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Isabel Vasconcellos - Saúde & Livros

Memória II

Esta é a segunda página onde você encontra os textos eu eu, de vez em quando, escrevo quase sem querer. São memórias. Da vida, da família, dos acontecimentos políticos em nosso país, do trabalho na TV. Se quiser ler na ordem cronológica,

vá à página Memória I. (lá, os 17 primeiros textos) ou a página Memória III (textos a partir do n.23)

textos desta página:  23. Encontro com Wanda (com vídeo)/22. Os Ídolos Vão Primeiro (com vídeo)/ 21. Anos 1960: O Sonho Se Transformou(e-mails engraçados sobre lembranças fofoqueiras)/ 20. Sessenta Natais- com vídeo/19. Thiago, O Homem Sorriso - com vídeo (e e-mails )/18. Morte Compartilhada

 

Encontro com Wanda

No Dia das Bruxas, quando se abriu aquela porta que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos, embora eu não tivesse providenciado nenhuma abóbora iluminada, saí a caminhar pela beira da praia ao entardecer e, de repente, na praia já bem deserta, uma figura muito esbelta que vinha em sentido contrário, chamou a minha atenção. Era uma mulher longilínea, usava um vestido fora de moda e um elegante blaser de albene, certamente colocado às pressas para protege-la do friozinho de fim de tarde.

Quando nos cruzamos ela sorriu e eu a achei incrivelmente familiar. Parecia ter saído de um velho albúm de fotos. Demos apenas alguns passos e ela me chamou:

- Seu nome não é Isabel?

Eu me voltei.

- Sim, eu sou Isabel.

Ela riu, meio timida, levando a mão direita aos lábios. Então a reconheci. Era a minha mãe, Wanda, aos 18, talvez 20 anos de idade.

- Você é Wanda? – perguntei.

- Como sabe? – respondeu ela se aproximando.

- E como você sabia que eu era Isabel?

- Não tenho certeza, foi um palpite. Sabe, um dia, terei uma filha e darei a ela o nome de Isabel, em homenagem à Princesa, a Redentora, que acabou com a escravidão no Brasil. Isso porque minha filha vai nascer em 13 de maio.

- Você parece muito segura do seu futuro, Wanda.

- Ah, -- riu ela, tirando um  cisco imaginário da saia godê de seu vestido, -- isso é porque eu já vivi essa história e parece que estou pronta a vivê-la de novo...Não sei explicar muito bem.

Lá adiante, sob os coqueiros, havia um quiosque. Propus:

- Vamos nos sentar numa daquelas mesas e conversar um pouco? Isto é, se você não se importar de ser vista conversando com uma mulher tão mais velha como eu...

- Imagine, Isabel, você é uma simpatia e nem parece velha...

- Bom, eu tenho um bom cirurgião plástico, mas nem ele consegue fazer milagres quando se está a um passo dos sessenta...

Ela riu:

- Você é vaidosa!

- Muito.

- Ah, você pode ser mais velha, mas tem um corpo muito bom, muito sensual. E olhe para mim: meus primos costumam me chamar de Chico Esqueleto de tão magra que sou.

- Mas você, magra assim, é o sonho de todas as mulheres de hoje.

Ela pareceu desconcertada.

- Hoje? Que dia é hoje?

- 31 de outubro de 2010.

Desta vez, o que li no rosto dela foi alívio e logo veio uma gargalhada, daquelas bem sinceras, que eu passei a vida admirando nela.

- Ah, bem que eu sabia que estava sonhando. Bem bonito esse sonho com o futuro. Porque todo mundo sabe que hoje é 11 de agosto de 1933...

- E você deve estar preparando o seu enxoval... – interrompi eu.

- Ué, você é alguma adivinha?

- Você vai se casar com o Alfredo em dezembro. É uma vitória, não? Vocês lutaram contra o mundo para ficar juntos.

- Ainda bem que isso é mesmo um sonho. Você sabe até o nome dele.

- Sei muita coisa sobre você.

- Mas olhe – disse ela então com aquela praticidade que sempre a caracterizou—se você tem quase 60 anos em 2010, então no meu tempo você está longe de nascer...

- Nasci dia 13 de maio de 1951.

Ela deu um pulinho, um sobressalto, como num soluço. Nós estávamos sentadas, então, nas mesas do quiosque e a noite estrelada descia rapidamente sobre nós.

- Você é a minha filha.

- Sim, eu sou Isabel de Almeida Vasconcellos, sua filha caçula, nascida 15 anos depois do seu filho mais novo. O mais velho é o Alfredinho, nascido em 1934 e o mais novo é o Alvan, de 1936.

- Eles morreram antes de mim, não é?

- Sim.

- Eu sabia. Ainda ontem eu disse à Jeannette, minha irmã, que sabia que morreria depois dos meus filhos... oh... me desculpe.

- Depois dos seus filhos, não da sua filha...

- Eu já morri, não é? Não poderia estar viva em 2010... eu teria 98 anos... ah, mas melhor não saber. E você, filha? Como tem sido a sua vida? Você é feliz?

- Sim, mãezinha, sou feliz, mas trago no peito uma dor aguda, a mesma que me fez infartar...

- Por que, minha filha? Que dor é essa?

- É a dor de imaginar que não fiz tudo o que podia por você.

- Ah... Mas você fez sim. Você fez até mais do que podia.

- Como você sabe, mãe? Para você eu ainda nem existo.

- Não sei como eu sei, mas sei e pronto.

Eu ri.

- “...E pronto”. Você vivia dizendo isso. Estava sempre ocupada com seu trabalho e eu, acostumada com o excesso de mimos do meu pai, vivia pedindo beijos pra você e você me beijava e dizia: “pronto.” Como quem acaba de cumprir uma obrigação... – e eu ri: -- agora eu acho engraçado mas me lembro que ficava muito puta da vida...

-- E hoje? Você tem quem te mime?

-- Ah, claro, o Caetano vive me mimando, o meu marido.

Então ela aproximou a mão do meu peito e fez um gesto parecido com aquela brincadeira da minha infância, em que os adultos fingiam arrancar o nariz das crianças e, ato contínuo, ergueu o braço com a mão fechada e fingiu jogar alguma coisa ao vento.

- Pronto – disse ela. Joguei fora a sua dor no peito.

- Simples assim? E as tuas dores, as dores que eu te causei?

- Não me lembro de nenhuma. Você se lembra de alguma dor que eu te causei?

Tive que sorrir:

- Imagine, se houve alguma eu já a esqueci.

- É isso – disse ela, com firmeza, e já se levantando.

- Onde você vai?

- Não sei, mas tenho que ir. Meu tempo nesse tempo está esgotado.

Fiz um gesto para me levantar também.

- Não. Fique aí, Bel – disse ela, usando o meu apelido. – Peça uma cerveja e curta um pouco as estrelas. Eu vou indo em direção ao mar. E o mar me levará às estrelas, essas mesmas que você estará fitando.

- Adeus mãezinha – disse eu com lágrimas nos olhos e querendo abraçá-la mas já sabendo que isso seria impossível.--  Você é linda, maravilhosa e chique com esse vestido esvoaçante e esse chiquésimo casaco de albene.

- Acha mesmo? – perguntou ela toda coquete. – Fui eu mesma quem fiz.

- É claro – disse eu, lembrando do sucesso dela como modista das ricaças paulistanas nos anos 1950 e 60.

Então ela se voltou e saiu caminhando em direção ao mar. Foi sumindo, se esmaecendo de leve, e eu pensei ter vislumbrado o vulto de um homem ao lado dela.

Pedi uma cerveja à garçonete. A noite estava muito estrelada.

Isabel, 31 de outubro de 2010.

 (ps: eu não me lembrava. Mas a foto que escolhi para ilustrar esse texto foi tirada no dia 13 de maio de 1934 e minha mãe estava grávida do Alfredinho, que nasceria em 24 de setembro do mesmo ano...)

 

 

Nessa outra foto à esquerda, minha avó Amélia e minha mãe em 1916. Clique na foto e assista um vídeo de 11 minutos. É uma nova edição (que acabo de fazer hoje, dia 02 de novembro de 2010) da festa de 80 anos da minha mãe, com muitas fotos antigas e muita gente da família que veio, inclusive, de longe, para a comemoração que aconteceu já há quase 20 anos, em 22 de fevereiro de 1992.

 

(na página Memória III,outro texto sobre a Wanda e seu filho, meu irmão Alfredinho)

 

De: "Antonio C Nascimento"

PARA: "'Isabel Vasconcellos'" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: RES: Você vai gostar

Data: segunda-feira, 1 de novembro de 2010 12:27

 

Lindo texto bel!

Quem sabe vocês se encontraram mesmo.

Sempre desdobramos à noite e, enquanto nosso corpo dorme, nós Espíritos

vamos nos encontrar com que estamos afinizados, com que está com o mesmo

padrão vibratório que nós. E nessa noite você conversou com sua mãe. Daí a

inspiração para descrever seu encontro com ela.

Beijos

Tom

 

De: "Luiz Augusto Campos Pereira" <lulacampos@ig.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Ontem à Noite - Amigos Amados

Data: terça-feira, 2 de novembro de 2010 14:55

 

Bel

Fui assistir ao vídeo e gostei muito. Legal!

Fiquei muito contente por você ter gostado deste meu pequeno mimo: o "album art" (dei esse nome) é para pessoas que sempre fizeram da vida um grande barato e que, realmente, entendam que estamos na vida a passeio e por isso devemos aproveitar cada momento como se fosse o último.

