de informações na nuvem virtual, o Nobel da Paz ao negro presidente... Nossa! Sentir-se superior é tão antiquado quanto se comunicar por telex, viajar de carruagem, fotografar com filme de celulóide e gelatina, assistir filmes no videocassete...
A igualdade de direitos e de oportunidades ainda está muito longe da imensa maioria das comunidades do planeta terra.
Mas o sentimento de igualdade começa apenas no coração de cada um de nós.
Antenado, ecológico, contemporâneo da conquista, seja apenas igual conservando as suas diferenças.
E construiremos um mundo muito melhor.
Os
que Fazem a Diferença
Todos os dias, no meu programa de TV, de 1996 a 2006, eu falei sobre alguma mulher que, por qualquer razão, passou ou vai passar para a história.
Todos os dias, portanto, uma mulher importante nasceu, morreu, descobriu alguma coisa, ou inventou, ou foi premiada... Todos os dias eu falei, na TV e no meu site, de uma mulher que fez diferença no mundo. Durante 10 anos! Haja mulher importante, hein? Rainhas, inventoras, poetas, matemáticas, escritoras, atrizes, artistas plásticas, jornalistas, religiosas, pioneiras, feministas, políticas, humanistas... São as heroínas do dia.
Nem eu mesma imaginava, quando comecei esse quadro na TV, que havia tanto a dizer sobre tantas e tantas mulheres, personagens históricas.
Em mais de dois mil anos de dominação, reduzidas a um papel social menor, muitas vezes privadas da educação formal, as mulheres deixaram sua marca no mundo. Imagine o que elas não teriam feito se houvesse igualdade de oportunidades nas diversas culturas que compuseram o planeta durante todos esses anos!
Hoje,
quando em muitos países do mundo as mulheres conquistaram tantos direitos e
estão prestes a conquistar também a igualdade de oportunidades; hoje, quando
cresce a participação feminina no trabalho, na política e até nas esferas de
decisão e de poder, quanto não poderão realizar?
Mas ainda nos surpreendemos quando uma mulher realiza alguma coisa que, antes, era apenas privilégio dos machos. Ainda é notícia a primeira pilota de avião, a primeira chofer de ônibus, a primeira ministra de estado, a primeira presidente de um país.
Chegará o dia, no entanto, em que isso tudo será banalidade. Em que mulheres e homens serão iguais (na sua diferença) em oportunidades nas sociedades, em que as mães não mais precisarão recorrer à autoridade paterna para impor respeito aos seus filhos.
Chegará o dia em que mulheres com poder serão tão absolutamente normais como homens com poder.
E quando chegar esse dia, ele será fruto da luta de algumas poucas mulheres que ousaram, que se arriscaram, que refletiram e se revoltaram contra a sua condição social.
Será a vitória de algumas, beneficiando a todas.
E, então, não haverá mais sentido em se fazer efemérides femininas num programa de televisão.
É estranho que as conquistas sociais, que os avanços sociais, sejam o resultado de uns poucos seres humanos que, generosamente, se dispõem a lutar (e a sofrer e até a morrer) para beneficiar a todos, indiscriminadamente.
Para, num futuro nem tão distante, os beneficiados esquecerem que, sem os lutadores do passado, não viveriam como vivem.
Sem as feministas, as mulheres continuariam analfabetas e sem direito à propriedade, ao voto, ao prazer sexual, à contracepção.
Sem os líderes trabalhistas, a jornada ainda seria de 16 horas/dia, não haveria nenhum benefício, nem direito, todos os trabalhadores seriam quase escravos como eram no começo da era industrial.
Mas a vida é assim mesmo: uns poucos corajosos lutam por conquistas sociais, científicas e tecnológicas para que todos – inclusive os covardes, os acomodados, os ignorantes e um bando de corruptos – usufruam.
O Grande Poder de Mudança das Mulheres
Relatório do Fundo de População das Nações Unidas ressalta o papel feminino na preservação do meio ambiente.
Não é nenhuma novidade, mas o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) acaba de divulgar seu relatório 2009 onde a conclusão é que o futuro do planeta está na mão das mulheres e também que elas são quem mais afeta e quem mais é afetada pelas mudanças climáticas e pelo meio ambiente.
Já aquelas que fazem parte do um bilhão e meio de pobres do planeta são as que menos influência tem na questão ambiental e as que mais sofrem com as consequências da agressão ao planeta. São as famílias dessas mulheres as que mais dependem da agricultura e as que mais perdem seus empregos por causa dos desastres climáticos como enchentes, secas, etc.
Oprah Winfrey – a mais bem paga apresentadora da TV americana – e Hillary Clinton tem falado e atuado no sentido de capacitar as mulheres mais pobres do mundo para a vida profissional e para uma atitude que não somente as tire da exclusão social e as torne mais felizes, mas também as façam cidadãs de primeira classe. Madonna, a rainha do pop, está indo pelo mesmo caminho e foi exatamente isso que ela veio fazer no Brasil na semana passada: ver de perto a condição social das meninas pobres e usar sua grana e sua influência para ajudá-las a sair do buraco, como já fazem a própria Madonna e Oprah na África.
O relatório da UNFPA mostra ainda a importância do investimento na educação e na saúde das mulheres mais pobres porque é isso que pode modificar a situação econômica da região onde elas vivem. Meninas com maior índice de escolaridade e mais informadas sobre a sua saúde planejam sua prole e acabam por ter famílias menores e mais saudáveis, o que fará grande diferença na preservação dos recursos naturais do nosso pobre e vilipendiado planeta.
Thoraya Obaid, diretor executivo do UNFPA, afirma ainda que hoje são 3,4 bilhões de mulheres e meninas no mundo “fazendo papel de vítima” e que certamente seria muito melhor se elas fossem transformadas em agentes de mudança.
As mulheres tem de fato um enorme poder de influência em suas famílias e em suas comunidades. São capazes de mudar o comportamento de seus homens e de suas crianças e podem, por seu exemplo e atitude, realmente promover os hábitos que levam à preservação e ao respeito pelo meio ambiente.
Se, mesmo desunidas, são capazes de tudo isso, imagine o mundo novo que criariam se – como Oprah, Hillary e agora Madonna – fossem cúmplices e solidárias.
Eles Só Pensam Naquilo
É uma reclamação constante das mulheres essa conversa de que os homens “só pensam naquilo”. Como se eles estivessem errados.
Raramente uma mulher para pra pensar que ela também deveria viver “pensando naquilo”.
A enorme repressão sexual vivida pelo sexo feminino causou, além de outras mazelas, a grande dificuldade de, até hoje, vivenciar a plenitude sexual para a maioria absoluta das mulheres.
Bom, já sei que você aqui torceu o nariz e pensou : “A Isabel está exagerando de novo”.
Desculpe, mas não estou.
Metade das mulheres paulistanas tem uma destas dificuldades: para atingir o orgasmo, ou jamais chegaram lá ou sequer conseguem saber o que é desejo.
Já cansei de escrever sobre as causas disso tudo mas nunca é demais repetir.
Quando o homem descobriu que a mulher não era aquele ser mágico que ele imaginava, não bastava deitar à luz da lua para realizar o milagre da gestação, havia a participação do homem nisso. Então o homem pensou: se a minha mulher se deitar com qualquer um o filho dela poderá não ser meu e, se ele não for meu, como vai herdar as minhas propriedades?
Assim, surgiu a monogamia. Para garantir a paternidade.
Mas o homem não estava disposto a abrir mão de sua satisfação sexual plena e essa exigia a poligamia. Por isso, o homem dividiu a mulher em dois tipos: - Uma que era para casar e gerar os filhos dele e outra era para apenas lhe dar prazer.
Não contente com isso, o homem resolveu que as mulheres direitas, aquelas que eram para casar, não poderiam ter prazer. Porque, se tivessem, certamente também não se contentariam com um homem só.
Assim, por milênios, o prazer sexual foi proibido às mulheres chamadas “direitas” e, as outras, já que eram apenas um objeto para proporcionar prazer, muitas vezes também apenas davam e raramente tinham prazer.
O que é meio século de liberdade diante de alguns milênios de repressão?
Ao longo da História as mulheres foram lidando com a sua condição de inferioridade da melhor maneira possível. Entre os muitos pontos que pautavam a inferioridade feminina, a proibição do prazer sexual passou de restrição à distinção.
As mulheres, consciente ou inconscientemente, se “vingaram” dos homens passando a dominá-los pelo prazer. Como, para elas, o prazer não era mais a necessidade absoluta que sempre foi para os homens , elas aprenderam a usar o sexo como moeda, como instrumento de barganha, como arma de manipulação.
Além disso concentraram seus interesses em outras áreas e fecharam os olhos para as muitas amantes de seus maridos, já que o queriam deles não era sexo, mas poder, dinheiro, conforto e até amor.
Hoje, quando as mulheres estão teoricamente livres para o prazer, muitas delas precisam justificar seus episódios de atração sexual com o amor ou a paixão.
Por isso é que a gente vê mulheres se apaixonando por um novo homem
a cada nova balada.
Elas precisam acreditar que amam para poder justificar o seu desejo de simplesmente ir para a cama com um sujeito qualquer.
O resultado é desencontro. Ela pensa que ama o cara que apenas desejou, o cara que apenas a desejou não pensa que a ama, pode até vir a amá-la, mas não a ama, apenas deseja ou desejou.
Por que é que ele não me telefona?
A liberdade sexual ainda passa longe das mulheres. Mas, por isso, não se iludam, também está longe dos homens, ainda amarrados aos preconceitos pouco inteligentes que eles mesmos criaram.
