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Juvenal Azevedo

 

Textos nesta página:12. Carlos Valverde 11. Meus Longevos Favoritos/ 10. Histórias do Passarinho/ 9. A insatisfação Sexual do Brasileiro/8. Camillo, O General Francês e Eu/7.Fundo de Garantia: o fim da estabilidade emocional/ 6.Procura o Ingmar!5. Sobre Ternos Cor de Rosa/4. Este Rio que Eu Amo /3. A Diferença entre òptica e Ótica vai muito além do "p"/ 2. O desmatamento da Amazônia e a Democratização do Sexo/1. A Propaganda Interativa Já Andou de Bonde

 

Carlos Valverde: meu sócio no Clio Awards

Por Juvenal Azevedo (*)

    Quando entrei na Standard Propaganda, levado pelas mãos de Nilo Leuenroth, diretor financeiro da agência e sogro do meu primo Roberto Azevedo, para ocupar a importantíssima função de office-boy, Carlos Valverde Corrêa já era assistente do departamento de Rádio/TV.

   A Standard ficava no 25º andar do edifício do Banco do Estado, o Banespa, e era um lugar de sonhos para um garoto de 14 anos, com plaquinhas nas portas que identificavam cada departamento: Media (assim mesmo, com a grafia inglesa), Rádio/TV, Arte, Produção, Contato, Secretaria, Contabilidade e a plaquinha que identificava o Olimpo - Diretoria.

   Nos poucos meses em que levei os pesadíssimos anúncios das lojas Exposição-Clipper para os jornais, carregando páginas duplas (cópias em chumbo dos clichês, que eram muito mais leves, porém mais caros, chamadas de estéreos) ou ia retirar as cartas enviadas para os programas de tevê para os sorteios dos biscoitos Duchen, eu ficava sonhando com o dia em que poderia trabalhar num daqueles locais privilegiados, como o Rádio/TV ou, sonho quase inacessível, a mágica Redação.

   Aos poucos, fui galgando posições, começando como arquivista na Contabilidade, passando depois para faturista auxiliar e depois faturista chefe, mas sempre sonhando com o dia em que eu poderia trabalhar num dos departamentos produtivos da agência. Vivia enchendo o saco do grande praça Nilo para que me transferisse de seção, até que arranquei uma promessa do “parceiro”, como ele costumava chamar todo mundo: quando eu conseguisse entrar para a ESPM, que tinha um vestibular muito procurado, ele autorizaria minha transferência.

   Se o peixe morre pela boca, o velho Nilo não perdeu por esperar, pois após levar pau na primeira tentativa, na segunda eu consegui entrar para a escola, o que me valeu a transferência para a mídia, meio a contragosto do chefe do departamento, o Ary Leuenroth, que teria preferido contratar um profissional experiente no mercado.

   Nesse meio tempo, meu amigo Carlos Valverde, primo do engraçadíssimo José Dias Valverde, da Contabilidade da Standard, havia saído da agência para trabalhar como chefe de mídia de outra agência, a Reclam, que ocupava um dos andares de um prédio na Rua João Adolfo, onde uma pequena editora dirigida por um argentino extrovertido dava início a uma das maiores empresas de comunicação do Brasil - a Editora Abril.

   Daí em diante perdemos um pouco o contato e, enquanto eu passei por várias agências de excelente nível criativo, como a Inter-Americana e a Alcântara Machado, o Valverde foi  para a Denison, fazendo atendimento de clientes (na época chamado de contato), entre eles a Huber-Warco do Brasil, fabricante de motoniveladoras, que logo o chamou para ocupar a gerência de propaganda da empresa.

   Alguns anos depois, vendo que, para uma agência de grande porte como era a Denison, a conta da Huber-Warco não recebia a atenção que deveria ter, o Valverde procurou meu sócio Harding Gimenez e entregou a conta para a HGP, onde eu fiz o atendimento e a criação por vários anos, com um trabalho realmente profissional, inclusive com duas viagens para conhecer as revendas, os clientes e algumas obras junto com o Valverde, uma delas para o Sul, desde São Paulo até Porto Alegre, passando por Curitiba, Londrina e Florianópolis e outra para o Centro-Oeste, desde Belo Horizonte até Goiânia, passando por Brasília.

   Essas viagens me tornaram um expert em propaganda técnica, praticamente mudando a feição da minha agência, a essa altura já denominada Usina de Propaganda, acarretando a conquista de diversas contas técnicas, como a Dynapac, onde conheci meu até hoje amigão Renato Carneiro, a Comac São Paulo e a Fiat-Allis, com o inesquecível Mário Fodor que, ao me ouvir dizer que ele trabalhava em excesso, me respondia, rindo: “trabalhar não mata ninguém”. Mas matou, a ele mesmo, com menos de quarenta anos, de enfarte fulminante.

   Bem, mas voltando a meus trabalhos para a Huber-Warco, graças à liberdade criativa que o Carlos Valverde proporcionava à agência e ao conhecimento acumulado em nossas viagens, acabamos por conquistar um Clio Awards para o melhor anúncio industrial do mundo, em 1974.

   A história por trás desse anúncio era bastante elucidativa. Quando a minha agência passou a atender a conta da Huber-Warco, ela detinha 40% do mercado de motoniveladoras, ficando quase 60% para a Caterpillar e algo em torno de 1 a 2% para a Malves. Alguns anos depois, a Huber-Warco passou a deter espantosos 70% do mercado, contra quase 30% para a Caterpillar.

   Então, o que fizemos? Bolei um título, que dizia o seguinte: “A liderança é um peso que não é fácil de carregar” e sugeri ao Ângelo Scavuzzo, um notável diretor de arte, que ilustrasse com um “cartoon” onde aparecia um homenzinho segurando um imenso balão, muito maior do que ele. Quer dizer, a pior coisa que pode acontecer a um líder de mercado é deixar de ser. Então é uma situação complicada, pois se a liderança é um peso agradável de carregar por um lado, por outro lado é desconfortável como um balão imenso que você não pode permitir que seja estourado pelo concorrente. Enfim, foi um anúncio perfeito e factual, que levou à conquista do mais importante prêmio internacional de publicidade.

   E quase repetimos a dose em 1978, com um anúncio que falava sobre a mais completa linha de motoniveladoras, que era a da Huber-Warco, com cinco modelos, contra os apenas dois modelos da Caterpillar.

   Fizemos uma foto com as cinco máquinas, lado a lado, e colocamos o título: “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe”. E fizemos outra versão para a Argentina e outros países sul-americanos, com a linha famosa do River Plate: “Reyes, Moreno, Di Stefano, Labruna e Lostau”. A versão brasileira com a linha do Santos dos anos sessenta foi inscrita no Clio Awards e chegou à finalíssima. Precisava pagar a taxa de inscrição, mas nesse meio tempo eu saí da agência para dirigir a criação da Núcleo e ninguém se preocupou em pagar a taxa. Talvez tivéssemos ganho o prêmio máximo, mas no mínimo fomos finalistas.

   Esses prêmios e o excelente trabalho que fizemos para a Huber-Warco só foram possíveis de acontecer porque, do outro lado do balcão, estava um profissional de marketing com uma notável experiência publicitária em seu currículo. Um profissional que facilitou o aprendizado de uma agência de contas de consumo nas características peculiares do mercado de contas técnicas e também dando asas à criação despojada, inovadora, diria até revolucionária. Daí que considero muito justo dividir os prêmios que a Usina de Propaganda conquistou com o então gerente de propaganda da Huber-Warco, o meu amigo Carlos Valverde Corrêa, que há pouco tempo descobri ser também Sirvello. Ave, Carlos!

