Meus Textos I

Textos meus que você encontra aqui: A Hipocrisia do Diploma (e e-mails dos leitores, polêmica!)/Érica e A Inquisição (conto)/ Quando "Velho" Vira Palavrão/A Pior Idade e a Pior Morte/ Baratas Tesudas/Dia Internacional de Poucas Mulheres / Bárbara Santa Guerreira /Adeus, Fogão! ;Monogamia: Uma coisa Torta/ Carro: O Máximo da Cafonice /Conto-O Médico e o Marketing/Automóveis: Egoístas, Assassinos, Poluidores e Cafonas/CONTO: "COMO UM CLONE"/Homenagem à Diná Lopes Coelho/ História Oculta das Mulheres/ PAPO DE SUFRAGISTA/  História das Minhas Flores (com vídeo)/A Primeira Feminista Margaret Sanger, A Pioneira da Contracepção.

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A Hipocrisia do Diploma

Enquanto Boris Casoy aplaude, Eliakim Araújo esbraveja contra a decisão do supremo de por fim à exigência do diploma universitário para o exercício da profissão de jornalista.

Como sou jornalista desde 1967 (antes desta bendita lei) e o meu registro está lá na minha carteira de trabalho, sempre me senti muito à vontade para falar contra essa exigência absurda.

Eliakim alega que os “patrões” se sentirão à vontade para contratar gente que aceite a imposição da linha editorial dos donos do veículo ou que aceite trabalhar por um salário aviltado.

Ora, neste caso todos os profissionais de cargos que não exigem diploma são contratados por salários aviltados?

E, na prática, o jornalista diplomado tem mais condições de bater de frente com o pensamento dos donos dos veículos? Por que? O diploma garante por acaso a firmeza de caráter de quem o possui?

Exigir diploma para o cidadão poder se expressar é um absurdo.

Essa lei é fruto (ainda!!!) da Ditadura Militar que queria calar a boca da oposição a qualquer preço. Com a exigência do diploma, por exemplo, o líder das Ligas Camponesas no sertão ficava impedido de editar um jornalizinho no mimeografo da sede de seu movimento e precisava, para isso, “alugar” o registro profissional de algum diplomado que topasse ser o “jornalista responsável” pelo veículo. Uma coisa francamente ridícula.

Com o nível de muitas escolas que se dizem “faculdades” no Brasil está cheio de jornalista semi analfabeto por aí. Não é só jornalista. Tem advogados, engenheiros, médicos, etcs de formação altamente suspeita. E, durante décadas, houve quem sobrevisesse sem trabalhar, apenas “alugando” seu registro profissional para publicações diversas, até aquelas de cunho meramente comercial. (Aliás, nada contra o comercial...)

Outra boa razão para a defesa da exigência do diploma é o corporativismo. Neste clubinho aqui, só nós.

Agora você imagine gente do nível de Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Érico Veríssimo, Lia Luft ou Jorge Amado – só pra ficar com os escritores – sendo impedidos de escrever em jornais ou revistas apenas porque não têm (ou tinham, no caso dos falecidos) registro de jornalista. Ridículo, não?

A imprensa pode e deve se beneficiar, ainda, de profissionais de outras áreas, como políticos (vem cá, o Fernando Henrique ou o Delfim, com colunas regulares nos jornais, têm diploma???), economistas, músicos, engenheiros, advogados para opinarem e até reportarem, dentro das suas áreas de atuação.

O Eliakim que me perdoe, com todo o respeito e a admiração que tenho por ele, mas essa posição de achar que os donos dos veículos vão contratar gente fuleira só porque não há a exigência do diploma, é muito boba e, além de boba, não leva em consideração que a comunicação é um negócio como qualquer outro e sofre violenta concorrência o que obriga os veículos a investir em qualidade profissional.

Nunca me esquecerei do dia, nos longínquos anos 1980, que, no lento elevador da TV Gazeta, me atrevi a falar contra a exigência do diploma para um grupo de importantes jornalistas que se apertavam no cubículo. Houve um silêncio sepulcral, um mal estar insuportável, como se eu tivesse cometido, no Vaticano, a maior das heresias. Respirei aliviada quando o elevador chegou ao térreo e a porta se abriu.

Exatamente como respiro no dia de hoje, depois dessa sábia decisão da Justiça Brasileira. Aliviada. Adeus corporativismo, incompetência diplomada, restrição da liberdade de expressão.

Viva a democracia!!!

 

De: "Juvenal Azevedo" <adriejuva@uol.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: segunda-feira, 22 de junho de 2009 19:47

 

Bravo! Bravo! Bravo!

Tô contigo e não abro, Bel, a exigência de diploma é uma excrescência do fascismo corporativista.

Parabéns pelo artigo!

Bjs,

Juva

 

  From: Fabio Bertolozzi

  To: isabel@isabelvasconcellos.com.br

  Sent: Monday, June 22, 2009 9:54 PM

  Subject: Re: A Hipocrisia do Diploma

  

Oi Bel,

tudo bem? belíssimo texto com excelentes argumentos. Derrubou o Eliakim e os sócios do 'clubinho'. No meio de toda essa discussão, eu, que sou radialista com meu DRT, tb questiono a exigência do diploma para se trabalhar em TV. Ao que me consta, Boni, Silvio Santos, Alvan Vasconcellos, Irineu de Carli e tantos outros... não tinham diploma, certo?  Saudade.

 Bjs  Fabio

 

De: "Malu Alvarenga" <malualvarenga@terra.com.br>

PARA: "'marisamanso'" <marisamanso@prestonet.com.br>

Assunto: RES: A Hipocrisia do Diploma

Data: segunda-feira, 22 de junho de 2009 22:24

 

Muito bem, Isabel !

 Malu Alvarenga

 

De: "dowe" <mcdowe@terra.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos (PR)" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: segunda-feira, 22 de junho de 2009 23:29

 

    Oi Bel, boa noite.

     Concordo plenamente com o tema do teu artigo abaixo. Eu sou uma das que sempre defendí o exercício do jornalismo, que aliás também exerço a vários anos, sem a necessidade do diploma.

    Talento, bom senso, ética, conhecimento, arte,  capacidade de comunicação e profissionalismo não estão nos currículos das faculdades ( boas ou não ) de jornalismo. Ele é nato do ser humano, portanto, não dependem de diploma.

    Creio sim que com a extinção da exigência do diploma, a qualidade do ensino oferecido pelas faculdades vai ter que melhorar para se nivelar , acompanhar e incorporar o salto quantico do saber e comunicação que já existe nas diversas áreas profissionais da sociedade.

    Aqueles que por dom nasceram com o verdadeiro espírito e arte de jornalista , a sociedade e o país, só tem a ganhar com a decisão dos magistrados do STF que certamente olharam sábiamente para o futuro assim como anteriormente o fizeram seres humanos como  Galileu Galilei  e muitos outros.

  

Maria Carmen Dowe

Jornalista - MTb 35.009/SP

 

De: "Editora Imprensa" <editoraimprensa@gmail.com>

PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: segunda-feira, 22 de junho de 2009 23:38

 

Obrigado Marisa pelo texto, vamos publicar.

Zaparolli

Jornal Cidade

Marilia, SP

 

De: "Luciana Mourao Fanti" <lufanti@hotmail.com>

PARA: <marisamanso@prestonet.com.br>

Assunto: RE: A Hipocrisia do Diploma

Data: segunda-feira, 22 de junho de 2009 23:57

 

Olá Isabel

Gostei do seu texto e, particularmente, comemorei esta decisão do supremo. Pode abrir portas para gente muito competente, e ajudar a alimentar a busca pela qualidade acima de tudo, entre jornalistas ou não

Um abraço

Luciana Fanti

 

De: "Iva Maria" <iva@egcred.com.br>

PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>

Cc: <mailing@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 00:04

 

Parabens !

 

De: <ma.majmaluf@uol.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos (PN)" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Res: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 01:59

 

é isso aí, Bel! Só sobreviverao os competentes! Basta de faculdades que irresponsavelmente jogam nas ruas analfabetos de carteirinha, que julgam-se reis da cocada preta apenas porque têm um diploma! Sou jornalista diplomada desde 1976 , com vàrios cursos de especialização e mestrado na àrea.

O que importa é dominar com perfeição nossa lingua e, tb, as técnicas de redação e reportagem, além, obviamente, de se  ter uma excelente cultura geral.

Talvez as boas faculdades de jornalismo sobrevivam mais alguns poucos anos.

Tudo muito efêmero e dolorido

Bj

Maria Alice Maluf

Enviado pelo meu BlackBerry

 

De: "André Vote.com" <andre@votebrasil.com>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Nota 10

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 02:18

 

Olá! Isabel

 

                È muito bom ter uma nova matéria e ainda mais de um tema tão

atual e que esta dando tanto o que falar...por que não dizer

...escrever..rss

                Concordo com você em sua matéria, mas acredito que os anos

de faculdade formam melhor um profissional e que por si só tem suas

vantagens dos que possuem o dom da escrita, mas acredito que assim como em

outras áreas os anos na ativa são por si só uma faculdade.

Há casos em que um mestre de obras sabe mais que um engenheiro formado e

assim por diante, como um auxiliar de enfermagem sabe mas que um enfermeiro

recém formado que sai da faculdade e aprende muito com um profissional já na

ativa sem diploma...sem falar no nível das faculdades que distribuem

diplomas e os formandos saem sem nem saber escrever corretamente...erros

assombrosos...há se não fosse o corretor ortográfico do Word..rss

Mas enfim...É MUITO BOM TER SEMPRE VOCÊ PRESENTE POR AQUI!!!

Um forte abraço.

 André Barretto

 

 

De: "Marta De Divitiis" <mdedivitiis@uol.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 09:38

 

Adorei seu ponto de vista, mesmo por que concordo com ele. Não tenho o diploma embora tenha feito curso de extensão de jornalismo, que o sindicato não considerava, assim como a pós graduação em jornalismo (eu verifiquei isso no decorrer dos anos). Cansei de ver erros grosseiros de jornalistas formados, assim como rasteiras de muitos deles em relação a colegas. Diploma nesse caso, não é sinônimo de competência e nem de ética profissional.

Beijos

Marta

 

De: "Shirlei Figueredo" <sfigueredo@band.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

CcAssunto: RES: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 10:29

 

Isabel,

Adorei, parabéns!!!!!!

 

De: "Jéssica B. Baijo" <redator@kairos.com.br>

PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 11:51

 

Não concordo!

A hipocrisia é do STF e, por favor, estamos em 2009.

Ainda bem que o que me resta é a liberdade de expressão.

 

De: "Rio Total" <riototal@riototal.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 12:22

 

Bom dia, Isabel

 Já que liberou, tomo a liberdade de colocar seu magnífico artigo no Coojornal, na próxima edição, sábado.

Pode me enviar uma foto sua, para que eu edite Complemente a página, como habitualmente faço com os colaboradores?

 Obrigada e grande abraço,

Irene

www.riototal.com.br

 

De: "Deborah de Oliveira" <deborah@viadeacesso.com.br>

PARA: "'marisamanso'" <marisamanso@prestonet.com.br>

Cc: <mailing@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: RES: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 13:08

 

Olá Isabel e Marisa,

Refleti muito ao ler este artigo e resolvi publicar.

Sou a favor da democracia e da revolução cultural. Creio que o leitor sabe

discernir o que quer ler e, espero que os escritores, jornalistas ou não,

correspondam a este fato.

Como empregadora continuarei a buscar profissionais que tragam novidades,

textos humanizados e inteligentes e que acima de tudo, sejam de interesse do

público e respeitem a ética tão esquecida no último século.

Parabéns pelo artigo, a colocação foi perfeita. Sinto-me honrada em

publicar.

O texto encontra-se no link

http://www.viadeacesso.com.br/v2/revista/Especial/?id=1427

Tem chamada na home.

Um grande abraço,

 Deborah de Oliveira

Editora

 Revista Via de Acesso

www.viadeacesso.com.br/v2

 

De: "estudio2" <estudio2@uol.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Cc: <mailing@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 13:16

 

Parabéns, Isabel.

Belo texto!

A classe jornalística sempre foi suspeita e não raro escreve motivada por interesses inconfessos.

Falei alguma mentira?

Diploma não é garantia de nada!

Nem de idoneidade, nem de caráter ou compromisso com a verdade.

Viva o fim do diploma!

Paulo Preto

fotógrafo

 

De: "Cmte Edgard B" <cmteedgard@hotmail.com>

PARA: "Isabel ALLTV" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 15:40

 

Isabel gostei de mais!!!

Edgard

BH 24/06/09

 

De: "Gabriela Bravo" <gabriela@diariodamanha.net>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Cc: <mailing@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 13:56

 

- DISCORDO PLENAMENTE DO SEU ARTIGO!

- ASSIM COMO EU, MAIS DE 70% DA POPULAÇÃO BRASILEIRA, DADOS DE PESQUISA, CONSIDERAM UM ABSURDO A ELIMINAÇÃO DO DIPLOMA.

- ATÉ PORQUE ESTA DECISÃO POUCO TEM A VER COM A  ALEGAÇÃO DE FALTA  DE LIBERDADE DE EXPRESSÃO, EXISTEM OUTROS INTERESSES ESCONDIDOS POR TRÁS DESTA DECISÃO.

- A SOCIEDADE PERDE, E MUITO, COM ISSO.

 

From: claudiomassa@onda.com.br

To: claudiomassa@onda.com.br ; isabel@isabelvasconcellos.com.br

Cc: mailing@isabelvasconcellos.com.br

Sent: Tuesday, June 23, 2009 1:57 PM

Subject: Re: A Hipocrisia do Diploma

 

Também não concordo... ainda mais ao ouvir as justificativas debilóides proferidas pelos senhores do Supremo.

Dá medo pensar quando estiverem julgando temas ainda mais controversos, como clonagem ou aborto.

A decisão foi um desestimulo à educação.

 

De: "Jorge Pasquotto" <jorge@mambaby.com.br>

PARA: "'Isabel Vasconcellos'" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: RES: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 17:56

 

Aproveito para também parabenizar você, pelo excelente artigo.