Mas deveríamos ser todos, homens e mulheres, heteros ou homos ou bis, a viver “pensando naquilo”. Afinal “aquilo” é a maior força criativa da humanidade e a grande fonte de equilíbrio e de felicidade.
Igualdade
Já escrevi tanto sobre a condição social das mulheres brasileiras e de todo o mundo, já fiz tantos programas de TV sobre tudo isso, que, às vezes, o assunto me cansa.
Lembro-me de, em 1975, em plena ditadura, ter conhecido um grupo de mulheres organizadas que estavam trabalhando na semiclandestinidade. Uma delas, que finalizava um livro sobre a saúde da mulher, dirigido às mais simples, disse-me em tom de desabafo:
- Sabe, Isabel, o meu sonho feminista não era exatamente estar aqui ensinando as operárias a limpar a bunda.
Trinta e cinco anos depois, sinto-me um pouco assim. Decepcionada.
Quando encontrei Ana Montenegro, uma feminista histórica, na Bahia, ela me perguntou:
- Mas nós não estamos lutando por todas as mulheres, não é, Isabel?
Ainda temos muitas mulheres que não sabem limpar a bunda e ainda temos muitas mulheres pelas quais não vale a pena lutar.
Ouvi ainda, de uma secretária de multinacional, essa pérola:
- Quem foi que disse a você, Isabel, que as mulheres querem que você lute por elas?
Pois é. A gente se mata, passa por maldita, mal amada, eteceteras, e ainda tem que ouvir coisas assim.
Na verdade, todas as mulheres que lutaram, ao longo da história, pela igualdade social, pelo fim da discriminação, pela liberdade sexual, pelos direitos de cidadania, estavam, em primeiro lugar, lutando por si mesmas.
Eu, pobre de mim, não sou nada, nessa luta, perto de tantos exemplos históricos.
Mas também lutei e luto por mim. Porque sei o meu valor como ser humano, porque gosto de mim, porque não admito que a sociedade me veja como menor do que qualquer um. Somos todos iguais, na diferença. Todos, como dizia o poeta, acabaremos “com terra por cima e na horizontal”.
Sempre me achei capaz de me sustentar sem precisar de um homem para pagar-me as contas. E, graças a Deus e às feministas, pude passar a vida sendo independente e dona do meu nariz.
E hoje sinto, sinceramente, muita pena das meninas que se vendem, que fazem do sexo uma moeda e afastam de seu destino a oportunidade de se realizarem plenamente por conta própria e por mérito próprio. Sinto muita pena de mulheres que ainda acreditam que seus homens são melhores do que elas próprias. E mais pena ainda daquelas que dizem com horror: “Não, eu não sou feminista”.
Anos e anos lendo, escrevendo, entrevistando, aprendendo sobre essa cruel discriminação sexual, me fizeram endurecer, me fizeram ver tão claramente cada manifestação do preconceito contra as mulheres (que muitas delas, é claro, não só endossam como reforçam) que eu perdi um pouco a paciência.
É, no entanto, no eco das minhas palavras, no retorno que recebo das minhas crônicas, dos meus livros e dos meus programas de rádio e TV, que eu encontro a paciência perdida. Porque o que eu digo, o que eu acredito, encontra sim o coração e alma de muitas outras mulheres que pensam como eu, mas muitas vezes nem sabem disso.
Quando percebo que minhas palavras foram úteis para outras mulheres, então passo a acreditar, de novo, que vale a pena lutar.
E assim vamos. Aviltadas, desprezadas, discriminadas no amor e no trabalho, com tripla jornada de trabalho, confundindo amor e sexo, não sabendo bem qual é o nosso novo papel no mundo, mas vamos. Em frente.
O psiquiatra Paulo Gaudêncio disse um dia no meu programa de TV que a gente quer muito que tudo mude, mas não é assim que acontece. Tudo vai mudando. Lenta e gradualmente.
Hoje eu sei que vou morrer sem ver realizados os meus sonhos da juventude, sonhos de igualdade social para todos os discriminados, negros, pobres, índios, mulheres, idosos, deficientes... A turma dos “diferentes”.
Hoje eu sei que as guerras estúpidas vão continuar, as intolerâncias brutais de quem não consegue se perceber interdependente, como somos, todos, na vida.
Sei também que cada ser humano vive num tempo diferente, embora aparentemente estejamos todos na mesma época.
Ironicamente, escolhi viver no tempo da paz e, por isso, é preciso lutar. Como lutaram Lula, Obama, Marina Silva e tantos outros, na História da Humanidade, que derrubaram preconceitos e discriminação para mostrar que os diferentes também são muito iguais.
Lutar pela igualdade de oportunidades, para homens, mulheres, negros, pobres ou quem quer que seja, significa guerrear pela paz. Não é pra quem veio a este mundo a passeio. Não é mesmo.
Se Estivéssemos Juntas...
Segundo pesquisa publicada recentemente nos Estados Unidos, as mulheres representam 70% do consumo no mundo.
E o que significa isso? Poder.
O sexo feminino, que até menos de 100 anos passados, não tinha nem o direito de votar, hoje representa uma força econômica decisiva no planeta.
No Brasil, a mulher é mais de metade do eleitorado. Para um desavisado este dado significaria um enorme poder político na mão das mulheres. Juntas, elas elegeriam quem quisessem.
No entanto não é isso que acontece simplesmente porque as mulheres estão tudo, menos juntas.
A proverbial desunião feminina é histórica, cultural.
Durante milênios as mulheres se digladiaram para conseguir fisgar o homem mais importante das redondezas. Como a única forma de ter algum poder, era exercer o poder “por trás de um grande homem” e a única forma de ter dinheiro era casar com um homem de posses, as mulheres passavam a vida traindo uma as outras (quanta mulher não “roubou” o marido da melhor amiga?), denegrindo umas às outras (quanta mulher não assiste TV pra ficar reparando nos defeitos da maquiagem, da fala, da roupa, de qualquer coisa, das apresentadoras?) e sua arma predileta sempre foi o veneno, literal ou figurado.
Bom, acontece que hoje a mulher pode ter seu próprio lugar na sociedade. É dona do seu nariz, do seu corpo, do seu dinheiro e do seu desejo.
Não é mais necessário destruir as outras para conquistar o que quiser, inclusive um homem.
No entanto... Continuamos desunidas.
Quer mais?
Outro fator que pesa na desunião feminina é o hábito de não confiar umas nas outras (Também, depois dos poucos exemplos acima, já dá pra perceber que não dá pra confiar mesmo...).
A maioria das políticas que venceram eleições foi eleita por homens e não por mulheres. Mulher não vota em mulher. Mulher não promove outra mulher. E sabe por que? Por causa do milenar complexo de inferioridade.
As mulheres passaram tanto tempo sendo cidadãs de segunda classe, mercadoria, moeda de troca que, agora, poucas felizardas conseguem se livrar – consciente ou inconscientemente – desta certeza da inferioridade, da certeza de ser menos capazes e menos competentes, em qualquer campo, do que os homens. Sendo assim, se eu mulher sou inferior, a outra mulher também é. Portanto, não voto nela, não a promovo, não a prestigio.
No entanto, se somos 70% da força de consumo do mundo e se somos mais de 50% do eleitorado brasileiro, juntas seríamos invencíveis e poderíamos governar o mundo como bem entendêssemos.
06. A Paz nas Mãos das Mulheres
A conversa mais atual sobre as mulheres que está rolando hoje nos Estados Unidos, puxada por Hillary Clinton e Oprah Winfrey, é a necessidade de capacitar, através do estudo e da preparação profissional, as mulheres que ainda são brutalmente discriminadas em alguns países do mundo.
Não se trata apenas da velha conversa feminista de exigir igualdade de oportunidades e igualdade na diferença.
A exigência vai, além disso, ultrapassa os direitos da mulher: trata-se de uma questão de segurança nacional e de paz mundial.
Isso porque se constatou que, em países onde a mulher ainda é reprimida e não recebe educação ou não ocupa um papel produtivo na sociedade, a violência e o terrorismo correm soltos.
É interessante notar que, desde os primórdios do feminismo, quando surgiram os primeiros movimentos organizados de mulheres que lutavam pelo direito de votar (as famosas sufragistas) e por uma condição social que as tornasse cidadãs de primeira classe, uma das grandes bandeiras do sexo então chamado “frágil” é a paz.
Agora vem a constatação que, em países onde a mulher estuda e trabalha, onde ela, portanto, tem voz ativa na sociedade, existe muito menos violência.
No feminismo mais radical e primitivo, a idéia de que não havia diferença natural entre a maneira de ser de homens e mulheres era forte. As primeiras feministas não gostavam nem um pouquinho da conversa, por exemplo, de Esther Harding (psiquiatra discípula de Yung que fez grande sucesso com suas obras publicadas nos anos de 1930) que afirmava que as mulheres eram a lua e os homens, o sol.
Ou seja: as mulheres seriam mais sonhadoras, mais sensíveis, mais ternas e mais conciliadoras, enquanto os homens trariam em si a agressividade e o desejo de dominação do nosso astro rei.
Essa idéia corresponde ao que os médicos dizem sobre os hormônios sexuais. As mulheres são estrogênicas e progesterônicas (brilhantes e maternais) e nos homens domina a testosterona, o hormônio do desejo e da agressividade.
Algumas feministas ainda podem torcer o nariz, mas a verdade é que essa diferença é real e refletiu-se em toda a nossa história cultural. E a maior diplomacia e ternura das mulheres contra a agressividade exacerbada dos homens não significa que elas sejam mais trouxas ou menos capazes que eles.
Existe um desequilíbrio no mundo que é fruto do afastamento das mulheres das esferas produtivas, políticas e – portanto – da decisão.