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e publicitário, diretor da Jac Assessoria de Imprensa e Comunicação (e-mail: adriejuva@uol.com.br)

 

Meus longevos favoritos

Por Juvenal Azevedo (*)

Meu longevo favorito, na verdade, são dois.

Um deles é a notoriedade do momento, o renomadíssimo arquiteto Oscar Niemeyer, que recém acaba de ultrapassar a marca dos 102 anos em grande estilo: tomando champagne, fumando cigarrilha e trabalhando, com o entusiasmo de um adolescente, em obras simultâneas no Brasil, na Espanha, em Cuba (onde está projetando uma praça de 20 mil metros quadrados com um imenso monumento antiimperialista) e sei lá onde mais.

Niemeyer é casado com uma mulher ainda hoje belíssima, com menos quarenta anos de idade do que ele, o que talvez ajude a explicar seu entusiasmo e suas boas formas física e intelectual de semi-adolescente.

Meu outro longevo favorito é o José Martins, que conheci nos jantares promovidos pela Pensão Jundiaí e por seus anfitriões, a inesquecível Mariazinha Congílio e seu marido, o gentleman Geraldo Vidigal.
(foto: Família de José da Silva Martins, 1949)

A Pensão Jundiaí, que imagino desativada atualmente, reunia todos os meses, para um rega-bofe maravilhoso, escritores, jornalistas, alguns poucos publicitários, editores, livreiros, artistas plásticos, músicos, professores universitários, enfim, aquilo que os jornais de antigamente classificariam como “a nata da intelectualidade”.

Inadvertidamente, sem reunir méritos para me juntar a uma plêiade tão ilustre, e graças à cumplicidade do editor Leonídio Balbino, passei a ser convidado para esses jantares, onde bebia-se, comia-se, jogava-se conversa fora e, principalmente, nos divertíamos a valer.

Um dos frequentadores, e na verdade um de seus mentores intelectuais, era José Martins, pai do maestro João Carlos Martins, do jurista Ives Gandra da Silva Martins e de outros filhos igualmente talentosos, que, na época, já tinha completado 99 anos, com um vigor e uma disposição impressionantes. Para que a meia dúzia de leitores que acompanham os escritos deste escriba tenha idéia, num dos jantares fiquei à espreita, de tocaia, de olho no que o José Martins ia consumir. E como consumiu bonito!

Pra iniciar, mandou ver duas caipirinhas de pinga, claro, que caipirinha decente tem de ser feita com o precioso líquido da pura cana, sem frescuras, acompanhadas do bufê de aperitivos, que constava de coxinhas, empadinhas, croquetes de carne e de queijo, fatias de salame e de queijo. E, posso garantir, nenhum desses apetitosos itens deixou de ser degustado pelo homem em questão.

Depois, no jantar, atacou com alegria um alentado filé com fritas e tomou pelo menos duas taças de um honesto cabernet sauvignon – e não sei se mais tomou ou não, pois me distraí conversando com meu amigo de longa data, o escritor Hernâni Donato, que eu conheci ainda adolescente e ele já trintão, na verdade quase quarentão, quando trabalhávamos na Standard Propaganda, hoje Ogilvy.

Pra completar, José Martins cantava no coro da Pensão Jundiaí, cujo hino foi criado por seu filho João Carlos Martins, com diversos pitacos na letra dados pelo próprio José Martins. E como cantava bonito, afinado, sabendo de cor e salteado a letra toda do hino!

Se a memória não me engana, José Martins morreu tempos depois, já com 104 anos e com uma lucidez impressionante, ainda frequentando os jantares da Pensão Jundiaí com sua gana habitual. É o meu herói!

Outro longevo notável foi também Charles Chaplin, que se casou com a filha do escritor e dramaturgo Eugene O´Neil, a Oona, igualmente uma mulher belíssima, com quase 40 anos menos do que ele e com quem teve um monte de filhos, um deles já com Chaplin superando a marca de mais de oitenta anos, morrendo tempos depois, na Suíça, com 88 anos.

E, já que eu falei do Hernâni Donato logo acima, nada mais justo do que incluí-lo neste panteão de longevos admiráveis, pois Hernâni, do alto dos seus 87 anos, anda a pé de sua casa para o Instituto Histórico e Geográfico diariamente e mantém também uma disposição física e intelectual simplesmente digna de aplausos.

Viva nossos longevos notáveis! Esperamos chegar lá com o mesmo élan, a mesma garra, o mesmo amor pela vida. Ufa!

 

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e diretor da Jac Assessoria de Imprensa e Comunicação. E-mail: adriejuva@uol.com.br

 

 

Histórias do Passarinho

Juvenal Azevedo

ilustração de Lula Campos

   Eu estava voltando a São Paulo para a Alcântara Machado, depois de ficar quase dois anos dirigindo a criação da filial do Rio de Janeiro. De mudança para um apartamento na Rua Bela Cintra, não me lembro mais como foi, só sei que o zelador do prédio acabou sabendo que eu trabalhava em propaganda e comentou comigo que havia outro publicitário no prédio, o “Sr. Edson”, que, honestamente, eu não sabia de quem se tratava.

   Preocupado com a instalação dos chuveiros, pedi ao zelador para que me arranjasse um eletricista e voltei para o apê, trombando com os carregadores da Lusitana, em meio ao caos que se instalara.

   O tempo foi passando e nada do raio do eletricista dar as caras, o que me fez descer de novo até a portaria para saber do zelador se ele havia me conseguido um, já que era quase noite. Encontrei o zelador no alto da escadaria que dava acesso ao prédio, onde ele conversava com um sujeito meio coroa, quase careca, vestido com um pulôver azul médio-quase claro, quando ele me disse:

-  “Este aqui é o rapaz de quem eu lhe falei”, o que prontamente me levou a responder: “Ah, o eletricista! Já estava ficando preocupado com a demora...”

   “Não, não, me disse o zelador. Este é seu colega, ele também trabalha em propaganda”.

   Desnecessário dizer que eu não sabia onde enfiar a cara e o tal “Sr. Edson”, gaguejando um pouco, explicou: “Meu nome é Edson Borges, mas todo mundo me conhece como Passarinho”. E realmente, embora eu não conhecesse o Passarinho pessoalmente, claro que já tinha ouvido falar dele.

   Me desculpei, mordendo a língua pra não fazer nenhuma piada, o que só contribuiria pra aumentar o desconforto da situação e conversei rapidamente com o Passarinho, que, pra completar, morava no mesmo andar que nós, no 6º andar.

   Apesar desse início de relacionamento francamente desastroso, o Passarinho tirou de letra a situação e acabamos ficando grandes amigos, mas grandes amigos mesmo, colaborando para isso o fato de minha mulher, a mulher dele e uma terceira vizinha do andar ficarem grávidas quase que ao mesmo tempo, sendo que as três, no embalo da cultura natureba dos anos setenta, pretendiam todas ter partos naturais.

   Como a Lúcia, mulher do Passarinho, foi a primeira a entrar em trabalho de parto, sofreu horrores durante mais de vinte horas e teve de acabar fazendo cesariana, e três dias depois era a data prevista para o nascimento do meu filho mais velho, na véspera procuramos a médica obstetra e decidimos optar direto pela cesariana, procedimento que repetimos depois com o nascimento dos nossos outros dois filhos.