Nosso país criou o mito do diploma, e vejo com tristeza quantos jovens hoje

perdem seu tempo e dinheiro em faculdades de baixa qualidade onde

professores fingem dar aula e alunos fingem aprender em um verdadeiro pacto de mediocridade. Tudo para poderem ter o diploma com o qual alguns se iludem (e depois se frustram) na esperança de ter um emprego, e enquanto outros mais pragmáticos já assumem que querem apenas o diploma para “apresentar na empresa” e pronto.  De outro lado professores sendo pressionados pelas faculdades a aprovarem facilmente seus alunos (o cliente tem sempre razão, e o aluno agora é cliente!) e mais recentemente os cursos 2x1, isto é, voce cursa dois anos e sai formado em 2 profissoes!!!! Acredite se quiser.

Conhecimento?, pesquisa?, ciência?, horas de estudo e reflexão?, tudo isto

são valores confinados a poucas, muito poucas faculdades.

Abraços e sucesso!

 

Jorge

  

De: "cidades" <cidades@tribunaimpressa.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Cc: <mailing@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: A Hipocrisia do Diploma

Data: terça-feira, 23 de junho de 2009 18:03

 

Olá

 

Sou jornalista e concordo em parte com a  decisão do Supremo, pois não é o diploma que confere se o profissional é bom ou não, tem ou não ética, mas como jornalista, o que acho é que a derrubada do diploma ocorre porque os profissionais frustrados que prestaram outro vestibular, fizeram outro curso e têm outra profissão gostariam de ser jornalistas.

Cris Gercina

 

De: "Rogério" <rogerio727@yahoo.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Cirurgia Plástica nos Órgãos Genitais

Data: sábado, 27 de junho de 2009 20:41

 

Olá, quero crer que no caso do diploma dos jornalistas, creio que os jornalistas perderam um pouco de espaço por causa da rede mundial de computadores; explico: hoje em dia qualquer um pode abrir um blog, postar fotos, notícias, etc, e ser um verdadeiro jornalista, e além disso, a informação está a um clique . Creio que os jornalistas mais atentos migraram pra web, porque com certeza o futuro de todas as mídias será a web, isto é, tv, jornal, rádio etc vai estar tudo na web; se já não está. Se bem que eu sou a favor do jornalista diplomado porque eles são mais preparados, estudaram pra isto. Mas nada contra os que não têm. Há espaço pra todos neste aperto.

www.rogsildefar.blogspot.com

Rogério

 

De: "Geraldo Batista de Araujo" <geraldobatistaaraujo@gmail.com>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Abaixo os diplomas

Data: domingo, 28 de junho de 2009 18:40

 

Como o Art. 5º da constituição brasileira diz que a lei é igual para todos,

eu  brado: Abaixo todos os diplomas.

Vou abrir um consultório médico. Já em até nome: *Caminho do céu. Aqui você

pode até não morrer, mas sairá bem piorado*.

Papo encerrado, agora sou médico.

Geraldo Batista, jornalista de araque e ex-professor do curso de Jornalismo

da UFRN.

 

Érica e A Inquisição

 

Érica aprendera com sua mãe aqueles segredos da manipulação das ervas. E, todos, na antiga capital brasileira,  sabiam muito bem que não havia nada melhor para curar desde a dor de cabeça até a infertilidade do que uma boa mistura de ervas daquela moça modesta que vivia bem perto da praia, numa pobreza franciscana, mas que sempre recebia os curiosos com um sorriso nos lábios e era dona de um invejável quintal, onde cresciam os mais variados tipos de plantas. De lá é que ela tirava os misteriosos ingredientes que misturava para fazer os seus famosos remédios.

 

Tanto Érica quanto o seu jardim (se é que poder-se-ia chamar de jardim àquele amontoado de árvores frutíferas, hortaliças, ervas e plantas ornamentais) destoavam completamente do resto da cidade do Salvador. Ela era loura, olhos azuis, a pele muito, muito alva, enquanto a maioria do povo soteropolitano era composta de portugueses, negros, índios e mestiços. E ninguém tinha o hábito de cultivar nada. Além disso também não era comum a presença de moças solteiras que morassem completamente sozinhas como ela.

 

Morrera-lhe a mãe havia mais de uma década e ela pouco conhecera o pai, um marinheiro português que, uma vez ou outra, com intervalo de alguns anos, aparecia na cidade e trancava sua mãe no quarto da pequena casa onde viviam as duas e mal saía de lá, apenas para as suas necessidades e para comer as deliciosas refeições que Gertudre, a mãe de Érica, então alegremente preparava para o seu homem.

 

Gertrude e Gonçalves – era esse o sobrenome de Érica – haviam vivido um tórrido caso de amor num porto europeu, onde ela exercia a milenar arte da prostituição, recebendo em seu leito marinheiros de toda a parte do mundo. Mas aquele português era especial e, pelo jeito, ele também sentiu a mesma coisa com relação a ela, tanto que a enfiou, na calada da noite, em seu navio, que estava de partida para a América. Quando o capitão deu pela presença da clandestina, já estavam em alto mar. Foi um bafafá, ninguém queria repartir as magras rações da embarcação com um clandestino, ainda mais com uma mulher, e ameaçaram até jogá-la aos tubarões, mas Gonçalves prometeu que a desembarcaria no próximo porto. Foi assim que acabou deixando Gertrude, já grávida de Érica, na cidade do Salvador, Bahia, Brasil, não sem antes comprar aquela pequena casa, com algum ouro conseguido numa das muitas pilhagens das quais participara com os seus companheiros de tripulação.

 

Aquela mulher loura, que não falava uma palavra de português e que viera parar ali no meio daquele povo  e ainda por cima grávida, causou uma enorme desconfiança na vizinhança. Mas Gonçalves deixara com ela o que sobrara do ouro e mais algumas jóias e Gertrude foi se fazendo respeitar e  conhecer, se comunicando através da mímica num primeiro momento, foi aprendendo a língua, conquistando os comerciantes locais e a vizinhança com seu admirável bom humor e simpatia. Não tardou a ser aceita, principalmente quando descobriram o seu talento na cozinha, tanto para inventar deliciosos doces e bolos, que fabricava com os poucos ingredientes locais disponíveis e mais as ervas e plantas que foi, aos poucos, descobrindo e plantando no quintal, como também por sua capacidade de fabricar remédios.

 

Todo esse conhecimento passou para a filha e era desses dotes que sobreviviam as duas. Gonçalves sumiu, ninguém sabe até hoje como, talvez num naufrágio, talvez numa luta em terras distantes, quando Érica tinha apenas 10 anos. Mas Gertrude, então, já estava completamente integrada na sociedade local.

 

Quando, mais de uma década depois do sumiço de Gonçalves, Gertrude morreu, todos assumiram que Érica continuaria a fornecer remédios para os adoentados e doces para as festas locais. Não fazia preço: cada um pagava como podia, com dinheiro, mantimentos e até objetos. Afinal, a vizinhança era tão pobre quanto ela. Mas havia muitos ricos em Salvador e, quando Érica curou, com suas misturas, a filha de um deles, começou a ficar conhecida também entre a elite local.

 

Gertrude não lhe dera nenhuma educação religiosa, mas naquela cidade, que nas últimas décadas recebia sem cessar a mão de obra escrava, vinda principalmente da Guiné, e onde os tupinambás, seus primeiros habitantes, tinham uma religiosidade primária, quase ninguém escapava da influência dos jesuítas que, a cada ano, acumulavam mais e mais riqueza e poder, educando os filhos dos ricos e recebendo vultosas contribuições para manter aquietado, pelo terror dos Infernos, a fúria dos pobres. Érica acabou se dando bem com o padre Antonio, que, desconfiado, aparecera em sua casa logo depois da morte de Gertrude, tentando entender qual era afinal o tipo de vida que iria levar aquela jovem, agora solitária. Érica chegou mesmo a resolver uma queimação no estômago que angustiava o pobre padre desde a sua vinda para o Brasil e, com isso, acabou de conquistar-lhe a simpatia. Era inevitável que ele a catequizasse e, assim, ela começou a freqüentar a Igreja e, lá, conheceu Anita, uma das primas de Francisco Pereira Coutinho, o donatário da ex-capitania que, depois da morte de seu proprietário em 1534, na mão dos tupinambás e depois de um naufrágio, havia se tornado a própria cidade, fundada em 1549.

 

Foi logo depois desses acontecimentos, decorridos uns dois anos da morte de Gertrude, que o Santo Ofício chegou ao Brasil. A simpática tolerância de Padre Antonio para com os cultos dos negros escravos e até para com a manipulação de ervas de Érica, logo foi se transformando num indisfarçável mal estar. Mas ele gostava da menina e naquela tarde de inverno, em 1592, mandou um moleque pedir a ela que viesse encontrá-lo na Igreja.

 

Ia completar um ano, em 22 de julho, que o Bispo Heitor Furtado de Mendonça chegara à cidade, com a missão de afastar do convívio social todos aqueles suspeitos de práticas inimigas do catolicismo e, no seu entender, da vontade de Deus. Publicado o Edito da Fé, a histeria inquisitorial parecia ter contaminado os 3 mil habitantes locais. Alguns chegavam mesmo a procurar as autoridades religiosas para confessar pecados que, até então, nem sabiam que praticavam. A maledicência e a atração dos mexericos faziam brotar denúncias inimagináveis entre aqueles que, até então, tinham sido bons camaradas e quase um terço da cidade foi denunciada por práticas anti cristãs e feitiçaria.

 

Prato cheio para aqueles que sempre invejaram a alegria e a paz de Érica.

 

Quando a primeira denúncia contra ela foi feita por uma velha senhora, o padre Antonio tentou defender a amiga. Mas já não estava em posição de defender quem quer que fosse, pois  Heitor o julgava um clérigo fraco, excessivamente tolerante e amigo demais do povo local.

 

- Minha menina – dissera então à Érica – o padre Antonio. Sei que tens apreço ao teu chão e às plantas que cultivas, sei que herdaste a pequena propriedade em que vives de teus pais. Conheço a pureza do teu coração, os poucos pecadilhos que me confessaste, sei que é uma boa moça...Mas – o padre torcia as mãos – um grande perigo está a ameaçar-te. És quase amiga de Anita, vai, conversa com ela, diz a ela que precisas partir...

 

- Partir? – interrompeu Érica.

 

- Sim. Anita é uma boa alma, há de arranjar-te uma viagem com esses comerciantes que vão e vem das Minas Gerais. Vai, minha filha. Despede-te de tua casa, deixa-a aos cuidados de teu vizinho, o Sebastião, e da família dele e te afasta por algum tempo da cidade.

 

- Mas Padre Antonio...

 

- Estamos vivendo tempos duros, Érica. Heitor e seus homens estão de olho em ti, já receberam algumas denúncias e não posso eu defender-te, pois eles desconfiam até de mim. Deus me perdoe, são meus superiores em Cristo, mas já não posso compreendê-los.

 

- Mas Padre Antonio – repetiu ela- Eu tenho a consciência limpa. Nada faço de mal, Deus, e o senhor mesmo também, é testemunha de que só tenho feito o bem e freqüento a Igreja...

 

- Se não fizeres o que estou dizendo, minha filha, vão acusar-te de bruxaria e acabarão por queimar-te nas fogueiras, depois de te fazer sofrer muito e muito.

 

- Padre, mas não é o senhor mesmo quem diz que as pessoas que estão em paz com Deus nada têm a temer?

 

Padre Antonio se arrependeu de sua própria ênfase e tentou explicar:

 

- Filha, pois vai-te em paz com Deus. Mas foge, antes que seja tarde.

 

Já era tarde. Na manhã seguinte a essa conversa, os soldados foram buscar Érica em casa, destruíram-lhe as plantações, levaram tachos e alguns livros antigos, em língua estrangeira, que havia na casa e que tinham pertencido à Gertrude. A levaram de pé, mãos e pés amarrados, a boca amordaçada, sobre uma carroça que quase atolava nas enlameadas ruas da cidade que vivia um de seus piores invernos chuvosos. 

 

No mesmo dia da prisão de Érica, Padre Antonio recebeu a comunicação de sua transferência para uma província distante, no extremo sul do país. E teve que abandonar a amiga à sua própria sorte.

 

Seguiram-se dias e noites de absoluto terror para Érica.

Acusada de usar suas plantas e o tacho, caldeirão, para a feitiçaria e de ter por companheiro de cama o demônio, eles a torturavam até que ela perdesse os sentidos, querendo que ela confessasse coisas como a sedução de meninos pequenos, o coito, nas matas, com o próprio demônio que ora assumia a figura de bode, ora de touro. Queriam ainda que ela dissesse ter aprendido suas artes do mal com a própria mãe, uma feiticeira mandada ao Brasil para aqui instalar o culto a Satanás. Numa avidez tarada e despudorada, examinaram seus genitais, com brutalidade, à procura do tal terceiro mamilo que os inquisitores afirmavam ser comum nas bruxas e estar freqüentemente localizado próximo ou dentro da vagina.

 

Érica, na sua inocência, tentou, no início, se explicar, dizer o que fazia e porque. Foi brutalmente espancada, espetaram-lhe agulhas nos pontos do corpo em que, segundo os manuais da Inquisição, o diabo impedia as bruxas de sentirem dor. Fizeram-na beber água fervendo até que seu ventre inchasse e ela perdesse os sentidos. Depois, na manhã em que a encontraram sangrando, porque lhe tinham vindo as regras, amaldiçoaram-na, dizendo que aquele sangue era a prova de sua impureza.

 

Anita, ouvindo os fuxicos locais, que diziam estar Érica sofrendo as barbaridades dos inquisitores, tentou falar com o Bispo Heitor. Depois de muito custo, foi por ele recebida, graças à força que o nome de sua família tinha junto à corte da matriz.

 

- Meu santo Bispo – começou Anita, bajuladora-  Deve ter havido algum engano. Sei que é necessário acabar com os hereges e com as feiticeiras, mas essa menina, a Érica, eu posso testemunhar, é uma alma pura, bondosa e ingênua...

 

- Minha cara senhora – respondeu o Bispo fitando longamente suas unhas polidas – nenhuma mulher é totalmente pura, nem mesmo a senhora. Permita-me citar um trecho do Malleus Maleficarum (o martelo das feiticeiras) e, abrindo um grosso volume que tinha na escrivaninha ao seu lado, leu:

 

“ A bruxaria brota do apetite carnal que, nas mulheres, é insaciável...Quando uma mulher pensa por si mesma, pensa no mal. As mulheres, intelectualmente, são como crianças...são mentirosas, fracas de mente e necessitam o controle masculino”.