O mundo construído pelos homens é testosterônico demais, é agressivo demais, é violento demais.
Quando as mulheres entraram maciçamente no mundo produtivo, na década de 1980, passaram pela fase da masculinização. Até a moda refletia isso, nos paletós com enormes ombreiras usados pelas executivas. Elas realmente precisavam de ombros largos – característicos dos homens – para enfrentar a barra de desafiar os preconceitos gerados por milênios de discriminação e se afirmar como seres tão competentes quanto os homens.
Hoje, porém, as mulheres já não precisam se masculinizar para serem aceitas no mundo produtivo.
Está na hora, portanto, de trazer os valores tipicamente femininos para este mundo testosterônico.
Aliás, essa é a tônica de um dos meus livros publicados, a contribuição que a mulher – com a cultura do universo feminino, com sua intuição e sua maior emotividade – pode e deve dar ao mundo.
Vemos agora os estudos americanos apontarem para a evidência de que as nações são menos violentas quando tem mulheres ativas.
05. Os Covardes e as Sandálias Havaianas.
É inacreditável: foi só o comercial das sandálias Havaianas colocar uma vovó dizendo pra neta que vale a pena fazer amor apenas por prazer pra que uma chiadeira nacional banisse o tal filme de propaganda para o “ostracismo” da Internet.
Diante do escândalo causado pelo comercial, a empresa optou por veiculá-lo na Internet, certamente apostando na maioria jovem da audiência da web.
É um festival de preconceitos, porque a verdade é que:
- tem muita gente de idade avançada na Internet;
- tem muito jovem preconceituoso;
- tem muito velho liberal e de mente aberta
- e sexo, prazer sexual, nada tem a ver com o amor.
Parabéns para a agência de propaganda que criou o filme e para o executivo das Havaianas que o aprovou.
Vaias para a Rede Globo que, reforçando o preconceito, diz que é de sexo o programa que é de amor e relacionamento.
Há muito eu tenho falado sobre as muitas tristes consequências desse antiquíssimo preconceito de unir o sexo ao amor.
Isto deriva de uma sequência de mentiras que se perpetuaram ao longo da história da humanidade.
A repressão sexual e social da mulher tem razões políticas e econômicas.
Quando o homem descobriu que ele tinha um papel na concepção, a mulher deixou de ser venerada como um ser especial que tinha a capacidade de gerar. E pior que isso: havia o risco, então, dela gerar filhos de diferentes homens.
Com o advento da propriedade, imagine que horror seria a mulher do dono da terra ter um filho do vizinho. Seria então o filho do vizinho quem herdaria a terra do homem dela.
Foi assim, portanto, que surgiu a monogamia.
Mas a monogamia foi inventada apenas para a mulher. O homem, é claro, jamais renunciaria à sua natural poligamia.
Por isso o homem – que já havia inventado a posse da terra e a consequente posse da mulher – inventou dois tipos de mulher: a que é para gerar os filhos dele e a que é para dar prazer a ele.
Ao sexo feminino, ao longo da história da nossa cultura, muita coisa foi negada às mulheres: a propriedade, a plena cidadania, a educação, a opinião própria, a liberdade de iniciativa e o prazer sexual.
A partir do final do século XVIII, na sociedade ocidental, algumas mulheres começaram a contestar todas as suas limitações. No século XIX apareceram as sufragistas, lutando ferozmente pelo direito de votar. Na primeira metade século XX perceberam que jamais seriam livres se não fossem donas de seu corpo e de seu dinheiro. Na segunda metade do século passado começaram a concretizar todas essas antigas reivindicações.
Foram para o mercado de trabalho, invadiram as universidades e, afinal, mostraram ao mundo que eram, sim, iguais na diferença.
Mas ainda não conquistaram a verdadeira liberdade sexual.
Mesmo entre as mais jovens – algumas já assumem seu desejo puro e simples – ainda existe essa conversa de “sexo pra mim só com amor”.
Este é um enorme preconceito que causa inúmeros problemas na relação homem-mulher.
Um homem, quando deseja alguém, simplesmente assume que deseja. Uma mulher, quando deseja alguém, pensa que está apaixonada.
As mulheres precisam, ainda, justificar o desejo com o amor, a paixão.
Séculos de repressão sexual ainda estão presentes na maioria das mulheres.
A maior queixa feminina nos ambulatórios médicos de sexologia é a ausência de desejo, a falta de orgasmo. Cerca de 90% dessas queixas são de origem sócio-cultural e só 10% de origem orgânica.
Poucas, infelizmente, são ainda as mulheres capazes de assumir seu desejo, como a vovó do comercial das Havaianas.
E é muito triste que essas ainda escandalizem parte da nossa sociedade, essa parte que vive um falso moralismo, um moralismo hipócrita e covarde.
04. Jogando Pra Perder
Talvez porque tenham tido, ao longo da História da Humanidade, que usar de muitos subterfúgios para sobreviver num mundo que as desvalorizava, as mulheres até hoje conservam algumas características que vem do tempo em que lutavam com unhas e dentes para conseguir um bom homem, já que um bom homem era a única maneira de ter algum destaque na sociedade.
O veneno (literal ou figurado), a desvalorização constante de qualquer outra mulher, a incrível desunião, a ausência de cumplicidade, a fragilidade da amizade, tudo isso ainda existe no universo feminino e é fruto da discriminação. Sim, porque a discriminação social gera a desunião e a competição desleal. Isso acontece com todos os segmentos discriminados de qualquer grupo social.
Mas de todas essas características indesejáveis que ainda sobrevivem em muitíssimas mulheres, a mais terrível para a sua própria felicidade talvez seja a milenar mania de usar subterfúgios e joguinhos adolescentes para “conquistar” um homem ou “prendê-lo”.
Isso, reafirmo, vem do tempo em que, para ser alguém, a mulher tinha que ter um homem do lado. Aí, valia tudo.
Hoje em dia usar joguinhos no relacionamento homem-mulher é um grande equívoco e certamente a maneira mais eficaz de assegurar o fracasso – a curto ou a longo prazo – do relacionamento.
Nenhuma relação vai se segurar se não for baseada na confiança, na cumplicidade e, principalmente, na sinceridade. Ah, e, sem dúvida, em uma grande afinidade sexual.
A mania feminina de confundir desejo com paixão, de justificar o sexo com o amor, a ausência de desejo ou de prazer, todas essas péssimas interpretações do sexo, são obstáculos femininos para uma relação feliz. São também de origem, na sua absoluta maioria, sociocultural e devem ser tratados por especialistas, de preferência com formação em Medicina e Sexologia.
Dessa disfunção sexual crônica vem o joguinho número um: fingir na cama.
Fingir orgasmos é fácil para as mulheres e impossível para os homens. Mas por quanto tempo uma mulher vai conseguir fingir? Um dia ela cansa e começa a evitar o sexo, vem a famosa dor de cabeça, a eterna indisposição.
Mas não adianta se iludir: para os homens, o sexo é absolutamente fundamental na relação. Então as fingidoras acabarão inevitavelmente traídas ou trocadas.
O joguinho número 2 é aquele de não fazer sexo logo no primeiro encontro, nem no segundo, se fazer de difícil e de rogada, julgando assim que ele vai enlouquecer de tesão e, quando finalmente a boboca for pra cama com ele, ficar tão agradecido e feliz que tenderá a perpetuar o relacionamento. Na maioria das vezes, o homem se enche da história dessa “dificuldade” para uma coisa tão simples e natural como ir pra cama. E, acredite minha amiga, quando ele se enche, você dança.
Existem muitos outros joguinhos. Existem até livros de (suposta) autoajuda que “ensinam” essas “técnicas”. Não leia. E se leu, não use.
A manutenção de um relacionamento feliz exige amor, muito sexo bem feito, compreensão, diálogo franco, enfim: alma limpa! Falo de cátedra, pois tenho uma vida conjugal feliz há 26 anos.
Se você quer um amor limpo, nunca jogue sujo.
Se você tem dificuldades sexuais, os serviços de sexologia dos hospitais estão aí para resolvê-las para você.
Afinal, depois que as nossas avós lutadoras conquistaram um novo lugar para nós na sociedade, os joguinhos servem apenas para por tudo a perder.
03. O Sopro e A Onda
A Phillips divulga nesta semana, através de sua assessoria de imprensa, uma pesquisa internacional sobre os problemas do sono.
Nela, Charles Kreisler, professor de Medicina do Sono da Harvard Medical School, afirma: “O sono não é opcional – é absolutamente crucial para a saúde das pessoas”.
O sintoma apontado como número um da falta de sono foi diminuição da paciência e da tolerância.
A pesquisa foi feita com executivos mas eu gostaria de ver uma pesquisa semelhante com mulheres na menopausa, fossem elas executivas, donas de casa,pobres, ricas, de qualquer nacionalidade ou raça... enfim, todas!
Porque todas as mulheres que chegam à menopausa sofrerão, por um dia ou por anos a fio, as horrorosas ondas de calor.
A pesquisa da Phillips constata o que todos os torturadores do planeta, desde que o mundo é o mundo, estão fartos de saber: prive o infeliz do torturado do sono e você terá quase 100% de eficácia na tortura.
Dormiu? Jogue um balde d’água nele, aplique um choque elétrico, queime a sua mão... Faça-o acordar até que ele desmaie.
Ou mais simples: programe você, para experimentar a barra pesada, o seu celular para tocar de hora em hora durante a noite e veja como você se levantará no dia seguinte. É isso que acontece com as mulheres menopausadas: acordam em intervalos de uma hora ou duas, no meio da noite, tomadas por uma horrenda onda de calor.