   O Passarinho era daqueles caras que não parecem ser grande coisa, mas são. Com seu jeito absolutamente descompromissado de se vestir, com sua aparência de cantor de tango ou de bolero, com sua barriguinha saliente e sua baixa altura, era um cara que você olhava e não dava quase nada por ele.

   Aí você engatava um papo e ficava sabendo que boa parte dos jingles de sucesso no rádio e na tevê naquele momento eram criações dele. E mais: que ele tinha sido parceiro da saudosa e genial Dolores Duran em uma porrada de composições do mais alto nível. E que era um cara sempre bem informado, com boa leitura e bons conhecimentos gerais. Enfim, era um cara sensível, generoso, um cara “sensa”, como se costumava dizer naqueles anos de chumbo no Brasil.

   Uma das marcas mais notáveis do Passarinho era sua obstinação, a incapacidade de aceitar um não com facilidade, o que o levou a se tornar talvez o único publicitário pessoa física que fazia permutas com anunciantes já naquela época, aí incluindo-se os móveis da sala, dos quartos, da cozinha e também o berço do Marcus Vinicius e as roupinhas de bebê, estas através de uma troca de jingle com a Petistil. Esperto aquele Passarinho!

   Essa mesma obstinação fez com que ele conseguisse me arrancar da cama numa noite de sábado, logo depois de eu haver chegado de uma viagem de carro com um cliente, durante uma semana, visitando revendedores em Londrina, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, onde nos bateu um banzo e decidimos voltar direto dos pagos gaúchos a São Paulo, num total de umas 15 ou 16 horas de estrada, pra me fazer acompanhá-los a um restaurante espanhol na Rua Joly, no Brás, de início cambaleando de sono mas depois me recuperando com os vinhos, as sangrias, os tapas e os frutos do mar.

   No nosso apê e no apê do Passarinho costumavam rolar grandes noitadas de carteado, sendo buraco e pôquer os jogos mais comuns, e um dos freqüentadores habituais, além de grande número de publicitários, era o narrador de futebol Peirão de Castro, da TV Gazeta, que me ajudou a transformar a expressão “garfar” em sinônimo de roubar, falando-a em suas transmissões de jogos de futebol (fui eu que inventei isso, sim, assim como criei/adaptei o “falluto” do  lunfardo argentino para o nosso fajuto).

   Tempos depois do nascimento dos três meninos da Rua Bela Cintra, a mulher do Peirão também deu à luz outro menino, acontecimento que foi noticiado mais ou menos desta maneira pela dupla de narrador e comentarista que estavam transmitindo uma partida de futebol:

-        Ô Fulano, acabou de nascer o filho do Peirão! Ao que o narrador, meio distraído, comentou: “Pô, mas naquela idade o Perón ainda tá tendo filho!?”

-        Não, Fulano, não é o Perón, é o Peirão, o nosso amigo!

  O Passarinho já foi pro andar de cima faz alguns anos, onde certamente deve ter se encontrado com a Dolores Duran e reatado a dupla que tanta coisa boa criou aqui embaixo, mas a gente não liga não porque, mais dia ou menos dia vai se encontrar com eles pra ouvir, se deliciar e aplaudir. Evoé, Passarinho!

BOM NATAL, de Edson Borges

Quero ver
você não chorar
não olhar pra trás
nem se arrepender do que faz...

Quero ver
o amor vencer
mas se a dor nascer
você resistir e sorrir...

Se você
pode ser assim
tão enorme assim
eu vou crer...

Que o Natal existe
que ninguém é triste
e no mundo há sempre amor...

Bom Natal um Feliz Natal
muito Amor e Paz pra Você...
PRA VO CÊ.

 

 

A insatisfação sexual do brasileiro e o genérico do Viagra

 

Por Juvenal Azevedo (*)

   Pesquisa feita pelo Projeto Sexualidade, ligado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, com cidadãos de 18 a 50 anos, mostra que os homens brasileiros não estão satisfeitos sexualmente.

     A pesquisa teve como objetivo calcular o número de relações sexuais semanais e a quantidade dos que têm disfunção erétil. O ponto em comum de todos os entrevistados é o desejo de dobrar o número de relações.

     Segundo a pesquisa, há três tipos de disfunção erétil. A maioria dos pesquisados tem a do tipo leve, que é aquela que não impede a penetração mas atrapalha a intensidade da ereção. Em seguida, vem a disfunção erétil moderada, que ainda não impede a penetração mas aparece com mais regularidade. E por último surge a total incapacidade de ter ereção.

     Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do estudo, “a ereção completa é muito mais importante para o próprio homem do que para a  parceira, já que, para a maioria das mulheres, as famosas preliminares têm a mesma prioridade que a rigidez de um pênis”.

     Outra constatação da pesquisa é sobre o número de relações sexuais por encontro, sendo que a maior parte (63,3%) tem um único ato sexual em 24 horas. Do restante (36,7%), a maioria tem a segunda relação em até uma hora depois da primeira. Quase todos os entrevistados gostariam de poder aumentar o número de relações sexuais.

     Com a terapia de reposição hormonal, administrada sob prescrição e acompanhamento de um especialista em medicina sexual, homens próximos ou já na andropausa, podem aumentar seu índice de testosterona e, consequentemente, sua libido, podendo realizar seu desejo de melhores performances sexuais com suas parceiras.

     Os facilitadores de ereção como o Viagra também desempenham um papel importante quanto a aumentar não só o número de relações sexuais como ainda darem maior rigidez ao pênis durante a penetração e igualmente devem ser prescritos e contarem com acompanhamento médico.

     E deve ser saudado com entusiasmo o fim da patente das pílulas azuis, agora em 12 de junho, com a liberação de produção do seu genérico, que deve baratear muito o custo de cada comprimido, hoje em torno de 27 reais, ajudando a democratizar as relações sexuais para todas as idades, já que a disfunção erétil não é privilégio dos cidadãos da terceira idade.

     Bem fazem os milhões de brasileiros que querem aumentar o número de suas relações sexuais. Por que não? Afinal, sexo é vida. E sexo para todos deveria ser a bandeira de um partido político efetivamente voltado para uma melhor qualidade de vida dos brasileiros - e brasileiras, claro.

 

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e diretor da JAC - Assessoria de Imprensa

(e-mail: adriejuva@uol.com.br)

Camillo, o general francês e eu

 

Por Juvenal Azevedo

 

   Vejo no Estadão a morte de Manoel Camillo de Oliveira Penna Filho, de quem fui colega na ESPM e companheiro de trabalho na Norton Publicidade, do Geraldão Alonso, que chamava todos os homens da agência de "pistoletas", mas essa é outra história.

 

   Camillo já era, naquele início dos anos sessenta, um respeitado profissional de atendimento e eu, um recém-saído da condição de redator foca em busca de voos mais altos em uma agência mais criativa e menos careta do que a Norton daqueles tempos. Havia, na agência do Geraldão, três grandes clientes e estes, por sua vez, tinham sua criação dividida entre os três redatores: a divisão de chocolates da Nestlé, com o Eduardo Riedel e o contato feito pelo Carlito Maia; a General Electric, com o Hugo Maia na criação e o Pierre Milos e o Luiz Celso de Piratininga no contato com o cliente; e a grande loja de varejo Serva Ribeiro, comigo na criação e o Camillo no atendimento, e com o Zé do Couto na chefia geral dos redatores que, ainda, trabalhavam num andar e os diretores de arte noutro andar como era habitual na época, mas essa também é outra história.