Ainda não atualizei o gravuradigital.com.br, assim a sua imagem "memories"

ainda não está exposta

 

De: "Vera Lucia Donadio" <donadio.vld@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Video novo de 1992

Data: sábado, 6 de novembro de 2010 19:31

Oi Bel

Muito linda sua carta para Wanda, linda demais!! emocionante !

beijos

Vera

 

From: mkrausz

  To: Isabel Vasconcellos

  Sent: Saturday, November 06, 2010 10:23 PM

  Subject: Re: Video novo de 1992

 

   Oi Bel, amei a história do seu encontro com a sua mãe. Que lindo! Sabe que dia desses eu comentei com o Vincent e com a minha mãe que achava engraçado que nós duas temos aniversários em datas importantes para os negros: 13 de maio e 20 de novembro (Zumbi dos Palmares). Como hoje em dia não acho que mais nada é por acaso ou coincidência, queria perguntar aos oráculos o por quê disso. Algum recado tem ai. rs. Pergunta pra Wanda quando encontrar com ela novamente, ou para o fantasma da Paulista, tá? Não consegui abrir o vídeo do aniversário, quando clico na foto, dáuma mensagem que o Internet Explorer não pode abrir essa página Web.

   Bjs.

Domingo 7 de novembro, 19h00

  Monica Krausz diz:

 Acabei de ver o vídeo  Que lindo

 Dá uma saudade n 

isabel diz:

 É gozado porque depois que eu escrevi aquele texto sobre a conversa com ela, fiquei em paz com relação a ela, como se ela estivesse aqui e como se não houvesse razão para sentir saudades.

 

From: denise_lousada

  To: Isabel Vasconcellos

  Sent: Monday, November 08, 2010 12:28 PM

  Subject: Re: Video novo de 1992

 

  Oi Bel! Td bem com vcs?

  Amei seu texto e seu video.Fiquei muito emocionada mesmo!

  Um bjo pra vc e Caetano

  Denise

 

De: "Jose Reynaldo Walther de almeida"

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Tia Vanda

Data: terça-feira, 9 de novembro de 2010 15:05

 

 

Oi Bel

Que presente voce me deu. Estou no hospital, onde passo de 12 a 14 hs por dia, e a Denise me mandou um e- mail com a tia Vanda. A sua estoria está linda mas tem um erro. Você cuidou muito bem da minha madrinha. Não fizemos mais porque não pudemos. Somos humanos e limitados. Eu fui o escolhido, entre os primos, para cuidar do Alvan na hora da partida e me orgulho disso. Cada um vive o seu papel. Fui testemhunha da sua luta para manter a tia em condições dignas e ela sempre reconheceu o seu esforço. Nao foi a toa que lhe tirou a dor do peito e depois desaparecu no mar; ela sabe das coisas... sempre soube.

Obrigado e estou com saudades.

 

De: "Dowe" <mcdowe@terra.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: [Spam] Dia da Mulher e aniversário de rainha. O resto é carnaval.

Data: domingo, 6 de março de 2011 18:56

 

    Oi Bel, boa noite.

    Estou em Sampa neste Carnaval  porque ele fica mais tranquilo e  mais gostoso.  Dá para fazer um monte de coisas  e desfruta-lo com tranqulidade.

    Uau..... ! que texto incrível com um salto quântico no tempo e espaço e o "diálogo"  com a  jovem Wanda !!!  Muito interessante.

    Bom Carnaval e boa semana.

    Bj.

    Maria Carmen Dowe

 

Os Ídolos Vão Primeiro

(José Angelo Gaiarsa, 19/08/1920 – 16/10/2010)

(clique na foto para assistir 10' de uma entrevista que fiz na TV com Gaiarsa e Kalil Duailibi.

O tema é o Ciúme)

Quanto mais a gente envelhece, mais vai perdendo os ídolos. É, porque geralmente aquelas pessoas que nos serviram de modelo, de inspiração, costumam ser mais velhas que nós e, pela ordem natural da vida, se vão primeiro pro lado de lá.

No ano passado perdemos o Dr.José Aristodemo Pinotti, este eu diria até que prematuramente. Ele estava com 74 anos e, no atual estágio da longevidade nacional, morreu cedo. Pinotti tinha toda a minha admiração por causa de seu trabalho em prol da saúde feminina e também da valorização do sexo feminino em nossa sociedade. Eu o entrevistava sempre, desde a década de 1980, e acompanhei a sua luta no Hospital Pérola Byington, hoje uma referência internacional em saúde da mulher. No dia de sua morte escrevi um texto emocionado, publiquei no meu site, passei por e-mail pra toda a minha lista e tive a grata supresa de ver a Dra.Mariane, sua filha, ler o meu texto na missa de sétimo dia de seu pai. Foi uma honra inesquecível para mim.

Agora é outro médico ídolo que se vai.

Diferentemente do Prof. Pinotti – que era polêmico porque era político e enxergava adiante do seu tempo mas também era academicamente respeitado e foi até Professor Titular de Ginecologia da USP – o meu mestre que se vai agora chegou a ter o seu direito de exercer a Medicina contestado por alguns de seus colegas. José Ângelo Gaiarsa, assim como Pinotti, estava sim à frente do seu tempo, mas as bandeiras dele eram ainda mais polêmicas do que as do seu colega gineco: Gaiarsa ia fundo na grande repressão sexual que a humanidade vivenciou e ainda vivencia.

Nascido nos revolucionários anos 1920, Zeca Gaiarsa enxergava longe. Publicou mais de 40 livros. Denunciou a fofoca como manifestação da insatisfação coletiva. Trouxe o também revolucionário Reich para o Brasil.

Na década de 1960 – junto com outro psiquiatra também revolucionário mas menos bombástico, Paulo Gaudêncio – ajudou a colocar lenha na fogueira da juventude contestadora.

Foram 50 anos de clínica, mais de uma década com seu próprio programa na TV Bandeirantes (1983-1993) e sempre participando da mídia, como entrevistado ou como quadro de programas femininos, inclusive do meu Condição de Mulher, na década de 1990, na Rede Mulher de TV (1994-1999).

Lembro-me de , um dia, depois de um programa, ele ter olhado pros livros que eu conservava sobre a bancada, no cenário, e dito:

- Isabel, eu já te dei tantos livros na vida, você bem que podia me dar esse aqui.

Era "O Mito do Amor Materno", da Elizabeth Badinter. E lá se foi o Gaiarsa com o Badinter debaixo do braço. Pensei: um pensador maravilhoso carregando outro pensador maravilhoso.

Lembro-me dele admirando, aqui em casa, as minhas estantes de livros. Estava rolando uma festa, toda animada, e ele olhava pros livros...

Gaiarsa nasceu em Santo André e entrou em primeiro lugar na Faculdade de Medicina da USP. Fez todo o curso como o primeiro da classe. Não era, como muitos queriam julgar, um aventureiro. Era um gênio.

Ele se casou com uma colega de turma, da Universidade, que também era uma exceção em sua época, era cirurgiã e se chamava Maria Luiza Martins. Com ela, teve quatro filhos homens: Flávio, Marcos (morto em acidente de carro), Paulo e Dácio.

Foi na Revista Realidade o seu primeiro artigo: “ A Juventude Diante do Sexo”, uma ousadia para os anos 1960.

Tenho gravações dos meus programas de TV com ele desde 1985. (foto: ele e eu no programa Condição de Mulher, na TV Gazeta, 1986)Em todos, alguma revelação surpreendente.

Ele dizia que, se as mulheres se unissem, seriam uma força política imbatível.

Não sei porque, mas são essas mentes abertas (e por isso mesmo sofredoras) que acabam fazendo com que a vida sobre a terra evolua também socialmente, não apenas tecnologicamente.

Como eu disse no meu programa de rádio, se existe de fato Deus, Ele foi receber o Gaiarsa na porta do céu.

 

 

 

Anos 1960: O Sonho Se Transformou.

A história da humanidade é feita por ciclos. Não é à toa que se diz que “a história se repete”.

No século XX, houve duas ocasiões em que ser jovem era o maior dos privilégios: os anos 1920 e 1960.

Ambas foram décadas libertárias, de profundas mudanças culturais em que a juventude ousava desafiar os costumes estabelecidos e os preconceitos.

Nós tivemos o privilégio de ser jovens nos anos 1960.

(clique na foto para assistir um vídeo de 3 minutos que resume o que eu penso sobre os anos 1960)

As nossas bandeiras, os nossos ídolos, as nossas músicas... Tudo está presente até hoje, meio século depois.  Beatles, Rolling Stones, Caetano Veloso, Guevara, Zé Celso e até o rock clássico do final dos anos 1950 ainda despertam a curiosidade das novas gerações, ainda são curtidos e amados. Exatamente como aconteceu com os ídolos dos anos 1920: Tarsila, Pagu, Mário e Oswald de Andrade, Cole Porter e tantos outros em tantas áreas da arte e da cultura.

 

De hippies a burgueses.

Deixo aos sociólogos a árdua tarefa de descobrir porque, de tempos em tempos, aparece uma geração inovadora, inconformada, revolucionária.

E, aos psicólogos, a também árdua tarefa de descobrir porque a maioria dos jovens idealistas e revolucionários vira adultos acomodados e burgueses.

A verdade é que ninguém pode imaginar, olhando para eles agora, que o nosso governador José Serra e o nosso ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu (foto, 1968), fossem incendiários líderes estudantis na juventude e muito menos que despertassem, naquela época, os suspiros apaixonados das mocinhas de mini saia. Viraram dois velhotes nada sexy e nem um pouco revolucionários. E não venham me dizer que os velhotes não são sexy porque estão aí Sean Connery ou Richard Gere que não me deixam mentir.