Imaginou?
Depois desse exercício, qualquer pessoa, da mais incompreensiva ou intolerante à mais machista, pensará duas vezes antes de criticar a mamãe, a vovó, a titia ou a colega por ela estar assim tão “inexplicavelmente” irritada se até já passou da época da TPM.
Pois é. Mal se livrou da menstruação e da irritação da TPM vêm as malditas ondas de calor para acabar com a paciência de qualquer mulher, por mais boazinha que ela possa ser.
Então a esta altura do campeonato você pode estar pensando que um bom médico poderia facilmente dar um jeito nisso.
Será mesmo ou esse é mais um mito da classe dos mitos “acalma mulher”?
Existe a famosa Terapia Hormonal da Menopausa (que antes se chamava Reposição Hormonal): Tome hormônios e livre-se de vários “sintomas” da menopausa, entre eles a onda de calor.
Fácil né?
Uma ova.
Começa que, a cada ano, surge uma nova pesquisa falando contra ou a favor desta ou daquela maneira de se fazer a tal da terapia hormonal. Já se disse que ela beneficiava o coração e hoje se diz que ela pode prejudicar o coração. Já se disse que ela causava cânceres ginecológicos e hoje está na moda dizer que o risco de câncer é muito pouco aumentado e que “os benefícios superam os riscos”. Ah, ótimo. Então mesmo que 1 mulher em 100 mil desenvolvesse câncer, as outras 99 mil ficariam só com os benefícios, mas e se fosse eu essa mulher 1? Risco é risco. Se não fosse importante ninguém jogava na loteria, afinal a chance de ganhar é 1 em um milhão, mas alguém ganha, né?
Você se arriscaria a ganhar um câncer?
Aí vem os adeptos da fitoterapia e os não menos famosos naturebas. Soja e outras plantinhas acabariam com o calor. Ninguém nunca provou e eu conheço montanhas de mulheres que experimentaram e não deu certo. Nem em remédios fitoterápicos, nem em chazinhos caseiros.
E aqui é preciso lembrar que não basta ser “natural” para estar livre de efeitos colaterais. O efeito colateral do natural arsênico é a morte. Além disso, eu vivo dizendo que natural mesmo é morar na caverna.
É claro que muitas mulheres já experimentaram tanto a terapia hormonal como alguns dos fitoterápicos conseguiram ficar satisfeitas, felizes, sem calores, etc.
Mas essas “muitas” são uma minoria muito pequena. Entre elas, algumas tiveram câncer. Outras engordaram e ouviram dos seus médicos que “engordar na sua idade é natural”. Outra mentira cabeluda pra salvar a terapia das acusações. O metabolismo pode ser menor, depois dos 50, mas o apetite também é. Engordar não é uma sentença da idade, quase sempre é por causa dos medicamentos mesmo.
E, para terminar, todos esses remédios tem preços absolutamente proibitivos para a maioria do nosso povo.
Porém, se servir de consolo e esperança, vale aqui lembrar que a saúde da mulher, em sua atenção integral, é coisa muito nova, existe de umas duas décadas pra cá apenas. Antes, os médicos viam as mulheres apenas como um aparelho reprodutor, mais ou menos como uma vaca parideira.
A Atenção Integral à Saúde da Mulher, um conceito praticado hoje por quase a totalidade dos ginecologistas, é uma conquista feminista que, no Brasil, muito deveu aos movimentos organizados de mulheres e ao apoio de corajosos médicos como Albertina Duarte, Tânia Santana e o nosso saudoso José Aristodemo Pinotti, entre outros.
É preciso a presença feminina na Ciência e na Medicina para que se pesquise soluções para os problemas específicos das mulheres.
Um exemplo típico é o surgimento dos modernos absorventes íntimos. Por milênios as mulheres tiveram que suportar aquela sujeirada menstrual entre as pernas, primeiro com as toalhinhas e depois com aqueles absorventes enormes e desconfortáveis. Foi preciso que, nos anos 1980, uma médica alemã inventasse o OB para libertar as mulheres desse suplício mensal. (Ainda que, até hoje, muitas mulheres altamente reprimidas sexualmente se recusem a usar a comodidade dos absorventes internos por medo de manipular seus próprios órgãos sexuais e pelo preconceito resultante de milênios de repressão sexual que gerou um imenso desconhecimento da genitália feminina por parte das próprias mulheres e também dos homens).
Como as mulheres começaram a entrar na Medicina e na Ciência de uma forma maciça apenas a partir da década de 1970, e a alcançar projeção nessas áreas apenas em meados de 1980, faça a conta: é agora, em 2010 que as cientistas, pesquisadoras e médicas começarão a entrar na menopausa. Aí, minha amiga, para a nossa felicidade, elas descobrirão uma maneira bem melhor de nos livrar dos incômodos da menopausa.
Pois, como já dizia a minha sábia e falecida mãe, se os homens ficassem grávidos, o aborto jamais teria sido proibido. Há muito eles teriam estabelecido, para a sua própria conveniência, que a vida só começa quando o bebê sai do corpo da mãe e recebe nos pulmões a primeira golfada de ar; como está na Bíblia: o sopro da vida.
02. Sexo Grupal e Monogamia
Bom, agora que o filme Os Normais 2 tocou no assunto, todo mundo vai ter coragem de desenrolar o tema.
Coragem de fazer, muita gente já tem e sempre teve, ao longo da história da humanidade. Assumir é que é difícil.
A verdade é que, em matéria de sexo, somos todos uns hipócritas.
A coisa estava bem arranjada para e pelo sexo masculino.
O homem era o sexo forte, a mulher, o fraco.
O homem sustentava a mulher, que não tinha direito a nada, a não ser ter filhos e governar a casa ou, então, virar mulher “fácil”. Mulher raramente estudava. Raramente trabalhava (sempre em posições extremamente serviçais). Não podia ter propriedades e muito menos prazer sexual.
O sexo feminino era dividido em dois grandes grupos: as direitas e as outras.
Com as direitas os homens casavam, copulavam só pra fazer filhos e, se alguma delas reivindicasse qualquer coisa ou se recusasse a engravidar, ou, ainda, se tivesse o atrevimento de querer conhecer o prazer sexual, muito provavelmente passaria o resto de seus dias trancada num convento ou num hospício.
Com as outras, os homens faziam sexo. Com uma ou mais de uma ao mesmo tempo. Pagavam para que elas lhes dessem prazer e não estavam nem aí pro eventual prazer delas.
Aqui você suspira aliviada: ainda bem que tudo mudou!
Será que mudou?
Os garotos de hoje ainda separam as garotas em “menina do bem” e “menina do mal”. Ou seja, a “do mal” é aquela que ousa ser sexualmente livre. Com essa, só se transa, nunca se casa.
As mulheres adultas, independentes, donas de sua conta bancária e supostamente de seu destino, na maioria, são as mesmas que se recusam a ir para a cama no primeiro encontro com medo do que “ele” vai pensar dela. Ou seja: são tão submissas e dependentes da aprovação do homem como foram suas avós.
A verdade histórica, nunca mencionada, é que os homens inventaram a monogamia apenas para as mulheres. Eles sempre tiveram mais de uma mulher, sempre tiveram casos extraconjugais, amantes fixas (as “teúdas e manteúdas” na linguagem jurídica) e sempre mentiram tanto para as esposas quanto para as amantes.
Agora, que as mulheres conquistaram a independência econômica, a cidadania plena e o direito ao prazer, será que se contentarão em continuar tendo um homem só? Será que continuarão fingindo que o sexo só existe com amor?
E, na hora do swing?
Sempre duas mulheres com um só homem?
Ou sexo grupal com homens casados e garotas de programa?
Homens podem admitir sexo grupal, mas quase nunca com a esposa.
E por que não dois homens com uma mulher?
Desde que o mundo é mundo, gente avançada como o pintor Salvador Dali, só pra dar um exemplo clássico, assume tranquilamente que a monogamia é uma mentira hipócrita para tentar “ajeitar” de maneira socialmente conveniente a questão do prazer sexual.
Dali amava Gala, sua mulher, e Gala era apaixonada por Dali. Mas eles faziam sexo com os amigos. Dali, Gala e uma amiga. Dali, Gala e um amigo. Dali, Gala e um casal de amigos. E assim por diante.
Mas não eram os únicos.
Muita gente viveu plenamente seus desejos sexuais sem fazer o joguinho hipócrita da mulher “do bem” e da mulher “do mal”.
Da antiguidade até os dias de hoje existem pessoas que ousam viver a verdadeira liberdade sexual sem dar nenhuma bola pra torcida.
Costumam ter a pele e os olhos mais brilhantes, são mais saudáveis, menos neuróticas e bem mais felizes do que os que se acovardam no modelo hipócrita. Infelizmente, a maioria.
01.
Estela,
do Paulicéia
No
começo da década de 1950, José e Maria Rita, os pais de Estela, foram
convencidos, por um amigo, a investir num dos primeiros edifícios residenciais
que estava sendo construído na Avenida Paulista. Com projeto de Jacques Pilon e
Gian Carlo Gasperini, o prédio estava sendo erguido entre as Alamedas Campinas e
Joaquim Eugênio de Lima e prometia ser tão luxuoso quanto eram as mansões da
avenida, reduto da elite paulistana. Além disso, ocuparia o terreno onde fora
construída a primeira residência da Avenida, logo depois de sua inauguração em
1891 (residência de Von Bullow, foto de 1902).