 

   Detalhe curioso é que o gerente de propaganda da Serva Ribeiro, o Reinaldo Zangrandi, também tinha sido nosso colega na ESPM, o que facilitava e muito o nosso trabalho de aprovação das peças publicitárias do cliente, que chegou a publicar alguns anúncios fora da normalidade varejeira daquele início dos anos sessenta.

 

   Um dia, voltando da Serva Ribeiro para a Norton, o Camillo me perguntou se eu toparia sair da Norton com ele para abrir uma agência. Se ainda hoje eu estou sempre disposto a encarar novidades, imagine então com apenas vinte anos no lombo e louco para criar coisas novas. Claro, respondi. E aí o Camillo contou a história do general francês.

 

   Não me lembro mais como o Camillo ficou conhecendo o general francês, cujo nome sumiu de minha memória para todo o sempre, mas esse era apenas um detalhe irrelevante para a compreensão da história.

 

   O Camillo conheceu esse general francês e por ele foi convidado a montar uma agência de propaganda, apresentando ao general uma planilha de custos e a recomendação de que seria preciso ter clientes que faturassem um X por ano para empatar os custos e, a partir daí, tudo mais que entrasse seria lucro.

 

   Só pra se ter uma ideia, o Camillo havia caprichado nos custos, tanto assim que eu, que naquela altura ganhava 16 mil qualquer coisa (como sempre, não dá pra saber qual era a moeda brasileira da época), estava na relação com um salário de 50 mil e assim por diante. E o general havia aprovado o plano do Camillo, sem nenhuma restrição, acrescentando a informação de que ele tinha um relacionamento capaz de arranjar clientes e garantir com folgas as necessidades mínimas para a sobrevivência da agência.

 

   E aí o Camillo marcou uma reunião com o general para me apresentar como o diretor de criação da agência, no escritório que ele ocupava no prédio da avenida Ipiranga esquina da Cásper Líbero.

 

   O escritório do general ocupava um andar inteiro daquele prédio imenso, com cerca de 15 ou 20 salas, mas além dele só estava no escritório uma secretária. Havia uma agência de turismo ocupando uma ou mais salas, mas os folhetos estavam cobertos de poeira, o que era no mínimo estranho. E, o mais estranho de tudo, num tempo em que uma linha de telefone era mais rara em São Paulo do que petróleo, o general dispunha de umas 15 ou mais linhas ali, entregues às moscas, com um PABX militar da segunda guerra para ele poder atender todas elas em sua própria mesa. Enfim, naquele andar imenso, a aparência das salas não utilizadas transmitia um ar sombrio, de abandono, de mistério meio de submundo, de uma certa ilegalidade de atividades.

 

   Por falar em segunda guerra, havia na parede atrás da sua escrivaninha, em destaque, uma foto dele com o general De Gaulle, tirada durante a guerra da Argélia, que ainda estava em pleno curso. Era um contraste interessante, ele e o De Gaulle, que era um homenzarrão imenso, já que o nosso general era mais baixo do que o Camillo e mais ou menos da minha altura, aí pelo seu metro e setenta.

 

   Durante a conversa conosco, o general falou de seus outros empreendimentos, entre os quais uma gráfica que poderia competir em qualidade, aqui no Brasil, com a Thomas de La Rue, da França, que era quem imprimia o dinheiro brasileiro e de outros países na época, deixando no ar perguntas que nem eu nem o Camillo ousamos fazer.

 

   Ao sairmos do prédio, o general se despediu de nós e entrou numa limusine preta, dirigida por um chofer oriental e ficamos de ter um novo encontro para dar início ao nosso empreendimento.

 

   Enfim, era uma empreitada pra dizer o mínimo estranha, de eventuais riscos, e nem eu nem o Camillo tivemos coragem de encarar o desafio. Combinamos fazer um silêncio digno de uma omertà siciliana a respeito do general francês e seus projetos - e cumprimos. Só hoje, lendo sobre a morte do querido Camillo, quase cinquenta anos depois, é que eu vim a me lembrar desse episódio. Ave, Camillo! Mais cedo ou mais tarde a gente vai poder relembrar essa história aí nas alturas.

 

Fundo de Garantia:

o fim da estabilidade emocional

 

Por Juvenal Azevedo (*)

   Até 1966 não havia o nefando instrumento patronal chamado Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, vigorando o regime da estabilidade empregatícia.

   Em outras palavras: em vez de depositar, mês a mês, 8% do salário de seu funcionário, a empresa teria de indenizá-lo se decidisse mandá-lo embora.

   Teria de pagar um salário mensal por ano trabalhado, até dez anos de casa. A partir de dez anos o funcionário adquiria o direito à estabilidade no emprego, não podendo mais ser mandado embora. Quer dizer, poder mandar embora podia, mas só por um motivo grave e pagando no mínimo dois salários por ano de casa.

   Ou seja: antes de mandar algum funcionário embora, as empresas tinham de pensar muito, pois a despesa era alta, muito alta. Então, antes de demitir um funcionário como quem troca de cueca, a empresa tentava outras soluções, principalmente as transferências de seção (no caso de uma incompatibilidade entre o funcionário e seu chefe) e até de cidade, quando havia filiais.

   Resultado: raramente alguém era mandado embora, e quando isso acontecia era realmente por um motivo sério e não por mero capricho ou simplesmente para diminuir a despesa nos meses seguintes, tornando a preencher a vaga quando voltasse a época das vacas gordas.

   Outro resultado, e esse ainda mais importante, era que havia estabilidade emocional tanto para os empregados quanto para o empregador.

   Este sabia que poderia contar com sua equipe durante anos e anos, sem necessidade de efetuar trocas e ter de treinar outros funcionários para exercer as mesmas funções. E os trabalhadores sabiam que seu emprego estava garantido, sendo essa garantia tanto maior quanto mais numerosos fossem seus anos de casa.

   Essa convivência, durante anos e anos, aprofundava os laços de amizade tanto entre funcionários quanto destes em relação às chefias e patrões. Era muito raro alguém puxar o tapete de outro. E, se isso ocorresse, o puxador ficava mal visto perante os colegas, obrigando-o até a ter de procurar um novo emprego.

   Havia ética entre colegas. Havia ética entre trabalhadores e patrões. E, mais do que estabilidade empregatícia, havia estabilidade emocional, a certeza de que dali a um mês, dali a um ano e provavelmente dali a vários anos estariam todos juntos, fazendo o trabalho render mais e a empresa crescer, pois no final de cada ano havia ainda o bônus de Natal.

   Sim, caros leitores e leitoras, o 13º salário não era obrigatório e cada empresa, dependendo do resultado alcançado durante aquele ano, dava um abono de Natal que variava de meio salário a dois salários para cada funcionário.

   Claro que aqueles que “davam o sangue” pela empresa ganhavam mais do que outros, e claro que se a empresa tivesse tido um “ano bom”, a generosidade patronal era maior.

   Uma eventual demissão antes do advento do Fundo de Garantia era fato tão raro que, quando ocorria, criava um clima de constrangimento na empresa, um ar de velório, contrastando com os dias de hoje, quando uma demissão individual e mesmo de um grupo já não escandaliza nem choca mais ninguém.