 

- Certamente – continuou o Bispo – a senhora foi iludida pelas artes dessa bruxa maligna e por isso está agora a arriscar-se em defesa dela. Sei, aliás, de fonte segura, que a senhora mesmo se valeu das artes dessa feiticeira, quando sua filha adoeceu. Pecado esse, aliás, que eu espero que tenha confessado e já se arrependido. A não ser que sinta também uma certa inclinação para as artes do demônio...

 

Anita, apavorada ante a ameaça velada que estava contida nas palavras e na entonação de Heitor de Mendonça, fez o sinal da cruz e respondeu:

 

- Nem em sonhos, meu caro Bispo. Deus é testemunha de que sou uma cristã, católica praticante e temente ao Nosso Senhor...

 

- Pois então, minha filha, tenha sempre em mente a Palavra que está nas Sagradas Escrituras, tenha consciência de que a mulher é depositária do pecado e deve, por isso, obediência e submissão ao seu legítimo marido, a quem Deus deu o encargo de aplacar-lhe o furor uterino . Lembra-te do Eclesiastes: “Achei cousa mais amarga do que a morte: a mulher cuja coração são redes e laços e cujo coração são grilhões; quem for bom diante de Deus fugirá dela, mas o pecador virá a ser seu prisioneiro.” Acaso não estás, ó mulher, pecando agora, ousando vir aqui em defesa de uma feiticeira? Que teu marido não saiba, e farei a caridade de não contar a ele, dessa tua atitude pois decerto ele te castigaria, caso soubesse. Agora vai em paz, mas, antes, passa pelo confessionário aqui da Matriz e confessa a Deus este teu momento de fraqueza.

 

Completamente apavorada, Anita beijou a mão do Bispo, pediu-lhe as bênçãos e retirou-se. Passou pela Igreja e confessou o que não acreditava ser um pecado e morreu, anos depois, com o coração fechado para a fé cristã que aprendera com a família e pela qual norteara sua vida, até o episódio da prisão de Érica.

 

Por sua vez, Érica, depois de sofrer as mais bárbaras e sexuais torturas nas mãos de seus algozes foi levada à praça pública e queimada viva, ou quase viva, já que as sessões de espancamento e violação já a haviam aquebrantado o corpo.

 

Érica foi uma das mais de mil vitimas da perseguição inquisitorial que se iniciou na Bahia em 1591. Mil vítimas em uma cidade de três mil habitantes! Sua pequena casa foi confiscada pela Igreja que a incorporou ao seu já imenso patrimônio, com a desculpa de que o imóvel e a terra onde estava localizado seriam um forma de ressarcimento pelas despesas que a Inquisição tivera com ela. Seu jardim foi destruído, para a tristeza dos vizinhos e dos pássaros que freqüentemente o visitavam. E sua sabedoria, na culinária e na arte da cura pelas ervas, se perdeu para sempre.

 

Dizem que ali no terreno onde antes havia o jardim de Gertrude e de Érica, instalou-se, anos depois, uma pequena capela e o pároco local tentou, sem êxito, por muitas estações, fazer brotar uma horta no quintal. Desesperado com o inexplicável fracasso, acabou mandando cobrir de pedras o chão infértil.

 

Quando “Velho” vira palavrão

 

"...E me diz muito mais do que eu digo

Me calando fundo na alma

Meu querido, meu velho, meu amigo"

(Roberto e Erasmo Carlos)

Recebi um texto, pela internet, que é uma verdadeira pérola do preconceito.

Chama as mulheres mais velhas de “terceira idade” e condena as que fazem plásticas e botox porque elas estariam procurando uma beleza demasiada.

Ora, a beleza nunca é demais.

Como eu já disse em outras ocasiões, mas repito, chamar os velhos de idosos ou a velhice de terceira idade (ou melhor idade) é apenas mais uma incrível demonstração do mau gosto e da mediocridade dos que embarcaram na ultrapassada moda do politicamente correto.

Velho é velho. Não é nenhuma “gracinha” e muito menos está na “melhor idade” ou na terceira ou quarta idade. A velhice é a pior idade mas, por enquanto, é inexorável. Quem não morre antes, chega lá.

Voltando ao tal infeliz texto, ele começa dizendo que as mulheres, quando entram na menopausa, ficam deprimidas. Não é verdade: nem todas. E continua afirmando que, por estarem deprimidas, elas buscam na cirurgia plástica um “remédio” para essa situação.

Resumo da ópera: As afirmações ali são que todas as mulheres envelhecidas pela menopausa, que tomam antidepressivos ou que fazem plásticas (ou botox) precisam deixar de procurar rejuvenescer e fazer terapia para aceitar a idade.

Bom, a essa altura, só caindo na risada. Idade virou doença!!

No século 19 alguns cientistas europeus publicaram um estudo onde concluíam “a absoluta impossibilidade de vôo de qualquer objeto mais pesado que o ar”. Imagine você se Santos Dumont tivesse aceitado essa máxima sem discussão.

A não aceitação é que move o mundo.

Por não aceitar as doenças, a humanidade criou os medicamentos.

Todo progresso, toda descoberta, toda ciência, toda tecnologia, nasceu da não aceitação, da necessidade humana de desafiar, enfrentar e dominar as limitações impostas pela natureza, pela vida.

Velhice, por enquanto, é inevitável. Mas também é inaceitável. E existe sim um milhão de coisas que amenizam e minimizam as muitas mazelas do envelhecimento.

O tal texto afirma ainda que as mulheres que fazem plásticas ficam com uma aparência não natural e que elas, ao envelhecer, estão procurando os médicos quando deveriam procurar o psicólogo.

Ora, o médico é o maior aliado de qualquer luta contra o envelhecimento.

É mil vezes melhor tomar hormônio e recuperar a elasticidade da vagina, a firmeza da pele e a forma da cintura (só pra falar dos benefícios estéticos, porque mais importante que eles são os benefícios para a saúde da mulher) do que ficar deitada no divã do psicólogo esperando que venha a “aceitação natural” da velhice.

A gente tem sim que lutar contra a velhice, com todas as armas disponíveis no momento.

Se, com a menopausa, veio a depressão, é claro que o psicólogo pode ajudar. Mas o antidepressivo ajuda mais depressa (e só pode ser receitado por médicos, nunca por psicólogos).

Se, por causa da plástica ou do botox, a cara fica esticada, é mil vezes melhor ter a cara esticada e artificial do que a ter cheia de rugas e papadas.

Dizer a uma mulher que ela procura “beleza demais” e, por isso, está negando sua condição natural é a mesma coisa que dizer ao doente que não tome remédio, que aceite a sua “condição natural de doente” e, ou morra, ou passe o resto da vida sofrendo. Ah, mas é claro... que vá ao psicólogo para “aceitar” a doença em vez de ir ao médico...

Mulheres maravilhosas como Hebe Camargo, Marília Gabriela, Glória Menezes, Danuza Leão, Ligia Kogos, Glorinha Kalil e até a ministra ex guerrilheira, Dilma, recorreram à plástica. São lindas! Jamais negaram a sua idade e “esticadas” estão muito melhor do que se fossem “naturais” e tivessem “aceitado” a idade.

Elas também procuram médicos, fazem dieta, eventualmente podem tomar antidepressivos ou xenical (para ajudar a emagrecer) ou bupropiona (para não fumar). Elas fazem atividade física...

Enfim, usam todos os recursos que hoje a Medicina coloca ao nosso alcance para minimizar os efeitos deletérios do envelhecimento.

Isso é inteligência.

Acho que essa pessoa que redigiu (e a outra que aprovou) esse pacote de preconceitos contra a mulher velha certamente diria ao homem que tem problemas de ereção para procurar um psicólogo em vez de um médico e aceitar o fim da vida sexual em vez de tomar viagra e voltar a ser feliz.

Graças a Deus que existem psicólogos inteligentes e que eles são a maioria e darão muitas risadas de um texto como esse.

Os médicos também.

Caí na besteira de rir também e escrever para o autor, dizendo que essa obra prima do preconceito só poderia ter saído da cabeça de jovens. Não disse com essas palavras, para não ser ofensiva, disse com ironia e bom humor, mas, mesmo assim, por resposta, recebi um e-mail me chamando de mal educada e de... kkkk... velha! E o velha ainda veio grifado!

Não sabia que “velha” era ofensivo...

De qualquer modo, esse texto infeliz me deu a oportunidade de escrever este aqui para dizer a você, minha amiga, meu amigo, velhos como eu ou ainda jovens que um dia serão velhos: lute! Não aceite a velhice! Lute contra ela com todas as armas disponíveis hoje.

Um dia, como gostaria Aldous Huxley, venceremos a guerra.

 

A Pior Idade e a Pior Morte

Quem inventou essa história de “Melhor Idade” deve ser um especialista em tapar o sol com a peneira. Depois dos 60, começa a pior idade, isso sim.

A cabeça pode ter melhorado (depende do dono dela, não é?), mas o corpo só piora. Se assim não fosse, os planos de saúde não quadruplicariam as mensalidades de quem envelhece.

Além da decadência física (que não tem plástica que segure, nem exame preventivo que impeça) existe a decadência econômica. Com exceção dos muito ricos ou dos que tiveram a sapiência e o poder aquisitivo para fazer uma previdência privada, os velhos ganham muito mal ou não ganham nada.

Quem ocupava altos cargos, quem tinha poder, quem era executivo, político, autoridade, celebridade ou qualquer outra coisa que confere poder, precisa ser muito bom de cabeça pra não cair em depressão com a chegada da tal “melhor” idade e a consequente perda de poder que vem junto com a aposentadoria.

Para os que queimaram neurônios com drogas vem, quase sempre, a demência senil e o cara se torna um verdadeiro idiota.

O fantasma do Mal de Alzheimer ronda a maioria dos que passam dos 80, com suas horríveis promessas de tornar o sujeito um absoluto dependente que não reconhece nem a própria família e precisa de ajuda para tudo, tudo mesmo...

Tudo isso é apavorante o suficiente para que deixemos de lado outras doenças, males e limitações que podem vir junto com a idade.

Envelhecer é um absoluto terror.

E, pra piorar um pouco mais, quase todo mundo acredita que também não pode mais fazer sexo (especialistas afirmam que é mito: claro que pode! E deve!).

Mas ainda existe um calvário maior: o da UTI.

Velhinhos nas UTIs costumam ter suas vidas prolongadas artificial e inutilmente e os médicos acham que estão “salvando” a vida do infeliz, condenado a passar seus dias numa cama de hospital, entubado, parecendo um homem biônico que não deu certo, sofrendo os horrores da traqueotomia e outros buracos pelo corpo. Tudo isso, pago em ouro. Muitas famílias perdem todo o seu patrimônio nessas tentativas de “salvar” pessoas que seriam muito mais felizes se fossem deixadas morrer em paz e no ritmo da natureza.

Médicos com um mínimo de humanidade sabem que não adianta prolongar vidas artificialmente. Não é para isso que as UTIs foram criadas. Elas foram criadas para salvar vidas que têm salvação, e, diga-se de passagem, fazem isso com uma eficácia que cheira a milagre.

No entanto, para aqueles que não têm recuperação, a UTI é a pior morte.

Existem casos, em centros de excelência da medicina em São Paulo, de pessoas que estão vegetando em UTIs há anos. São os mortos-vivos. Parece conto de terror.

Recentemente, na Itália, o pai de uma moça que, sem esperança de recuperação depois de um acidente, vegetava numa UTI havia anos, conseguiu vencer a batalha judicial para desligar os aparelhos que a mantinham viva.

O Brasil precisa urgentemente criar novas leis e novos procedimentos para impedir que, além da tristeza do envelhecer, haja, para alguns, o calvário da internação inútil numa UTI.

Mas nem tudo são espinhos. Podem existir rosas para quem passa dos sessenta. Depende não só da genética mas, principalmente, da atitude.

Existem velhinhos malhando na academia, caminhando nos parques, dançando nos bailes, fazendo trabalho voluntário e até trabalhando mesmo, em empresas que não têm preconceito de idade, como, por exemplo, as empresas de comunicação. Nas redações, nas rádios, nas TVs, muitos profissionais não perdem o emprego apenas por entrar na tal da terceira idade.

(Mais uma coisa: chamar os velhos de “idosos” é de um mau gosto sem fim.)

O velho que você será depende do jovem que você foi.

Por isso cuidados são necessários. Boa alimentação, bons hábitos, saúde mental, leitura, sexo, exames médicos preventivos, atividade física e mental... Tudo vai ajudar a Pior Idade a ser bem melhor, embora nunca seja “a melhor”.

Principalmente, é preciso fugir dos bobos que tratam os velhinhos como se eles tivessem voltado a ser crianças. Nada mais triste do que, depois de ter enfrentado os leões da vida por tantos anos, ser chamado de “gracinha”.

De: <mariza@hiperbarico.com.br>

PARA: "marisamanso" <marisamanso@prestonet.com.br>

Assunto: Re: Fw: A Pior Idade e a Pior Morte

Data: quinta-feira, 30 de abril de 2009 10:31

 

Querida Isabel

Sou médica intensivista há 45 anos. Não só eu, como a maioria dos colegas, também acha absurdo que pacientes em vida vegetativa permaneçam nas UTIs por meses ou até anos. Quanto a isso estamos de pleno acordo.

Porém a questão não é tão simples. Na maioria das vezes, o paciente se torna inviável no decorrer do processo de tratamento; não é possível prever desde o início que a resposta às medidas terapêuticas será parcial, isto é, evita-se a morte, mas o paciente não se recupera completamente. Assim, ele estaciona num patamar de dependência de equipamentos e medicamentos que o obrigarão a permanecer na UTI. O paciente torna-se um "crônico de UTI"; não se pode imputar responsabilidade sobre isso a ninguém individualmente; certamente não é do interesse nem dos médicos, nem dos hospitais, nem das operadoras de saúde, nem dos pacientes, nem das famílias que a situação chegue a isso.

É pouco provável que mudar a legislação tenha algum efeito, pois não se trata de um problema jurídico. Além disso, esses pacientes surgem na maioria das vezes, como efeito indesejável de uma série de casos bem sucedidos, são uma minoria, cerca de dez por certo de pacientes muito graves, cuja evolução foi desfavorável. Repito que a maior parte dos pacientes idosos que morrem, não estão nessa condição de "crônicos de UTI". Por outro lado, é bastante comum que paraquem está vendo de fora, pareça uma situação absurda, porém boa parte das famílias aceitam e até incentivam a manutenção dos pacientes, sem restrições, porque tem esperança que eles ainda venham a se recuperar.Muitas famílias preferem essa situação do que perder o parente, porque tem esperança na recuperação. Muitos médicos preferem manter o paciente porque não tem suficiente segurança de que o processo seja irreversível. Algumas famílias querem manter o paciente porque ele continua tendo direito a alguma pensão ou outro tipo de vantagem pecuniária. Da mesma forma, algumas pessoas da família podemdesejar a morte do paciente para receber heranças.