Nos anos 1960, enquanto os estudantes franceses abalavam o mundo, nós, os estudantes brasileiros, queríamos amor livre, pensamentos políticos de esquerda, educação liberal, liberdade de imprensa, restabelecimento do estado de direito, já que estávamos em plena ditadura militar.

É bem verdade que havia aqueles que não queriam nada disso. Era, grosso modo, a turma do iê,iê,iê – os alienados da Jovem Guarda, enquanto nós éramos (ou julgávamos ser) a turma dos politizados, a turma do Fino da Bossa e da MPB.

De fato, um montão assim de preconceitos. Só quando eu estava beirando os 30 anos é que consegui perceber que o Roberto e o Erasmo Carlos eram tão geniais quanto o Caetano, o Chico ou o Gil que, aliás, perceberam antes de mim.

 

 A Nossa Turma (hoje seria A Nossa Tribo)

Nossa casa, nessa época, era um ponto de encontro da garotada.

Meu pai, com sua incrível percepção dos avanços tecnológicos, tinha o som de ponta, a caixa de som de ponta, o projetor de filmes 16mm de ponta, a filmadora de ponta, a máquina fotográfica de ponta... enfim... o nosso “clubinho” estava bem equipado para as memoráveis festas e os encontros do dia a dia.

Meu amigo Lula (não o presidente, mas Luis Augusto Campos) e eu passamos algumas semanas recortando fotos e mais fotos de pilhas e pilhas de revistas e colamos nas quatro paredes e no teto do que fora a sala de som do laboratório de cinema do meu pai, a qual tínhamos nos apropriado e transformado na nossa “salinha”: paredes de colagens, tapetes e almofadas pra todo mundo poder sentar no chão, um moderníssimo gravador akai de rolo, picapes (pra quem não sabe, picapes são toca-discos, para discos de vinil) e até a mais nova novidade da segunda metade dos nos 1960: um gravador minicassete. Ah! E, é claro, a minha máquina de escrever Olivetti que já naquela época trabalhava duramente com essa minha mania de crônicas, contos, artigos e romances. Também escrevia pra um jornal de bairro – reportagens e crítica de cinema – o Jornal do Brooklin, sem esquecer os jornais murais da escola.

A nossa salinha era absolutamente democrática. Frequentada por amigos de esquerda e de direita, por seminaristas católicos (como meu amigo Tom e mais Tião, Cury e Zé Afonso), pela turma mais pobre do nosso maravilhoso colégio estadual (na época, a garantia de fazer USP estava nos colégios estaduais e não nos particulares, tinha até exame de admissão, uma prévia do vestibular, para entrar no ginásio – a 5ªsérie de hoje) e pelos endinheirados esquiadores da Represa do Guarapiranga.

Às vezes essa miscelânea dava briga, mas nada muito sério. A violência dos jovens de hoje era algo inimaginável para nós e o cinema ainda não inventara os Schwazeneger e os Stalones da vida.

 

Cabeça Mais Importante Que Corpo, Jeans e Minissaia

A cabeça era muitíssimo mais importante que o corpo e as drogas serviam apenas para aumentar a sensibilidade (raramente ia além de um cigarrinho de maconha) e não –como hoje—para substituir o vazio mental.

Aliás, não havia vazio mental.

Havia altíssimas elucubrações filosóficas e políticas, todo mundo era culto e bem informado, embora nem se sonhasse com alguma coisa parecida com internet.

Tudo, naquela época, era um turbilhão de novidades.

Começaram a surgir os Jeans que se chamavam “calça Lee” mesmo que fossem Levis. Eram de cor bege, só mais tarde vieram os azuis.

A mini saia, reinventada pela estilista inglesa Mary Quant, dividia opiniões e gerava inflamados protestos dos mais velhos, a chamada Velha Guarda. Usávamos sem dar bola pros escândalos porque, afinal, “não confiávamos em ninguém com mais de 30 anos”. O nosso negócio era “paz e amor”, era “faça amor, não faça a guerra”.

(na foto à esquerda, Iara Moya e eu na Festa da Cerveja no clube Castelo em 1966. A minha "mini" hoje seria uma macro saia. É muito mais comprida do que as que uso hoje...kkk... Mas, mesmo assim, por causa dela, briguei com um dos padres da escola e acabei saindo da JEC...)

Não acreditaríamos, se uma bola de cristal nos mostrasse, cinquenta anos depois, uma universitária sendo xingada nos corredores da faculdade porque vestia uma mini saia (Se bem que eu, particularmente, acredito que a moça armou aquele circo pra se promover, com a conivência de colegas... e, se fez isso, foi genial). E tampouco nos lembrávamos que, nos anos 1920, as mocinhas que dançavam charleston usavam vestidinhos cuja barra era bem acima do joelho.

 

O Nosso Pedaço (ou habitat)

Do binômio salinha- sala de projeção, algumas lembranças marcantes:

- Meu tio, José Gonçalves de Almeida, dizendo que o símbolo formado de uma das minhas colagens na janela era um antigo símbolo maçom e eu concluindo que o símbolo estava no meu inconsciente e que, portanto, eu fora maçom em alguma outra vida.

- As muitas vezes em que usávamos as letrinhas de plástico, com as quais meu pai fazia (e filmava) os letreiros de seus filmes, para fazer um círculo de letras com todo o alfabeto; depois colocávamos um copo americano virado de boca pra baixo no centro do círculo e todo mundo colocava o dedo indicador no fundo do copo; fazia-se uma pergunta e o copo “respondia” formando frases “indo” de letra em letra. O gozado é que o Tom (que era seminarista católico, agnóstico e de esquerda) era um dos que mais participava da brincadeira. Hoje ele diz que, muitas vezes, era eu quem comandava o copo (juro que era sem querer!kkkkk!). O Tom hoje é espírita. E eu, se não tivesse rasgado todos os meus diários daquele tempo, saberia o que, afinal, a gente tanto perguntava praquele copo...

- A Vera Donadio em inúmeras poses para a minha paillard-bolex (uma então moderníssima câmera que fazia filmes em 16mm) para uma interminável sequência de um filme chamado “Lonely”.

- O Tito (meu amigo Vitor Heeren), quando era meu namorado, tentando me explicar porque afinal fora flagrado pelo repórter do jornalzinho da nossa turma desfilando pela Augusta de mãos dadas com uma menina desconhecida, de botas brancas . O Tito, dia destes me mandou por e-mail a música dos The Monkees – “I Wanna Be Free” – e eu imaginei que ele ainda estava tentando explicar o episódio das botas brancas... kkkk...

- O Lula (Luis Augusto) tentando “imprimir” seus pés no teto da salinha. A sola dos pés cheias de tinta, ele meio deitado no último degrau da escadinha de pedreiro... Absolutamente hilário. Ele queria fazer um “caminho” de pés indo, em diagonal, sobre as colagens do teto da salinha, de um lado a outro... Muito, muito engraçado.

- O Eduardo Bullara ouvindo jazz de cabeça pra baixo, ou seja, “plantando bananeira” no tapete (que a minha avó fizera) e explicando que aquela era uma posição do Yoga para meditação...

- O Tom e eu gravando o disco (hoje seria um audiobook) do Pequeno Príncipe e ele me dando indiretas no trecho da raposa, por causa da minha mania de namorar dois ou três garotos ao mesmo tempo (embora cobrasse do Tito as tais botas brancas...kkkk).

- A Luzimar e eu, estarrecidas com o novo disco dos Beatles - Sgt.Pepper’s Lonely Hearts Club Band – que era um som totalmente novo e diferente, e traduzindo as letras, com a ajuda de um bom dicionário inglês-português.

- O Sergio escrevendo na parede da sala de projeção uma palavra tão comprida quanto as paredes da sala: “ácidoacetilsalicílico” e, dias depois, o meu irmão Alvan dizendo que era melhor ele ter escrito: “antiinconstitucionalissimamente”. Bom, mas daí pra frente, as paredes da sala ficaram coalhadas de citações, versos, piadinhas... Numa prévia das pichações que só apareceriam 20 anos depois... Quando meu pai mandou pintar a sala, teve que trocar o reboco da parede pois não havia tinta que cobrisse as letras feitas com pincel atômico... kkkkk...

- O versinho mais moderno que havia na parede: “Virgem Maria, tu que concebeste sem pecar, ensina-nos a pecar sem conceber”

- O dia em que tinha tanto penetra, mas tanto penetra, numa das minhas famosas festas de arromba que meu pai ligou pro seu amigo delegado e pediu pra colocar uma viatura na porta da minha casa para intimidar possíveis baderneiros. (Naquele tempo todo mundo respeitava a polícia).

- O Eduardo Zocchi babando pela Ronalda.

- O cabelo do Carlinhos Keidel que tinha um “que” não confessado de cabelo de Ronnie Von. (O Ronnie cantava “Meu Bem”, versão da música “Girl” dos Beatles e quando vinha o refrão – Meeeuuu beeemm—balançava a cabeça e o topete do seu longo Chanel voava...kkkk...)

- A Ilca – toda séria – no meio de uma festa, o som aos berros, quebrando o pau com o Jannot porque ela suspeitava que ele fosse um simpatizante (ninguém usava essa palavra) do CCC (Comando de Caça aos Comunistas – que, ironicamente tinha a mesma sigla que pintávamos na popa das nossas lanchas, porque o nosso clube na Guarapiranga era o Clube de Campo do Castelo – CCC).