   Enfim, o fato é que o FGTS, ou Fundo de Garantia, acabou com um dos bens mais preciosos que a sociedade já teve, que era a estabilidade emocional, a referência de cada um em relação ao universo e a seu futuro como cidadão, ficando todos nós à mercê do capitalismo selvagem. E cada vez mais selvagem.

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e assessor de imprensa (e-mail: adriejuva@uol.com.br)

PROCURA O INGMAR!

Por Juvenal Azevedo
 


  Em 1979 (caraca! já se passaram 31 anos!), eu dirigia a criação da Núcleo juntamente com minha dupla, o Luís Di Nallo e íamos para a Suécia acompanhar a filmagem de um comercial da margarina Mila.
(ilustração: anúncio Mila 1979)
  

    Vale um longo parêntese para explicar o porquê de produzirmos um comercial brasileiro na Suécia.
 

   Inicialmente, o briefing que recebemos da Sanbra era no sentido de fazermos uma campanha nas mesmas águas da campanha da concorrente margarina Becel, que dizia aquelas coisas sobre o coração etcétera e tal, quase chegando ao ponto do consumidor ter de pedir receita médica para consumi-la.
  

   Foi então que, trocando idéias com o Carlos Edo, diretor de planejamento e atendimento da agência, chegamos à conclusão de que, naquele estágio de mercado (31 anos atrás, não se esqueçam!) posicionar Mila quase como remédio seria dar a extrema-unção para o produto.


   Por sinal, Mila, que antes era atendida por outra agência, já estava na marca do pênalti, pois suas vendas estavam abaixo de 80 mil toneladas, ou mega-toneladas ou sei lá o quê e, se não passasse com a nova campanha para um patamar próximo a 150 toneladas etc. etc., seria descontinuada pela Sanbra.


   Bem. Um dia, quando eu saio com o Di Nallo para almoçar e lembro bem da comida pois era uma quarta-feira e fomos comer feijoada num restaurante ao lado do francês Freddy, enquanto mandávamos ver uma caipirinha como manda o figurino, tive um insight e disse: “Cara! Matei a campanha da Mila!”.


   Com aquele jeitão de gozador portenho, o Di Nallo olhou pra mim e perguntou como era a matada. E então eu expliquei: “Saca os vegetarianos e os naturistas, esse povo exótico que ninguém leva muito a sério, mas respeita os pontos de vista deles, essa coisa de vida saudável, natureba?”. “Pois é”, continuei, “nós vamos fazer a campanha numa colônia nudista, onde os caras só comem frutas, verduras, pão integral e, naturalmente, margarina Mila, pois Mila faz parte de uma vida saudável”.


    Os olhinhos do gringo brilharam e, terminado o rango, voltamos para a agência e contamos a idéia pro Carlos Edo, que imediatamente sacou o potencial da campanha e chamou um dos seus sócios, o Federico, que não era do ramo mas tinha bom senso, o Otto da Mídia, o Leonardo da Produção e o Vasco, o indefectível Luiz Gonzaga Vasconcellos, do Atendimento e contou a idéia. Só que, na transcrição, o Carlos incluiu um detalhe que só eu, quando criei a campanha, tinha imaginado diferente, e passou a informação de que os modelos seriam crianças (confesso que, na minha cabeça, os modelos seriam quase todos adultos), o que me levou a me “fechar em copas”, como se costuma dizer, sem que, no entanto, eu tenha encontrado alguém que saiba explicar a origem dessa misteriosa expressão.


   Essa mudança, de resto, nos ajudou a agradar gregos e troianos, como o próprio Federico Bom Senso e passaram todos a aplaudir a solução criativa.


   E assim foi feito. Escrevi os dois roteiros, um com crianças rolando na neve, para ser filmado fora do Brasil, obviamente, e outro com ambientação tropical, em meio à vegetação e clima bem brasileiros, que acabou sendo filmado no Guarujá.


   Em seguida o Carlos pediu para o Sérgio Mendes, da Sanbra, vir à agência e apresentamos os roteiros datilografados, em papel rascunho, do jeito que eu havia feito e o Sérgio, grande sacador, logo de cara aprovou a campanha. E nos deu uma dica para facilitar a aprovação: “Olha, é claro que o comercial pra ser filmado aqui vai custar menos, bem menos que o outro. Mas peçam pra produtora “carregar” no comercial do Brasil, de modo a que a diferença não seja espantosa e me facilite as coisas lá dentro na hora de obter a aprovação”. E se assim disse, assim fizemos.


   Orçamos os comerciais com três produtoras, como é costume, embora sabendo que deveríamos filmar com a Interteam, do Klaus e do Michel Saloutti. E aí foi a primeira surpresa: veio da Interteam de Hamburgo o outro Klaus, o Klaus Kroll, que trouxe fotografias do “cast”, todas de crianças suecas e nos explicou: “Este comercial só poderá ser feito na Suécia ou na Finlândia, onde as crianças estão acostumadas a fazer sauna e depois rolar na neve”. E continuou: “Se filmarmos em outro país, as crianças correm o risco de pegar pneumonia”. E nós, ingênuos, que havíamos imaginado poder filmar na Argentina ou no Chile...


   Dias antes de embarcarmos para a Suécia, esteve na agência o grande fotógrafo, diretor de fotografia de cinema e grande restaurater Ezio Vitale (ah, que saudade do seu restaurante Il Rugantino, na Rua Oscar Freire!), que, entre outras proezas, conseguira ser excomungado pelo Papa, creio que o Paulo VI, por ter publicado matéria num jornal romano, com fotos de uma donna  teúda e manteúda pelo Vaticano, a quem lhe compraram uma clínica, com a manchete: “La moglie del Papa se chiama Paschoalina” (eu vi o jornal, meninos, eu vi!).


   Aí, papo vai, papo vem, eu conto pro Ezio que estávamos indo pra Suécia e perguntei: Você, que trabalhou tantos anos na Cinecittà (a Hollywood da Itália), não tem nenhum amigo morando na Suécia pra gente procurar e pedir umas dicas de lá?


   O Ezio me olha e diz: “Mas, claro, procura o Ingmar e fala que você é meu amigo, tenho certeza que ele vai te tratar muito bem”. E eu digo, Ingmar? Ingmar do quê? Me dá o endereço dele”. E o Ezio, definitivo: Ingmar Bergman, claro! E lá todo mundo sabe onde ele mora!

   Corta.

   Claro que eu não tive coragem de procurar “o Ingmar”, mesmo acreditando que o Ezio já tivesse trabalhado com ele em filmagens na Cinecittà. Porque, aí, eu fiquei pensando: Mas que catzo eu vou falar com ele? Vou chegar e dizer: “Gosto muito dos seus filmes”? Qual o quê, não vai rolar papo.


   Corta novamente.

   Quatro ou cinco anos depois eu estava na Lintas, lendo a Folha ou o Jornal da Tarde, não me lembro mais qual deles, quando vejo, na capa da Ilustrada ou do Divirta-se, matéria de página inteira com o Ingmar Bergman, onde ele fala dos seus filmes e dos caras que trabalharam com ele: roteirista e diretor de fotografia, principalmente. E estava lá “o Ingmar” falando de um diretor de fotografia sueco, que trabalhou em vários dos seus filmes e também do Ezio Vitale, com quem ele havia trabalhado em alguns outros filmes. Pois é, se eu sempre tivera um pouco de dúvidas com relação à amizade dele com o Ezio, essas dúvidas acabaram ali. Ou seja: eu podia perfeitamente ter procurado “o Ingmar”...