José e Maria Rita haviam alcançado uma situação econômico-financeira razoável, mas vinham de uma origem humilde, eram gente do povo mesmo. Ela, que desde menina, trabalhara no magistério, primeiro como auxiliar de classe, enquanto ainda cursava o Normal, acabara se tornando uma das sócias de uma escola pequena, mas muito bem sucedida, na zona sul da cidade. Ele, que começara sua vida fotografando, com uma máquina emprestada de um cunhado, os prédios da cidade, na década de trinta, acabara por se tornar um dos mais bem sucedidos fotógrafos de São Paulo, comandando uma equipe de profissionais, em seu próprio estúdio, que se encarregavam de registrar o ritmo cada vez mais frenético da arquitetura paulistana.
Pois fora justamente um cliente, que se tornara amigo da família, que falara ao casal desse novo empreendimento do escritório de Gasperini, esse um arquiteto de origem italiana, jovem ainda, que adotara o Rio de Janeiro e, depois, São Paulo, como seu lar e prometia ser um dos maiores nomes da arquitetura brasileira.
Embora Maria Rita não quisesse nem pensar em morar em apartamento e, ainda mais, dizia ela, em plena Avenida Paulista, lugar de gente rica, acabou concordando com o marido. Era um bom investimento. O prédio, depois de erguido, acabaria se valorizando naturalmente e dinheiro para investir, felizmente, havia. Tanto a escola como o estúdio de fotografia estavam, nos últimos anos, pós-guerra, se revelando uma excelente fonte de renda para o casal. Foram ao local, examinaram as obras e o projeto.
No
vasto terreno, antes ocupado pela primeira mansão da avenida, de propriedade de
Von Billow, dono da cervejaria Antártica, seriam erguidas duas torres: uma de
frente para a Paulista, o Edifício Paulicéia, e outra de frente para a Rua São
Carlos do Pinhal, o Edifício São Carlos. O condomínio teria assim duas entradas.
Os prédios seriam estreitos e os apartamentos teriam janelas para os dois lados.
No caso do Paulicéia, as salas teriam ampla visão para a avenida e os quartos
dariam para o jardim interno. Uma beleza, o jardim – explicava o jovem corretor
Manoel.
E a garagem! Ocuparia todo o espaço do subsolo do terreno, podendo acomodar os grandes automóveis rabos de peixe que estavam na moda.
Os prédios apresentavam quatro versões de apartamentos: de quatro, três, dois e um dormitório. “Assim- explicava o jovem Manoel – as famílias do interior, por exemplo, que mandassem seus filhos estudar na capital, poderiam instalá-los num apartamento de menores proporções, mas com todo o conforto dos demais, como a água quente abundante que jorraria das torneiras e dos chuveiros, graças a uma potente caldeira a óleo, que seria colocada no subsolo.
Sim –explicava Manoel – porque a apenas clientes indicados pelas melhores famílias da cidade estavam sendo oferecidos os apartamentos”. Nenhum anúncio em jornais ou revistas. Todos os potenciais compradores estavam vindo por indicação de conhecidos dos empreendedores” . E esta seria uma tradição que se estenderia, afinal, nos edifícios, por décadas e décadas.
Maria Rita gostou do tamanho das janelas. “Se um dia eu viesse morar aqui – pensou ela – poderia ter grandes vasos de plantas nas salas ensolaradas”.
O casal optou por um apartamento de três quartos, no Paulicéia, de frente para a Paulista, no sétimo andar.
Quando
o prédio foi inaugurado e foram ver o apartamento pronto, Maria Rita se
apaixonou. Era lindo! Amplo, claro, confortável, luxuoso. E de frente para a
Avenida, que tinha apenas mais dois prédios, mas que prometia um futuro aonde
todas aquelas maravilhosas mansões e seus enormes jardins iriam cedendo, cada
vez mais, seus espaços para outros edifícios. Embora ela gostasse da casa onde
moravam, ali perto, na Rua Vergueiro, comparada ao novo apartamento, sua casa
parecia muito, muito antiga. Mudaram-se. E foi ali, na Avenida Paulista, que,
pela primeira vez naqueles quinze anos de casamento, Maria Rita conseguiu
engravidar e o casal teve sua primeira e única filha, a quem chamaram de Estela.
O
futuro realizou todas as previsões do casal, naquele começo dos cinqüenta.
Gasperini se tornou um dos mais importantes arquitetos da cidade, sendo
responsável, entre outros, pelo prédio sede do jornal O Estado de S.Paulo, na
Rua Major Quedinho; pela Galeria Metrópole, na Rua Augusta e mais tarde, no fim
da década de oitenta, pelo revolucionário prédio azul do City Bank, na mesma
Paulista, quase em frente ao Paulicéia.
As mansões da avenida deram lugar aos mais imponentes edifícios, a começar pelos mais antigos, como o próprio Paulicéia, o Conjunto Nacional (que, em 1957 abrigou o chiquésimo Fasano, em cujo jardim de inverno se apresentaram artistas como Nat King Cole e Marlene Dietrich) e tantos outros, que se tornaram famosos, como o prédio-pirâmede da Federação das Indústrias do Estado ou residencial Baronesa de Arary, onde morou Cacilda Becker.
No final do século XX, a Paulista era o símbolo de São Paulo, todos os bancos e escritórios importantes estavam ali instalados e das velhas mansões quase nada sobrara, a não ser um casarão decadente, um outro preservado pela cadeia de lanchonetes Mac Donald e a famosa Casa das Rosas, projetada por Ramos de Azevedo em 1935 e que virou espaço público. Sobreviveram ainda o prédio do Instituto Pasteur e o colégio Rodrigues Alves, construídos nos primeiros anos do século XX.


A última mansão a ser destruída, por uma bomba, pelo proprietário que temia vê-la tombada pelo Patrimônio Público, fora a famosa casa dos Matarazzo, na esquina da Rua Pamplona, no fim da década de oitenta.
Havia ainda o Parque Trianon (que preservava a flora original de 1891, quando a avenida fora construída por Joaquim Eugênio de Lima) e o MASP, Museu de Arte de S.Paulo, de Lina Bo Bardi e Pietro Maria, que abrigava um dos mais ricos acervos de arte do país. Isso sem contar o comércio, galerias de arte, institutos culturais, cinemas, restaurantes e uma multidão que circulava pela avenida todos os dias. No prédio da Fundação Cásper Líbero, onde a partir da década de sessenta, funcionavam os estúdios da TV Gazeta e também o mais famoso cursinho pré-vestibular, ali, bem ao lado do Paulicéia, a Rede Globo de Televisão instalara sua maravilhosa antena-torre, visível de quase toda a cidade. Antenas e heliportos se espalharam pelo alto da Paulista. A avenida se tornou uma amostra do mundo.
Estela
cresceu e foi mudando junto com a avenida. Cresceu como uma menina mimada, de
classe média alta, freqüentando os melhores lugares da cidade, nos Jardins,
sendo educada nos melhores colégios, fez seu pré-vestibular ao lado de sua casa,
experimentou maconha sentada nas escadarias do Objetivo e da Fundação e cursou a
Faculdade de Economia do tradicional Colégio São Luiz, dos jesuítas, ali no
final da Avenida, quase esquina com a Consolação.
Com uma educação privilegiada, com a casa dos pais freqüentadas por intelectuais e jornalistas, era inevitável que Estela, na adolescência, fosse engrossar a turma de jovens brasileiros burgueses que eram contrários à ditadura militar que se instalara no país, jovens que compunham o que se convencionou chamar de “esquerda festiva”, que liam todos os profetas da década, de Marcuse à McLuhan; idolatravam Mao, Fidel e Guevara, mas também tinham simpatias por Kennedy e ouviam jazz. Beatles, bossa nova e mpb. Eram da turma “fino da bossa” e acreditavam que os da ala “jovem guarda” eram apenas alienados. Mesmo assim, Estela quase desmaiou de emoção quando um dia, entrando no elevador, deu de cara com nada mais nada menos do que o Rei da Jovem Guarda, o cantor Roberto Carlos.
Descobriu, assim, que ele estava querendo ser seu vizinho, morar também no Paulicéia. O problema é que os moradores temiam uma invasão de fãs no prédio e deram um jeito de convencer o proprietário a não alugar para o cantor. Aliás, Roberto não seria a única celebridade que Estela encontraria no elevador de seu prédio. A jornalista de moda, Regina Guerreiro; o crítico de arte, Jacob Klintowitz; o cantor Wilson Simonal; o maestro Diogo Pacheco; o famoso produtor musical Zuza Homem de Mello; vários cônsules de países importantes; a apresentadora de TV, Marisa Leite de Barros; a escritora Isabel Vasconcellos e outras personalidades foram, algum dia, moradores do Paulicéia.
Mas, com o passar do tempo e a invasão dos grandes edifícios comerciais, o prédio foi decaindo. Não era mais chique morar na Avenida Paulista. Novos e modernos edifícios comerciais, em outros bairros, passaram a ser considerados “nobres” e o perfil dos moradores foi mudando. Muitos proprietários começaram a alugar seus apartamentos para executivos estrangeiros, de passagem pelo país. Gente que trabalhava nas imediações achava confortável morar ali. E assim, poucas famílias dos primeiros anos restavam, a população do Paulicéia tornou-se diferente e muito variada. Mas José e Maria Rita não queriam nem ouvir falar em mudar. Na verdade, nem Estela.
Diferentemente, por exemplo, do Baronesa de Arary (que teve que ser desocupado em 1993 para não correr o risco de pegar fogo, dada a precariedade de sua manutenção) o Paulicéia conservou-se em ordem, graças ao homem que foi seu Síndico por décadas, Manoel (que antes fora apenas o corretor e agora tinha vários apartamentos nos prédios do condomínio).
