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(Foto O Inseto e a Flor, Isabel Fomm)

 

 

Já faz anos que sei que represento um pedaço da Nossa Senhora da Boa Morte.

Não apenas os bichinhos vêm morrer perto de mim, mas, às vezes, até as pessoas.

 

Eutanásia
Por Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano
 

(Foto Iris de 1 dia e Abelha, 2022, Isabel Fomm)

 
 

Meu amor querido,
 

São realmente incríveis as formas pelas quais se manifesta a vida. Esta manhã encontrei no parapeito da nossa janela, aqui no 20º andar, um inseto diferente: couraça de besouro, mas muito menor que um deles, várias perninhas finas, duas anteninhas, uma belezinha rústica, enfim. Estava morrendo. Sempre fico me perguntando como as joaninhas e esses pequenos bichos conseguem chegar aqui em cima para virem morrer perto de mim. Lagartixas podem subir pelos poços do elevador ou da lixeira. Borboletas e mariposas têm asas, mas mesmo assim... é uma longa jornada do jardim até aqui em cima!

Já faz anos que sei que represento um pedaço da Nossa Senhora da Boa Morte.

Não apenas os bichinhos vêm morrer perto de mim, mas, às vezes, até as pessoas. Como o Rei do Cordel, lá em Salvador, você se lembra? Ou a minha entrevistada que, no dia seguinte ao programa, embarcou naquele vôo da TAM cuja aeronave se espatifou numa rua do Jabaquara ou até mesmo a Luciene que me convenceu a escrever a vida dela e morreu, com apenas 36 anos, alguns dias depois de terminarmos o livro.

 

Claro que não conto isso para ninguém. As pessoas ficariam com medo de chegar perto de mim e morrer. De fato, o que acontece é o contrário: quem vai morrer, às vezes, se aproxima de mim pouco antes. Algo em mim facilita a passagem, deve ser. Coloquei essa atribuição em um dos meus personagens de romance: Maria Júlia, a matriarca de O Espelho – ou a História Quase Invisível – também é assim.

Geralmente eu embrulho os bichinhos que vêm morrer ao meu lado. Uma mortalha de guardanapo de papel, quando acontecia na Grama Um do meu clube Castelo. Um papel bonito e decorado qualquer, quando estou aqui.

Hoje coloquei o bichinho moribundo junto com uma florzinha das flores em bouquet da sua Flor de Cera, os dois num guardanapinho de papel. A flor combinava com ele. Deixei a flor e o bicho na bancada da nossa cozinha, esperando que cessassem os movimentos dele. Reconheço um agonizante. Fui fazer a cama, lavar o rosto, afinal eu acabara de acordar e queria preparar o meu café para, depois, ir caminhar – sempre acompanhada pela minha sensacional câmera Canon Rebel SL3 – no jardim e, mais tarde, subir pra tomar meu banho e começar o dia.

Eu acordara triste. De luto, sentindo como sempre a sua ausência. Tenho acordado triste desde que, uma semana antes do Natal, os médicos, o Dr. Nabil Ghorayeb e a ciência resolveram contrariar o meu machucado coração que simplesmente, sem você, decidira parar de bater. O marcapasso impediu a morte que o meu coração desejava e a obrigação de continuar vivendo foi endossada pelo imenso apoio de tantos amigos.

Levei uns 40 minutos para arrumar tudo na casa, me vestir para o jardim, fazer o café. Aí fui olhar o bichinho. Continuava se mexendo, mas não conseguia se mover para sair do lugar. Que horror – pensei – está morrendo há muito tempo. Resolvi acabar com o sofrimento dele, que muito me incomodava. Dobrei delicadamente o papel, envolvendo o bichinho e a florzinha e, de supetão, apertei o conteúdo sob o meu polegar e o indicador, fazendo deles apenas uma mancha molhada no papel: o bichinho e a flor unidos na Morte e sem mais sofrimento. Joguei a mortalha no lixo não reciclável.

Se, um dia, algum de nós – leitores e eu, autora – estivermos em situação semelhante a esse bichinho, cuja vida já terminara, mas teimava em se manter, que alguém tenha piedade de nós.

 

2022 01 03