   Encerrando o assunto Mila, a campanha foi pro ar e, menos de uma semana depois, o Sérgio Mendes pede pra Núcleo suspender a veiculação.

   Mila, que pra não ser tirada de linha precisava atingir o patamar de 150 mil toneladas ou mega-toneladas, sei lá, em menos de duas semanas na mídia atingira a marca de 450 mil-sei-lá-das-quantas, dando um nó na linha de produção da Sanbra.

   Em 1989, portanto dez anos depois, eu estava na Enio e vou almoçar com a Maria Inês, gerente de produto da Cica que havia recém-saído da Sanbra e, durante o papo no almoço, quando soube que eu havia trabalhado na Núcleo, me conta que na Sanbra tinham cogitado de veicular novamente os filmes da Mila, mas que eles  haviam desistido diante da dificuldade de localizar os modelos (àquela altura já não mais crianças) para obter autorização. E contou ainda que, na pesquisa encomendada pela empresa, a campanha da Mila, apesar de ter sido veiculada durante pouquíssimo tempo e de estar fora do ar há dez anos, ainda era a mais lembrada no segmento de margarinas. Um espanto!

   Portanto, cada coroa sueca que a Sanbra me patrocinou em caviar russo, aquavit dinamarquesa, vinhos franceses e filés de rena, lá na terra dos vikings, foi muito bem empregada, mesmo porque Mila ainda está por aí, com uma brand image  firme e forte.

Sobre Ternos Cor-de-Rosa

por Juvenal Azevedo

A força da Revolução Criativa no Brasil no começo dos anos sessenta foi tanta e seus efeitos tão duradouros que, no final da década e no começo dos anos setenta, seus efeitos ainda continuavam firmes e fortes.

     E isso acabou se manifestando também  nas roupas que os publicitários (especialmente o pessoal da criação) vestiam.

Washington Olivetto, que em recente entrevista ao editor do portal Jornalirismo, Guilherme Azevedo, falou que usava cabelos longos e camiseta regata em pleno governo Médici, já tinha pego a “revolução da roupa dos criativos” em pleno andamento, uma vez que, de uma hora para outra, como se fosse uma combinação orquestrada (e garanto que não foi), subitamente quase todos os redatores e diretores de arte (a exceção ficava por conta de caras como o Hans Dammann, criativo no trabalho mas um conservador em quase tudo mais) passaram a abolir o tradicional terno e gravata, substituindo-os por jeans ou calças de modelo mais esportivo e camisas igualmente esportivas, sendo o jacarezinho da Polo um campeão de audiência.

     Foi provavelmente uma influência trazida pelo Pasquim, que influenciou também a linguagem em nosso advertising, que já era também muito influenciada pelo Sérgio Porto, o admirável Stanislaw Ponte Preta.

     Nesse contexto de anticonformismo que se vivia naquele período negro dos anos de chumbo, usava-se também a vestimenta como forma, digamos, de protesto, e eu, como tantos outros criativos, cheguei até a mandar fazer um terno cor-de-rosa, que devo ter usado três ou quatro vezes no máximo: numa entrega de prêmios do Clio, idem do Prêmio Colunistas e na inauguração da nova fábrica da Dynapac, um cliente sueco cujo diretor comercial, apesar de ser também da terra dos vikings, era bastante conservador e minha intenção foi chocá-lo, porque ele havia cometido a ousadia de me pedir para ir à cerimônia de inauguração de terno. E eu, com minha cara mais inocente e o cabelo com o comprimento na altura dos ombros, lhe disse que iria mandar fazer um terno especialmente para aquela ocasião. O que fez o sueco erguer as sobrancelhas, certamente temendo pelo que viria.

     E não deu outra: na presença do ministro dos Transportes e de outras autoridades, entre as quais o comandante do II Exército, que era sediado em São Paulo, naquele mar de ternos azuis e cinza-chumbo, o meu terno cor-de-rosa se destacava, brilhava, berrava, levando o ministro dos Transportes, cujo nome creio que nunca fiquei sabendo, a não conseguir deixar de me fitar durante praticamente todo o seu discurso. O homem dizia duas ou três palavras, circunavegava o olhar pelo salão mas logo voltava a me fitar. Era um ponto de atração irresistível...

     Bem, mas o uso da vestimenta como um ajudante demolidor de costumes caretas tinha evidentemente uma contrapartida no campo político, onde nos comportávamos de maneira politicamente correta, abraçando as causas da anistia e a participação em episódios negros da nossa história, como foi o caso da tortura e assassinato do Vladimir Herzog pelas forças repressivas da ditadura, que teve o anúncio da missa ecumênica na Catedral da Sé feito em nome do Clube de Criação de São Paulo com o nome de outras entidades apoiadoras, como a Congregação Israelita, a OAB, o Sindicato dos Jornalistas etc. etc.

     Foi ainda o Clube de Criação a primeira entidade a apoiar a anistia aos exilados políticos e depois a condenar os atentados a bancas de jornais que vendiam publicações de oposição ao governo e ao episódio das bombas do Riocentro, em anúncios que, se não tinham excepcional brilho criativo, tinham uma mensagem clara de defesa dos ideais democráticos.

     Bem, nossos cabelos longos, nossas roupas extravagantes, tinham não apenas a intenção de chocar, como se dizia, “pour épater les bourgeois”, mas eram o complemento de uma rebeldia que usava os recursos que nos eram permitidos para podermos participar politicamente numa época de forte e armada repressão policial.                                            (fotos editora abril: quatro décadas depois, Brad Pitt Chega a Cannes, imitando o Juvenal...kkkk...)

     Aos anos de chumbo contrapúnhamos o amor, o sorriso e a flor. Principalmente o sorriso.

 

Este Rio que Eu Amo

Por Juvenal Azevedo

 

   Minhas ligações com o Rio de Janeiro são profundas e passam pelo túnel do tempo.

   Na primeira vez eu tinha onze anos, quando, com meu irmão Arnaldo e seu amigo Walter Junghans, fomos de carro – um Ford Vedette.

   Lá, eu acompanhava meu irmão em suas andanças de trabalho no centro velho da cidade, pelas ruas 7 de Setembro, Ouvidor, Gonçalves Dias, Uruguaiana, Rio Branco, Presidente Vargas e outras onde se encontravam  joalheiros e garimpeiros.

   Depois, nos dias subsequentes, meu irmão, veteraníssimo na cidade e com quinze anos mais do que eu, me levou ao “circuito turístico” do Rio, o que incluiu uma ida inesquecível ao Pão de Açúcar, com aquela viagem no “bondinho” de dar um nó no estômago de um garoto paulistano, com a tradicional e até hoje necessária baldeação no morro da Urca.

   Era um daqueles dias deslumbrantes como só o Rio tem em novembro, com o céu límpido, sem uma única nuvem e um calor razoavelmente moderado. E, lá do alto, olhando para baixo, tive uma das maiores emoções da minha vida ao contemplar o contraste entre a cor vermelha da Praia Vermelha, ao lado do azul do mar e do verde da mata, que formavam um conjunto pictórico que Matisse, Monet ou Renoir nenhum poderiam ter retratado com tanta beleza.

   A ida ao Cristo Redentor, no velho trenzinho do Corcovado, foi também um espetáculo inesquecível, com a subida pelas escadarias intermináveis, a visão da cidade como um todo e uma paisagem igualmente maravilhosa.