O prédio tinha algumas figuras que faziam parte de sua história e que trabalhavam pela manutenção de seu nível de conforto: os irmãos André e Cláudio, encanadores, que tinham na cabeça todo o sistema hidráulico dos edifícios; Walter, o velho marceneiro, responsável pela confecção de todas as estantes da biblioteca de José e Maria Rita e por tantos outros móveis em tantos outros apartamentos; Luiz, o zelador português que estava lá desde a inauguração e só se aposentou no final dos anos 90, cedendo seu lugar ao Edson, por anos seu fiel escudeiro; Antonio, o porteiro da garagem; Thiago, o homem-sorriso... e tantos outros!
Estela gostava daquele prédio, gostava das pessoas que trabalhavam ali, conhecia cada planta do jardim, onde passara horas brincando quando era criança. Aliás, sofrera muito quando, no começo dos anos 70, a avenida fora alargada e roubara uns bons metros do jardim da frente do condomínio. No do fundo havia uma enorme touceira de azaléias, de todas as cores, que formavam uma espécie de “caverna” no interior, onde ela frequentemente se abrigava, quando não queria ver ninguém, para ler um livro. Mesmo, depois de adulta, às vezes ainda fazia isso.
Quando terminara sua faculdade, no meio dos anos setenta, Estela foi mandada pelos pais, que temiam as conseqüências das atividades e relações de sua filha com o pessoal da esquerda, para estudar na França.
Voltou na época da anistia e encontrou um clima de festa no Brasil. Reviu os amigos e, para a surpresa de José, embora tivesse um currículo excelente e pudesse conseguir boa colocação no mercado de trabalho, Estela preferiu ir trabalhar com o pai.
Maria Rita, no começo dos anos oitenta, deixou a escola, vendendo a sua parte na sociedade e morreu logo depois, vítima de um repentino e fulminante câncer de esôfago. José morreu seis meses mais tarde, fumante inveterado, de câncer no pulmão. E Estela se viu sozinha no apartamento e no estúdio de fotografia que, graças a Deus, conservava seu movimento e sua clientela e lhe permitia viver sem preocupações.
Embora mantivesse alguns amigos de infância e da juventude, embora freqüentasse os mais badalados eventos culturais da cidade, os melhores shoppings, cinemas, teatros, restaurantes e cabeleireiros, Estela sentiu-se ainda mais só, depois do súbito desaparecimento de seus pais. Já estava com mais de 30 anos e apesar de ter namorado alguns dos mais cobiçados partidos da cidade, parecia que os homens da sua geração haviam preferido unir-se a mulheres menos intelectuais e menos independentes do que ela.
Muitos amigos e parentes estranhavam que ela, depois da morte dos pais, continuasse a viver no Paulicéia. “Mude-se para o Portal do Morumbi. Ou para o Panambi. Ou para Moema” – diziam. “Não tem sentido morar no meio da Paulista”. Mas Estela apenas ria. “Adoro aquele prédio, nasci e cresci lá, adoro meu apartamento e adoro a Paulista”, ela respondia. Depois da morte de sua mãe, que deixara mais de 70 vasos no apartamento, incluindo duas bananeiras, um coqueiro e uma imensa árvore da felicidade, Estela foi obrigada a aprender a cuidar das plantas e descobriu, nesse cuidado, uma atividade fascinante. Ela costumava rir da mãe, sempre preocupada com as plantas, e só quando teve que cuidar ela própria percebeu que se estabelecia, sim, uma forte e gratificante relação entre ela e aqueles serzinhos vegetais que respondiam tão evidentemente à sua atenção.
Em 1991, quando Estela ia completar 38 anos, a Paulista comemoraria seu centenário. Ela foi convidada a ir a uma reunião, no Clube Holms, da recém criada Associação Paulista Viva, que seria responsável pela comemoração. Lá ficou conhecendo as bisnetas de Joaquim Eugênio de Lima, o empreendedor que idealizara e criara a avenida, Newmar e Vera Helena, e com estas aprendeu muito sobre a história da Paulista. Estela nascera e crescera na avenida e surpreendeu-se ao perceber que nada sabia, até então, de sua história. A avenida fora concebida por seu criador para ser, de fato, o abrigo das elites paulistanas do fim do século XIX. Para que ela fosse uma linha reta, de dois quilômetros de extensão, indo do Paraíso à Angélica, Eugênio de Lima teve que aterrar o vale que cortava o morro do Caaguaçu, criando assim a necessidade de se construir, cinqüenta anos depois, um túnel na Avenida nove de Julho. O empreendedor tinha já, naquele tempo, suas convicções ecológicas e trouxe um paisagista francês para preservar, no Parque Trianon, parte da mata Atlântica original que ocupava a região. Calçou a avenida de pedras brancas e a ladeou por árvores. O empreendimento foi inaugurado a 8 de dezembro de 1891. A elite prestigiou a iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima. Em 1895 era inaugurada a primeira mansão, de uma série de outras que viriam, exatamente no terreno onde fora erguido o edifício Paulicéia. Em 1909, a Paulista viria a ser a primeira via asfaltada de São Paulo, com material importado da Alemanha.
Caminhando de volta do clube Holms para sua casa, uns poucos metros, fitando a moderna Paulista, com sua rica imponência, naquela noite estrelada, Estela sentiu-se, de repente, muito, muito só. Morava ali, no centro da efervescência daquela metrópole, cercada de muita gente, muito barulho, muita confusão. Mas o que a aguardava, no apartamento onde nascera e onde, agora, morava sozinha, eram apenas suas plantas, seus “discos e livros e nada mais”, como dizia a velha canção. Seus amigos iam e vinham. Mas cada um tinha a sua própria vida. Seus namorados eram tão efêmeros quanto as suas flores e a lembrança da alegria dos seus pais, que habitava as paredes do apartamento, era uma saudade doída. Estava tudo bem. Gostava de sua casa, de seu trabalho, de sua vida, mas sabia que lhe faltava um companheiro, filhos, uma família. Faltava mais que isso. Faltava um ideal, um objetivo, uma razão para viver. E isso a entristecia.
Estela percebeu de repente que, naquela noite, conversando com as bisnetas de Eugênio de Lima, havia tido um momento de alegria, como, há muito, não havia. Tudo era bom em sua vida, mas morno, previsível, rotineiro. A música e os livros costumavam, antes, lhe dar uma certa alegria. Mas, nos últimos tempos, já não era assim. Nos últimos tempos, nem mesmo o cinema, o teatro, nem as conversas divertidas no cabeleireiro, nada... Até das plantas andava se descuidando. E nunca mais se escondera, dentro da touceira de azaléias, para devorar um livro querido. Tudo se tornara uma sucessão de dias iguais, administrando as contas e os eventuais problemas do estúdio, dirigindo no trânsito, saindo cedo e chegando tarde, vendo TV, comendo sozinha o jantar que a empregada deixava pronto. Nem mesmo a empregada, que sempre tinha uma história engraçada para contar, ela estava encontrando.
Entrou em casa, sentindo o peso da solidão e foi até o escritório, contíguo à sala, onde uma das paredes era totalmente forrada por fotos feitas por seu pai. Havia paisagens, momentos familiares, flagrantes do cotidiano da cidade e, muitas, muitas retratos seus, em diversas épocas de sua vida, desde quando era um bebê até o final da adolescência. Havia também uma foto, tirada por ela há mais de 10 anos, de seus pais, juntos e rindo. “Cresci num lar feliz”, concluiu ela olhando detalhadamente para aqueles flagrantes na parede. “Mas para que? Para acabar assim, quarentona e solitária, numa vida medíocre e rotineira?”.
Tomou um uísque e foi dormir. Um sono sem sonhos. Na manhã seguinte, a empregada chegou cedo, risonha como sempre. Estela tomou um café reforçado, deu uma olhada nos jornais e, sem muita vontade, arrumou a bolsa para ir para a academia. A porta do elevador se abriu no saguão de seu apartamento e ela entrou. Lá dentro, sozinha, estava uma menininha de seus 7 ou 8 anos de idade. Estela disse um bom dia e a menina sorriu. Estela quase desmaiou ao olhar para o rosto da menina. Ela era igualzinha a uma das fotos que admirara na noite anterior, era igualzinha a ela própria, Estela, naquela idade. Até as roupas pareciam um tanto antiquadas. O corte da cabelo, tudo. A menina, talvez um pouco incomodada com o olhar assustado de Estela, levou a mão direita ao cabelo e ajeitou uma mecha. Então Estela viu a pinta no dorso da mão dela. Era exatamente igual à pinta que Estela tinha na mão. Mostrou a própria mão a ela e disse, tentando aparentar uma naturalidade que estava longe de sentir:
- Veja, que coincidência! Eu tenho uma pinta igualzinha à sua na minha mão!
A porta do elevador se abriu, tinham chegado ao térreo. A menina sorriu de novo e saiu correndo. Estela ia para a garagem mas, confusa e assustada, desceu no térreo.
- Bom dia, dona Estela – disse o porteiro, Thiago, que a conhecia desde criança. Posso ajudar em alguma coisa?
- Thiago, quem é essa menina?
- Que menina?
- Essa que estava comigo no elevador e saiu correndo agora.
- Ué, não vi nenhuma menina, não.
- Como, você estava distraído? Ela passou por você, correndo.