Devo ainda chamar a atenção de que esses pacientes estão confortáveis do ponto de vista físico. Estão inconscientes ou sedados, sem dor, sem frio, calor ou fome. Não fazem esforço nem para respirar. A situação incomoda mais a quem está assistindo de fora, por se criar um anti-climax, um desenlace que não vem.

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) vem discutindo essa e outras questões morais/religiosas/filosóficas há vários anos; muitas UTIs tem psicólogos entre seus profissionais para ajudarem no suporte às famílias e eles também trabalham nisso. Tudo é um processo... A seu dispor

Mariza D´Agostino Dias - ex-médica supervisora da UTI do Trauma da USP

médica-chefe da UTI Geral do Hospital 9 de Julho

 

 

Baratas Tesudas

 

quinta-feira, 12 de março de 2009 20:08

 

Querida Heloísa,

 

Ah, minha amiga, como é duro aprender coisas com a experiência! É claro que vc deve estar lembrada da invasão das baratas que houve nessa casa em março do ano passado, bem quando o Caetano estava doente e vc passou uns dias aqui comigo.

 

Era um terror, lembra?

 

Bom, mas aí, em um mês e onze tubos de inseticida, eu finalmente me livrei delas.

 

Colocava o inseticida quase todo dia, em todos os cantinhos do apartamento. Dentro dos armários, nos conduites de rodapé que levam as montanhas de cabos do meu sistema de audio e video, atrás dos quadros, dentro dos espelhinhos dos interruptores... E ainda joguei 25 cestos de vime fora porque descobri que elas a-do-ram colocar ovinhos dentro dos cestos de vime que servem de cachepôs para as plantas.

 

Ganhei a guerra. E mantive as baratas longe durante todo este ano.

 

Descobri que essa espécie que infestou o nosso lar é a barata alemã. O nome científico é Blatella Germânica. Pequena, marrom, não voa, vive em bandos e é especialista em infestações. Deve ser por isso que se chama alemã. Consegui até uma foto dessa espécie pra não ter a menor dúvida de quem é o meu inimigo.

 

É uma das 5 mil variedades existentes no planeta.  Elas existem há 380 milhões de anos, são insetos da ordem Blattaria e podem passar vários dias sem comer ou beber. Sofrem várias metamorfoses durante a vida e por isso quando você vir uma barata branca, saiba que ela acabou de passar por uma metamorfose e logo voltará ser marrom.

 

Ao contrário de muitas pessoas, as baratas têm cérebros mas as principais atividades nervosas delas acontecem pela rede neural que se estende por todo o seu corpo. Isso explica porque uma barata pode viver até uma semana sem cabeça. (O que também não é tão surpreendente assim. Já conheci muita gente que vive a vida inteira sem cabeça).

 

A menor espécie mede apenas alguns milímetros e a maior, 10 centímetros (essa deve ser um horror de verdade...).

 

As fêmeas são maiores que os machos. 

 

Elas parecem espertas porque possuem sensores nas costas. São pequenos pelinhos que detectam o movimento do ar. Por isso a melhor maneira de dar uma chinelada nelas é usar um braço biônico.

 

Elas tem seis pernas, duas asas (mesmo as que não voam) e quatro olhos embora, evidentemente, não usem óculos. Dois olhos são complexos e dois, chamados ocelos, simples.

 

Elas só aparecem de madrugada porque - a exemplo dos guardas noturnos, dos vampiros e dos adolescentes e do Governador José Serra - vivem acesas de noite e dormem de dia.

 

Aprendi tudo isso na tentativa de conhecer completamente o inimigo, para melhor poder derrotá-lo. Se bem que, depois do ataque de inseticida, elas haviam sumido.

 

Eis que agora, de repente, elas ousaram tentar começar a aparecer aos montes. Claro que não era nem 10% do que nós vimos aqui no ano passado. Notei então que todas elas estavam grávidas. Elas carregam o ovo na bunda e, de dentro do ovo, saem cen-te-nas(!!!) de baratículas minúsculas.

 

Então eu conclui que, em março, as baratas ficam com um tesão miserável e saem dando feito loucas pros baratos da vida que, aliás, devem ser muito poucos porque eu só vejo barata grávida.

 

Bom, pra ser sincera, atualmente não estou vendo nada porque, assim que elas começaram a aparecer, eu taquei logo 2 tubos, daqueles ENORMES de inseticida em todos os cantos da casa, fechei todas as janelas e só voltei duas horas depois para fazer o rescaldo, recolher os cadáveres.

 

Agora vc pode vir aqui sem medo, minha flor.

 

Virei expert em genocídio de baratas.

 

Beijos, Bel.

 

De: "Heloisa Helena Padilha"

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Baratas Tesudas

Data: sexta-feira, 13 de março de 2009 12:00

 

Bel daqui a pouco vc pode mudar o seu programa de entrevistas médicas para BARATALOGIA, pois do jeito que anda vc vai ser uma PHD ! rsrsrsrsrs...

E da-lhe (nome do inseticida), pelo menos patrocinador vc já pode contar!!!!!!!!!!!!!!

beijos estou com saudades

 

 

 

Dia Internacional de Poucas Mulheres

(foto: primeira parada sufragista, 1914)

 

Não deixa de ser engraçado ver, nos meios de comunicação, tantas mensagens rosadas exaltando o lado doce e meigo das mulheres por ocasião do 8 de março.

Todo mundo quer vender seu peixe e tirar sua casquinha do Dia Internacional da Mulher, o que não tem nada de errado numa sociedade capitalista como a nossa.

Pouca gente se preocupa, no entanto, em saber porque é que existe esse dia e de onde ele vem.

Até aí, também nada de errado, uma vez que é a mesma coisa com o Dia das Mães ou o Dia dos Pais. Ninguém quer saber a origem, só quer comemorar e faturar.

O Dia das Mães ainda não tem 100 anos e apareceu quando Anna Jarvis, uma americana, perdeu sua mãe e ficou muito mal. Suas amigas resolveram dar uma festa para alegrá-la e ela, então, resolveu que seria uma festa em homenagem à sua mãe e a todas as mães do mundo, vivas ou mortas. A idéia se espalhou e, em 1914, o presidente Woodrow Wilson fixou a data em 9 de maio. No Brasil, é comemorado, desde 1932, no segundo domingo de maio, por decreto do ditador Getúlio Vargas.

Já o Dia Internacional da Mulher é um pouco mais velho, embora só tenha começado a ser comemorado pra valer em nosso país no começo da década de 1980, com o fim da Ditadura Militar.

No começo, as próprias mulheres debochavam das que se preocupavam com o 8 de março. Era uma data mal vista, era uma data socialista, num tempo em que o Brasil, de modo geral, pensava que os comunistas comiam criancinhas no jantar.

Hoje pouca gente sabe que esse não é um dia de festinhas sentimentais e presentinhos doces, como o Dia das Mães.

Em todo o mundo, para as mulheres de vanguarda, o 8 de março é um dia de reflexão sobre a condição de todas as mulheres sobre a Terra.

Ultrapassa em muito o rótulo de socialista. Trata-se de combater a discriminação e o preconceito contra o sexo feminino, coisas que – mesmo em países de legislação feminina avançada como o Brasil – ainda estão completamente presentes em nosso cotidiano.

A Lei Brasileira, no que tange ao direito das mulheres, costuma ser invejada pelas feministas de outros países em Congressos Internacionais. Mas isto se deve apenas às feministas brasileiras que, mobilizadas e unidas, trabalharam duramente para incluir na Constituição de 1988, todas as velhas reivindicações das brasileiras. Elas conseguiram. Mas ninguém mais se lembra.

A humanidade é assim mesmo. Uns poucos e heróicos lutadores se matam para fazer avançar as conquistas sociais das quais todos vão usufruir. E, depois, os que usufruem torcem o nariz para os que conquistaram.

Mulheres modernas morrem de medo de serem tachadas de feministas porque embarcaram de cabeça nos mitos criados pelos machistas: todas as femininas são feias, mal amadas, frustradas, odeiam homens e outras enormes cretinices que foram – e ainda são – divulgadas sobre as heróicas mulheres que conquistaram para nós, mulheres contemporâneas, todos os direitos que temos hoje.

Votar, ter prazer sexual, estudar, trabalhar, ser dona de seu próprio nariz, poder ter propriedades e bens em seu próprio nome, fazer contracepção, andar sozinha pelas ruas, ficar com a guarda dos filhos na separação, todas essas coisas que nos parecem tão normais, não eram permitidas às mulheres até muito pouco tempo atrás. E, para algumas mulheres, em algumas partes do mundo, ainda não são.

Quem conquistou tudo isso para nós?

As heróicas feministas. Muitas foram presas, muitas morreram, outras foram torturadas e ficaram com a saúde comprometida para o resto de suas vidas.

Não eram feias. Não eram mal amadas. Não odiavam os homens. Eram mulheres de verdade, mulheres de fibra, mulheres de valor, muito mais do que as bobonas ignorantes que zombam delas.

Por isso, o 8 de março não é, como o Dia das Mães, um dia de todas.

O Dia Internacional da Mulher é o dia das corajosas, das verdadeiras, das destemidas, das ousadas.

Ele foi criado na Confererência Internacional Socialista de 1910, por proposta da alemã Clara Zetkin, militante feminista.

Isso porque foi em 8 de março de 1857 que 129 operárias fizeram a primeira greve feminina da história, em Nova Iorque. Elas reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 12 para 10 horas por dia. Os patrões e a polícia simplesmente puseram fogo na fábrica onde elas estavam e todas morreram queimadas.

Queimar mulher, fazer churrasquinho de mãe, aliás, sempre foi uma constante na história da humanidade. A Inquisição queimava as supostas bruxas. Fez isso durante seis séculos. Os indus queimavam as viúvas e os americanos do século XIX queimaram operárias.

Nem todas podem ser Joana D’Arc.

Por isso, o Dia Internacional da Mulher é o dia de poucas mulheres valentes.

Se você é uma delas, parabéns.

Bárbara. Santa. Guerreira.

Dentre os muitos mitos e lendas do candomblé, há uma pequena história que fascina. Trata-se das duas mulheres de Xangô, guerreiro. Uma delas é Oxum, a rainha. A outra, Iansã, deusa dos raios, das tempestades.

Oxum é aquela que traz na mão direita um espelho.

Iansã sai ao lado de Xangô, guerreiro, para a batalha.

Oxum – lembrando um pouco a rainha má dos contos de fadas – fica a mirar-se no espelho. Existe alguém mais bela do que eu?

A distinção me parece atual, onipresente. Há mulheres que são oxuns, há mulheres que são iansãs. Não é preciso muita imaginação para aplicar os exemplos.

Mulher dividida, lutando por uma posição no mundo, negando-se a ser objeto, negando-se a ser adorno. Partindo para a luta do cotidiano, mulher sofrendo em dobro.

Sofrendo para deixar de ser oxum, a mirar eternamente sua própria imagem, seu próprio umbigo, seu pequeno mundo distante da rua, da guerra, da briga pela sobrevivência. (Carolina na janela. Penélope à espera de Ulisses).

Temos mas é que ser Iansãs.

No entanto, o mundo ainda nos cobra os dois papéis, simultâneamente.

A guerreira, quando retorna à casa, deve subitamente, transformar-se em Oxum: dócil, meiga, enfeitando-se pro seu homem, desdobrando-se em atenções familiares. Mas esta iansã que vem da batalha da rua – competindo em desigualdade com os xangôs desta vida – talvez não queira mais fundir-se em Oxum. Talvez queira trazer para o mundo doméstico os ranços, as esperanças, derrotas e conquistas de seu dia a dia.

Cabe aqui um apelo aos xangôs: Que decidam-se afinal; que percebam de uma vez esse conflito básico. E lembrem-se que Iansã é a companheira de luta, não a inimiga. Coragem. Desafio. Raio. Tempestade. Força.

Lembremos nossas avós. Iansãs verdadeiras, travestidas em oxuns, a força por detrás do poder patriarcal.

É hora de ser iansã, sem máscara, companheira e amiga de Xangô. É hora de, como queria o poeta, ir para a rua e beber a tempestade. (“Cala a boca, Bárbara”). Para que então sejamos uma.

A oxum de boa cabeça, tranquila, bonita, sexy e perfumada, há de ver, de repente, refletida no fundo do espelho, a brava guerreira. Aquela que tem nas mãos a força da natureza, a explosão da tempestade, a liberdade dos ventos e um amor imenso, fruto da batalha.

Aquela que ousa. E já não se pode calar.

27 de abril de 1980

Adeus, Fogão. (para ver o vídeo do fogão, clique aqui)

No dia 13 de novembro de 1992 eu comprei um fogão novo. Lindo e brastemp. De seis bocas, com um forno maravilhoso. Naquela época tínhamos uma empregada espetacular e baiana, que morava conosco. Era a Ritinha. Também morava aqui em casa o filho do meu marido. Minha mãe e meus dois irmãos ainda estavam vivos. E ganhavamos muito dinheiro.

Dinheiro que gastamos devidamente fazendo altas festas, com mordomias, vinho francês e garçons, para os nossos amigos, e maravilhosos almoços preparados pela Ritinha. Fizemos almoços baianos (com todos os pratos dos orixás) e grandes almoços de Natal.

Em 1993, houve um absolutamente inesquecível. Era um almoço de boas vindas para uma prima que ainda não me odiava e estava chegando da Índia. Era março e estava um calor do cão. Todas as pessoas estavam absolutamente felizes e tomaram litros e litros de vinho branco. O almoço começou às 11 da manhã e às 11 da noite ainda não tinha terminado.

Estou contando tudo isso porque o meu fogão brastemp foi personagem importante em todas essas comemorações por muitos e muitos anos.

E foi exatamente porque esse fogão proveu momentos gastronômicos sensacionais nesta casa que eu me despedi dele, ontem, com um beijo e uma prece de agradecimento.

Hoje não fazemos mais almoços.