- O Osmar desvendando os segredos daquela máquina incrível que era um projetor de filmes 16mm, sonoro.

- Tão inesquecíveis quanto as festas, eram a sessões de cinema promovidas pelo meu irmão Alvan, quando ele trabalhava na TV Excelsior e, com a excelente desculpa de revisar os filmes da séries da TV, os trazia pra casa e nós, a garotada, assistíamos tudo na telona e em primeiríssima mão:

Os Intocáveis, Além da Imaginação, Quinta Dimensão, Bonanza, A Feiticeira, Jennie  É Um Gênio...

 

 

Na Nossa Praia

Na represa, todos os meus primos e muitos dos meus amigos aprenderam a esquiar com meu pai. Entre eles, Du Zocchi, que esquia até hoje e cujos filhos são campeões nesse esporte. Du costuma dizer que deveríamos colocar uma placa de bronze com o nome de todos os esquiadores que começaram com o Velho Vasco, meu pai.

Fazia muito frio em São Paulo nessa época. Muitíssimo mais frio que calor e a represa era gelada.

 

Mas esquiávamos assim mesmo. Hoje, a represa, o nosso clube, tudo está na periferia, cercado pela vergonha das sub habitações que existem em nossa cidade, a mais rica cidade do país, a que deveria, há muito, ter resolvido o seu problema habitacional. Mas, naquele tempo, era campo... e era lindo!

No clube, a Festa da Cerveja, em outubro e o Baile do Havaí, em novembro, eram ainda mais esperados do que os bailes de Carnaval.

 

Diversão x Angústia

Divertíamos-nos muitíssimo. Na salinha, na sala de projeção, na represa, no clube.

Mas não era só diversão, só música, só esporte, só namoro.

Era um tempo de grandes angústias também.

Quando entramos nos quarenta, meu amigo Sidão me disse: “A maturidade tem uma vantagem: o cessar das angústias”.

Havia a angústia da juventude, a angústia de definir o seu papel no mundo. Havia a angústia da guerra escondida que começava a se travar entre os militares e os estudantes esquerdistas, uma guerra que chegaria ao seu auge na década de setenta mas que já vitimava muitos jovens, como nós, apenas idealistas.

Havia a angústia da recém descoberta liberdade sexual, pós pílula. Uma liberdade de fachada que fazia as mocinhas terem vergonha de ainda ser virgens e os mocinhos a continuar querendo casar com as virgens.

Havia a guerra fria, a corrida espacial e a certeza que o ano 2000 traria consigo grandes descobertas que mudariam o mundo. Mas ninguém poderia imaginar algo tão sensacional quanto a Internet.

Em 16 de Julho de 1969, como que para coroar a década, o homem pisou pela primeira vez na Lua. Parecia, como queria o astronauta Armstrong, “o grande passo da humanidade”. Mas nem foi tanto assim. O tempo acabou por mostrar que o grande passo era a eletrônica, era o “cérebro eletrônico”, avô do nosso computador de hoje.

John Lennon anunciou, no começo dos 1970: “O Sonho Acabou”. Como todo gênio, ele via primeiro o que todo mundo só iria ver muito depois.

Mas, como diria Vinicius, o sonho foi infinito enquanto durou.

Bel

27 de Janeiro de 2010

 

Daquela época, meus amigos até hoje: Tom (Antonio Carvalho do Nascimento), Iara, Iva, Isa e Ilca Moya, Paulinho Freire, Tito (Victor Heeren), Lula (Luis Augusto Campos ), Carlinhos Keidel, João Carioca e – é claro – meus queridos primos, entre eles Eduardo Zocchi.

 

PS: é engraçado. Eu acabo de editar o vídeo que ilustra essa página. Levei 5 horas, entre escolher imagens, músicas, editar imagens, trilha sonora, colocar letreiros, trilha... enfim... 5 horas para 3 minutos de vídeo. Mas... é como se um milagre houvesse... Aquela menina, de 16 anos, que baila alegremente nos braços do pai, na sua festa debut, sou eu. Mas acho que eu nem sabia mais disso. Faz tanto tempo, tanta coisa rolou. Editar esse vídeo foi como me resgatar. Estou inteira de novo, eu sou eu e eu sou também aquela menina. É verdade que as minhas células já são bem outras. Mas eu estou aqui, hoje, depois deste mergulho no passado, eu e os meus mortos, eu e os meus vivos, completamente, absolutamente inteira.

29 de janeiro de 2010.

 

Repercussão:

De: "PORTAL ZAP" <editoraimprensa@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Res: Viaje no Tempo!

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 15:03

 

isabel vc me fez chorar vendo os filmes zaparolli

Deus te abençõe....maravilhoso

 

 De: "Luiz Augusto Lula Campos Pereira" <lulacampos@ig.com.br>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Viaje no Tempo!

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 16:03

 

Bel

Gostei de ler as Memórias II.

Como sempre fomos incríveis, ou melhor ainda somos.

Sobre a nossa arte na salinha: eu desenhei o Pequemo Principe na porta, lembra-se?

O lance dos pés muito surreal.

Na represa fizemos um "comercial" que eu bolei para a Kodak, com o seu primo esquiando e  levantado uma cortina de água e a imagem abrindo em uma sala, onde está havendo uma projeção de slides e  todo mundo fica molhado com esta fotos (seu primo) demonstrando a fidelidade de cores e imagens do Ecktachrome da Kodak. Loucura das boas, e sempre estavámos de caras limpas.Maravilha.

Agora estou de novo em São Paulo,pelo menos no estado, moro em Capivari, próximo a Campinas e na minha próxima ida a Sampa darei um toque.

Beijos

Lula Campos

PS Quando tiver tempo dê um pulo em http://www.gravuradigital.com.br e veja o que ando fazendo.

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Luiz Augusto Lula Campos Pereira" <lulacampos@ig.com.br>

Assunto: Re: Viaje no Tempo!

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 18:00

 

Sim, Lula, eu me lembro. E esse Pequeno Príncipe está atrás da Vera, na foto que tem o link do vídeo e está tb no vídeo. Lembro-me tb do comercial da Kodak, mas este já foi na década seguinte, eu já morava na outra casa, sem salinha, e nós dois já tínhamos feito amizade com o Manduka, o Armandinho Syllos, que era pouco mais que um menino. Gostei de sabe que vc está mais perto. Bjs.

 

De: "João Saboia" <mplafer@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Pizzaria

Data: sábado, 30 de janeiro de 2010 20:41

 

Oi Bel

Adorei ver a nova edição!!!!!! E a Vera? Tem visto?

Beijos,

João

2010/1/30 Isabel Vasconcellos <isabel@isabelvasconcellos.com.br> 

João, acabei a página dos anos 1960 e editei um video onde tb estão vc, o Carlinhos e o Bullara. Dê uma olhada no meu site. Bjs. Bel.

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: <joao@resendetv.com>

Assunto: Re: Pizzaria

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 10:57

 

Oi, João. Nunca mais vi a Vera. Faz 40 anos que não sei dela. Mas, já que vc citou, vou ver se acho algo dela no google. Pera ái. Pronto. Achei ela num site de relacionamento chamado Sonico. Estou me cadastrando e vou mandar uma mensagem. Nossa. Se começar a pintar todo mundo do passado vai ser uma loucura de bom. Vc leu o meu texto dos anos 60 na minha página? Bjs.

 

Para Vera Donadio:

Olá, me cadastrei neste site porque queria falar com você. Se vc for a mesma Vera Donadio que estou pensando, em 1968 fiz um filme com vc como atriz principal. Chamava-se "Lonely" e ele existe até hoje, eu o reeditei e o coloquei no meu site, em duas versões. Sou a Bel. Vc se lembra? Escreva pra mim: isabel@isabelvasconcellos.com.br

 

De: "João Saboia" <mplafer@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Pizzaria

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 10:13

 

Oi Bel

 

Claro que vi. Seria bom convidar também a Iara. Quem sabe?

Beijos,

João

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: <joao@resendetv.com>

Assunto: Re: Pizzaria

Data: domingo, 31 de janeiro de 2010 12:52

 

A Iara está sempre conosco, nunca deixamos de ser amigas nesses quase sessenta anos. Nós nos conhecemos no Jardim da Infância... kkk...Ela vai assistir quando receber o meu newsletter que eu vou fazer daqui a pouco. Mandei pra vc em primeiríssima mão... kkk. Estou ouvindo meu programa de hoje. Na historinha tem um personagem com o seu nome. Bjs. Bel

De: "Carlos Alberto Keidel"

PARA: "Isabel Vasconcellos"

Cc: "

Assunto: Re: Viaje no Tempo!

Data: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 10:38

 

BOm dia Bel !!

 

Pô ! vc cavocou fundo no bau desta vez !!! o baile das debu no castelo eu vi até a fiorela !!

E vc me tirando o sarro da  franja de ronie von tbm foi muito eu com aquela cara de moleque  ! e do bullara com a iara irreconhecível ,

o carioca de bigode !! aahaha deve ter emprestado do pai ehehe ...

Precisamos juntar estas pessoas sem falta pois vamos rir pra cacete !! inclusive com o edu - primo !

depois do carnaval o bullara estará por aqui trabalhando ( alis de uma espiada no novo site www.miruna.com.br

obra da flha. Fernanda com o apoio tecnico do Carioca e do bullara ) a gente tras o João e nos juntamos pra bater papo quem sabe na represa

que tal ????? 

Grande abraço carlinhos keidel !