Thiago riu, aquele sorriso aberto que Estela sempre invejara nele. Muitas vezes se perguntara por que seria que aquele homem, que sabia tudo do prédio, que ocupava um cargo humilde e que, nas horas vagas, era visto pendurado do lado de fora de algum apartamento, lavando as enormes janelas, vivia sempre tão alegre. Era pobre, negro, trabalhava doze horas por dia... Thiago sempre fora um mistério para Estela. Mas, desde criança, ela era sempre socorrida por ele. Ou porque o elevador parava e abria a porta no meio da parede. Ou porque a máquina de lavar inundara a área de serviço. Ou porque ela não tinha força para empurrar aquela cristaleira da sala. Ou mesmo para trocar as lâmpadas. “Chama o Thiago!”...
- Não sei que menina é essa, não, dona Estela. Aí no seu bloco só tem a meninazinha filha da Dona Clotilde.
- Deve ser essa. Como é que ela é?
Ele riu de novo:
- Ela fez alguma mal criação?
- Não. Não. Eu só estranhei porque, bem... ela é parecida comigo.
Ele riu de novo:
- Ah, então não é ela, não, a filha da Dona Clotilde é ruiva e sardenta, bem diferente da senhora.
- Você se lembra como eu era, quando era criança?
Thiago riu outra vez:
- Vige! Se me lembro... levada que dava gosto!
- Estou falando fisicamente... Lembra como eu usava o cabelo?
- Assim, por aqui – fez ele – levando as mãos à altura do queixo. Era preto seu cabelo. Não tinha esses pedaços louros que tem agora.
- Reflexos.
- É. Não tinha.
- E quem é essa menina parecida comigo, quando eu era criança, que eu vi agora no elevador?
- Não sei, não, Dona Estela.
- Bom, deixa pra lá. Já estou atrasada mesmo. Tchau, Thiaguinho.
E se foi. Mas, durante todo o dia, pensou na garota. Até a pinta na mão... que coisa estranha era aquela? Teria sido uma alucinação? Por toda aquela semana, um arrepio percorria seu corpo a cada vez que a porta do elevador se abria no saguão do seu andar.
O tempo foi passando e a impressão, que a semelhança daquela menina consigo mesma deixara nela, também.
Quase sem perceber, Estela foi ficando cada vez mais triste. Já não encontrava prazer e alegria em nada. A vida era apenas uma chatíssima rotina. Lembrava-se porém que, antigamente, uma estranha alegria habitava dentro dela. Imaginou que a menininha do elevador fosse apenas uma visão, uma projeção do seu inconsciente, uma alucinação, uma mensagem, algo para fazê-la lembrar-se sua infância, de sua juventude, de seus sonhos passados e daquela alegria perdida.
Mas, refletia ela, quando era criança havia no país um clima de euforia. O próprio prédio onde morava era um exemplo dessa euforia e dessa esperança nacional. A fachada azul. As linhas, consideradas arrojadas, da arquitetura dos anos cinqüenta... eram típicas dos tempos de Juscelino Kubitischeck, de 50 anos de progresso em apenas cinco, da construção de Brasília, capital de um país predestinado a ser o celeiro do mundo e a futura potência progressista... Ela era criança, sim, mas não era burra. Ouvia a conversa dos adultos, amigos de seus pais, muitos intelectuais inflamados por um otimismo nacionalista. Os próprios professores das escolas que freqüentava transmitiam essas idéias aos pequenos alunos. A coisa era tão forte que, lembrava-se, um dia lera num santinho do Jânio Quadros a frase “tirar o país da sua condição de subdesenvolvimento” e fora perguntar à sua mãe como era possível que o Brasil, aquele país que ela aprendera ser tão cheio de riquezas e privilégios, afinal, fosse menos que desenvolvido...
Depois, pensa Estela, vieram os anos sessenta. Os anos revolucionários, os anos da pregação da liberdade. E o Brasil mergulhara nos duríssimos tempos da repressão do regime militar, da ditadura militar. Ela era jovem então e, apesar do regime, vivera aquele clima libertário em toda a sua plenitude. Acreditava que a sua geração fora predestinada a forjar um mundo melhor e mais livre. Era preciso não confiar em ninguém com mais de trinta anos, ninguém que houvesse sido formado fora dos anseios de justiça social e liberdade absoluta. Era preciso endurecer sem perder a ternura. Era preciso fazer amor e não a guerra. Todas as idéias, todos os poemas, todas as canções, todas as peças de teatro, todos os filmes, todos os livros, tudo o que não pregasse o amor, a igualdade de oportunidades, a solidariedade, tudo era considerado por fora, careta, retrogrado. Sim, aquela geração, a qual Estela se orgulhava de pertencer, estava construindo um mundo novo.
Mas... qual! Em 1970 os Beatles se separaram. John Lennon disse “o sonho acabou” e, como sempre, ele estava certo. Os jovens dos anos 60 viraram adultos e foram seduzidos pelos anos do milagre brasileiro quando se consolidou o consumismo desenfreado e todos começaram a medir a todos pelos valores do “ter”,completamente esquecidos do “ser”; Belchior gritava, no meio da década: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Estela sabia que os poetas sempre tinham razão. Quando fora estudar na França encontrara lá alguns brasileiros exilados. Eram todos um pouco mais velhos que ela e haviam sido seus ídolos na adolescência. Eram os seus heróis estudantis dos tempos da resistência à ditadura militar. Vistos de perto, porém, revelavam-se tão pequeno burgueses, tão deslumbrados com a sua própria condição de intelectuais politicamente exilados... uns bobos, ingênuos, primários!
Agora, mais de uma década depois de sua volta, Estela sentia falta de lideres, de ideais, de alguma coisa a qual pudesse se unir. Fora ficando, naqueles anos, cada vez mais só. Seus amigos casaram-se, sumiram, mudaram... E ela apenas trabalhara e trabalhara. Fazendo crescer, é verdade, o negócio aberto por seu pai. Mas para que? Há uns anos passados quase se entusiasmara ao ver, da janela do apartamento, a Paulista totalmente tomada pelos jovens, de cara pintada, vindos dos quatro cantos do país, a desfilar pela avenida em passeata aos gritos de “Fora Collor”. Mas percebera logo que aquilo era apenas mais uma ilusão. Aquela impressionante manifestação jovem fora simplesmente orquestrada pela grande rede de televisão a quem interessava o “impeachment” do presidente que ela própria ajudara a eleger. Era apenas a ditadura da moda. E Estela se pôs a refletir, pensando se tudo o que ela vivera na adolescência, se aquele sonho dourado de amor e liberdade dos anos sessenta, não fôra também apenas moda...
Nem mesmo no amor ela se realizara. Aqueles garotos, seus companheiros de geração, libertários e lutadores haviam se revelado tão machistas quanto seus avós. Namoravam e transavam com as meninas modernas, que tomavam pílula e pregavam a revolução, que tinham idéias feministas e queriam estudar e fazer carreira... Mas acabaram se casando com as outras, as submissas, as dependentes, as caretas... Mulheres como ela – e ainda lhe restavam algumas amigas assim – livres, independentes, donas de seu próprio nariz, assustavam esses homens e acabaram ficando solteironas ou virando amantes eventuais de senhores bem casados. Por tudo isso, os sonhos enterrados e esquecidos, Estela sentia-se cada vez mais só, cada vez mais triste.
Meses depois do encontro com a garota no elevador, entediada, numa tarde de sábado, resolveu ir dar uma volta no jardim do prédio. Ainda tinha muito tempo antes de se preparar para a festa de aniversário de um amigo, aonde iria nessa noite. Era julho, mas o dia estava quase quente, com um céu muito azul. De longe, Estela admirou a touceira de azaléias. Plantados em círculo, pés de azaléia de várias cores, formavam uma bola e, dentro, havia aquela “clareira”, quase uma caverna, onde ela gostava de se esconder quando era criança. Aproximou-se. Sob o sol, flores de todas as cores vibravam. Era muito lindo, pensou. Abaixou-se para passar entre os galhos e entrar em seu esconderijo infantil. Lá dentro, sentada num canto, um livro nas mãos, estava de novo aquela estranha menina.
- Oi – disse Estela.
- Oi – respondeu a menina.
- O que você está lendo?
- Vinte Mil Léguas Submarinas.
Júlio Verne fora um dos autores prediletos de Estela na infância.
- Você sempre vem ler aqui? – perguntou.
- Hum, hum – fez a menina, com uma afirmativa de cabeça e sem tirar os olhos do livro.
Estela olhou bem para ela. Era igual a ela própria quando criança. Uma coisa impressionante.
- Onde está sua mãe?
- No céu, eu acho. Ela morreu.
Estela se desconcertou.
- Me desculpe. Eu não podia imaginar... Bom, até logo.
- Até logo – respondeu a menina, ainda sem tirar os olhos do livro.
Estela saiu procurando o Thiago. Encontrou-o na garagem:
- Thiago, vi a tal menina de novo!
- Que menina, dona Estela?
- Aquela que parece comigo, quando eu era criança. Quem é ela Thiago? Ela disse que a mãe dela morreu. Você conhece todo mundo aqui no prédio! Quem é ela?
- Não sei... Ela disse que a mãe morreu? Não conheço nenhuma menina sem mãe aqui no prédio, não.
- Vem, comigo. Ela está no jardim. Preciso saber quem é ela.
Thiago subiu com Estela. Mas a menina já não estava lá, dentro das azaléias. Jogado num canto, estava o livro. Era um livro muito antigo. Estela o pegou. Na página de rosto, estava escrito com a sua própria letra infantil: “Pertence a Estela Soares”. Ela gritou:
- Mas esse livro é meu!
Thiago riu:
- Pode ser. A senhora se lembra que, quando seu pai faleceu, a senhora fez uma limpeza nas estantes do apartamento? Eu fui lá ajudar, no domingo. Coloquei um montão de livros numa caixa e deixei lá no quartinho da garagem. Muita gente andou pegando os livros que a senhora não queria mais.