Toda a nossa comida é congelada e arroz e até macarrão eu faço no micro ondas. Empregada, só uma vez por semana e apenas para a limpeza. Sanduiches e stakes congelados são feitos na maravilhosa grelha-sanduicheira que a minha amiga (irmã) Leda me deu. Então, fogão pra que?

O maravilhoso e festejado fogão virou apenas um trambolho inútil, ocupando um espaço imenso na cozinha do apartamento. Isso sem falar nos dois botijões de gas atravancando a area de serviço.

É engraçado como as coisas mudam.

Agora, aqui em casa, não tem mais fogão.

Fogão, uma peça que foi tão fundamental na vida da gente.

Esta é a tendência. Cada vez mais os serviços domésticos se tornarão serviços profissionais. Comida delivery, congelada. Empresas de limpeza doméstica que entram pela sua casa adentro todas as manhãs e , em 15 minutos, fazem o que você levaria duas horas para fazer. Flats. Sofisticadas lavanderias.

Mulheres estarão, afinal, livres para viver plenamente (como os homens sempre fizeram) suas carreiras profissionais.

Todos os fogões domésticos serão coisas do passado...

Monogamia: uma coisa torta.

Deve ter sido quando, finalmente, o macho da espécie humana compreendeu que ele tinha sim um papel na concepção e que a mulher não era exatamente aquela misteriosa deusa que, ao expor seu ventre à luz da lua, passava magicamente a gerar um novo ser; deve ter sido aí, neste momento de compreensão, que foi inventada a monogamia.  Afinal, já que o homem tinha um papel na concepção, tornou-se importante garantir que o filho era mesmo dele. Para fazer isso, só impedindo que a mulher tivesse relações com outros homens. Surgiu a posse. E, de mágica deusa, a fêmea passou a ser mais um objeto entre todas as possessões dos homens.

O sexo deixou de ser sinônimo de alegria, liberdade, realização e passou a ser o que é até hoje: a exclusividade neurótica e ciumenta, moeda, fator de troca, comércio, chantagem. E a coisa foi ficando tão neurótica que, quando apareceu o cristianismo, era preciso dizer que o filho de deus só poderia ter nascido de uma virgem, ou seja, uma mulher “pura”.

Deu no que deu.

Hoje em dia, herdeiros dessa cultura horrível e engessadora da verdadeira alegria do prazer sexual, apesar dos motéis e de uma suposta e hipócrita liberdade, vemos em muitos adultos o comportamento doentio e infeliz com relação ao sexo. Crimes passionais. Vinganças torpes por aquilo que chamamos de “traição”, lágrimas, violência, sofrimento. Tudo por aquilo que deveria ser a maior fonte de saúde e prazer dos humanos: a alegria do sexo bem feito, sem culpa, sem vergonha, sem posse, sem neurose.

Não nos iludamos mais. Não somos monógamos. Heteros, bi ou homossexuais, por mais que amemos profundamente um parceiro e vivamos felizes com ele, desejamos sim outras pessoas que eventualmente aparecem nas nossas vidas. E, se renunciamos ao desejo, apenas para não “magoar” o nosso amor, sobra um vácuo, um vazio, um querer eternamente reprimido. O poeta Fagner disse melhor do que eu: “quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar”.

Realizar um desejo sexual não tira pedaço de ninguém. Não é traição, nem sacanagem. O problema é que fomos criados com essas idéias tortas e, quando vivemos um amor e cedemos a um desejo, nos sentimos culpados, nos sentimos “traidores”. Raramente temos maturidade e tranqüilidade suficientes para entender que, assim como acontece conosco, acontecerá também com o nosso companheiro. Todos nós, por mais que vivamos uma relação de amor, feliz, estável e duradoura, não estaremos imunes ao desejo por outra pessoa.

Maravilhoso seria o mundo se pudéssemos aceitar com naturalidade o nosso desejo e o desejo do outro. Caetano e Gil também disseram melhor do que eu: “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar.”.

No entanto, nesta matéria de monogamia e fidelidade, apenas nos embaralhamos, nos confundimos e, na quase totalidade das vezes, metemos os pés pelas mãos.

Não somos seres monógamos. Jamais seremos.

E, enquanto continuarmos a fingir que somos estaremos sempre tristes.

 

Homens

Para os homens, driblar a monogamia é fácil e natural. Eles nâo têm muitos problemas com isso. Casados, frequentam bares singles. Se viajam a trabalho, sempre encontram no hotel ou no evento profissional, onde vão, alguma mulher disposta a fazer sexo ou por dinheiro ou por interesse em alguma vantagem que ele possa oferecer. Quase sempre os homens mantêm casos extra-conjugais e muitas vezes até amantes fixas que, em linguagem de advogado, são as tais “teúdas e manteúdas”. 

Tirando as exceções, aqueles que são monógamos por convicção e/ou religião, nenhum homem é homem de uma mulher só.

É clássico o caso de mulheres iludidas por homens casados, que lhes prometem mundos e fundos, que dizem que seu (dele) casamento está no fim e que não amam mais a esposa, apenas para conseguir o que querem. E homens, na absoluta maioria das vezes, querem sexo. Mas eles sabem muito bem que as mulheres, também na maioria das vezes, precisam se apaixonar ( ou imaginar uma paíxão) para assumir o desejo. Por isso, quando a mulher em questão está nessa, eles mentem.

 

Confusão Sexual

 

Mas a grande confusão está na maneira pela qual a nossa cultura vê o sexo e na consequente educaçlão deformada que é dada às nossas crianças.

É uma conversa antiga, mas também ainda muito válida. Meninos são estimulados a fazer sexo pelo sexo. Meninas são estimuladas a não fazer sexo, a não conhecer seus órgãos genitais e a ter vergonha deles. Bem ao contrário dos meninos que, desde pequenininhos, brincam e competem entre si em jogos com seus pênis.

O garoto cresce então com aquela visão distorcida do sexo oposto: existem dois tipos de mulher, aquela com quem se casa e aquela com quem se trepa.

A que casa, é pra ser mãe e, de preferência, bem reacata e pudica na cama. Nada de muito prazer.

Afinal, se ela tiver muito prazer pode também ter a idéia de experimentar ter prazer com outros homens e aí quem garante que a mãe dos meus filhos é mesmo mãe dos meus filhos e não dos filhos dos outros?

Aquela que é pra trepar, tem que dar prazer e não ter. Se ela tiver, tudo bem. Mas se não tiver, tudo bem também.

 

Mulheres

 

Se o prazer sexual é um dos itens mais importantes da vida dos homens, nas mulheres, historicamente, o prazer é o que menos conta na hora de ir para a cama. Pelo menos, o prazer dela. Mulheres vão para a cama por obrigação conjugal, por dinheiro, por interesse de ascenção profissional ou simplesmente por generosidade, para agradar ao homem que elas estão amando no momento.

Raras são as mulheres, a despeito de toda a publicidade que tem sido dada a uma suposta liberação sexual, que vão para a cama por puro e simples desejo e prazer. Aliás, a maior queixa feminina nos ambulatórios de sexologia dos hospitais públicos de São Paulo é exatamente a dificuldade de atingir o orgasmo.

Assim, muitas mulheres passam a vida fingindo para agradar, de novo, seus parceiros. E muitas, mesmo as que se julgam modernas e liberadas, ainda repetem a besteira predileta do sexo feminino: “Sexo, pra mim, só com amor”...

E, aí, coitada da mulher! Vai ter que pensar que ama, que está apaixonada, cada vez que o tesão a pegar... risos...

Para os homens a coisa é simples. Ele olha pra uma mulher e sabe que a deseja. Pode até vir a amá-la, mas jamais confunde desejo com paixão ou com amor.

Já a mulherada... Uma paixão a cada balada de fim de semana.

 

Passionais

 

Com toda essa bela confusão, o maldito sentimento de posse pode chegar ao extremo da violência doméstica e dos crimes passionais.

Se você parar para pensar vai concordar comigo: não existe nada mais ridículo do que uma pessoa matar a outra “por amor”.  É o cúmulo da distorção da palavra amor.

No entanto, até muito pouco tempo atrás, era dado ao homem o direito de matar a mulher que o traísse. Chamava-se isso de “crime de honra”.

E mesmo hoje os nossos tribunais são inacreditavelmente bonzinhos para com homens que matam mulheres. Vide os casos do Doca Street, daquele jornalista que matou a namorada, foi condenado e está solto (esqueci o nome dele, graças a Deus) e outros que não ganharam a mesma visibilidade na mídia.

Nossa, como somos atrasados!

 

Política

 

Mas a questão do prazer é basicamente uma questão política.

Não interessa, absolutamente, a quem está no poder, que o povo seja feliz.

Povo feliz é povo que critica, reivindica, cobra seus governantes.

Povo infeliz, mal resolvido sexualmente, endividado, esfomeado, não tem nem tempo nem cabeça para reivindicar qualquer coisa que não seja a felicidade individual, as questiúnculas pessoais do cotidiano. Infelicidade inibe o sentimento da coletividade. E é muito mais fácil, aos poderosos, subjugar os tristes.

 

Então, só pra contrariar, vá atrás da sua felicidade e jogue os preconceitos sexuais na lata de lixo mais próxima.

Todos somos bi-sexuais. Todos somos polígamos. E todos merecemos a felicidade sexual. Sem vergonha, sem medo, sem preconceito, com segurança, saúde e alegria. Seja feliz.

 

(para ir mais fundo e também se divertir com alguns contos eróticos, leia o meu livro “Sexo Sem Vergonha”- clique aqui )

 

Carro: o máximo da cafonice!

 Já faz algum tempo, eu ia a pé pela Avenida Paulista e cheguei à Bernardino de Campos, atravessando sobre a avenida 23 de Maio. Quando olhei lá pra baixo e vi aquele mar de automóveis, o ridículo da cena atingiu o meu peito como um soco.

Que bando de idiotas nos tornamos, cada um de nós dirigindo um amontoado de lata, poluente, num mar de amontoados de lata, andando mais devagar do que se andássemos a pé?

Realmente, o tempo do automóvel já passou.

É inacreditável que as autoridades que governam os países não estejam se mobilizando, desesperadamente, para fornecer alternativas de transporte, principalmente nas grandes cidades.

É verdade que, principalmente no Brasil, a indústria automobilística gera uma montanha e meia de dinheiro em impostos.

No entanto, quanto desses impostos são gastos na saúde pública quando os números de vítimas de acidentes automobilísticos chega à espantosa cifra de 500 mil por ano? Quanto é gasto com doenças respiratórias causadas pela poluição? Já está provado que os veículos automotores são os maiores vilões na geração de uma péssima qualidade de ar.

Alternativas existem e são muitas. Metrô é a melhor delas, para o transporte nas cidades. E uma grande malha ferroviária substituiria com êxito o horror das rodovias, onde acontece uma verdadeira carnificina e cujo custo é muito alto.

Carro é coisa do passado.Carro é coisa de país subdesenvolvido, orgulho de gente atrasada.

Carro é, hoje, uma idéia cafona e politicamente incorreta.

É claro que, numa cidade como São Paulo, onde o transporte público é, na maioria, uma grande desgraça, todo mundo depende e precisa de um carro.

A situação caótica do trânsito, que já tem até rádio especializada em ajudar o motorista a escapar dos trágicos congestionamentos, no entanto, faz com que todos nós suspiremos de anseio por umas boas linhas de metrô.

Cada vez mais pessoas estão optando pelas bicicletas e pelo metrô, nos poucos lugares onde ele existe.

Os congestionamentos, além de poluírem ainda mais o ar, causam muito estresse e as brigas feias entre motoristas estão se tornando rotina.

Enquanto não pressionamos as autoridades por soluções alternativas, seria muito bom se cada um de nós tentasse evitar ao máximo usar o automóvel.

Se aonde você vai é possível ir de metrô, vá.

Se você tem dinheiro, opte pelo táxi (é sempre um carro a menos na cidade: o seu).

Se o trajeto é curto, vá a pé; caminhar faz bem pra saúde.

E, principalmente, trate de mudar a sua cabeça com relação aos automóveis. Compre o mais barato, ou o que polui menos, o menos luxuoso. Trate o carro como um mal necessário e não mais como um símbolo de status.

Carro é cafona.

Carro é passado.

Carro consome combustível.

Polui.

Aleija e mata.

Carro é individualista.

Carro é egoísta.

Carro é porcaria da grossa.

Pule fora enquanto é tempo.

Automóveis:

Egoístas, Assassinos, Poluidores e Cafonas

 

É na direção de um carro que se revela toda a estupidez da espécie humana.

O grande sucesso desse invento – que, no começo do século XX, o poeta Olavo Bilac já abominava --  está na sensação de poder que ele proporciona ao seu usuário, ou “dono”.

 

O automóvel é o nosso escravo e, com ele sob nossas ordens, nos sentimos detentores de um poder que é muito raro conquistar em qualquer outra esfera da atividade humana.

 

É por isso que, no trânsito das cidades e nas rodovias, somos todos (independentemente do nosso nível social, de escolaridade ou econômico) tão mal educados. É claro que existem exceções. É claro que existem pessoas bem educadas no trânsito. Mas estes anjos são raros, são quase santos.

 

Nosso comportamento no tráfego é, como diria a professora de medicina Julia Greve, da Universidade de São Paulo, comparável ao comportamento de um sujeito que chega numa fila para tomar um elevador e vai abrindo caminho a cotoveladas e pontapés, tirando todo mundo da frente para ser o primeiro da fila.

 

É o exercício do poder automobilístico que nos faz tão monstruosamente estúpidos quando estamos na direção dos veículos. E quanto mais jovens formos, pior fica esse comportamento.

 

Um sujeito que sai “costurando” numa grande avenida, que não respeita limites de velocidade, que “fura” semáforos vermelhos, que invade faixas de pedestres, que passa a fila de carros pela contra mão, que trafega pelos acostamentos das rodovias e faz ultrapassagens arriscadas, não é um sujeito esperto ou, como ele próprio se julga, um ótimo motorista. Ele é simplesmente um imbecil. Um bobo alegre que está colocando em risco a sua saúde e a sua vida, assim como a saúde e a vida de outras pessoas que nada tem a ver com o “complexo de herói” dele.

 

Em todos os fins de semana prolongados, os acidentes nas estradas brasileiras esbarram na casa dos dois mil. As mortes são contadas às centenas.