 

De: "João Saboia"

PARA: "

Assunto: Re: Viaje no Tempo!

Data: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 10:51

 

Boa!!!!! Carlinhos

Diria que a represa é o melhor ponto de encontro apesar do marido da Bel não gostar de lá.

Beijos e abraços,

João

 

De: "Isabel Vasconcellos"

PARA: "

Assunto: Encontro

Data: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 13:48

 

Bom, gente, to adorando receber os retornos de vcs.

Quero saber se vcs permitem que eu publique os e-mails de vcs na página, abaixo do texto.

Carlinhos, vou ver o site, sim e parabéns pra Fernanda.

Lula, vc sabe do Paulinho Freire? Acho que o e-mail dele que eu tinha não é mais e ele (que é tio do bisneto do principal personagem do meu mais querido livro publicado) não me responde nada.

João, não é só o meu marido que não gosta da represa. Eu tb não gosto.

Gosto de uma Guarapiranga que não existe mais e não quero nem saber de "viajar" praqueles lados da cidade porque pretendo manter as lembranças intactas. Mas ofereço minha casa prum encontro. Tem até uma salinha aqui...kkkkk.... Agora, na Avenida Paulista. Vamos armar alguma coisa pra março ou abril? Super Bjs.

 

De: "João Saboia"

PARA: "Isabel Vasconcellos"

Assunto: Re: Encontro

Data: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 12:52

 Oi Bel

Esse encontro vai ser uma beleza!!!!!

Pode publicar tudo!!!! Beijos,

João

 

De: "Carlos Alberto Keidel"

PARA: "Isabel Vasconcellos"

Assunto: Re: Encontro

Data: segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 13:10

Bel !

- vc acertou em cheio , eu que ainda tenho uma lancha no ccsp esquio de vez enguando e passo enfrente ao castelo e vejo naquele a gente como naquele filme do seu Vasco , olha que da tristeza mesmo ! mesmo cheia até a tampa como agora vc ve a cor e o cheiro da agua uhmmmmm!! esgoto puro ! pra esquiar só lá no fundo do 3º lago e assim mesmo só no verão !

houve uma época que não desci o barco por 2 anos por não ter condições de agua , bem o Edu deve ter por a par !! ele mesmo vai mudar de banda né !

Bem eu topo o encontro sim a publicação de nossas cartinhas no site ! e´ me dizer com umas 2 semanas antes .

Mais uma vez grato e um abraço bem forte !

Carlinhos e acerte meu sobrenome que é Keidel !!

 

From: Ilca Moya

  To: Isabel Vasconcellos

  Sent: Monday, February 01, 2010 5:34 PM

  Subject: Re: Viaje no Tempo!

 

  Oi Bel

   que gostoso!! Não lembro da discussão com o Janot (onde anda??) mas naturalmente é bem possível. Inesquecível mesmo é ouvir com você pela primeira vez, a gal fatal com o vapor barato!!

   Que barato, bicho!!

   Muitos beijos,

  Ilca

 

De: "Vera Lucia Donadio"

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Memória II

Data: domingo, 8 de agosto de 2010 19:41

 

Bel !

Acabei de encontrar seu site. Que surpresa agradável !

Saber de você, ler seus depoimentos, fotos, e o filme "Baby Lonely".

Sabe que não faz muito tempo procurei pelo filme no Youtube. Achei mesmo que você teria colocado-o na Internet.

Senti pela perda de seus pais e irmãos. Voces eram uma família muito unida.

Seus pais eram uma simpatia, eles tinham um Gordini, lembro de ter andado nele.

Sua casa foi um marco em minha vida. A salinha era o máximo! As colagens, as músicas, eram retratos da época.

As perguntas que fazíamos com o copo, eu acho que eram só sobre namorados.

Também fazíamos perguntas para a chave amarrada numa bíblia, cada coisa! (agora tenho outros oráculos, uso astrologia e taro). Meu primeiro beijo,aos 15 anos, foi lá. Você cita seu amigo Carioca.. me veem quantas

lembranças!

Fiquei feliz de saber que você está bem, está casada e com uma carreira

interessante.

Tenho 2 filhos (26 e 21 anos), estou divorciada, trabalho no Centro Cultural

São Paulo.

Temos anos de vida para atualizar.

 

beijos

Vera

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Vera Lucia Donadio" <donadio.vld@gmail.com>

Assunto: Re: Memória II

Data: domingo, 8 de agosto de 2010 19:53

 

Vera, amanhã falo com vc com calma. AMEI te reencontrar mas estou saindo para um compromisso. Verinha, até me inscrevi no tal do Sonico só pra ver te achava lá. O Carioca passei 40 anos sem falar com ele...kkkk. Muitos bjos. Amanhã te escrevo. Vamos almoçar. Vc está no centro cultrural e eu na Paulista. Vai ser fácil. Vamos fazer uma versão 2010 do filme? Que tal vc andando na Paulista? Ai...preciso ir... mas quero falar muito mais. Até amanhã, minha flor. Muitos bjos. Bel.

 

De: "Vera Lucia Donadio" <donadio.vld@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Memória II

Data: domingo, 8 de agosto de 2010 20:24

 

Bel,

 

Sabe que me inscrevi no Sonico uma vez porque tinha lá um Orlando Donadio, o

mesmo nome do meu pai, falei com ele, só por curiosidade e nunca mais

entrei, nem recebi seu recado.

Uma versão 2010 de Lonely na Paulista, até que faz sentido. Não é difícil se

sentir só na Paulista. Vamos marcar o almoço.

 

beijos

Vera

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Vera Lucia Donadio" <donadio.vld@gmail.com>

Assunto: Re: Memória II

Data: segunda-feira, 9 de agosto de 2010 16:31

 

Poisé. E não te parece louco que vc tenha me achado exatamente quando eu estava te procurando. Não sei como vc me achou, mas meu site esta no ar há mais de 10 anos. Engraçado né?

Qual é o melhor dia da semana pra vc, pra gente marcar? Pra mim, gelada é segunda, quinta e sexta. Terças e quartas é mais folgado. Tem alguma sugestão de local? Aqui por perto existem muitas opções nada caras. Eu moro do lado da TV Gazeta. Aí pelo Centro Cultural tb deve ter. O que vc acha?  Beijos. Bel.

 

De: "Vera Lucia Donadio" <donadio.vld@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Memória II

Data: segunda-feira, 9 de agosto de 2010 18:18

 

Isabel,

 

Eu estava pesquisando meu nome no Google, eu já fiz isso outras vezes, mas dessa vez procurei Vera Donadio e não Vera Lucia Donadio e vi meu nome no seu site. Adorei te encontrar e também gostei de ver minha foto aos 15 anos, com aquele cabelão, que não tenho mais. Poderemos marcar o almço para terça ou quarta, prefiro na semana que vem, porque estou bem resfriada. Pode escolher um restaurante pelo seu lado.

Assisti uns videos seus, que bacana, poderosa!

Beijos

Vera

 

veja a fofoca dos "velhinhos" dos anos 1960 (kkkk...):

PARA: "Isabel Vasconcellos"

Assunto: Memorias - "A Garota Das Botas Brancas"

Data: sábado, 6 de novembro de 2010 18:27

 

Passeando pelo seu site em "memorias" me deparei com o episodio da garota das botas brancas. Deu vontade de escrever um pouco..... he he he

Na verdade, a vontade foi maior no sentido de "explicar" à você o que realmente aconteceu. Se bem que, na epoca, creio eu, já tinha explicado;

porem tínhamos cabeças de 20 anos....

Todos nos tínhamos o que se denominava "turma". Pois bem, eu frequentava a do Brooklin  ( Padaria Danubio) , Banespa e Petropolis. Tinha uma na

Aclimação e uma "barra pesada" na "Galeria Ouro Fino" da R. Augusta  (lembro do Verdi, já falecido, colocando gasolina nos trilhos do bonde lá em

cima perto da Paulista e depois tocava fogo e ia aquela lingua fumegante descendo a Augusta quase até os Jardins..... delírio total ), pois bem lá

conheci "as botas brancas". Criou-se um clima e começamos a "ficar". Ela era liberada....... transava.  Você não. Não podia.  Namorada não

transava. Invariavelmente a rapaziada tinha uma namorada, e um caso onde "tudo podia".  Voces não sabiam disso. Nenhuma, ou quase nenhuma namorada sabia.   ( ou fazia de conta que não sabia )  Sei lá ! Daí voce "terminou" comigo. Continuei na Ouro Fino e fiquei um tempo com "as botas brancas". Cheguei até a gostar muito dela, até ela conhecer a namorada de um grande amigo nosso que era irmã de uma artista de TV. Encantou-se com a possibilidade de entrar para a TV e aconteceu na novela "Simplesmente Maria" atraves do Valter Avancini. Daí "babau" para o Tito. Claro, né ? Como curiosidade êsse amigo nosso  ( até hoje ) meteu o maior par de chifres "ni mim"  com ela  KKKKKKKKKKKKKKKK  "Choses de la vie"...........