   Ficamos hospedados num hotel da Avenida Gomes Freire, no centro, a poucos metros de um incrível boteco-restaurante que, muitos anos depois, foi badalado pela turma do Pasquim e espero que não tenha se perdido por isso. Era (ou é, não sei se ainda existe) “A Paulistinha”, de um dos amigos de meu irmão, o português-paulistano Marques, que fazia o melhor camarão à paulista que já comi e certamente poderei vir a comer na vida.

   O lanche na Colombo, na Rua Gonçalves Dias, era um assombro, como dizia uma marchinha de carnaval daqueles anos dourados, graças ao deslumbramento provocado pelos enormes espelhos de cristal tcheco, as madeiras de lei, o minúsculo elevador de porta pantográfica, onde mal cabiam duas pessoas além do ascensorista e, principalmente, pelos magníficos camarões empanados e as incríveis coxas-creme, devidamente acompanhados de guaraná Brahma, já que o similar da Antarctica quase não existia no Rio.

   Anos mais tarde, já com 17 anos, tirei minhas primeiras férias no trabalho, na Standard Propaganda, e fui para o Rio, onde o Arnaldo havia voltado a morar, desta vez na Rua N. S. das Graças, 376, em Ramos, quando frequentávamos bastante a Spaghetilândia, na Cinelândia, que, não obstante não saber fazer pizzas decentes (como, de resto, todos os outros restaurantes cariocas da época), fazia massas bastante próximas das massas paulistanas, como o canelone e a lasanha. Além, é claro, de idas ao “A Paulistinha”, do Marques. E passávamos o dia juntos enquanto ele negociava diamantes ou brilhantes, em envelopinhos improvisados, às vezes em plena rua, na calçada, sem que em momento algum nos passasse pela cabeça a possibilidade de um furto – e muito menos de um assalto à mão armada.

   Eram outros tempos, sem dúvida, tempos do carioca bem humorado, contador (e lançador) de piadas que rapidamente adquiriam dimensão nacional, em uma época em que era difícil conseguir fazer uma ligação telefônica entre as cidades, em que a televisão era um veículo local (não havia redes) que estava começando a ter alguma importância mas estava longe de ser um veículo de massa e em que os mais malucos sonhos do futuro não incluíam nem remotamente algo parecido com a internet. A propagação nacional das piadas, basicamente pelo boca a boca, já que nem todas, por motivos óbvios, podiam ser divulgadas pelo grande veículo da época - o rádio - é um mistério para mim, até hoje.

   Era o Rio, em que, ao contrário da São Paulo da época,  sentava-se à mesa para tomar um cafezinho e um copo d’água e jogar conversa fora sem nenhuma pressa. Progredimos? Regredimos?

   Voltei muitas e muitas vezes a este Rio que eu amo, quase sempre ficando no Hotel Apa, na República do Peru com a N. S. de Copacabana, até que, no final dos anos sessenta, topei dirigir a criação da Alcântara Machado no Rio, período glorioso de minha vida profissional, coroado pela conquista do primeiro lugar no Prêmio Jornal do Brasil para a melhor campanha de âmbito nacional, criada para o lançamento da Xerox no Brasil por mim, pelo Hans Haudenschild e com uma boa mão do Renato Carrascosa, quando morei na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, o que até hoje me rende piadas por parte de amigos como o Federico Spitale, o Zé Fontoura e outros mais que já embarcaram para o andar de cima, como o Joca, o Sergino e o Fritz Lessin.

   Anos depois eu estava na Lintas, em São Paulo, que desativou a sua criação no Rio e, novamente, na base da ponte aérea, passei a criar para os clientes da filial carioca, entre os quais a Bacardi, do meu inesquecível amigo Oscar Rodrigues, um cubano que amava os Beatles, os Rolling Stones e o seu próprio rum, a bebida por ele considerada como bastante superior a qualquer whisky, no que aliás ele tinha boas razões para isso.

   Foi no Rio, também, que reencontrei uma das mulheres que mais amei na vida, já em 2003, cerca de trinta anos depois do nosso primeiro e tumultuado rompimento, e que me ensinou muitas coisas pelas quais lhe sou e serei eternamente grato. Ave, Coiote! Só não ponho seu nome neste texto porque não sei como está sua vida romântica, sentimental e matrimonial hoje.

   E agora, desde o início deste 2009 tão cheio de alternativas, minha filha Adriana está morando no Rio, no circuito Lapa-Santa Teresa, que é tão a cara dela. E pretendo passar os feriados de Natal e Ano Novo com ela e meu filho Alexandre, além da minha querida cachorrinha Merengue, que é, disparado, o cão mais esperto que já tive até hoje – e olha que eu já tive muitos cães!

   O Rio é o cenário perfeito para uma declaração de amor não só pela cidade maravilhosa que ela continua sendo, como também pelos meus filhos Guilherme, Adriana e Alexandre e pela mulher que vem trocando figurinhas comigo nos últimos dois anos e meio, a sonhadora-realista Suely Bandeira, que tem me dado amor incondicional, o que certamente é mais do que eu mereço.

A diferença entre óptica e ótica vai muito além do p

 

Por Juvenal Azevedo (*)

 

   Este é um artigo escrito por um leigo em medicina e que pretende apenas transmitir as perplexidades sobre um campo e outro.

  

   De 30 ou 40 anos para cá, a óptica ou oftalmologia, teve inúmeros e perceptíveis avanços, entre eles o transplante de córneas, a cirurgia a laser para corrigir miopia, a cirurgia a laser para a erradicação da catarata e até mesmo a cirurgia a laser para correção da hipermetropia.

 

   Já a ótica ou otorrinolaringologia, aos nossos olhos de leigos permanece no mesmo patamar de trinta, quarenta, cinquenta anos atrás ou mais.

 

   Amigos meus, já fazendo parte do chamado grupo da melhor idade, eufemismo adotado e disseminado certamente por alguém dotado de humor negro, se queixam de que vão a um otorrino e o máximo que obtêm é a recomendação do uso de um aparelho para suprir as suas perdas de audição. O mesmo acontecendo também com diversos jovens na faixa dos 20 ou 30 anos de idade, portadores de alguma disfunção auricular.

 

   Ora, se uma especialidade da medicina, como é a oftalmologia, reuniu tantos e tão notáveis avanços, por que a ótica ou otorrinolaringologia parou no tempo? Por que não se realizam cirurgias destinadas a dar aos pacientes uma melhor acuidade auditiva? Que fatores fizeram essa especialidade parar no tempo?

 

   E notem que circunscrevi essa perplexidade a dois campos de atuação próximos, sem entrar na seara mais complexa dos transplantes de fígado, coração, rim e outros.

 

   Estou levantando este assunto, na expectativa de que algum otorrino não só nos esclareça como também, principalmente, nos mostre que há uma luz no fim do túnel e que todos os portadores de deficiências auditivas possam ter esperança de obter melhoras significativas imediatamente ou a curto prazo.

 

   - Hã? Como disse, doutor?

 

(*) Juvenal Azevedo é jornalista e publicitário (e-mail: adriejuva@uol.com.br)

O desmatamento da Amazônia e a democratização do sexo

* Juvenal Azevedo

Em um só ano o Brasil perdeu 26.130 km2 de floresta amazônica, uma área superior ao Estado de Sergipe (21.863 km2) e quase do tamanho do Estado de Alagoas (29.107 km2), conforme divulgou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE.