É mais seguro ir passar férias no Iraque do que sair dirigindo por uma rodovia brasileira num feriado prolongado.

 

Mais de metade das mortes por acidentes de trânsito que acontecem no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo foram causadas pela embriaguez do motorista.

Pesquisa recente da Unifesp mostra que 84% dos motoristas que dirigem bêbados se recusavam a entregar as chaves do carro a alguém sóbrio.

 

O professor Paulo Saldiva, médico patologista responsável pelas pesquisas de qualidade do ar na USP, só anda de bicicleta. Muita gente que tem a cabeça à frente do seu tempo, em todo o mundo, está, cada vez mais, abominando os automóveis. O carro é um meio de transporte realmente ultrapassado.

Ele é extremamente perigoso, poluidor, causador de estresse, egoísta e símbolo de um status totalmente ultrapassado.

 

Num futuro não muito distante, o automóvel será considerado algo de extremo mau gosto e tão inadequado quanto o cigarro.

 

Mas, enquanto isso não acontece, se beber, não dirija. E, quando dirigir, ao menos, pra ser menos cafona, vê se respeita as regras do trânsito.

 

Um Sonho de Mulher

Falei tanto nelas, estudei tanto a vida delas, escrevi tanto sobre elas, trabalhei durante toda a minha vida para que a luta delas não fosse esquecida nem menosprezada, insisti em manter viva a memória delas, de seus feitos, de sua luta, de seus sofrimentos, de sua nobreza de alma, de sua valente disposição... Vivi tanto a memória delas que, esta noite, para minha honra e alegria, sonhei que era uma delas.

De repente, vieram à moda os vestidos e saias longos. Nesses dias de friozinho paulistano em pleno verão, saí para ir à TV usando uma saia comprida, um par de botas, uma blusinha com babadinho e um blaser. Me olhei no enorme espelho do hall do apartamento, um espelho de mais de cem anos e que pertenceu à minha avó, e disse ao meu marido:

- Olha, amor, estou usando as roupas da minha avó.

E estava mesmo. Era assim que elas se vestiam no comecinho do século XX. Botinhas, saias longas, casaquinhos, blusinhas de babado...Assim se vestiam Alice Paul, Emmeline Pankhurst, Susan B. Anthony, Margaret Sanger, Emma Goldman, Elizabeth Stanton... Assim se vestia a minha avó. Assim se vestiam as nossas avós sufragistas. Elas, que tanto lutaram, para que hoje nós possamos votar, possamos pensar, possamos estudar, possamos decidir... Sem elas, o que seria de nós?

Seríamos até hoje umas coitadas, cidadãs de segunda classe, sem direito à nada, a não ser obedecer aos nossos maridos e parir os nossos filhos. Não seríamos alfabetizadas. Não poderíamos nos realizar profissionalmente. Não votaríamos. E estaríamos à mercê dos homens que nos possuissem, primeiro nossos pais, depois nossos maridos e, na falta desses, até nossos filhos machos.

É engraçado como nós, mulheres do século XXI, nos esquecemos quase completamente das heroínas que conquistaram para nós todos os direitos sociais que temos hoje. Foram elas, nossas avós feministas e sufragistas, e apenas elas, que mudaram a perspectiva da nossa condição social. Ninguém nos deu, e nem nos daria, os direitos de presente. Tivemos que ir cavá-los. Às vezes pagando com a própria vida esta ousadia.

Por isso, nessa manhã, acordei encantada.

Tive um sonho maravilhoso. Sonhei que era uma delas. Sonhei que eu era uma sufragista e viajava pela Europa dando palestras. Usava saias longas, botas, casaquinhos e chapéus. Era vaiada e xingada em alguns lugares e ardentemente aplaudida em outros. Eu, pobre de mim, eu era uma sufragista!

Talvez o meu sonho tenha sido um presente das nossas avós, uma recompensa por todo esse trabalho que eu tive e tenho de tentar manter viva a memória delas. Acordei feliz e orgulhosa. Eu, afinal contribuíra para tornar realidade os sonhos das mulheres.

O Médico e o Marketing

Era uma vez um médico que se sentia plenamente realizado com a sua carreira. Desde muito pequeno ele sabia que queria ser médico. A vocação já nascera com ele, vinda sabe-se lá de onde, já que o nosso Dr. Artur era filho de um humilde alfaiate e de uma costureira. Muito as máquinas do atelier de costura, que funcionava na sala da residência de seus pais, trabalharam para conseguir pagar as despesas de Artur na faculdade. O curso foi feito na Universidade pública, mas mesmo assim, Artur não tinha tempo para trabalhar, enquanto todos os seus irmãos, na sua idade, já trabalhavam, havia enormes despesas com livros e o inevitável ciúme dos irmãos que acreditavam que os pais estavam dando à Artur privilégios que eles próprios não tinham.

Mas, no fundo, todos respeitavam, na família, a extrema dedicação de Artur. Ele, é verdade, tivera a sorte de freqüentar escolas públicas (grupo municipal e ginásio estadual) numa época – fim dos anos 50 e começo dos 60 – em que o ensino nessas instituições era realmente bom em São Paulo e, por isso, e também porque se matara de tanto estudar, ele conseguira entrar na Faculdade de Medicina da USP.

Artur formou-se em 1971. Durante o seu curso, enquanto muitos dos seus colegas reservavam algum tempo para as atividades políticas que estavam, então, na moda, ele só fazia estudar. Ainda conseguiu cavar uma bolsa de estudos num curso de inglês (em troca de divulgar o tal curso entre os seus colegas de universidade) e, antes de se formar, era tão fluente em inglês quanto em português. Isso, é claro, foi muito útil para, mais tarde, as suas viagens ao Exterior, onde participava de importantes congressos médicos.

Sim, porque Artur fez uma brilhante carreira acadêmica. Formou-se com distinção, foi o melhor residente de sua turma e, embora fascinado pelos muitos mistérios que a medicina ainda não decifrara no corpo humano, e, por isso mesmo, tentado a especializar-se em oncologia, acabou virando ginecologista, intrigado pela capacidade reprodutiva das mulheres e pelo preço que as fêmeas pagavam por essa capacidade.

Mas, embora um sucesso nos serviços de saúde pública onde trabalhou e outro sucesso na faculdade onde passou a dar aulas, Artur era um desastre financeiro e político. Mal sabia se defender das armadilhas, que seus colegas invejosos de sua competência, criavam para ele. E no seu humilde consultório de bairro, acabava levando altos calotes, dada a sua generosidade e a sua compreensão para a dificuldade financeira das pacientes. Quando, no Brasil, começavam a proliferar os convênios, por deficiência do próprio sistema público de saúde, Artur credenciou-se em todos e, em breve, em seu consultório, só existiam clientes de grupos médicos (que pagavam uma miséria por consulta) e mulheres muito pobres, a quem ele atendia de graça. Suas noites eram dedicadas à pesquisa e ao estudo e ele só podia freqüentar os congressos internacionais quando convidado pelos laboratórios da indústria farmacêutica. Isto, aliás, era um prato cheio para os seus colegas acadêmicos e invejosos, que começaram a acusá-lo de ser um “vendido” para a Indústria. Só que essa estratégia não convencia muita gente pois o pobre Dr. Artur continuava levando uma vida muito modesta, andando num carro mais velho que ele, clinicando num consultório modesto de bairro, vestindo ternos puídos e calças jeans da década de sessenta. Os salários recebidos na saúde pública beiravam o ridículo, o que ele recebia do consultório também bastante ridículo, o que salvava um pouco era a remuneração de sua docência universitária, mas ele torrava tudo em livros e ajudando a família.

Assim, enquanto muitos de seus colegas enriqueciam e montavam chiques consultórios nos jardins e em outros bairros nobres da cidade, o Prof. Dr. Artur vivia mergulhado naquela simplicidade franciscana.

Mas as suas pacientes... ah, estas o adoravam. Enfrentavam longas esperas na sala de recepção de seu consultório, lendo revistas velhas e capengas de tanto serem manuseadas, para ter o privilégio de seus cuidados. Ele sempre atrasava as consultas. Porque queria ouvir. E ouvia, as condições de vida, os dramas pessoais, as frustrações e as ambições de suas pacientes. Porque ele, quanto mais estudava e aprendia, mais acreditava que a saúde é um tripé:o físico, o emocional e o social. Assim, não via suas pacientes apenas como um corpo, um útero, um par de ovários. Mas procurava ir muito mais fundo, compreendendo como o psicológico e o social estariam atuando no físico.

Teve poucas namoradas. Tinha pouco tempo para elas, muito pouco tempo, e elas logo se cansavam e iam procurar alguém mais dedicado.

Quando, no fim dos anos oitenta, surgiram os primeiros computadores domésticos, ainda muito caros, Artur gastou todo o seu salário de dois meses na faculdade para conseguir um e, um par de anos depois, era um dos primeiros brasileiros, fora das instituições universitárias, a ter acesso à Internet domesticamente.

Um dia, no meio dos anos 90, recebeu um convite para participar de um programa de TV. Artur ia recusar. Achava uma bobagem ir à televisão. Mas a produtora do programa conseguiu convencê-lo, dizendo que professores sérios como ele poderiam prestar um grande serviço aos telespectadores através de uma informação decente sobre saúde.

Foi.

No dia seguinte o telefone de seu consultório estava congestionado. Milhares de mulheres queriam se consultar com ele. A secretaria pirou. Contou a ele que ouvira de muitas delas coisas como o seguinte: “Eu dobro o valor da consulta pra você me arrumar um horário com ele e ainda te levo um presente”.

Dr. Artur, em vez de ficar contente com aquele súbito sucesso, ficou profundamente deprimido. Então bastava aparecer na TV e ele se tornaria um médico reconhecido e disputado pelas pacientes? Ora, isso não tinha sentido. O que importava ao nosso herói era o acúmulo de conhecimento científico, pelo qual ele tanto lutara nas últimas décadas.

Para o público, porém, quem aparecia na TV era o melhor. O público, um pouco ingenuamente, tinha a tendência de acreditar que a televisão só levasse ao ar aqueles profissionais de alto gabarito e conhecimento. No caso do Dr. Artur, isso era verdade. Mas muitas vezes não era. Muitas vezes o produtores de TV levavam quem estivesse mais próximo deles por qualquer razão ou quem tivesse contratado a melhor assessoria de imprensa.

Mas agora ele estava num dilema. Nunca se recusara a atender ninguém. Como atender, no entanto, todas aquelas centenas de mulheres que ligavam sem parar para o consultório?

A secretária lhe deu a solução:

- Doutor, o senhor mesmo disse que os ginecologistas recém formados não têm, muitas vezes, a oportunidade de montar um consultório. Por que o senhor não convida alguns deles para vir trabalhar aqui e assim o senhor divide as consultas com eles.

- Mas estas pacientes novas querem se consultar com o médico que elas viram na Tv e este sou eu.

- Bobagem – respondeu a secretária – Em todas as clínicas dirigidas por médicos famosos, desses que vivem aparecendo na mídia, as pacientes são atendidas pelos médicos assistentes e ficam muita satisfeitas. Quando o médico famoso aparece durante a consulta, então, elas quase desmaiam de emoção. O senhor precisava fazer a mesma coisa. Ficaria rico e – aqui ela deu um risinho maroto – poderia aumentar o salário da sua secretária.

- Como é que você sabe de tudo isso?

- Vejo nas revistas.

O que animou o Dr. Artur foi a possibilidade, afinal, de ajudar os colegas recém formados e, inclusive, continuar de uma certa maneira a ensiná-los, através de sua própria experiência. Montou uma pequena clínica e contratou mais  3 médicos. Mas esta também ficou insuficiente quando, pela segunda vez, ele aceitou ir ao programa de TV.  Três anos depois o nosso modesto Dr. Artur era fonte disputada pelos jornalistas de rádio e televisão. Montou uma clínica enorme, com 15 médicos além dele e adquiriu também modernos equipamentos para poder realizar os exames necessários lá mesmo, tendo contratado também os médicos e técnicos para a realização dos exames. Ficou rico, quase milionário e pôde comprar o carro esporte de seus sonhos. Havia uma fila de mulheres se oferecendo, loucas para casar com o médico famoso e rico. No entanto, jamais se casou e jamais deixou de atender suas pacientes pobres. Quando as ricas eram atendidas pelos assistentes e acreditavam que o famoso doutor só atendesse as ainda mais ricas que elas, ele estava atendendo de graça...

Mas, no meio médico, nos anos seguintes, quando alguém citava o Dr. Artur, sempre havia outro alguém para dizer:

- Ah, esse, além de vendido pra indústria, é apenas uma grande marqueteiro.

 

 

Como Um Clone

Nada parecia indicar que aquilo aconteceria. Era um dia, como todos os outros. Ou, antes, não era. Mas eu não sabia. Pensava que fosse. E ia andando apressada para o fórum --  nem pensar em chegar atrasada à audiência --  quando atravessei aquela rua, normalmente tranqüila, e veio aquele carro --  um vulto negro, mais nada – e me jogou longe. Bati violentamente a cabeça na dura guia de pedra da calçada, senti um arremedo de dor, e morri.

Bom, é verdade que estou simplificando. Foi um pouco mais complicado do que apenas “morri”. Porque, no primeiro momento, eu estranhei ter sentido apenas aquela dor e, de repente, estava vendo meu próprio corpo estendido na calçada e o meu sangue correndo para um bueiro próximo. 

O carro negro sumira. Transeuntes se reuniram rapidamente em volta do meu corpo, alguém telefonou pro resgate.

Mas eu, perplexa, sabia que nada me levaria de volta a aquele corpo e, na sábia resignação que nos atinge na hora da morte, preparei-me para me despedir dele. Percebi que bastava pensar para me mover. Em uma fração de segundo, estava próxima ao meu próprio rosto (aliás, ao meu ex-rosto). Dei um beijo nele e pude sentir a rigidez cadavérica já se manifestando.

E agora? Para onde deveria ir? Ou será que algum anjo (ou seria um demônio?)  viria me buscar para me levar a outro mundo?

Bom, estava morta, o que fazer?

Nunca mais beijaria meu namorado, jamais seria a juíza que sonhara ser, jamais realizaria o sonho de meu pai, que tanto se sacrificara para pagar meus estudos. Coitado do meu pai, como ele reagiria à morte da sua filha predileta, ainda na flor da idade?