Grande beijo. Tito

PS - se quiser ou achar que vale a pena, pode publicar na seção de correspondencias do "Memorias"

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Tito Heeren" <vheeren@gmail.com>

Assunto: Eu transava

Data: sábado, 6 de novembro de 2010 21:09

 

Tito, vc é que pensava que eu não transava. Vc nunca me perguntou. Quando eu conheci vc já nem era mais virgem. É incrível que a gente não tenha conversado sobre isso. Como éramos preconceituosos!!! Eu sei. Na sua cabeça eu era a "menina do bem", aquela que é pra casar, a direitinha. A botas bcas era "a menina do mal". Nossa! Tão errado, tão distorcido, tão preconceituoso, tão gerador de infelicidade...Pena que não fui eu quem conheci a Suzana Gonçalves, irmã da Vieira. Meu irmão era diretor da Globo mas não queria que eu trabalhasse em TV, mais preconceito, mais frustração. Tv, segundo ele, "não era ambiente pra mim"...risos...era pras botas brancas da vida, né? Gente, quanta infelicidade, quanta vocação reprimida, quanta besteira e quanta desgraça por causa dos preconceitos sexuais. Me orgulho,sim, do meu programa de rádio, hoje, que ajuda as pessoas a se libertarem, a refletirem sobre tanta porcaria... Quero publicar seu e-mail, sim. Obrigada por permitir. Grande bjo. Sempre sua namoradinha (com a permissão da Leida e do Caetano... kkkk...) mas, acima de tudo, amiga do peito, Bel.

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Tito Heeren" <vheeren@gmail.com>

Assunto: Botas Bcas na TV

Data: sábado, 6 de novembro de 2010 21:47

 

Quem era ela???? Luiza? Maria de Fátima? Quem?

Do wikipedia:

Simplesmente Maria foi uma telenovela brasileira veiculada na extinta TV Tupi em 1970, escrita por Benjamin Cattan e Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Benjamin Cattan e Walter Avancini. Foi a segunda versão da original peruana, Simplemente María, produzida em 1969. Foi ao ar no dia 6 de julho de 1970, seu último capítulo foi em 1971.

Elenco

        a.. Yoná Magalhães - Maria   b.. Carlos Alberto - Estêvão  c.. Tony Ramos - Toninho        d.. Irene Ravache - Inês

        e.. Paulo Figueiredo - Carlos  f.. Walderez de Barros - Teresa   g.. Rildo Gonçalves - Juvenal

        h.. Wilson Fragoso - José  i.. Etty Fraser - Pierina  j.. Ênio Gonçalves - Roberto  k.. Cláudia Mello - Cláudia l.. Kate Hansen - Paula

        m.. Yara Lins - Mirtes n.. Léa Camargo - Fernanda o.. Jovelty Archângelo  p.. Jonas Bloch q.. Olívia Camargo r.. Gian Carlo

        s.. Nilson Condé t.. Joana d'Arc  u.. Elísio de Albuquerque v.. Maria de Fátima w.. Luíza de Franco

        x.. Annamaria Dias - Angélica m.. Henrique Martins n.. Roberto Maya p.. Bete Mendes - Angélica t.. José Parisi  u.. Paulo César Peréio

        v.. Marcos Plonka  z.. Fernando Torres  aa.. Carlos Zara

 

De: "Vitor Heeren" <vheeren@gmail.com>

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Eu transava

Data: domingo, 7 de novembro de 2010 10:01

 

Puxa, como eu era babaca, não ? - Sempre tive um puta tesão por ti  ( isso dá bolero....rs ), mas como você disse " era NAMORADA", e então ficava de  mãozinhas dadas, uns beijinhos e umas passadas de mão, bem  discretas......KKKKKKK e ia para casa "naquele estado"  mais risos.....kkkkkkkkkk. A menina era a Fatima mesmo. Não quis citar nomes...mas já que vc perguntou, aí vai !

 

No dia em que te conheci, já deu o click.  As primeiras meninas que conheci foram a Ilca e a Yara.  Eu e o Kenneth numa paqueradinha na calçada do Banespa..... lá se vão 40 e tantos anos.....  Como era de costume, haveria uma festinha na casa delas no fim de semana, e lá te conheci. Lembra ? Então, depois vieram Luciano, Jean, Lula e tantos outros. Vieram "na cola".... he he heMas minha admiração por você, Ilca e Isa  ( grande Isa ) fixava-se no fato de terem uma cabeça anos-luz à frente da maioria das meninas da época. Com vc teve aquele algo a mais, daí................. Não transamos, certo, mas não me arrependo. Era meu jeito e pronto. Foi legal assim mesmo.

Bjs. Tito

 

PS -  se quiser publicar..... "no problems"

PS 2 - Ah, nunca taxei, em nenhuma circunstância, alguem como sendo menina

do mal.  Mesmo no decorrer de minha vida sempre tive ótimo relacinamento e respeito ( isso é serio, hein ), com putas, biscates e        afins.

          Só odeio safadas e safadezas

 

De: "Luiz Augusto Campos Pereira"

PARA: "Isabel Vasconcellos (PN)" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Memorias

Data: sexta-feira, 12 de novembro de 2010 12:45

 

Bel

Gosto de ficar passeando pelo seu site.traz boas recordações.

Relendo alguns e-mails deparei-me como esse do Tito e acho que o cara, que segundo ele, coroou sua testa fui eu, pode?

(PARA: "Isabel Vasconcellos"

Assunto: Memorias - "A Garota Das Botas Brancas"

Data*: sábado, 6 de novembro de 2010 18:27*)

Na realidade os fatos não ocorreram assim. Conheci as "botas brancas"

através do Tito, quando ele a namorou  e eu namorava a irmã da artista da

tv. Mais tarde quando os namoros já estavam encerrados e eu já há muito  não via mais ninguém da turma cruzei com as "botas brancas" na Augusta, se não me engano por volta de 70 ou 71 e acabamos tendo um caso, mas, segundo ela, nada mais havia com o Tito. Para falar a verdade nem sabia desse lance da participação na novela " Simplesmente Maria", então não posso ser o responsável pelo par de chifres; lógico que partindo do principio que o"esse amigo nosso" seja eu rsrsrsrsrsrsrsrsrsr.

Quando eu gerenciava o Shopping Center Ibirapuera cruzei de novo com as "botas brancas" e, pasme-se: ela não se lembrava de mim e também do Tito.

Estava casada com alguém mais velho e do ramo de farmácias, tinha um filho e sobre o passado pouca coisa lembrava. Tornou-se um mulher esnobe, coisas da vida.

Reencontrei a minha ex-namorada por volta 95 e nossa química funcionou não como devia. Marquei um almoço com ela e tanto o Tito, como o Luciano, se não engano, apareceram.

Também não me lembro desses lances de liberadas ou não liberadas. Vivíamos os anos 60 e tudo era permitido. Tudo era novo e nossos sentimentos sempre eram os mais puros. Eu sempre tive as melhores intenções possíveis com todas as namoradas e encontros que tive.

Na realidade este esclarecimento é só para botar um pouco de pimenta e suscitar mais comentários dos tempos do nosso passado glorioso.

Estou atualizando o site, a preguiça ainda é grande, mas chego lá.Este é um e-mail a temporal, tratando de um assunto de tempos atrás.

Beijos

Lula Campos

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Luiz Augusto Campos Pereira" <lulacampos@ig.com.br>

Assunto: Re: Memorias

Data: sexta-feira, 12 de novembro de 2010 15:02

 

Risos. TB achei, Lula. E, por acaso, não foi? KKKKK. Bel.

 

De: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

PARA: "Luiz Augusto Campos Pereira" <lulacampos@ig.com.br>

Assunto: Re: Memorias

Data: sexta-feira, 12 de novembro de 2010 15:37

 

Lula, só agora li o resto do seu e-mail. Pensei que era só aquele começo. Posso publicar ele na página? Achei bárbaro... Bel.

Isabel. 

 

De: "Luiz Augusto Campos Pereira"

PARA: "Isabel Vasconcellos" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Re: Memorias

Data: sábado, 13 de novembro de 2010 14:05

 

Bel

Lógico, publique. Assim as coisas ficam mais esclarecidas rsrsrsrsrsr

Bjs

Lula

 

 

Mandei para o João (Carioca) Sabóia um velho filme do meu pai, que mostra todos nós esquiando na Represa do Guarapiranga  em fins dos anos 1960 e o João, assim que recebeu, editou um vídeo e postou no You Tube.

(clique na foto à esquerda para assistir).

Aí me deu vontade de escrever sobre

 

Sessenta Natais

Para quem, como eu, viveu uma infância de natais maravilhosos, esta época do ano jamais deixa de ser muito especial. Foi na minha casa, na casa de meus pais, que a família se reuniu, por anos, em torno da figura das minha avó materna. (para ver o vídeo de 60 Natais, clique na foto à esquerda)

Minha mãe (na foto, ao lado, no Natal de 1950), quando já tinha 80 anos de idade, contava que organizara mais de 30 natais para mais de 30 pessoas de cada vez. O Natal da minha infância e juventude era um momento aguardado. Momento de encontrar primos e tios que vinham de outras cidades e também aqueles que víamos sempre, que moravam em São Paulo. E todos - adultos e crianças -- se divertiam muito.

Não tenho filhos, mas se os tivesse, ensinaria a eles que a alegria de conviver é mais importante que a árvore cheia de presentes. Tínhamos as duas coisas, é verdade. Mas se tivesse que escolher entre os presentes e a alegria da convivência, os presentes que se danassem.

Meus pais me ensinaram, muito mais pelo exemplo do que pelas palavras, que as pessoas são mais importantes do que as coisas e que ser é mais importante do que ter.

Soa até meio ridículo, numa época em que quase todo mundo acredita que o dinheiro pode comprar tudo, dizer que ser é mais importante que ter. Mas é.