Na prática, 1,3 bilhão de árvores foram derrubadas e 46,5 milhões de aves e 1,5 milhão de primatas foram afetados, segundo uma estimativa feita por pesquisadores brasileiros e publicada na revista do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). Com essa avaliação, os cientistas autores do estudo mostram que, por trás dos anúncios oficiais de índices e planos contra a ação dos desmatadores, existe um impacto na biodiversidade e na disponibilidade de recursos naturais difícil de ser recuperado.

Calcula-se que perdemos, no curto tempo de um ano, de 1,17 bilhão a 1,43 bilhão de árvores, que foram cortadas e queimadas e, se colocadas lado a lado, dariam mais de três voltas ao redor da Terra. O mesmo cálculo internacionalmente aceito dá como certo que o desmatamento afetou a vida de 43 a 50 milhões de aves e de 914 mil a 2,1 milhões de primatas.

A solução é aparentemente simples, mas difícil de ser posta em prática: desmatamento zero e aproveitamento sustentável do território, conforme proposta apresentada pelo Museu Goeldi há alguns anos, mas para que essa proposta seja viabilizada seria necessário um grande pacto entre governos da região amazônica, o governo federal e o setor produtivo. Não é preciso derrubar mais árvores. O aproveitamento de solos degradados pelo desmatamento já integra projetos na região amazônica, entre eles o da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Incra – Instituto Brasileiro de Colonização e Reforma Agrária.

O que falta é "vontade política", como se costuma dizer no jargão partidário. A mesma "vontade política" que faça o governo autorizar a produção de um genérico a preço baixo para os Viagras, Levitras e Cialis, democratizando as relações sexuais e colocando-as ao alcance dos portadores de disfunção erétil de baixa renda.

A preservação da Amazônia, assim como do Pantanal e da Mata Atlântica, é vital para a saúde do planeta que iremos deixar para as futuras gerações, assim como dar condições de todos podermos exercer uma vida sexual plena e gratificante é igualmente importante para a sociedade como um todo. "Sexo para todos" é uma bandeira, a nosso ver, tão importante quanto uma postura ecológica correta.

* Juvenal Azevedo é jornalista e assessor de imprensa (adriejuva@uol.com.br)

 

Juvenal Azevedo – jornalista e publicitário,

fundador e diretor da JAC Comunicação

 A propaganda interativa já andou até de bonde

     Cerca de dez anos depois de sua introdução e no momento em que a internet se tornou um veículo ou mídia de peso, ainda há uma divisão entre agências, anunciantes e os próprios profissionais de criação sobre como criar comerciais para a internet e se é necessário haver uma “especialização” em mídia on-line.

     Essa discussão a respeito, que mereceu destaque no último Seminário Jornalirismo ou mesmo a simples enunciação do “problema”, faz lembrar os anos sessenta e a criação de comerciais para televisão, antes ainda do advento do VT.

     Até o início daquela década, a criação de comerciais para TV, em geral, não era feita nas agências.

     A “mecânica” da coisa era mais ou menos assim: o departamento de Rádio e TV chamava uma ou mais produtoras de filmes (áureos tempos da Lynxfilm, Jota Filmes e Magisom, entre outras), mostrava os layouts e textos dos anúncios e pedia uma sugestão de comercial já acompanhada do respectivo orçamento de produção.

     Depois de receber as sugestões e os orçamentos, fazia-se a escolha do melhor roteiro, levando-se em conta também o custo de produzir uma ou outra das idéias apresentadas.

     Tratava-se da busca do “especialista” e esse procedimento era usual em praticamente todas as agências, com as inevitáveis exceções de praxe naquelas que tinham, em sua equipe, “especialistas” em tv/cinema, nomes como Boni, Laerte Agnelli, Sérgio Toni, Bruno Pardini e poucos outros.

     A criação para TV começou somente a ser feita “em série”, por redatores e diretores de arte, através da revolução criativa que Alex Periscinoto fez na Alcântara Machado já em meados dos anos sessenta, por meio de reuniões e mais reuniões de trabalho com a exibição dos rolos de filmes da DDB e dos “100 melhores da Advertising Age”, selecionados pelo McMahan. No começo, criávamos “anúncios falados” para TV, mas em pouco tempo fomos “pegando a mão” e aprendemos a criar comerciais respeitados e premiados nos principais festivais do mundo todo, como Cannes (antes da farra do boi em que se converteu com trocentos prêmios e categorias), Clio, New York, Fiap, etc.

 

A história se repete

 

     Hoje, com a criação de comerciais on-line, quando a internet se transformou talvez na mídia mais importante, ainda acontece a procura pelo “especialista”, como se a criação de peças para a internet seja diferente da criação para off-line. Em outras palavras: o consumidor que a propaganda on-line pretende atingir é o mesmo das peças off-line e os apelos emocionais, os approachs, os pontos-de-venda e os diferenciais do produto, para ficarmos só nisso, são rigorosamente os mesmos.

      Criar para internet exige o uso inteligente e criativo da característica que é mais marcante na propaganda on-line – a interatividade, mas que dela não é exclusiva.

      É só lembrarmos que, em todas as épocas, os criadores de propaganda off-line buscaram interatividade com seus leitores ou telespectadores, como no caso do clássico anúncio da DDB para as tinturas de cabelo Clairol, nos anos sessenta, que mostrava a foto de um homem com metade do cabelo tingido e a outra metade com cabelos brancos, convidando o leitor a colocar sua mão em cada metade da foto, alternadamente, e depois dizer qual das metades rejuvenescia e tornava mais charmoso o modelo.

     Nos anos setenta, a nossa brasileiríssima DPZ também veiculou um anúncio sobre o Dia da Árvore, comentando já naquele tempo a devastação das nossas matas, que igualmente estabelecia uma interatividade com o leitor, convidando-o a imaginar o que faltava de árvores no espaço em branco dominante no visual da peça publicitária.

    Indo mais pra trás ainda, basta que a gente se lembre de um igualmente clássico da propaganda brasileira, criado pelo poeta Bastos Tigre, que utilizava total interatividade com os passageiros dos remotos bondes paulistanos, antes ainda dos anos 20 do século passado, que dizia: “Veja ilustre passageiro/o belo tipo faceiro/que o senhor tem a seu lado/Mas no entanto, acredite/quase morreu de bronquite/Salvou-o o Rhum Creosotado”. É ou não é interatividade pura?

      Por isso, tudo que se exige de bons anúncios para a mídia impressa, ou para comerciais de rádio e de televisão, ou seja, a busca do inusitado, do marcante e do exclusivo, permeados com inteligência e bom gosto -, permanece tanto na propaganda off-line quanto na on-line, já que o “homo consumeris” é o mesmo.

     Acontece apenas que, na propaganda on-line, a busca da interatividade em primeiro lugar é mais fácil, já que faz parte das características do meio. Claro que as dificuldades para se criar peças interativas ainda é grande, de vez que os profissionais envolvidos nessa atividade tiveram formação gutemberguiana e televisiva, mas é somente uma questão de tempo para regularem seus relógios biológicos para a criação de peças que façam o internauta responder às chamadas e convites que levem à sua participação nas mensagens publicitárias, como já ocorre em alguns filmes e vídeos que são essencialmente interativos. É só uma questão de tempo.

 página do Juvenal: www.jaccomunicacao.blogspot.com

 

 

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