Meu pai deixara a minha mãe quando eu tinha apenas 5 meses de concebida, estando ainda na barriga dela. Mas jamais me abandonara, me dera todo o apoio e carinho, pagara meus estudos e costumava me chamar de “clonezinho”.

Aliás, “clone” era o meu apelido na família. Isso porque todos podiam ver que eu saíra absolutamente igual à minha mãe. Não era apenas parecida, era idêntica. A filha daquela atriz de Hollywood, Ingrid Bergman, a Isabela Rosselini também é a cara da mãe. Mas, no meu caso, era pior. Quando criança, olhava as fotos da minha mãe criança e pensava que eram as minhas fotos. Fui crescendo e tive o privilégio (ou a desgraça) de saber exatamente como eu seria dali a 2, 3, 10 anos. Bastava olhar o álbum de fotos da minha mãe: o passado dela era o meu futuro.

Mas nós duas brigávamos muito, principalmente quando eu era adolescente. Eu queria ser diferente dela e, quando amadureci, pude perceber isso claramente. Pintei o cabelo quando tinha 13 anos. Nem passava perto de alguma roupa que parecesse com a roupa dela. Ela usava tailleurs, vestidos clássicos, flores na lapela, essas coisas. Eu vestia jeans rasgados. Ironicamente, porém, na hora de escolher a faculdade, eu optei pela mesma carreira que ela: o direito.

Ela costumava dizer que, como meu pai a deixara quando ela ainda estava grávida, ela dissera a si mesma que aquele filho seria só dela. Não teria nada dele, absolutamente nada, nenhum genzinho sequer. Seria uma filha (ela sabia, antes do ultrassom, que era uma menina) sem pai, uma filha nascida apenas dela... E, portanto, seu desejo fora atendido e eu nascera assim, com a cara dela, o jeito dela, como se fosse o seu clone.

Minha mãe fora uma brilhante advogada quando jovem. Nascera e fora criada em São Paulo mas transferiu-se para Brasília, nos final anos 60, para ser assessora especial no Ministério do Trabalho. Era também feminista e simpatizante da esquerda, o que, naqueles anos de chumbo da ditadura militar brasileira, era um perigo... E foi a sua desgraça.

Eu nasci em Brasília. Minha mãe se mudara para lá assim que se separara do meu pai, que era músico, e que considero brilhante compositor, mas que, embora até Elis Regina tenha gravado uma música sua, nunca conseguiu viver de suas composições e muito menos ter seu talento reconhecido e, por isso, para sobreviver, comprava e vendia carros usados.

Quando o general Médici e seu ministro Delfim inventaram o milagre brasileiro e toda a sociedade brasileira vivia, apesar do regime de ferro, uma euforia econômica, minha mãe, assim quase por acaso, numa história complicada demais para eu narrar aqui, descobriu uma das muitas redes de corrupção do regime, que atuavam no Planalto.

Ingenuamente, procurou seus superiores e denunciou. Passou a ser perseguida. Todos os seus colegas foram induzidos a acreditar que ela pertencia a alguma organização suspeita, num monumental e bem sucedido trabalho de disseminação de fofocas (o que, sem dúvida, os círculos do poder sabem fazer muito bem). A coisa foi tão brava que ela acabou sendo presa. Na prisão sofreu toda a sorte de torturas para revelar coisas das quais ela não tinha realmente nenhum conhecimento. Voltou para casa um mês depois, presa, para sempre, a uma cadeira de rodas. Foi aposentada por invalidez e nós voltamos para São Paulo.

Ela amargou alguns meses uma quase-depressão, mas logo reagiu. Embora tivéssemos como viver, porque a aposentadoria do governo (diferentemente da aposentadoria dos comuns mortais brasileiros) era gorda, ela comprou um fogão industrial e montou uma empresinha de congelados na garagem da nossa casa. Era dura na queda. Movia-se pela cozinha, dando instruções aos empregados, naquela cadeira motorizada e que ela manobrava como um piloto de fórmula um.

Quando ela estava na cadeia, a nossa fiel empregada é quem conta, eu acordava no meio da noite, chorando e gritando e pedindo para que parassem... Muitos anos depois é que percebi que eu sentia, no meu corpo, as torturas que ela estava sofrendo. Numa dessas noites, acordei com uma dor horrível nas costas e as pernas formigando.

Desde que a minha mãe ficou paralítica, frequentemente minhas pernas adormeciam e comecei a sentir cãibras constantes. À conselho médico fui pra academia. Malhava muito, mas nunca consegui me livrar da dormência nas pernas.

Quando ela adoecia, eu sentia, embora com menos intensidade, todos os sintomas. Menstruávamos quase nos mesmos dias. Se ela estava com dor de cabeça, logo a minha nuca começava a latejar. Se suas pernas inchavam no calor, eu sabia, mesmo que estivesse longe dela, porque as minhas pernas também inchavam.

Então, com todas essas semelhanças, além da absoluta semelhança física, era natural que, na hora da minha morte eu, afinal, percebesse que era a ela que deveria ir.

Como num passe de mágica, me vi em casa. Ela estava na cama. Ao seu lado, a nossa fiel empregada de anos, chorava. Havia um pessoal do samu no quarto e ouvi o médico dizer:

- Infelizmente ela está morta. Não posso dizer ainda com certeza, mas parece que foi um derrame fulminante, há indícios...

Foi então que a vi, num canto do quarto. Ela abriu os braços e caminhou, com suas pernas espirituais, até mim.

Morrêramos juntas. Assim como vivêramos juntas.

Ela me abraçou e compreendi que sempre havíamos sido apenas uma.

E que, por alguma razão, ainda desconhecida, nossa única alma havia se dividido em dois corpos, dois corpos separados, porém unidos pelo laço indissolúvel da maternidade.

Pegou-me pela mão, como fazia quando eu era apenas uma menininha, e, com todo o carinho, conduziu-me porta afora.

Vi o olhar de ternura que ela dedicou às suas queridas plantas do jardim da pequena casa.

Olhei bem dentro dos seus olhos e ela sorriu para mim.

E, compreendi, sem nenhuma sombra de dúvida, para onde estávamos indo.

Para uma nova vida onde, desta vez, também sem dúvida, voltaríamos a ser apenas uma.

 

Homenagem à Diná Lopes Coelho

 

O verdadeiro nome dela era Maria Ricardina.

Foi casada com o jurista Canuto Mendes de Almeida mas deixou-o para viver com aquele que ela dizia ser o grande amor de sua vida: o escritor Luis Lopes Coelho. Desquite, separação, ainda eram um certo escândalo nessa época. Mas Diná não se importou.

Na década de 50, quando Ciccilo Matarazzo fundou no Brasil a Bienal das Artes, Diná tornou-se seu braço direito, organizando essa grande exposição internacional de arte. No pavilhão da Bienal ela podia ser vista circulando de patins, para facilitar a locomoção.

Tornou-se, dessa forma, uma figura super importante no mundo das artes plásticas e, em 1969, criou no Museu de Arte Moderna o Panorama, uma exposição que reunia anualmente o que o Brasil tinha de melhor em artes plásticas.

Diná nos deixou no começo de 2003. Mas estará para sempre ligada ao desenvolvimento das artes plásticas no Brasil. Tive o enorme privilégio de conhecê-la, em 1978, quando arrumei um emprego no Museu de Arte Moderna. Diná era minha chefe mas, com o tempo fomos ficando amigas. Ela tinha a idade da minha mãe, 39 anos mais velha do que eu. Mas a sua cabeça era talvez até mais moderna do que a minha... Diná foi uma das (pouquíssimas) grandes amigas que eu tive nessa vida e, até hoje, me vêm lágrimas aos olhos, lágrimas de saudade, quando eu falo nela. No fim dos anos oitenta ela decidiu que não queria mais me ver. Disse-me, por telefone, que estava velha demais e que queria que eu guardasse dela a lembrança que eu tinha então. Respeitei o seu desejo e nunca mais a vi. Mas, se fosse hoje,eu não faria isso. Eu teria ido vê-la, mesmo que ela não me recebesse.

Diná era boêmia. E eu, naqueles anos 80, também. Passamos noites em restaurantes e boites de S.Paulo, tomando vinho (ela tomava Macul) e conversando sobre a vida. Aprendi muito com ela. Era uma mulher admirável, inesquecível.  Tenho um vídeo, feito pela TV Senac, pouco antes de sua morte. Clique na foto dela, aí acima, para ver o vídeo, que dura só 3 minutos.

 

 

História Oculta das Mulheres

 

Marina saiu da palestra meio atônita. Nunca, em seus 13 anos de vida, ouvira falar daquelas mulheres. A moça palestrante - Silvia, era o nome dela, Marina jamais se esqueceria, enquanto vivesse – que fora ao seu colégio dar a palestra, era integrante, como ela mesma explicara, de um grupo de mulheres, uma ONG.

 

Comparecer à palestra não era obrigatório, mas aumentaria 0,5 ponto na nota da prova de história. Por isso, a maioria dos estudantes das séries mais adiantadas fôra.

 

Na verdade, na escola, estavam todos rindo dessa tal palestra: “História Recente do Sexo Feminino”.

 

A princípio, pensaram que fosse uma aula de educação sexual, matéria que a garotada se orgulhava de já dominar de sobra, algumas meninas e meninos mesmo já tinham tido a experiência prática. Mas quando ficaram sabendo que se tratava de Feminismo, aí então

começaram as gozações.

 

- Deve vir uma velha horrorosa – disse Marcela – igual àquela que morreu outro dia e eu vi no jornal da TV a cabo.

 

- Não – gritou Marina – vai ser uma mulher de jeans, camisa de homem e um sapato muito grande!

 

O que Marina e seus colegas não poderiam imaginar é que chegaria aquela moça magrinha, de óculos, com a roupa da moda e que, em uma hora e meia de palestra, conquistaria a todos.

 

Silvia começou contando como viviam as mulheres, no século XVIII, quando Mary Woolstonecraft, considerada a primeira feminista, lançou seus escritos: tuteladas pelos homens, sem direito à cidadania, à propriedade, ao voto. Proibidas de falar em público. Raramente alfabetizadas.

 

Depois, contou a história da luta pelo voto, história das sufragistas.

 

Falou de Emmeline Pankhurst, uma mulher da classe alta na Inglaterra, que sofrera horrores na prisão, apenas por querer que as mulheres também tivessem o direito de votar.

 

Como Emmeline, na Inglaterra, também Alice Paul, nos Estados Unidos, fora presa várias vezes e sofrera horríveis violências na prisão, como ter uma sonda enfiada a força goela abaixo para que se alimentasse, já que ela estava em greve de fome. Ou apanhar tanto que, por seqüela, ter que passar o resto da vida numa cadeira de rodas.  

 

 

Falou no desprezo e na segregação social que sofreram feministas históricas como Susan B. Anthony,Lucretia Mott e Elizabeth Stanton, que eram ridicularizadas, até mesmo pelas próprias mulheres, porque queriam igualdade de direitos para os sexos.

Falou das brasileiras, de Bertha Lutz à Pagu, perseguidas, presas, desprezadas.

 

Falou da luta de Margaret Sanger, na Nova Iorque dos anos 1910, para que as mulheres parassem de morrer por abortos clandestinos, praticados porque elas não tinham condições de criar mais um filho; uma luta pela implementação de  métodos contraceptivos que custou à Margaret, além da execração pela sociedade americana, um ano de exílio, no estrangeiro, longe do marido e dos filhos.

  

Falou das mulheres de hoje, que apesar de tantos direitos conquistados, ainda são desprezadas, caso se recusem a serem mães; ainda ganham salários inferiores aos dos homens que ocupam a mesma função; ainda são consideradas pouco inteligentes, sem raciocínio lógico e ainda apanham (25% das brasileiras) de seus companheiros.

 

Marina saiu zonza da palestra. Como ninguém contara tudo isso a ela antes? Como as revistas, as TVs, as rádios, nunca se referiam a essas mulheres lutadoras e sofridas?

Como, se, sem elas, ela, Marina, certamente não poderia estudar, não poderia votar, não teria direito à tomar pílulas anticoncepcionais e certamente nem a dirigir seu próprio carro? Nem direito ao trabalho? Ao seu próprio dinheiro?

Quando, no fim da tarde, a mãe de Marina, saindo de seu próprio trabalho, foi buscá-la na escola, Marina entrou no carro e disse:

- Mãe, aconteceu uma coisa hoje.

- O que, minha filha?

- Eu virei feminista.

 

                                       

Papo de Sufragista

Por uma dessas mágicas do destino, encontraram-se no firmamento, as almas de Elizabeth Stanton, Susan B. Anthony, Lucretia Mott, Margaret Sanger e Emmeline Pankhurst.

Elas acabavam de voltar de um passeiozinho inocente pelas terras do Brasil e estavam absolutamente chocadas com tudo o que haviam presenciado. Por isso sentaram-se numa nuvem, para tomar um chazinho.

- Então foi para isso que eu tanto lutei na vida, Elizabeth? – perguntava Susan – Você deve estar lembrada do quanto apanhamos em nossas vidas para criar as condições que levariam as mulheres americanas às urnas.

- E o pior – respondeu Elizabeth, com um suspiro – é que morremos antes de conseguir o nosso objetivo...

                                                                     

                                                                                      Elizabeth Stanton 1815-1902

- Mas conseguimos! – respondeu Susan – E servimos de exemplo para as gerações que nos seguiram. Foi em 1920, você se lembra? Eu morri quatorze anos antes, mas acabei sabendo. Depois de nós, americanas, outras mulheres conseguiram o mesmo em vários países.

- E nós, que começamos todo esse movimento na Inglaterra – interrompeu Emmeline – só conseguimos oito anos depois de vocês. Mas valeu ter sido presa 12 vezes para que conseguíssemos...

     Susan B Anthony 1820 - 1906

- Como valeu, Emmeline? – explodiu Lucretia – como você pode imaginar que valeu, se acabamos de ver todo aquele horror lá no Brasil?

- Calma. Não foi tão horrível assim. Muitas mulheres brasileiras compareceram às urnas. – disse Susan.

 - Sei – disse Lucretia – As pobres, as que não podiam ir para a praia no dia eleição. Porque o que a gente viu foi uma debandada geral no sábado, para as praias e casas de campo. Elas não estavam nem aí com o direito de votar, justificaram seu voto e pronto. Todas elas passaram o dia tomando sol, indiferentes ao exercício do direito que tanto sofremos para que elas tivessem.