Era verdade. Estela se lembrava. Mas já haviam se passado anos. Como a menina, que era a sua cara escrita e escarrada, estaria lendo aquele livro velho, que fora, seu e por que o teria abandonado ali, justamente no seu esconderijo predileto?
Estela achou que estava tendo alucinações. Ou, pior, enlouquecendo. Lembrava-se de que havia jogado aquele livro fora porque o tinha em duplicata. Na adolescência o pai comprara para ela toda a coleção de Julio Verne, ricamente encadernada. Voltou ao apartamento e foi direto à estante. Pegou o volume encadernado de “Vinte Mil Léguas Submarinas” e começou a ler. De repente, a leitura estava lhe dando aquela alegria perdida, uma alegria da qual ela mal se lembrara nos últimos anos. Quando olhou o relógio, era quase meia noite. A festa! Esquecera-se da festa! Bah, mas que importava? Leu o livro até o fim e foi dormir. Sonhou que estava num navio e, a cada porta que abria, lá estava a menina, com seu velho livro nas mãos. De repente a menina disse: “Estela, venha para o mar!”
Acordou assustada.
A voz da menina ainda ecoava em seus pensamentos: “Venha para o mar!”
O que significava tudo aquilo? Quem era aquela menina, afinal? Ela existia ou era uma simples lembrança de sua própria infância, que estava a se materializar, como a querer dizer algo? Mas o que? O que ela deixara perdido na infância?
Venha para o mar. Há anos, muitos anos, Estela não ia à praia. Seus pais tinham tido, por um bom tempo, um confortável apartamento na praia de Itararé, em São Vicente e também um barco que ficava guardado num estaleiro, do outro lado da Ponte Pênsil. Estela gostava de esquiar na baía e passar sob a ponte. Um dia, quando ela já era moça e não queria mais esquiar com o pai, ele vendera o barco e o apartamento. Estela sentiu saudades. Oito horas da manhã. Domingo. Tomou uma decisão. Jogou umas coisas e uma toalha numa valise, vestiu um biquíni por baixo da roupa, pegou o carro e foi para a praia. Estava um dia lindo e quente, embora fosse inverno. Achou um hotelzinho perto da praia, tinha vaga, registrou-se e, quinze minutos depois, estava passeando pelas praias que ladeavam a Ilha Porchat, mergulhada em lembranças de sua adolescência feliz. Lá pelas duas da tarde, sentou-se num quiosque para comer alguma coisa, pediu uma cerveja. Na mesa ao lado, um homem com uma criança não tirava os olhos dela. Aproximou-se. Ela estava sozinha? Podia sentar-se? O garoto que estava com ele saiu correndo em direção ao mar.
“Criança é fogo”, ele comentou. Mostrou o binóculo pendurado no pescoço. “Nunca venho a praia com ele sem trazer isso. Assim posso ver onde ele está. Esse menino não é mole. E, se eu perder ele na praia, a mãe dele me mata.” Riram. Ele era o Carlos, com quem Estela viveria até o fim de seus dias. Divorciado, no fim de semana pegava o filho de 10 anos e gostavam de ir para aquela praia. Ele trabalhava numa rede de TV, dirigia o departamento comercial. Estava divorciado havia pouco mais de um ano. Começaram a conversar e logo estavam se entendendo às mil maravilhas. Estela ria, feliz, pensando que fizera muito bem de vir à praia. De repente ele perguntou:
- E você mora aonde, em São Paulo?
- Na Avenida Paulista.
Ele fez uma cara de espanto.
Estela estava acostumada a ver a cara espantada de muita gente quando ela dizia onde morava. A maioria dos paulistanos achava que não existiam apartamentos residenciais na Paulista. Mas o espanto dele era outro. Riu:
- Não é possível! Somos vizinhos, então.
- Você também mora por ali?
- Eu moro no edifício Paulicéia, na avenida mesmo – respondeu ele.
Aí foi a vez de ela rir.
- Eu também. Eu nasci no Paulicéia e moro lá até hoje.
Como era possível? Nunca tinham se visto e ele já morava lá há mais de um ano. Comentaram que aquele prédio era mesmo muito grande e não tinha áreas comuns de lazer, não existia esse conceito quando o prédio fora construído. O condomínio tinha ao todo 280 apartamentos e um elevador para cada bloco. Era natural, por fim, que nunca tivessem se encontrado.
Carlos contou a ela que, depois do divórcio, tinha que achar um apartamento, um lugar para morar. E que, de repente, tinha se lembrado daquele prédio. “Você sabe – disse ele – que o edifício Paulicéia é o prédio mais filmado da televisão brasileira?”. Estela nunca tinha pensado nisso, mas lembrou-se imediatamente que já vira, incontáveis vezes, o prédio servindo de fundo para imagens de entrevistas gravadas pelas TVs na rua. Talvez porque, pela avenida, circulasse todo o tipo de gente e talvez ainda porque aquele exato trecho da avenida, bem em frente ao edifício, tivesse sido, e ainda fosse, palco de quase todas as manifestações populares de comemorações e reivindicações, as TVs tinham mesmo elegido aquele trecho como o lugar ideal para se fazer entrevistas de rua. Assim, o Paulicéia servia de fundo para inúmeras reportagens.
“Eu estava pensando – disse Carlos – aonde iria morar quando, nos monitores de TV da minha sala de trabalho, vi mais uma reportagem de rua onde aparecia o prédio. O azul da fachada, a touceira de azaléias na grade da frente... Pensei: quero morar nesse prédio. Fui até lá, mas o porteiro me disse que tinha ordem de mostrar apartamentos, que estivessem para vender ou alugar, a pessoas indicadas por outros moradores. Voltei para a TV e pedi à minha secretária que telefonasse para proprietários do Paulicéia, usando a lista telefônica. Por sorte, no segundo telefonema, uma proprietária se mostrou interessada e acabei alugando... Foi assim, que eu fui parar no seu prédio.”
- É – disse Estela – sempre foi assim lá no prédio. Quase todo mundo que vai morar lá foi indicado por alguém que mora ou já morou. Raramente alguém anuncia um apartamento lá. É tudo mesmo por indicação. Muita gente mesmo foi morar lá por indicação dos meus pais e, recentemente, um amigo meu, o professor de jornalismo e escritor, Antonio Costela, comprou dois apartamentos lá, no primeiro andar, morando num e fazendo o seu escritório no outro.
- Eu moro no bloco do meio – disse Carlos – aquele que tem apartamentos de um quarto. Mas é um apartamento lindo, muito amplo.
Estela e Carlos viveram um lindo caso de amor.
E três anos depois de seu encontro na praia, Carlos mudou-se para o apartamento de Estela, que passou por uma bela reforma, mas manteve a parede de fotografias de José no escritório.
O casal adquiriu, com o passar do tempo, o hábito de caminhar, aos domingos, a Paulista inteirinha. Nos primeiros anos do século XXI, as calçadas da avenida, nos fins de semana, foram ficando lotadas de camelôs que vendiam, desde CDs e DVDs piratas ao mais variado artesanato, bolsas, bibelôs, quadros, camisetas, cintos. E incensos, que Estela acendia pela casa. Naqueles dias, a Paulista, de centro financeiro, se transformava em mercado aberto. Era um espetáculo! De vez em quando, se o título do filme chamava atenção, entravam num dos muitos cinemas da avenida. Passavam um tempão, no vão do Masp, a admirar os objetos da Feira de Antiguidades. Sentavam-se no barzinho da esquina da Joaquim Eugênio de Lima para saborear um chopp de vinho, servido pela garçonete Zuleide, que preferia ser chamada de Lady Zu. E Estela, algumas vezes, viu livros, que tinham sido seus, à venda nas bancas “sebo” montadas pelos camelôs e lembrou-se, é claro, daquela edição de Júlio Verne, esquecida pela menina que parecia seu clone, dentro da touceira de azaléias.
Estela e Carlos já estavam juntos havia doze anos quando, Marina, uma antiga moradora do Paulicéia, que Estela conhecia apenas de conversas rápidas e casuais, foi ao apartamento deles para que Estela a ensinasse a operar um programa de computador. Haviam conversado sobre isso na garagem e Estela se oferecera para esclarecer a moça sobre alguns procedimentos do programa, que dominava bem. Marina viu as fotos na parede e comentou:
- Incrível! Essa menina é você quando criança?
- Sim.
- Nossa! É a cara da minha sobrinha!
- Sua sobrinha?
- É. Ela já é uma moça agora. Mas,quando era criança, era igualzinha a você! I-gual-zi-nha!
Estela sentiu o velho arrepio percorrer-lhe o corpo.
- Ela morou aqui no prédio?
- Não exatamente. Você sabe, ela é filha da minha irmã que morreu num acidente horrível de carro, na Via Dutra, com o marido. A menina era sua única filha e foi para um internato. Mas, quando não estava na escola, passava alguns dias aqui conosco.
- Por isso ninguém a conhecia!
- Você se lembra dela?
- Lembro, sim – disse Estela. – Lembro-me de tê-la visto no elevador e no jardim e fiquei muito impressionada com a nossa semelhança.
Marina riu:
- É. Vocês eram muito parecidas mesmo, quando crianças.
- Até a pinta – disse Estela, mostrando sua mão à Marina.
- Nossa, menina, que coisa incrível! Será que nós somos parentes, você e eu? Será uma coisa genética? Incrível! A mesma pinta.
- São mistérios – disse Estela.
- É, disse Marina. – É muito difícil encontrar pessoas tão parecidas. E ainda no mesmo prédio, hein?
- Muita gente mora nesse prédio – respondeu Estela. E acrescentou: - Graças a Deus!
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