Não sou dessas babacas que acha que o dinheiro é um mal ou que só o amor constrói. Sem dinheiro não se come bem, não se dorme bem, não se previne bem as grandes doenças, vive-se estressado e infeliz. Com dinheiro é muito melhor. Mas ele não pode ser o motor da vida. Ele é apenas decorrência, quando se vive de acordo consigo mesmo e com suas próprias convicções. Quem destrói por dinheiro jamais encontra a tal da felicidade.

Penso em todas essas coisas no ano novo, no natal, nas férias de fim de ano, porque é a data do nascimento do Cristo que, embora tendo se transformado num enorme evento comercial, faz com que a maioria das pessoas, nos países cristãos, receba inúmeras mensagens de amor, esperança, paz e tolerância.

Assim, cria-se uma enorme corrente de pensamentos positivos e isto, sem dúvida, melhora o mundo.

Os natais da minha infância foram parte importante da base de amor e segurança onde toda a minha vida se alicerçou. Por isso, deles, só tenho maravilhosas lembranças. Eram festas inesquecíveis, com mesas inesquecíveis, presentes inesquecíveis e, acima de tudo, pessoas inesquecíveis.

É engraçado notar como alguns dos meus primos se esqueceram do que, para mim, é inesquecível, como por exemplo o fuska do meu irmão Alvan que vinha do Rio (ele morava lá e trabalhava na TV Excelsior, a Globo da época) cheio de presentes e de livros. Alvan era o grande divulgador dos livros. Ou, para dar outro exemplo, alguns se esqueceram do ano em que surgiu o autorama e o meu pai (que era o eterno desbravador das novidades tecnológicas) armou uma pista que circundava os quase 30 metros de paredes da nossa sala de projeção (hoje seria um home theater) onde minha mãe armava suas enormes mesas para as ceias de natal.

Depois a grande matriarca, minha avó Amélia, morreu. Os tios estavam casando seus filhos e tendo netos. Meus pais e eu começamos a ir passar os natais na Bahia, em Salvador, para onde a TV Globo tinha mandado meu irmão Alvan (por 10 anos ele dirigiu lá a afiliada da Rede Globo) e onde o natal era uma festa menor. A Bahia tem todo o verão de outras festas - de Conceição da Praia, em 8 de dezembro, até o carnaval. Era engraçado porque os amigos baianos do meu irmão iam passar o Natal no apartamento dele, conosco, já que não havia o hábito de reunir a família no 24 de dezembro... ah... e nunca tinham comido panetone! KKKK...

Assim, os grandes natais dos meus pais, Wanda e Vasco, não se repetiram. Nos anos 1970 passamos todos os natais na Bahia, nos anos 80, meus pais voltaram a receber, mas agora com muito menos dinheiro, menos pompa e menos gente. Nos 90, nos dividimos entre a casa da minha tia Jeannette, ou da minha mãe ou a nossa. Caetano e eu demos algumas festas de Natal memoráveis. Em 1995, lotamos o apartamento de parentes, inclusive da família dele. Em 96, 97, 98, demos memoráveis almoços natalinos para os amigos.

Meu pai morrera em 1987. Meu irmão Alvan, em 2004. Meu irmão Alfredinho e minha mãe, em 2007. O irmão do Caetano, em 2003. A mãe dele, em 2004. Sobrou pouca coisa da família pra se reunir em volta da mesa de Natal. Os filhos do Caetano tem outros compromissos com a família da mãe deles. Minhas primas passaram a me odiar (ou apenas descobriram que, apesar dos Natais, sempre me odiaram).

Em São Paulo, só uma das irmãs da minha mãe e sua filha caçula ainda gostam de mim. Mas passam o Natal com os que me odeiam.

Os outros primos estão espalhados por várias cidades do Brasil, bem longe de São Paulo, onde nasci e quase todos eles também nasceram.

Assim, nos últimos três anos, Caetano e eu temos passado sozinhos a véspera de natal. Fazemos uma ceia maravilhosa, enchemos a árvore de presentes pros amigos e, no dia 25, almoçamos com a família da minha nova irmã, a minha amiga Leda, a melhor amiga que alguém pode desejar.

Neste ano fiz um filme. Passei cinco dias editando todos os nossos filmes de natal, de 1949 a 2009. Em homenagem a todos aqueles que já se foram e que me ensinaram o que é o amor. Em homenagem a todos, amigos e parentes, que dividiram alguma mesa de natal conosco. E, principalmente, em homenagem ao meu pai, que se apaixonou pelo cinema há quase 100 anos passados e  nos fez gente da imagem. O filme mostra, em 33 minutos, os sessenta anos de natais filmados por meu pai e por mim. (Se tiver curiosidade em assistir, clique aqui).

Todos os anos costumo escrever uma história de natal. Não sou religiosa e nem sei se há lugar para um Deus humano num universo tão maravilhosamente louco, insano e misterioso. Mas sei que, no meu coração, há um cosmo de alegria, de afeto, de vida, que faz com que eu tenha longos braços para envolver a todos que amo e que amei nesta vida.

 

(foto: meu pai, de fotômetro no pescoço pois estava filmando, no natal de 1949)

 

Isabel.

São Paulo, 06 de janeiro de 2010. Dia de Reis. Dia do Presente.

 

Thiago, o Homem Sorriso

A coisa que mais me impressionou quando nós nos mudamos para este prédio, há quase 25 anos, não foi nem a beleza do apartamento, nem o fato de vir morar em plena Avenida Paulista.

O que mais me impressionou foi o humor do Thiago.

Impossível ignorar o bom humor daquele porteiro, negro, feio e pobre, que lavava alegremente as janelas dos apartamentos, pendurado no parapeito, do lado de fora, e se recusando a usar cordas de proteção, como se tivesse certeza de que a vida o protegia, acima de tudo.

Em todos os pequenos acidentes domésticos, nestas duas décadas, foi ao Thiago que eu recorri. Estourou a mangueira da máquina de lavar? O elevador parou entre dois andares? Caiu o pau da cortina? Deu curto circuito na caixa de fusíveis? Chama o Thiago. Thiaaagooo!!!A gente chama, ele vem. Sempre com um sorriso enfeitando a cara, sempre achando tudo muito engraçado e resolvendo tudo, tudo. A empregada está deprimida? O Thiago leva ela para comer feijoada no sábado, ali no boteco da Joaquim Eugênio de Lima.

E foi assim sempre. O Thiago já trabalhou em todos os horários, em todas as portarias, de dia e de noite, sozinho, na garagem. Está sempre rindo, sempre de bem com a vida, mesmo quando o colocam trabalhando de madrugada, longe dos papos das empregadas (ele é o rei das empregadas do prédio!) e na escuridão da garagem.

Quando eu trabalhava na Rede Mulher de TV, às vezes o encontrava de manhã, quando estava saindo para a TV e ele terminando seu turno, e o levava de carona até o ponto de ônibus que ficava na frente da emissora. E lá ia ele, pra periferia, muito além de Santo Amaro, todo lépido, todo alegre.

Quando eu estava aprendendo a ser dona de casa, às vezes o trabalho doméstico me exasperava. Nunca vou me esquecer de uma manhã em que eu dera um duro danado pra conseguir ajeitar os lençóis nos varais quando a mangueira da máquina estourou e um chafariz invadiu a área de serviço molhando tudo, inclusive eu e os benditos lençóis. Comecei a chorar. Fechei o registro da água e chamei o Thiago pelo interfone. Quando ele entrou e viu aquela cena deplorável – eu, em prantos, olhando os lençóis encharcados que já, pelo peso, arqueavam os varais, no meio de um verdadeiro lago de água e sabão – não teve dúvida: Soltou uma daquelas deliciosas gargalhadas e, de repente, eu estava rindo com ele. Num piscar de olhos remendou a mangueira, botou os lençóis pra centrifugar e enxugou a área. Tudo enquanto eu fazia um café pra nós. (foto à esquerda, por Cecília Saint Pierre, tb moradora do prédio )

Tivemos inúmeras brigas por causa das janelas. Ele vinha lavar as janelas do apartamento, enormes, e ficava de pé no parapeito, do lado de fora, esfregando os vidros com um pano cheio de sabão, o sabão escorrendo pelo parapeito e ele sem nenhuma proteção. Na primeira vez que eu vi isso, fiz um escândalo. Se você cai, morre, mas eu é que vou responder processo por ter permitido que você se arriscasse. Ele ria: Não caio não, dona Bel.

Nós o obrigávamos a usar o cinto e a corda de proteção mas bastava virar as costas pra ele tirar tudo.

Quando minha mãe, em 1998, veio morar também aqui no prédio, o apartamento que eu conseguira para ela estivera fechado e sem limpeza por três anos. Era um apartamento lindo, mais bonito do que o meu, mas estava literalmente imundo. A faxineira que eu contratei para limpá-lo, no primeiro dia, às seis da tarde, me interfonou em prantos. Estava desesperada porque passara o dia limpando e não via nenhum resultado. Chamei o Thiago e fui pro apartamento. A moça chorava, explicando que eu não iria acreditar que ela tivesse trabalhado direito. Ela chorava e ele ria.

- Pode deixar, dona Bel. Eu venho ajudar ela amanhã e, nuns cinco dias, a gente deixa tudo brilhando... E veio mesmo, trabalhar ainda mais,depois do seu turno no prédio. Em cinco dias... Claro, tudo brilhava, inclusive os brancos dentes do Thiago.(foto à esquerda por Cecília Saint Pierre)

Sempre, há anos, desde que o conheci, eu me perguntava que benção era essa que a vida deu ao Thiago. De onde ele tirava esse inesgotável estoque de sorrisos e de bom humor?