A voz de Margaret Sanger soou calma:

-Meninas, vocês estão exagerando. As brasileiras estão desiludidas com a péssima qualidade dos políticos que elas têm hoje por lá. Por isso é que não acreditam mais na importância do voto. É claro que elas se importam com o direito de votar,sim.

     Lucretia Mott 1783-1880

 Pior é o que fazem com o direito pelo qual eu tanto lutei para que elas tivessem. Lembrem-se de que não foram vocês apenas que sofreram perseguições. Eu fui presa, processada, exilada, ridicularizada... porque queria que as mulheres pudessem ter filhos quando e como desejassem. E, olhem, vocês viram o voto ser conquistado, na maioria dos países ocidentais, antes da metade do século XX. Quanto ao direito pelo qual eu tanto lutei, demorou muito mais! A pílula anticoncepcional só apareceu em 1960! E o que elas fazem hoje? Esquecem de tomar o remédio ou o tomam sem receita. E ainda têm aquelas que nem tomam, confiando na sorte, desprezando uma conquista feminina a duras penas atingida! Eu queria que as mulheres fossem donas de seus corpos e, vocês viram, o que elas andam fazendo com seus corpos? Têm filhos para prender os homens ou para arrancar dinheiro, posam nuas nas revistas, estragam a sua saúde com drogas e dietas absurdas apenas porque são escravas daquela imagem de fêmeas esquálidas e subnutridas que a tal da mídia de hoje impôs para elas...Um horror! Muito pior do que não votar!

 

      Margaret Sanger 1883-1966

- Mas o pior mesmo – disse Lucretia, sorvendo um longo gole de chá – são aquelas que dizem que não se importam com a política e recuam horrorizadas ante a possibilidade de serem tachadas de feministas!

- Também, Lucretia, disso elas não têm culpa – defendeu Susan – Essa tal dessa mídia enfiou na cabeça delas que feministas não somos nós e sim aquelas aproveitadoras que usam das nossas conquistas para arrancar dinheiro dos homens.

- Esse é o problema! – explodiu Elizabeth – Depois de tudo o que conquistamos para elas: o direito ao voto, à educação, à vida profissional, ao controle da natalidade, ao prazer sexual... Depois de tudo o que outras mulheres, depois de nós, conquistaram, elas têm todas as condições de serem donas de seu próprio destino, mas ainda acreditam que precisam arrancar dinheiro dos homens.

- A verdade – retrucou Emmeline, limpando um cisco imaginário de seu magnífico xale – é que a sociedade ainda paga mais aos homens, ainda valoriza mais o trabalho e a capacidade dos machos, do que as delas. Elas podem ter direitos, mas não têm as mesmas oportunidades e ainda são educadas para a inferioridade social.

                                                                             Emmeline Pankhurst 1858-1928

- Mas, Emmeline – retrucou Lucretia – se elas, com todos esses direitos, ainda conseguem ser inferiores, o que dizer de nós? Nós não só fomos educadas para sermos inferiores como, de fato éramos. Não tínhamos direito a nada, nem ao voto, raramente à educação, éramos realmente tuteladas, escravas... E, mesmo assim, nos revoltamos, lutamos, fomos perseguidas...Essas mulheres de hoje já nascem com a faca e o queijo na mão e não conseguem ser livres. É um contra senso, uma verdadeira tristeza.

E ficaram, as históricas sufragistas, em silêncio, em sua nuvem, se perguntando, para que, afinal, haviam sofrido tanto quando estavam vivas.

 

História das Minhas Flores

(clique na foto e assista ao vídeo sobre as flores)

 Muitas das minhas telespectadoras e até mesmo algumas amigas, sempre me perguntam porque eu jamais deixo de usar uma flor na lapela. E não é apenas na TV, é na vida. Mesmo quando estou de roupa esporte, sempre acho uma florzinha de tecido, na gaveta, que acaba combinando com o traje. Virou mania.

Tem uma história, ou várias histórias, aqui. E, como as perguntas sobre isso têm sido muito frequentes, resolvi contar.

Quando, há uns três anos passados, as flores vieram à moda, eu fiquei muito entusiasmada. Afinal, adoro flores, sou uma jardineira (competente!) de apartamento e tenho, na sala de casa, uma verdadeira mata florida. Há apenas uns 20 anos, descobri o enorme prazer que é praticar a jardinagem, ainda que em vasos e nos apartamentos. Com as plantas, aprendi a ter paciência, eu que sou impulsiva e quero tudo já, agora. Com elas, é preciso esperar. Semeia-se, espera-se pelo broto, depois pela planta, pela flor e pelo fruto, se for o caso. Não adianta ter pressa. E é muito gratificante ver como elas respondem aos nossos cuidados. Para mim, cultivar plantas no apartamento foi uma descoberta mágica e maravilhosa.

Por isso, quando vieram as flores de tecido à moda, pedi ao meu marido, que ia ao shopping, que me comprasse algumas. Ele me trouxe três e comecei a usa-las nos meus programas de TV.

Lembrava-me de que vira essas flores em muitos trajes que a minha mãe, sempre elegante, vestia quando eu era criança, nos tempos idos da década de cinquenta. Pedi a ela que confeccionasse, com suas mãos de modista experiente, mais algumas flores para mim. Ela fez mais três e eu fiquei com seis.

Um dia o Ronnie Von, que me encontrara no corredor da emissora, disse:

- Nossa Bel, que linda essa camélia branca! Você deve ter um montão de flores, não? Cada dia com uma mais linda!

Eu ri, pensando que apenas 6 flores faziam o efeito de várias, dependendo da roupa.

Um dia, logo depois, sonhei que folheava antigos albúns de fotos da família e, de lá de dentro, saltavam flores de seda, as mesmas que a minha mãe havia usado nos anos cinquenta. Acordei extasiada.

Nesse mesmo dia, minha amiga Leda me telefonou para dizer que fora a uma loja de couro, no centro da cidade e que o dono da loja, Francisco, estava me mandando de presente dez flores.

Fiquei com 16.

Algum tempo depois, quando gravávamos juntas uma chamada, Sula Miranda me disse o que o Ronnie já dissera e perguntou:

- Quantas flores você tem, Isabel?

- 16, respondi.

- So isso? Parece que é muito mais!

No dia seguinte, me esperava, em meu camarim, uma caixa de sapatos, mandada pela Sula. Abri e fiquei com lágrimas nos olhos: lá dentro, 25 flores, uma mais linda que a outra.

Fiquei com 41.

Minha prima Vera Krausz (primavera!) me deu um presente que trazia uma linda flor na caixa. 42.

Pouco tempo depois, a Miriam Sobral também deixou no meu camarim uma linda caixinha com uma maravilhosa flor preta e branca. 43.

Depois, foram as dentistas, Adriana e Alessandra Mazzoni que me trouxeram uma estonteante flor de seda azul-céu. 44.

Minha amiga Leda me trouxe mais uma, da Itália. 45.

E a minha vizinha do oitavo andar, Filomena, me encontrou na calçada da Paulista e perguntou se eu me importaria de herdar umas velhas flores de seda, muito antigas, que ela conservara. Trouxe-as mais tarde, numa caixa de papelão, envoltas em papel, lindas, antigas e muito tradicionais.

Assim, hoje eu tenho 52 flores. Sem nunca ter comprado nenhuma e as uso todos os dias.

Claudia Pacheco, em seu programa matinal, entrevistava a dona de uma confecção, mostrando as tendências para a próxima estação e uma das modelos tinha uma linda rosa no vestido.

- Sabe, Cláudia, as flores virão com tudo a partir de agora. – disse ela.

E a Claudinha:

- Ah, então está para a Isabel Vasconcellos! Ela adora flores.

Eu adoro mesmo e vou usá-las sempre, estejam ou não na moda.

Afinal, elas vieram todas de presente, qualquer uma que eu coloque na roupa, me lembra um amigo, um afeto. E me lembram também que, apesar de ser uma imagem batida e explorada, as flores, tão lindas e efêmeras, simbolizam o milagre da natureza, o milagre de se estar vivo.

E tem mais uma coisa: depois de décadas de luta e sofrimento, as sufragistas americanas viram acontecer, em 26 de agosto de 1920, uma sessão do Congresso para deliberar se elas conquistariam ou não o direito de voto para as mulheres. Elas venceram. O voto feminino foi estabelecido, nos EUA, neste dia. E, neste dia, todas as mulheres que estavam presentes no Congresso, usavam uma flor na lapela.

A PRIMEIRA FEMINISTA

Mary Woolstonecraft, escritora,  é considerada a primeira feminista da história.

Ela nasceu na Inglaterra em 27 de abril de 1759 e morreu em 10 de setembro de 1797, aos 38 anos de idade, exatamente 11 dias depois de dar à luz a uma filha, que se tornaria muito mais famosa do que ela, também como escritora: Mary Shelley, a autora de Frankstein, casada com o também famoso poeta Shelley.

Mary Woolstonecraft escreveu mais de 30 obras e inúmeros artigos, quase na sua totalidade, sobre a condição feminina na sociedade. Musa dos movimentos sufragistas americanos, num século em que as mulheres que sabiam ler e escrever eram exceções, Mary causou furor com as suas reivindicações de igualdade de direitos para homens e mulheres.

Mas teria sido ela realmente a primeira feminista da história?

Todos nós sabemos que a História da Humanidade é a História dos Vencedores. O que chegou até nós, nos últimos milênios, é o relato de um mundo masculino, de dominação machista e de submissão das mulheres.

A tradição e as lendas, porém, falam de agrupamentos humanos dominados pelas fêmeas. Quando os homens ainda não tinham consciência de seu papel na reprodução humana alguns grupos reverenciavam as mulheres por sua capacidade de gerar.  As mulheres celtas dividiam o poder religioso com os druidas e suas sacerdotisas tinham grande influência política. Há ainda os relatos mitológicos do poder das guerreiras amazonas, que decepavam um seio para poder manejar melhor o arco. E existe ainda quem afirme que houve toda uma dinastia de faraós mulheres no Antigo Egito, da qual a famosa rainha Cleópatra seria uma pálida remanescência.

Nos últimos dois mil anos, a História das mulheres (até Mary Woolstonecraft e as feministas que vieram depois dela) é apenas a história da dominação machista. As sacerdotisas celtas que conseguiram manter o seu poder até a Idade Média foram queimadas nas fogueiras do cristianismo como bruxas. Assim como foram consideradas bruxas, na época, todas as mulheres que ousaram mostrar qualquer espécie de conhecimento ou espírito de independência.

Até Mary Woolstonecraft sobrou para nós apenas o poder por trás do pano, ou sub-repetciamente na família ou, na política, as grandes cafetinas donas de bordéis com acesso aos próceres locais.

No entanto, apesar de as feministas radicais terem conquistado a fama de masculinizadas ou de inimigas-do-homem, as verdadeiras mulheres lutadoras só querem ter reconhecida a igualdade natural entre os sexos. Afinal, a igualdade na diferença.

E, se pensarmos amplamente na história da humanidade, talvez possamos concluir que a primeira feminista da qual se tem notícia não seja realmente Mary Woolstonecraft, mas simplesmente Eva, que não contente em ser uma simples costela, comeu o fruto da Árvore do Conhecimento.

 

Margaret Sanger

A Pioneira da Contracepção

 

Margaret Louise Higgins nasceu em 14 de setembro de 1879, no estado de Nova Iorque, nos EUA. Era filha de irlandeses e, quando sua mãe morreu, com apenas 50 anos de idade, Margaret, que tinha 11 irmãos, atribuiu a morte da mãe ao excesso de gravidezes e partos a que esta fora submetida.

Naquele tempo, as mulheres tinham como única perspectiva de realização, a constituição da família. É claro que já existiam aquelas que exerciam alguma outra atividade ou profissão e, no começo do século XX, muitas e muitas mulheres se dedicavam à luta sufragista e pela igualdade social entre os sexos. Mas eram todas exceções.

Em 1900, Margaret já era enfermeira. Em 1902, casou-se com William Sanger. Na década de 10, o casal Sanger vivia na cidade de Nova Iorque e freqüentava seus altos círculos intelectuais.

Em 1912 ela começou a escrever para um importante jornal uma coluna intitulada “O que toda mulher deveria saber”, onde falava da necessidade da educação sexual e das práticas (poucas, é verdade) disponíveis para se controlar a natalidade. Ela acreditava que nenhuma mulher poderia ser livre se não controlasse seu próprio corpo. A partir de 1914 iniciou a publicação de um panfleto intitulado “Mulher Rebelde”, onde enfocava temas como a luta pelos direitos femininos e também a contracepção.

Foi perseguida, acusada de divulgar a pornografia, presa e condenada. Teve que se exilar na Inglaterra, para fugir à prisão e passou um longo ano longe do marido e dos filhos.

Ora, o movimento feminista, nessa época, era realmente muito forte na Inglaterra, berço de Mary Wollstonecraft (a mãe da Mary Shelley, autora de Frankstein, e considerada também a mãe do feminismo moderno) e Margaret logo se uniu às militantes inglesas, aprendendo ainda mais com elas.

Quando voltou aos EUA foi imediatamente presa. Mas seus escritos tinham alcançado uma aceitação tão grande entre as mulheres de todo o país, que a própria primeira dama escreveu ao promotor, interferindo em favor de Margaret. Resultado: ela foi absolvida de todas as acusações.

Mas foi presa outras vezes depois. Em 1916 fundou uma clínica de controle da natalidade. E, por toda a sua vida, lutou para que as mulheres tivessem o direito de decidir se queriam ou não ter filhos.

A pílula anticoncepcional surgiu no começo dos anos 60, quando Margaret já tinha mais de 80 anos de idade. Mas só em 1965 os americanos reconheceram legalmente o direito ao planejamento familiar.

Margaret Sanger morreu em 5 de setembro de 1966, poucos meses depois de ver suas idéias finalmente reconhecidas. Ela estava com 86 anos de idade.

Se hoje podemos ir tranqüilamente ao ginecologista e escolher um, entre os muitos disponíveis, método contraceptivo; se hoje podemos ser donas de nossos corpos e não precisamos mais, como as nossas mães, recorrer aos abortos clandestinos e cruéis, devemos isso também às mulheres corajosas e idealistas que muito lutaram, como Margaret Sanger.

Por isso, minha amiga, não confie na sorte nem na pílula da vizinha. Exerça o direito que conquistamos e planeje sua gravidez, com a assistência de um bom ginecologista. Mrs. Sanger agradece.

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