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(Portinari, 1943, O Massacre dos Inocentes)

 

 

(Elza Carvalho, Não Ver, Ouvir ou Falar)

 

 

(K.Honning, 1989)

 

 

(Picasso, 1961, Paz)

 

O Exílio da Inteligência

memória de Isabel Fomm de Vasconcellos
 


Quinta feira, 30 de junho de 1994

Um país rico como este...e as ruas cheias de miseráveis, coalhadas de ignorantes, uma gente feia e triste, como um mal cuidado canteiro de flores.

Toda esta gente é um imenso buquê, desleixado, esquecido, invadido pelas pragas, camuflando em feiura toda a sua possível beleza.

Um banho e uma sopa --explicava um médico amigo-- isso é o suficiente para curar 80% dos doentes da fila do HC...

Experimente deixar seus vasos de plantas sem cuidado algum e eles tornar-se-ão um matagalzinho horroroso.

Passe as pessoas pela peneira da pobreza absoluta.
Você terá muito bicho feio desfilando ignorância e semeando infelicidade.

Devolva, meu Deus, a dignidade ao nosso povo!

Ouvindo Elis no Fino da Bossa, lembro-me de uma São Paulo fervilhante de inteligência e modernidade...em 1965!

Você se lembra do cine Astor com direito à Fasano, um terraço sobre uma Avenida Paulista cheia de gente bonita? Você se lembra das nossas tardes de esqui-aquático numa represa ainda meio limpa? Você se lembra de um Castelo no meio do bosque, em pleno campo? Campo...aquilo hoje é uma poça de dejetos cercada de barracos por todos os lados. O clube de campo da nossa juventude não passa de um pobre clube no meio da periferia paulistana... Que tristeza!

Você se lembra da casa daquela sua amiga ali na Rua Colômbia, num entroncamento entre a Augusta e a Nove de Julho? O Sacre-Coeur, as avenidas limpas e tranquilas...

Passe por ali, por exemplo, neste momento. Passe, aliás, não seria o verbo adequado, seria "pare", porque o trânsito estará invariavelmente infernal, tudo será muito diferente...

Você se lembra dos natais da nossa casa, cheios de primos e amigos, você se lembra do Joaquim Eugênio de Lima Neto (o neto do idealizador da Avenida Paulista...) conversando à mesa da copa com Alfredo Martins Marques?

Você se lembra da riqueza de ideias e da inteligência que pairava no ar nas casas, ricas ou pobres, de nossa juventude? Você se lembra das calorosas e incríveis discussões sobre tantas e tantas propostas inteligentes para a vida?

Você se lembra dos sonhos? Dos filmes de TV que a gente assistia, na sala de projeção do Velho Vasco, em primeiríssima mão (por obra e graça do Alvan) antes do Brasil inteiro? Lembra? Além da Imaginação. Quinta Dimensão.

Tudo era alma e inteligência. Você se lembra do Antunes Filho tomando o café da Leca no escritório do meu pai? Fúlvio, Gloria, Tarcísio, Anik, Roberto Freire, Sergio Marques, Jô Soares...

Quem foi que disse, minha amiga, que não fomos exiladas?

Vivenciamos a morte desta inteligência que pairava no ar... Você, em Brasília, aturando a burrice e a arrogância, juntas, em tantas "otoridades" nacionais; eu, jogada no meio de uma gente que pensa que um edredom é algo importante...

Precisamos de anistia. Ampla, total, irrestrita. Libertem a Inteligência! O Brasil precisa muito, muito, muito, da Inteligência.

No entanto, esta ainda é a amada cidade do meu coração. A mais maravilhosa cidade, imensa, onde se cruzaram todas as raças, todas as culturas e 80% do PIB nacional...

Esta ainda é a mais bela avenida do mundo, louca e confusa como os nossos corações apressados, ambiciosos, pulsando, estourando dentro do peito...uma absurda energia, uma salada de mentes, sentimentos, esperanças e sonhos. Os mais diversos. Diferentes, conflitantes...

Tanta, tanta riqueza, cara amiga, dentro de todos estes edifícios, dentro destas cabeças...Tanta riqueza mal aproveitada, riqueza, riqueza material e espiritual.

Está tudo aqui. Uma síntese do mundo.

É aqui, hoje e agora que eu quero estar.

É aqui, nesta vida, neste momento maravilhoso da minha vida, onde todas as portas parecem, lenta e gradualmente, se abrirem para a luz.

Em 1987 sonhei que a Avenida Paulista fôra completamente tomada por uma invasão de imensos pássaros brancos. Eu os vi, ainda no céu, em sua rígida formação, como se aviões de guerra...Depois estavam sobre todas as coisas: carros, ônibus, postes, fios, parapeitos, marquises...Em silêncio. Não havia o menor ruído. Meu coração foi também invadido. Invadido por uma felicidade absoluta e corri, pensando em atravessar a avenida e ir chamar o meu amor para compartilhar comigo o espetáculo da felicidade. Antes, porém, de alcançar a outra calçada, subi. Voei. Fui subindo, subindo, passando pelas janelas do Citibank, mais alto, o MASP lá embaixo, as bandeiras nos mastros, subi e subi, pelo céu claro e azul, subi até poder ver o mar e a curvatura da terra.
Só então me dei conta que ainda não era a hora de partir. Ainda havia a minha mãe, o meu amor e tantas coisas por realizar. Desci num relâmpago e caí dentro do meu corpo com um baque surdo. Acordei deslumbrada, no meio da noite, ouvindo o ronco amado.

Sou feliz.

Mas ninguém é completamente feliz em meio a um mundo de infelicidades.
Ou talvez seja apenas este eco dos anos sessenta...

É preciso entender a responsabilidade social.

Libertem os grilhões que prendem as personalidades dentro dos padrões da mediocridade, da mesquinharia, da pequenez do imediatismo, da miséria, da tristeza...

Soltem os pássaros brancos da esperança por sobre as avenidas e dentro das almas! Um pouco de paz na terra aos de boa e aos de má vontade.
Um pouco de amor e de esperança, compreensão, compreensão...Olhos claros e limpos.

OBS, 27 anos depois:
Esse é um texto que escrevi em 1994. Estamos em 2021 e a coisa toda só piorou nesse país, onde tem quem acredite que a Terra é plana e que a Pandemia que assola o planeta, ficção. É com enorme tristeza que chego aos 70 anos de idade num mundo tecnologicamente muitíssimo mais avançado do que o mundo onde nasci e, desgraçadamente, muitíssimo mais atrasado em termos de humanidade, de esperança e solidariedade. E de inteligência.