Para mim, que descendo de uma estirpe de reclamões, mal humorados, deprimidos e similares, este é um dos maiores mistérios.

No entanto, agora que estou ficando velha, é muito fácil identificar as crises de depressão que tentam solapar a minha alegria de viver. Está certo que a minha alegria de viver não chega aos pés da alegria de viver do nosso amigo Thiago. Eu sou muito diferente dele. Qualquer pedra no caminho, para mim, parece o Muro de Berlim da minha vida e me custa grande esforço superar as dificuldades normais do cotidiano. Além dos antidepressivos, uso de todos os artifícios do mundo para me alegrar: penso em tudo o que a vida me deu de bom (bom marido, sem nenhuma depressão; bom trabalho, etc.),me mato de fazer ginástica (que produz endorfinas cerebrais, a droga natural do bom humor), me obrigo a ouvir música e até acendo incensos.

Mas resta a questão misteriosa: onde está a diferença entre o Thiago e eu?

Está nos gens? Está na história pessoal de vida?

Na manhã do dia 21 de julho a vida me mostrou que o mistério pode ser sempre maior. Estava frio, as janelas estavam fechadas. Ouvi um baque surdo e pensei que alguma coisa caíra no apartamento de cima.

Meia hora depois fui à janela da sala para ver se o carro da Band já estava me esperando pra me levar à emissora. Havia um carro da Rede TV na calçada rebaixada em frente ao prédio. Então eu reparei nos três carros da polícia, sobre a calçada, bem na nossa porta. Vi dois policiais entrando. Ué. Nunca acontece nada nesse prédio. Quem entrar aqui pra roubar certamente não conseguirá sair porque as entradas e saídas são tão complicadas que até os moradores se perdem de vez em quando... Liguei lá pra baixo:

- César o que foi?

- O rapaz que se atirou, dona Isabel.

- Outro, César?

- Pois é, pra senhora ver.

- Mas quem foi? Será que eu conhecia?

- Foi o Thiago, dona Isabel.

- Que Thiago, o jornalista da bicicleta? Não pode ser!!!

- Não, foi o Thiago mesmo, o nosso funcionário.

- Não, César – disse eu já em lágrimas – o Thiago jamais se atiraria. Ele deve ter caído, quando limpava as janelas.

- Faz anos que ele está proibido de lavar janelas.

Eu sabia. E concordava com a proibição.

Naquela manhã, como em quase todas as manhãs, Josias rendeu o Thiago na portaria da garagem. Conversaram um pouco e ele disse que ia dar uma volta, tomar um café, estava esperando alguém.

Saiu pela porta da garagem, na rua de trás, deu a volta no quarteirão, entrou pela porta da Paulista, passou pelo Cesar, foi ao elevador de serviço, desceu no 23º andar, subiu o lance de escadas para o terraço da cobertura e se atirou.

Thiago trabalhava aqui desde quase a inauguração do prédio. Quatro décadas. Conheceu todos os moradores. Viu as crianças crescerem e se tornarem adultos. Limpou todas as janelas de todos os apartamentos. Namorou a maioria das empregadas. Alegrou a vida de muita gente, inclusive a minha. Nos últimos anos nos cumprimentávamos com uma intimidade de irmãos.

Tinha 70 anos de idade.

Seu corpo, como não poderia deixar de ser, aterrissou no canteiro, no meio das flores.

 

Isabel, 27 de julho de 2009 

Clique na foto acima para ver um vídeo com vários momentos em que o Thiago participou das nossas vidas.

 

De: "claudionor" <oliveira.claudionor@yahoo.com.br>

PARA: "'Isabel Vasconcellos'" <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: RES: Saído do forno

Data: terça-feira, 28 de julho de 2009 09:05

 

Isa 

Acabo de ler antes descer para uma reunião de trabalho para a seleção e

contratação do novo funcionário que irá ocupar a vaga do Tiago.

Ficou excelente! Parabéns! É motivo de orgulho ter você no convívio do nosso condomínio. Vou parar por aqui porque a emoção está chegando e os três candidatos estão me esperando. A vida tem que seguir seu curso natural.

Grato pela honra de ser o primeiro a ler

Beijos.

Claudionor (síndico do Condomínio Paulicéia São Carlos do Pinhal)

 

De: "Daniela Warlet Caldeira de Sousa" <danibiacaldeira@yahoo.com.br>

PARA: <isabel@isabelvasconcellos.com.br>

Assunto: Eu sei mas não falei, logo falhei...

Data: sexta-feira, 31 de julho de 2009 22:16

 

Querida Isabel,

Linda a sua homenagem ao querido e sorridente funcionário S. Thiago. No dia 21 também presenciei, infelizmente, as circunstâncias que envolveram o silenciar deste sorriso. Fiquei muito triste! Principalmente quando me lembrei que passei por ele no sábado à noite, ele sorriu pra mim (como era de se esperar), retribuí o sorriso, disse-lhe boa noite, acenamos as mãos um para outro e segui para o meu destino - a cama! Logo que S. Thiago caiu, pensei: perdi a oportunidade de apresentar-lhe a maneira de sorrir para a nossa própria alma! Aquilo (ou melhor, Aquele) que nos enche, verdadeiramente de paz - Jesus Cristo! Ás vezes, um sorriso não traduz alegria e isso torna as coisas ainda mais difíceis de serem percebidas e solucionadas, pois retribuímos sorrisos, em contrapartida, choro dificilmente se retribui, pelo menos não na guarita de uma portaria e, se eu tivesse percebido o choro de sua alma... Eu tenho Jesus! E não percebi,

 falhei... Jesus não teria falhado! Não pense que sou uma fanática religiosa, porque não sou. Só tenho em meu coração o verdadeiro e VIVO motivo que nos tira da depressão, que nos enche de esperança e nos transforma por completo...  Quando li seu texto, vacilei novamente, mas não posso mais privar as pessoas de ouvirem sobre este maravilhoso tesouro... Conheça Jesus... Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida... "Venham todos que estão cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei..."

Estou à disposição...                    Com amor, Dani Caldeira

* Parabéns pelo livro! Eu tenho!

Morte Compartilhada

Faz muito tempo. Eu tinha um amigão, um marinheiro de água doce, vinte anos mais velho do que eu, que, como meu amigo Pedro Paulo, também fora amigo do meu pai. Ele tinha, no nosso clube na represa, um barco cabinado chamado "Morning Star".

Achava lindo, a "estrela da manhã" e ficou horrorizado quando soube, ele que era meio de direita, que Morning Star também era o nome de um jornal do partido comunista inglês. Ainda bem que não estávamos mais no auge da Ditadura Militar, senão os milicos eram bem capazes de matar o meu amigo só por causa do nome do barco...kkkk.

 
Nessa época passávamos os fins de semana inteiros na represa. Não apenas o meu amigo e eu mas toda uma turma de marinheiros de água doce que amavam tanto a Guarapiranga que queriam ver a estrela da manhã anunciar o nascimento do sol enfiados em seus barcos, dentro d'água.
 
Mas esse meu amigo um dia olhou em volta, aquela paisagem linda, num céu muito azul e me disse:
- Já pensou, Belzinha, que nós vamos partir e tudo isso aqui vai ficar? As árvores, a represa, o gramado, o Castelo... Tudo continuará aqui, só nós é que não estaremos mais.
 
Eu tinha apenas trinta anos de idade e quase nenhum contato com a morte.
 
É muito diferente agora, que tenho quase sessenta e já vi partir tantos que eu amava, que já perdi pai, mãe e os dois irmãos, e a melhor amiga, e uma tia querida e o tio amado e o cunhado, a sogra, o sogro, e Elis, e Maysa, e John Lennon e Carlos Drummond de Andrade e Vinicius... Tantos!
 
Dou risada porque me lembro da minha mãe, já bem velhinha, vendo os velhos filmes da família e comentando: "esse aí já morreu, ah...aquele ali também..." e, como eu, acabava caindo na risada.
 
A morte não assusta quem está de bem com a vida. Causa uma certa perplexidade, assim como causava no meu amigo, a idéia de que tantas coisas, objetos, lugares, realizações, ficarão e nós passaremos.
 
É interessante observar como vivemos se fossemos imortais. Arriscamos frequentemente a vida em esportes e direção perigosa, viajando na estradas brasileiras, andando no Rio de Janeiro no meio das balas perdidas, fumando e bebendo, comendo gordura e até fazendo amor. No entanto, se a perspectiva da morte caminhasse ao nosso lado, não ousaríamos. Se não ousássemos, ainda estaríamos morando na caverna.
 
Deve ser por isso que todo mundo só pensa na morte quando ela bate à nossa porta e machuca o nosso coração.
 
No dia de hoje, todo o planeta pensou na morte. A morte foi a grande estrela do dia. Porque não é todo dia que ela consegue levar alguém assim tão cheio de amores. Michael Jackson era um sujeito muito estranho, mas tinha milhões de adoradores em todo o planeta.
 
São milhões a pensar na morte, na mesma morte, no mesmo dia. É claro que todos os dias nascem e morrem no planeta milhões de pessoas. E, portanto, todos os dias se pensa na morte. Mas não como hoje. Hoje são milhões e milhões de pessoas na Terra surpreendidas pela morte súbita e precoce do maior astro pop da atualidade. São milhões de computadores entrando nos mesmos sites, tocando as mesma músicas. É uma comunhão da maior parte da Humanidade. Por isso, por essa comunhão, por esse convergir de pensamentos, que os ídolos da aldeia global são um maravilhoso fenômeno.

25 junho 2009

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